segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Ilíada: Homero (Canto V.a - Os feitos heroicos de Diomedes)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto V - Os feitos heroicos de Diomedes (Aristia de Diomedes)
 
“Atena convence Ares a abandonar a guerra aos homens, e, assim, os Gregos sobrepujam os Troianos. Diomedes, ferido por Pândaro, e protegido por Palas Atena, se sobressai ainda mais. Lutando com Pândaro e Eneias, mata o primeiro e quase mata o segundo, que é salvo por Afrodite. No entanto, Diomedes fere a própria Afrodite. Apolo cura Eneias e Ares volta ao combate, reanimando os Troianos. Os Gregos começam a perder e Hera e Atenas os ajudam. Diomedes, ajudado por Atena, fere o próprio Ares, que vai ao Olimpo reclamar com Zeus da ousadia de Diomedes.”


   Palas Atena, a donzela de Zeus, em Diomedes infunde 
força e coragem sem-par, para que entre os Argivos pudesse 
sobressair mais que todos e glória imortal conquistasse. 
Inextinguível luzeiro faz do elmo surgir e do escudo, 
de brilho igual ao da estrela que, mais do que as outras, no outono 
incontrastável esplende, depois de banhar-se no oceano: 
com tal fulgor ao redor da cabeça e das largas espáduas, 
faz ela o herói avançar para o ponto mais denso da pugna.¹ 
   Certo Darete vivia entre os Teucros, em muita abastança, 

ínclito antiste de Hefesto: dois filhos distintos possuía,
que eram: Ideu e Fegeu, mestres, ambos, nas artes da guerra. 
Estes, que estavam de carro, adiantaram-se dos companheiros 
na direção de Diomedes, que, a pé, sobre o solo, avançava. 
Quando, desta arte, um para o outro avançando, mais perto ficaram, 
joga, primeiro, Fegeu a sua lança de sombra comprida. 
Pelo ombro esquerdo do grande Tidida a hasta longa e pontuda, 
sem o tocar, perpassou. Por sua vez, joga o bronze Diomedes, 
com força ingente, sem que lhe partisse da mão, frustra, a lança, 
pois bem no peito o inimigo atingiu, derrubando-o do carro.

Rapidamente, Ideu salta, largando o belíssimo carro, 
sem ter coragem de junto do corpo do irmão vir postar-se. 
Ele também deveria ser presa da lívida Morte; 
mas por Hefesto foi salvo, que logo o envolveu num nevoeiro, 
para que o velho abatido não fosse por dor excessiva. 
Apoderou-se Diomedes dos belos cavalos, passando-os 
aos companheiros, que os fossem levar para as côncavas naves. 
Ao perceberem os Teucros a um filho do claro Darete 
junto do carro, sem vida, enquanto o outro escapara, fugindo, 
cheios de medo ficaram. Tomando da mão de Ares forte,

a de olhos glaucos, Atena, lhe disse as palavras aladas: 
   “Ares guerreiro, dos homens flagelo, eversor de cidades, 
não nos seria possível deixar que os Troianos e Aquivos 
digladiassem, té vermos a quem Zeus concede a vitória? 
Nós a de parte fiquemos, a Zeus não façamos ofensa.” 
   A Ares terrível, então, retirou da batalha sangrenta, 
e o fez sentar-se num alto da margem do rio Escamandro. 
Cedem os Troas aos homens Aqueus; cada herói põe por terra 
um inimigo. Primeiro de todos, o Atrida Agamémnone 
dos Halizônios o príncipe, Odio, derruba do carro;

quando tentava fugir, atirou-lhe, nas costas, a lança, 
entre as espáduas, no peito saindo-lhe a ponta aguçada. 
Com grande estrondo caiu, ressoando-lhe em torno a armadura. 
   Idomeneu mata a Festo, Meônio, nascido de Boro, 
que, havia pouco, chegara de Tarne, de solo ubertoso. 
Quando tentava subir para o carro, o famoso lanceiro 
Idomeneu o feriu no ombro esquerdo com a lança comprida: 
precipitou-se do carro; envolveu-o caligem sinistra. 
Pelos criados do herói, da armadura foi logo despido. 
   Ao caçador mui famoso, Escamândrio, nascido de Estrófio,

com a sua lança fraxínea, também, Menelau pôs por terra. 
Era excelente mateiro, que fora instruído por Ártemis 
na arte de as feras caçar, que nas abas dos montes vagueiam. 
Mas, desta vez, nem a deusa frecheira lhe foi de vantagem, 
nem a perícia de exímio frecheiro que tanto o exaltava, 
pois o nascido de Atreu, Menelau, mui famoso lanceiro, 
quando tentava fugir, o atingiu com a lança, nas costas, 
entre as espáduas, no peito saindo-lhe a ponta aguçada. 
Tomba no solo, de bruços, ressoando-lhe em torno a armadura. 
   Foi por Meríones morto o nascido de Téctone Harmônida,

Féreclo, em todas as artes manuais mui notável artífice. 
A de olhos glaucos, Atena, especial afeição lhe dicava. 
O fabricante ele fora das naves de Páris simétricas, 
que tinham sido o princípio da grande desgraça dos Teucros 
e dele próprio, por ter desprezado os orác’los divinos. 
Tendo Meríones saído no encalço de Féreclo exímio, 
fere-o do lado direito, na nádega; a ponta da lança 
veio sair sob o pube, depois de passar a bexiga. 
Cheio de dor ajoelhou-se, envolvendo-o a caligem da Morte. 
   Mata Megete ao guerreiro Pedeu, de Antenor descendente.

Em que bastardo ele fosse, a divina Teano o criara 
sem distinção de seus filhos, a fim de agradar ao marido. 
O valoroso Filida no encalço lhe foi, enterrando-lhe 
a lança aênea bem no alto da nuca, de forma que a ponta 
veio sair pelo meio dos dentes, cortando-lhe a língua. 
O frio bronze entre os dentes aperta, ao tombar na poeira. 
   O nobre Eurípilo, filho de Evémone, prostra sem vida 
ao forte Ipsénor, antiste do rio Escamandro; acatava-o 
como a um dos deuses, o povo; do estulto Dolópio era filho. 
A esse, o notável Eurípilo, filho de Evémone claro,

quando tentava fugir, alcançou, para um golpe atirar-lhe 
no ombro, com a espada cortante, cerceando-lhe o braço pesado, 
que pelo chão foi rolando, vermelho de sangue. Apodera-se-lhe 
a Morte rubra dos olhos, cedendo-o ao Destino implacável. 
   Por esse modo, eles todos, no prélio terrível, lutavam. 
Não poderíeis dizer se o Tidida se achava do lado 
dos picadores de Troia ou dos nobres Aquivos guerreiros. 
Corta, furioso, através da planície, tal como corrente 
pelo degelo engrossado, que pontes arrasta, precípite; 
os próprios diques, construídos em fila, não podem retê-la,

nem mesmo os valos à volta dos campos cobertos de flores, 
quando impetuosa extravasa no tempo em que Zeus manda as chuvas, 
a destruir as lavouras formosas dos homens industres: 
as densas turmas Troianas, assim, pelo forte Diomedes 
eram desfeitas; ainda que muitas, cediam-lhe ao ímpeto. 
   Logo que o viu o rebento notável do herói Licaônio, 
enfurecido, no campo, e, dispersas, as Teucras falanges, 
o arco recurvo, depressa, ajeitou contra o bravo Tidida, 
no ombro direito atingindo-o, ao saltar para a frente, impetuoso. 
A seta amarga passou pelo cavo da coura, indo a ponta

do lado oposto sair; a couraça tingiu-se de sangue. 
Grita, exultante, o belíssimo filho do heroico Licáone: 
   “Ora avançai, impertérritos Troas, valentes ginetes, 
pois já se encontra ferido o melhor dos Aqueus; muito tempo 
não poderá resistir ao poder do meu dardo, se é fato 
que foi o filho de Zeus quem me fez vir da Lícia querida.” 
   Por esse modo, exultava. Diomedes, porém, não caíra; 
sim, recuando para onde os cavalos e o carro se achavam, 
diz para Esténelo, o filho do herói Capaneu preclaríssimo: 
“Filho do herói Capaneu, caro Esténelo, desce do carro,

para que a seta amargosa consigas tirar-me da espádua.” 
   Isso disse ele; do carro pulou, para a terra, o guerreiro, 
e, logo, o dardo arrancou, que se achava encravado na espádua. 
Sangue jorrou da ferida, banhando-lhe as malhas da túnica. 
Súplice, então, o Tidida, de voz retumbante, suplica: 
   “Ouve-me, Atena, donzela indomável de Zeus poderoso! 
Se hás, em verdade, ajudado a meu pai nas batalhas cruentas, 
mostra-te — ó deusa — também generosa no transe em que me acho. 
Faze que com minha lança consiga atingir o indivíduo 
que me asseteou em primeiro lugar e, ora, ufano, assevera

que a luz fulgente do sol eu não hei de gozar muito tempo.” 
   A fervorosa oração foi ouvida por Palas Atena; 
leves lhe torna ela os membros, os braços e as pernas robustas, 
e, ao lado dele se pondo, lhe disse as palavras aladas: 
   “Podes, com todo o teu brio, lutar com os Troianos, Diomedes, 
pois no imo peito te faço nascer a indomável coragem, 
própria do grande Tideu picador, quando o escudo vibrava. 
Vou desfazer a caligem que os olhos brilhantes te cobre, 
que distinguir, facilmente, consigas os deuses e os homens. 
Não te aventures, jamais, a lutar contra os deuses eternos,

caso te venha tentar algum nume do Olimpo elevado; 
contra nenhum; mas se a filha de Zeus poderoso, Afrodite, 
se aventurar a lutar, então fere-a com o bronze afiado.” 
   A de olhos glaucos, Atena, afastou-se ao dizer tais palavras. 
Mais uma vez, o Tidida voltou para as linhas de frente. 
Se antes já ardia em desejos de aos Teucros vencer nos combates, 
três vezes mais ardoroso se achava. Um leão parecia, 
a que o pastor, que se encontra de guarda às lanzudas ovelhas, 
fere, ao querer escalar o curral, sem, contudo, prostrá-lo, 
só conseguindo espertar-lhe a coragem. Sem ter mais defesa,

corre o pastor a esconder-se no estáb’lo, largando o rebanho; 
apavoradas, comprimem-se a um canto as balantes ovelhas. 
A fera, entanto, furiosa, o redil abandona, de um salto: 
com igual fúria, o Tidida as fileiras Troianas penetra. 
   Logo de início, ali prostra os caudilhos Hipírone e Astínoo, 
a hasta de bronze, potente, encravando no peito deste último, 
e no ombro do outro assestando, bem junto à clavícula, um golpe 
com a espada, que a um tempo o apartou do pescoço e das costas. 
Deixa-os, saindo, depois, à procura de Abante e Políido, 
de Euridamante nascidos, intérprete exímio de sonhos,

que não lhes fez vaticínio nenhum, quando foi da partida. 
A ambos, Diomedes, o forte, despiu da bonita armadura. 
Contra os irmãos Xanto e Tóone, após, arremete, de Fénopo 
ambos nascidos, na extrema velhice; acabrunha-se o velho 
por não ter tido outro filho a quem possa deixar seus haveres. 
A ambos Diomedes privou da armadura e da vida preciosa, 
ao pai deixando tristezas, somente, e suspiros magoados, 
por não os ter acolhido com vida, de volta da guerra. 
Pelos parentes remotos seus bens divididos ficaram. 
   Dá, logo após, com dois filhos de Príamo, o neto de Dárdano,

que num só carro se achavam, Equéfronte e Crômio galhardos. 
Tal como um leão que se atira no meio do gado que pasta 
no prado ervoso, e espedaça a cerviz de um bezerro ou de um touro, 
a ambos, assim, o Tidida, do carro arrancou com violência, 
por vergonhosa maneira, espoliando-os das armas preciosas. 
Aos companheiros deu ordens que às naus os cavalos levassem. 
   Foi por Eneias notado como ele as fileiras destruía; 
corta o guerreiro a batalha, onde as lanças, mais densas, se agitam, 
com a intenção de achar Pândaro, o Lício de formas divinas. 
Ao belo filho do heroico Licáone achou, finalmente;

para defronte do herói, e lhe diz as seguintes palavras: 
   “Pândaro, acaso perdeste teu arco, tuas setas aladas 
e tua fama sem-par, que nenhum dos Troianos contesta? 
Nem mesmo os Lícios guerreiros presumem que possam vencer-te. 
Vamos, eleva teus braços a Zeus e dispara uma seta 
contra o varão destemido que tanta desgraça nos causa, 
com dissolver o vigor de tão nobres e fortes Troianos. 
Temo que seja um dos deuses que se ache zangado, por termos 
com sacrifícios faltado; é terrível de um deus, sempre, a cólera.” 
   Disse-lhe o filho do heroico Licáone, então, o seguinte:

“Príncipe Eneias, mentor dos Troianos de vestes de bronze, 
os sinais todos me dizem tratar-se do grande Tidida; 
sim, pelo escudo o conheço, pelo elmo de quatro saliências, 
e pelos próprios cavalos. Ao certo não sei se é um dos deuses. 
Se se tratar de um varão, como penso, o prudente Diomedes, 
não sem o auxílio de um deus tantas coisas comete, que se acha 
perto do herói, escondido, sem dúvida, em névoa densíssima, 
e que de pouco o livrou de uma seta que o havia tocado. 
Já lhe mandei uma seta amargosa, que foi atingi-lo 
no ombro direito, furando a couraça na chapa escavada.

Já me gloriava de o haver enviado para o Hades sombrio, 
mas foi baldada esperança; é-me hostil um dos deuses, sem dúvida. 
Não tenho aqui nem cavalos nem carros, que possam servir-me; 
onze, no entanto, se encontram na casa do heroico Licáone, 
todos construídos de pouco, sem uso nenhum, protegidos 
por belas mantas, com uma parelha, cada um, de cavalos, 
que de centeio e de espelta, com muito regalo, se nutrem. 
Bem que Licáone, o velho guerreiro, comigo instou muito, 
recomendando insistente, ao me vir do palácio bem-feito, 
para que carros trouxesse e cavalos possantes, e o mando

dos picadores Troianos houvesse de ter nas batalhas. 
Mas não lhe quis aceitar o conselho — quão útil me fora! —, 
porque poupasse os cavalos, com bom tratamento habituados, 
pelo receio de vir a faltar-lhes forragem no assédio. 
Por isso tudo os deixei, tendo vindo de pé para Troia, 
no arco, somente, confiando, que inútil, aliás, me seria. 
Já disparei duas vezes, visando excelentes guerreiros, 
o louro Atrida e Diomedes, e de ambas, com toda certeza, 
vi correr sangue; no entanto, só pude, ainda mais, excitá-los. 
Foi em má hora que o arco do gancho tirei, por sem dúvida,

quando pensei em trazer para Troia os meus Lícios valentes, 
a fim de a Heitor, o guerreiro divino, agradável mostrar-me. 
Mas se algum dia eu voltar para a terra dos meus ascendentes, 
e contemplar, novamente, a querida consorte e o palácio, 
pode qualquer estrangeiro a cabeça dos ombros cortar-me, 
se não jogar ali mesmo, nas chamas, este arco, após tê-lo 
feito em pedaços. Bem má companhia me fez até agora.” 
   Disse-lhe Eneias, o chefe dos Teucros, então, em resposta: 
“Não continues assim, que tudo isto alterar não se pode, 
sem que nós dois para o carro subamos e contra aquele homem

nos decidamos a ir, para as armas com as dele medirmos. 
Vem para cá, porque vejas, alfim, como são excelentes 
estes cavalos de Trós, que tão rápidos correm no plaino, 
quer quando cumpre fugir, quer no encalço do imigo ligeiro. 
Ainda que Zeus a Diomedes de glória cobrir determine 
mais uma vez, hão de aos muros de Troia levar-nos incólumes. 
Faze uso, tu, do chicote e das rédeas de bela feitura, 
que eu descerei para a pé, facilmente, of’recer-lhe combate; 
ou, se o preferes, enfrenta-o, ficando a meu cargo os cavalos.”² 
   Disse-lhe o filho do heroico Licáone, então, o seguinte:

continua página 157...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto V.a / Canto V.b /                 
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1Palas Atena (Atena) intervém diretamente no campo de batalha para fortalecer Diomedes, um dos maiores heróis aqueus. É uma cena típica da épica homérica: os deuses descem ao combate, escolhem seus favoritos e alteram o destino humano; infunde coragem e força sobre-humana em Diomedes; faz sua figura brilhar como uma estrela de outono recém-nascida do oceano — uma imagem poética que simboliza poder, claridade e destino; e conduz o herói ao centro da batalha, onde o combate é mais feroz. Esse brilho não é só visual: é simbólico. Diomedes passa a ser um guerreiro iluminado pela razão, pela estratégia e pela coragem — atributos da própria Atena.
     Esse trecho marca o início da aristeia de Diomedes, o momento em que o herói se destaca acima de todos os outros. Na Ilíada, cada grande guerreiro tem sua “aristeia”: um episódio de glória máxima, quase divina. 
Atena escolhe Diomedes porque ele é: disciplinado, obediente aos deuses, estrategista, e capaz de agir com honra mesmo em meio ao caos.
Nenhum herói vence sozinho. A glória humana depende da vontade dos deuses.
[2] Aqui vemos Eneias, príncipe troiano, respondendo ao seu companheiro (Pândaro, no contexto do canto V). Ele tenta convencê-lo a enfrentar Diomedes, que naquele momento está em plena aristeia — seu auge heroico — graças à intervenção direta de Atena.
     Eneias, mesmo sabendo que Diomedes está temporariamente além do humano, fala como um verdadeiro líder: Ele recusa a fuga; propõe estratégia; confia nos cavalos troianos, descendentes de Trós, famosos por sua velocidade e resistência; aceita o risco, mas acredita que Zeus ainda pode protegê-los.
     Quando Eneias diz que os cavalos podem levá-los “incólumes aos muros de Troia”, ele está evocando um símbolo central da épica: Os cavalos são extensão da honra do guerreiro, herança, linhagem, destino.
     Esses cavalos são descendentes dos que Zeus deu a Trós — portanto, carregam uma marca divina. Eneias confia neles como confia no próprio sangue troiano.
     Eneias oferece duas opções: Pândaro conduz o carro, e Eneias desce para lutar ou Pândaro enfrenta Diomedes, enquanto Eneias assume o controle dos cavalos.
     Essa flexibilidade mostra Eneias como um guerreiro completo: ele sabe lutar, sabe conduzir, sabe decidir.
     Esse trecho revela sobre Eneias que ele é: corajoso, estrategista, leal, consciente da força do inimigo, mas não paralisado por ela. É o tipo de heroísmo que não depende apenas da força bruta, mas da capacidade de pensar em meio ao caos.

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