sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / VI — O homem bravio no seu covil

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     VI — O homem bravio no seu covil

             As cidades, do mesmo modo que as florestas, têm os seus antros, nos quais se oculta tudo o que têm de pior e mais temível A diferença é que nas cidades, o que assim se esconde é feroz, imundo e pequeno, isto é, feio; nas florestas, o que se oculta é feroz, selvagem e grande, quer dizer, belo. Tocas por tocas, as dos animais são preferíveis às dos homens. As cavernas têm muito mais valor do que as pocilgas.
     O que Mário via era uma pocilga.
     Mário era pobre, e o seu quarto indigente; mas pelo mesmo modo que a sua pobreza era nobre, o seu cubículo era asseado. A esterqueira em que naquele momento mergulhava a vista era abjecta, porca, fé da, infecta, tenebrosa, sórdida. Por únicos móveis uma cadeira de palhinha, uma mesa desconjuntada, alguns cacos, e em dois cantos duas camas indescritíveis; claridade só tinha a que recebia por uma janelinha de quatro vidros, toda guarnecida de teias de aranha Por esta fresta entrava exatamente a luz precisa para que o rosto de um homem parecesse o de um fantasma. As paredes apresentavam um aspecto leproso e estavam cobertas de costuras e de cicatrizes, como um rosto desfigurado por alguma horrível doença e ressumando certa humidade ramelosa. Distinguiam-se nelas alguns desenhos obscenos, feitos grosseiramente com carvão.
     O quarto que Mário ocupava tinha o pavimento de ladrilho e em muito mau estado; aquele nem era ladrilho nem assoalhado; o solo era formado pelo antigo entulho do pardieiro, enegrecido pelos pés que o pisavam Sobre este solo desigual onde a poeira estava como que encrostada, e que não tinha senão uma virgindade, a da vassoura, agrupavam-se caprichosamente constelações de loiça quebrada, de chinelos e de farrapos; e afinal aquele quarto tinha chaminé, o que lhe elevava a renda a quarenta francos anuais Nesta chaminé havia de tudo: um fogareiro, uma panela, trapos pendurados em pregos, uma gaiola de pássaro, cinza, e mesmo algum lume. Estavam ali dois tições, fumegando tristemente.
     Uma coisa que aumentava ainda o horror da pocilga, era o ser grande. Tinha saliências, ângulos, buracos escuros, baías e promontórios. Resultava de tudo isto a existência de cantos insondáveis onde parecia que deviam abrigar-se aranhas volumosas como punhos, bichos de conta do tamanho de um pé, e quem sabe mesmo se monstruosos entes humanos.
     Uma das camas estava ao pé da porta, a outra ao pé da janela. Tocavam ambas por uma extremidade na chaminé, e ficavam fronteiras a Mário. Num ângulo próximo à abertura por onde Mário estava espreitando, via-se pendurada na parede, numa moldura negra, uma gravura colorida, por baixo da qual se lia em grandes letras: O SONHO. Esta gravura representava uma mulher e uma criança adormecidas, uma águia no meio de uma nuvem, com uma coroa no bico, e a mulher mesmo a dormir, afastando a coroa da cabeça da criança; no fundo via-se Napoleão, encostado a uma coluna azul com capitel amarelo, ornada com esta inscrição:
MARINGO 
AUSTERLITZ 
VIENA 
WAGRAMME 
ELOT
     Por baixo deste quadro, via-se, encostado à parede uma espécie de caixilho mais comprido, de algum tosco painel, de uma almofada arrancada a alguma parede e ali esquecida à espera que a tornassem a pregar.
     Junto a mesa, sobre a qual Mário via uma pena, papel e tinta, estava sentado um homem de sessenta anos, pouco mais ou menos, baixo, magro, lívido, de olhar espantado e ar de finura, mas indicativo também de crueldade e receio; um velhaco hediondo.
     Se Lavater houvesse observado aquele rosto, nele encontraria o abutre misturado com o procurador; a ave de rapina e o homem de chicana afeando-se e completando-se um pelo outro; o homem de chicana tornando a ave de rapina ignóbil; a ave de rapina tornando o homem de chicana horrível.
     Este homem tinha umas compridas barbas grisalhas e vestia uma camisa de mulher, que lhe deixava a descoberto o peito cabeludo e os braços eriçados de pelos grisalhos. Por baixo da camisa via-se umas calças cheias de lama, que terminavam numas botas, pelas quais lhe saíam os dedos dos pés.
     Estava a fumar num cachimbo que lhe pendia da boca. Não havia pão naquela mansarda, mas ainda havia tabaco.
     Ocupava-se em escrever, provavelmente alguma carta como as que Mário lera.
     A um canto da mesa via-se um livro velho de cor avermelhada, cujo formato revelava um volume truncado de algum romance Lia-se na capa este pomposo título. Deus, o Rei, a Honra e as Damas, por Ducray-Dummu 1814.
     O homem, ao mesmo tempo que escrevia, falava em voz alta e Mário percebia-lhe estas palavras: 

— Ora esta! Nem sequer, depois da morte, haverá igualdade! Senão olhem para o que vai no Père-Lachaise. Os grandes, os ricos, estão em cima na rua, que é orlada de acácias e bem asseada. Podem ir até lá de carruagem. Os pequenos, os pobres, os infelizes, essa gente para aí, esses atiram com eles para um canto, onde a lama dá pelo joelho, para covas cheias de água! Atiram-nos para ali para eles se desfazerem mais depressa Ninguém lá pode ir vê-los sem se enterrar naquele lamaçal!

     Chegado a este ponto, calou-se, bateu com o punho fechado na mesa e exclamou, rangendo os dentes: 

— Oh, dá-me vontade de comer o mundo!

     Junto do fogão estava acocorada uma mulher gorda, que aparentava ter quarenta ou cem anos.
     Não tinha também por vestuário senão numa camisa e uma saia de malha, remendada com bocados de pano velho.
     Um avental muito grosseiro tapava metade da saia. Conquanto esta mulher es vesse dobrada e como amontoada sobre si mesma, via-se que era de elevada estatura. Era uma espécie de gigante ao pé de seu marido. Tinha os cabelos de um ruivo repugnante, já grisalhos, e que ela de vez em quando afastava da cara, com as suas enormes mãos de unhas chatas.
     Tinha junto de si, pousado no chão, um volume aberto, do mesmo formato que o outro, e talvez do mesmo romance.
     Sentada sobre uma das camas, entrevia Mário uma espécie de rapariga esguia e lívida, quase nua e com os pés pendentes, não tendo ar nem de quem escuta nem de quem vê nem de quem vive.
     Era de certo a irmã mais nova da que tinha ido ao quarto dele entregar-lhe a carta.
     Parecia à primeira vista ter onze ou doze anos. Ao examiná-la, porém, com atenção, conhecia-se que tinha catorze ou mais. Era a que na tarde do dia antecedente, ao escurecer, ia a dizer para a irmã, quando o rapaz as encontrou: «Por aqui me sirvo
     Pertencia à enfezada espécie que está muito tempo paralisada e depois cresce rápida e repentinamente. É a indigência a origem destas tristes plantas humanas. São criaturas que nem têm infância nem adolescência. Aos quinze anos parecem ter doze, aos dezesseis parece que têm vinte. Hoje raparigas, amanhã mulheres. Dir-se-ia que atravessam a vida de um salto, para mais depressa acabar.
     Naquela ocasião, aquele ente tinha ar de criança.
     Em toda a mansarda, nem sinais se viam que acusassem a presença de algum trabalho nem um utensílio nem um só objeto de ferramenta. Apenas, a um canto, alguns ferros velhos de duvidoso aspecto. Respirava tudo essa tristonha presença que se segue ao desespero e precede a agonia.
     Mário deteve-se a contemplar por algum tempo aquela mansão fúnebre, mais medonha que a mansão do túmulo, porque naquela se sentia a agitação da alma humana e o palpitar da vida.
     O sótão, a água-furtada, a espelunca, esses lugares por onde se rojam certos indigentes no mais fundo do edifício social, não são precisamente o sepulcro, são a sua antecâmara; à semelhança, porém, dos opulentos que ostentam as maiores magnificências à entrada dos seus palácios, parece que a morte, que está mesmo ao pé, coloca as suas maiores misérias neste vestíbulo.
     O homem calara-se, a mulher não falava, a jovem parecia que nem respirava. No meio deste profundo silêncio, apenas se ouvia o ranger da pena sobre o papel.
     Passado algum tempo, porém, o homem resmungou, sem parar de escrever: 

— Corja, corja É tudo uma corja!

     Esta variante do epifonema de Salomão arrancou um suspiro à mulher. 

— Sossega, amiguinho — disse ela. — Não te agonies, filho. Em escrever a toda essa gente mostras tu a tua bondade!

     Na miséria apertam-se os corpos uns contra os outros, como se os tomara o frio, mas afastam-se os corações. Segundo todas as aparências, aquela mulher amara decerto aquele homem com todo o amor de que era susceptível, mas esse amor extinguira-se, talvez por causa das quotidianas e recíprocas recriminações, motivadas pela horrível penúria de que toda aquela família era vítima. Já não existiam, nela mais do que cinzas de afeição.
     Contudo, sobreviveram à perda do amor os tratamentos carinhosos, como tantas vezes acontece. Ela dizia: «Filho, meu rico homem, amiguinho», mais só com a boca e sem que o coração nisto tomasse parte.
     O homem que um instante se interrompera continuava de novo a tarefa em que estava ocupado.

continua na página 560...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - VI — O homem bravio no seu covil
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

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