David Hume
Livro 1
Do Entendimento
Parte 3
Do conhecimento e da probabilidade
Seção IV
Das partes componentes de nossos raciocínios acerca da causa e do efeito
Embora a mente, em seus raciocínios partindo de causas ou efeitos, dirija sua atenção para além dos objetos que vê ou recorda, ela
nunca deve perdê-los inteiramente de vista, nem raciocinar apenas com
base em suas próprias ideias, sem combiná-las com impressões, ou
ao menos com ideias da memória, que equivalem a impressões. Quando inferimos efeitos de causas, devemos estabelecer a existência dessas causas. E só temos dois meios de fazê-lo: por uma percepção imediata de nossa memória ou nossos sentidos, ou por uma inferência a
partir de outras causas. Estas últimas, por sua vez, devem ser deter
minadas da mesma maneira, ou seja, por uma impressão presente
ou por uma inferência baseada em suas causas; e assim por diante,
até chegarmos a um objeto que vemos ou recordamos. E impossível
prosseguir com nossas inferências ao infinito; e a única coisa capaz
de as deter é uma impressão da memória ou dos sentidos, além da
qual não cabem dúvidas nem perquirições.
Para ilustrar esse tema, podemos escolher um ponto qualquer
da história, e examinar por que razão acreditamos nele ou o rejeitamos. Assim, por exemplo, acreditamos que César foi morto no Se
nado nos idos de março, porque esse fato foi estabelecido com base
no testemunho unânime dos historiadores, que concordam em atribuir esse momento e lugar precisos a tal acontecimento. Temos aqui
certos caracteres e letras que estão presentes em nossa memória ou
a nossos sentidos, e também nos lembramos de que esses caracteres
foram usados como signos de certas ideias. Ora, essas ideias ou estavam nas mentes dos que se encontravam imediatamente presentes àquela ação, recebendo tais ideias diretamente da existência de
tal ação; ou foram derivadas do testemunho de outras pessoas, e este
novamente de outro testemunho, mediante um visível processo
gradativo, até chegarmos às testemunhas oculares e espectadores do acontecimento. É óbvio que toda essa cadeia de argumentos, ou conexão de causas e efeitos, está fundada primeiramente nesses caracteres
ou letras que são vistos ou recordados, e que, sem a autoridade, seja
da memória seja dos sentidos, todo o nosso raciocínio seria quimérico
e infundado. Nesse caso, cada elo da cadeia estaria preso a outro, mas
não haveria nada afixado a um dos extremos, capaz de sustentar o todo;
consequentemente, não haveria nem crença nem evidência. É isso o
que de fato se passa com todos os argumentos hipotéticos, ou seja, raciocínios baseados em uma suposição; pois neles não há nenhuma
impressão presente, nem tampouco crença em uma existência real.
E desnecessário observar que não se trata de uma objeção legítima à presente doutrina dizer que podemos raciocinar com base em
nossas conclusões ou princípios passados, sem ter de recorrer às impressões de que estes derivaram em primeiro lugar. Pois, mesmo
supondo que essas impressões se apaguem inteiramente de nossa
memória, a convicção por elas produzida pode ainda permanecer.
Por isso, é igualmente verdadeiro que todo raciocínio acerca de causas e efeitos deriva originalmente de alguma impressão, do mesmo
modo que a certeza de uma demonstração procede sempre de uma
comparação de ideias, embora possa permanecer mesmo depois de esquecida essa comparação.
continua na página 108...
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Prefácio / Introdução /
Livro 1: Do Entendimento Parte 1
Livro 1: Do Entendimento Parte 2
Livro 1: Do Entendimento Parte 3
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4ª edição
Tradução de Serafim da Silva Fontes
Prefácio e Revisão Técnica da Tradução de João Paulo Monteiro
Tradução do texto inglês intitulado
A TREATISE OF HUMAN NATURE, de David Hume,
segundo a edição da Oxford University Press,
Oxford, 1888
O homem que se esconde reconhece a superioridade do inimigo tão evidentemente como aquele que entrega as armas abertamente.
Biografia David Hume (1711 / 1776)
— O Cético que Revolucionou a Filosofia
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