quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo I - A narcisista (1)

Simone de Beauvoir


02. A Experiência Vivida

O SEGUNDO SEXO
SlMONE DE BEAUVOIR

TERCEIRA PARTE

JUSTIFICAÇÕES
                              ______________________________________________________


CAPÍTULO I
A NARCISISTA
 

     PRETENDEU-SE, por vezes, que o narcisismo era a atitude fundamental de toda mulher (cf. Helen Deutsch, Psychology of Women); mas em estendendo abusivamente essa noção destroem-na, como La Rochefoucauld arruinou a de egoísmo. Na realidade, o narcisismo é um processo de alienação bem definido: o eu é posto como um fim absoluto e o sujeito nele foge de si. Muitas outras atitudes — autênticas ou inautênticas — se encontram na mulher: já estudamos algumas. A verdade é que as circunstâncias convidam a mulher, mais do que o homem, a voltar-se para si mesma e a dedicar-se a seu amor.
     Todo amor reclama a dualidade de um sujeito e de um objeto. A mulher é levada ao narcisismo por dois caminhos convergentes. Como sujeito, ela se sente frustrada; em menina viu-se privada desse alter ego que o pênis é para o menino; mais tarde sua sexualidade agressiva permaneceu insatisfeita. E, o que e muito mais importante, as atividades viris lhe são proibidas. Ela se ocupa, mas não faz nada; através de suas funções de mãe, esposa, dona de casa, não é reconhecida em sua singularidade. A verdade do homem está nas casas que constrói, nas florestas que arroteia, nas doenças que cura: não podendo realizar-se através de projetos e objetivos, a mulher se esforçará por se apreender na imanência de sua pessoa. Parodiando palavras de Sieyès, Maria Bashkirtseff escrevia: "Que sou eu? Nada. Que gostaria de ser? Tudo". É porque nada são que numerosas mulheres limitam ferozmente seus interesses unicamente a seu eu, que hipertrofiam de maneira a confundi-lo com tudo. "Sou minha heroína", dizia ainda Maria Bashkirtseff. Um homem que age confronta-se necessariamente. Ineficiente, separada, a mulher não pode situar-se nem tomar sua própria medida; dá a si mesma uma importância soberana porque nenhum objeto importante lhe é acessível.
     Se assim pode propor-se a seus próprios desejos, é porque desde a infância se apresentou a si mesma como um objeto. Sua educação encorajou-a a alienar-se em todo seu corpo, a puberdade revelou-lhe esse corpo como passivo e admirável; é uma coisa para a qual pode voltar as mãos, que o cetim comove, o veludo, e que ela pode contemplar com um olhar de amante. No prazer solitário, a mulher pode desdobrar-se em um sujeito macho e um objeto fêmeo; assim Irene, cujo caso Dalbiex estudou¹, dizia: "Vou me amar", ou mais apaixonadamente: "Vou me possuir", ou em um paroxismo: "Vou me fecundar". Maria Bashkirtseff é também sujeito e objeto ao mesmo tempo quando escreve: "É pena entretanto que ninguém me veja os braços e o torso, todo esse frescor e toda essa juventude".

[1] La Psychanalyse. Em sua infância, Irene gostava de urinar como os meninos; via-se muitas vezes em sonho sob a forma de ondina, o que confirma as ideias de Havelock Ellis acerca da relação entre o narcisismo e o que chama "ondinismo", isto é, certo erotismo urinário.

     Em verdade, não é possível ser para si positivamente outro e apreender-se à luz da consciência como objeto. O desdobra mento é tão somente sonhado. É a boneca que materializa esse sonho na criança; ela se reconhece nesta mais concretamente do que em seu próprio corpo, porque há separação de uma a outra. Essa necessidade de ser dois para estabelecer um diálogo entre si e si. Mme de Noailles o exprimiu, entre outros, no Livre de ma vie.

   Gostava das bonecas, introduzia em sua imobilidade a animação de minha própria existência; não teria dormido sob o calor de uma coberta sem que elas estivessem também envolvidas de lã e pluma... Sonhava com experimentar realmente a pura solidão desdobrada... Essa necessidade de permanecer intata, de ser duas vezes eu mesma, sentia-a com avidez desde a minha mais remota infância... Ah! como desejei, nos instantes trágicos em que minha doçura sonhadora era o joguete das injuriosas lágrimas, ter a meu lado uma outra pequena Anna que poria os braços em volta de meu pescoço, que me consolaria, me compreenderia... No decorrer de minha vida, encontrei-a em meu coração e a retive com força; ela me socorreu não sob a forma do consolo que esperava, mas sob a forma da coragem.

     A adolescente deixa que suas bonecas durmam. Mas, ao longo de sua vida, a mulher será fortemente ajudada em seu esforço para se abandonar e se retomar na magia do espelho, Rank pôs em evidência a relação entre o espelho e o duplo nos mitos e nos sonhos. É principalmente no caso da mulher que o reflexo se deixa assimilar ao eu. A beleza masculina é indicação da transcendência, a da mulher tem a passividade da imanência: só a segunda é feita para deter o olhar e pode portanto ser pegada na armadilha de aço do espelho; o homem que se sente e se quer como atividade, subjetividade, não se reconhece em sua imagem parada; ela não tem grande atração para ele, porquanto o corpo do homem não se apresenta a ele como objeto de desejo; ao passo que a mulher sabendo-se, fazendo-se objeto, acredita realmente ver-se no espelho: passivo e dado, o reflexo é, como ela própria, uma coisa; e como deseja a carne feminina, sua carne, ela anima com sua admiração, seu desejo, as virtudes inertes que percebe. Mme de Noailles, que se conhecia, confia-nos:

   Era menos vaidosa dos dons do espírito, tão vigorosos em mim que não os punha em dúvida, do que da imagem refletida por um espelho amiudadamente consultado... Só o prazer físico contenta plenamente a alma.

     As palavras "prazer físico" são aqui vagas e impróprias. O que contenta a alma — enquanto o espírito tem que se provar — é que o rosto contemplado está presente, hoje, dado, indubitável. Todo o futuro se concentra nessa faixa de luz cujo quadro transforma em um universo; fora desses estreitos limites, as coisas são apenas um caos desordenado; o mundo reduz-se a esse pedaço de vidro em que resplende uma imagem: a Única. Cada mulher, envolvida em seu reflexo, reina sobre o espaço e o tempo, sozinha, soberana; tem todos os direitos sobre os homens, sobre a fortuna, a glória, a volúpia. Maria Bashkirtseff estava tão embriagada com sua beleza que queria fixá-la em um mármore
imperecível; ela própria é que se teria destinado assim à imortalidade:

   Ao voltar, dispo-me, ponho-me nua e fico impressionada com a beleza de meu corpo, como se nunca o tivesse visto. É preciso fazer minha estátua, mas como? Sem me casar é quase impossível. E é arranjar um marido, ainda que seja somente para mandar fazer minha estátua...

     Cécile Sorel, preparando-se para um encontro amoroso, assim se descreve:

   Estou diante de meu espelho. Gostaria de ser mais bela. Debato-me com minha crina de leoa. Faíscas desprendem-se de meu pente. Minha cabeça é um sol no meio de meus cabelos erguidos como raios de ouro.

     Lembro-me também de uma jovem mulher, que vi certa manhã no toilette de um café; segurava uma rosa na mão e também parecia estar um pouco embriagada; aproximava os lábios do espelho como que para beber a imagem e murmurava sorrindo: "Adorável, acho-me adorável". A um tempo sacerdotisa e ídolo, a narcisista flutua aureolada de glória no coração da eternidade e de outro lado das nuvens; criaturas ajoelhadas adoram--na: é Deus contemplando-se a si próprio. "Eu me amo, sou o meu Deus!", dizia Mme Mejerowsky. Tornar-se deus é realizar a impossível síntese do em-si e o para-si: os momentos em que o indivíduo imagina tê-lo conseguido são para ele momentos privilegiados de alegria, de exaltação, de plenitude. Com 19 anos, Roussel, um dia, numa granja, sentiu em volta da cabeça a aura da glória; nunca se curou. A moça que viu no fundo do espelho a beleza, o desejo, o amor, a felicidade, em seus próprios traços — animados, crê, pela sua própria consciência — tenta rá durante toda a vida cobrar as promessas dessa deslumbrante revelação. "És tu quem amo", confiará um dia Maria Bashkirtseff a seu reflexo. Escreve de outra feita: "Amo-me tanto, torno-me tão feliz que me senti como louca, ao jantar". Mesmo se não é de uma beleza perfeita, a mulher verá transparecerem em seu rosto as riquezas singulares de sua alma e isto bastará para sua embriaguez. No romance em que se pintou sob os traços de Valéria, Mme Krüdener assim se descreve:

   Ela tem algo particular que ainda não vi em nenhuma mulher. Pode-se ter a mesma graça, muito mais beleza e estar longe dela. Não a admiram talvez, mas ela tem qualquer coisa de ideal e de encantador que obriga a se interessarem por ela. Dir-se-ia, vendo-a tão delicada, esbelta, que é um pensamento.

     É um erro espantar-se com o fato de que mesmo as deserdadas possam por vezes conhecer o êxtase do espelho: comovem-se simplesmente com ser uma coisa de carne, presente; como o homem, basta para espantá-las a pura generosidade de uma jovem carne feminina; e desde que se apreendem como sujeito singular, com um pouco de má-fé, dotarão também de encanto singular suas qualidades específicas; descobrirão em seu rosto ou em seu corpo algum traço gracioso, raro, picante; acreditar-se-ão belas pelo simples fato de se sentirem mulheres.
     Demais, o espelho, embora privilegiado, não é o único instrumento de desdobramento. No diálogo interior, todos podem tentar criar um irmão gêmeo. Estando só grande parte do dia, aborrecendo-se com tarefas caseiras, a mulher tem o lazer de modelar, em sonho, sua própria imagem. Moça, ela sonhava com o futuro; encerrada em seu presente indefinido, ela conta sua história; retoca-a de maneira a introduzir nela uma ordem estética, transformando, desde antes da morte, sua vida contingente em um destino.
     Sabe-se quanto as mulheres se apegam a suas recordações de infância; testemunha-o a literatura feminina; a infância em geral só ocupa um lugar secundário nas autobiografias masculinas; as mulheres, ao contrário, restringem-se muitas vezes à narrati va de seus primeiros anos; estes constituem a matéria privilegiada de seus romances, seus contos. Uma mulher que se conta a uma amiga, a um amante, começa quase todas as suas histórias com estas palavras: "Quando eu era menina..." Guardam uma nostalgia desse período. É porque sentiam então sobre a cabeça a mão bondosa e imponente do pai, embora apreciando as alegrias da independência; protegidas e justificadas pelos adultos, eram indivíduos autônomos, diante dos quais um futuro livre se abria; ao passo que agora estão perfeitamente defendidas pelo casamento e o amor e se tornaram servas ou objetos, engaioladas no presente. Reinavam sobre o mundo, conquistavam-no dia após dia; e ei-las separadas do universo voladas à imanência e à repetição. Sentem-se diminuídas. Mas sofrem mais é por se acharem abismadas na generalidade: uma esposa, uma mãe, uma dona de casa, uma mulher entre milhares de outras; em criança, ao contrário, cada uma viveu sua condição de maneira singular; ignorava as analogias existentes entre o seu aprendizado do mundo e o de suas amigas; pelos seus pais, seus professores, suas amigas, era ela reconhecida em sua individualidade, acreditava-se incomparável a qualquer outra, com possibilidades únicas. Volta-se para essa irmã jovem cuja liberdade, de cujas exigências e soberania abdicou e que traiu, mais ou menos, A mulher que se tornou tem saudade do ser humano que foi; tenta reencontrar no fundo de si a criança morta. "Menina", esta palavra comove-a; mais ainda: "estranha menina", que ressuscitam a originalidade perdida.
     Ela não se restringe a maravilhar-se de longe com essa infância tão rara: tenta reavivá-la em si. Busca convencer-se de que seus gestos, suas ideias, seus sentimentos conservaram um insólito frescor. Perplexa, interrogando o vácuo, enquanto brinca com um colar ou mexe num anel, murmura: "Engraçado.. . eu, assim é que sou. . . Imagine, a água me fascina. . . Oh! adoro o campo". Cada preferência parece uma excentricidade, cada opinião um desafio ao mundo. Dorothy Parker mostra de maneira muito viva esse traço tão comum. Assim descreve Mrs. Welton:

   Gostava de se imaginar como uma mulher que não podia ser feliz sem se cercar de flores desabrochadas... Confessava às pessoas com pequenos sobressaltos confidenciais quanto amava as flores. Havia quase um tom de desculpa nessa pequena confissão, como se pedisse a seus auditores que não julgassem seu gosto demasiado insólito. Parecia esperar que seu interlocutor caísse de costas, tomado de espanto e exclamando: "Não, realmente! A que ponto chegamos!" De vez em quando confessava outras predileções miúdas; sempre com um pouco de perplexidade, como se na sua delicadeza se sentisse naturalmente chocada com pôr a nu o coração, dizia quanto gostava da cor, do campo, das distrações, de uma peça realmente interessante, de bonitos tecidos, de vestidos bem feitos, do sol. Mas era seu amor pelas flores que confessava o mais das vezes. Tinha a impressão de que este gosto mais do que qualquer outro a distinguia do comum dos mortais.

     A mulher procura de bom grado confirmar essas análises por suas condutas; escolhe uma cor: "O verde é minha cor"; tem uma flor preferida, um perfume, um músico predileto, superstições, manias que trata com respeito; e não é preciso que seja bela para exprimir sua personalidade em suas toaletes ou em seu lar. O personagem que apresenta tem mais ou menos coerência e originalidade segundo sua inteligência, sua obstinação e a profundeza de sua alienação. Algumas misturam apenas ao acaso alguns traços esparsos embaralhados; outras criam sistematicamente uma figura, cujo papel representam com constância. Já dissemos que a mulher mal separa esse jogo da verdade. Em torno da heroína, a vida organiza-se num romance triste ou maravilhoso, sempre algo estranho. Por vezes é um romance que já foi escrito. Não sei quantas moças disseram ter-se reconhecido na Judy de Poussière; lembro-me de uma velha senhora muito feia que tinha por hábito dizer: "Leia o Lys dans la Vallée, é minha história"; quando criança, eu olhava com estupor reverente esse lírio murcho. Outras mais vagamente murmuram: "Minha vida é um romance". Há uma estrela fasta ou nefasta sobre a fronte delas. "Essas coisas só acontecem a mim", dizem. Cécile Sorel escreve com essa ingenuidade que nunca abandona em suas memórias: Assim foi que fiz minha entrada no mundo. Meus primeiros amigos chamavam-se gênio e beleza". E no Livre de ma vie, documento fabuloso de narcisismo, Mme de Noailles escreve:
     
   As governantas um dia desapareceram: a sorte tomou-lhes o lugar. Maltratou, tanto quanto acumulou de bondades, a criatura forte e fraca, manteve-a acima dos naufrágios onde ela apareceu assim como uma Ofélia combativa, salvando suas flores e cuja voz sempre se amplia mais. Pediu-lhe que esperasse, que fosse realmente exata esta última promessa: os gregos utilizam a morte.

     Cumpre ainda citar como exemplo de literatura narcisista o trecho seguinte:

   Da robusta menina que eu era, de membros delicados mas bem feitos, de faces rosadas, fiquei com este caráter físico mais frágil, mais nebuloso que fez de mim uma adolescente patética a despeito da fonte de vida que pode jorrar de meu deserto, de minha fome, de minhas breves e misteriosas mortes tão estranhamente quanto do rochedo de Moisés. Não me vangloriarei de minha coragem, como teria o direito de fazê-lo. Assimilo-a a minhas forças, a minhas possibilidades. Poderia descrevê-la como se diz: tenho olhos verdes, cabelos pretos mão pequena e forte...

     E linhas adiante:

   Hoje é-me permitido reconhecer que, sustentada pela alma e suas forças de harmonia, vivi ao som de minha voz...

     Na falta de beleza, de brilho, de felicidade, a mulher escolherá uma personagem de vítima para si; obstinar-se-á em encarnar a mater dolorosa, a esposa incompreendida, será a seus próprios olhos "a mulher mais desgraçada do mundo". É o caso desta melancólica que Stekel descreve em A Mulher Fria:

   Todos os anos, no Natal, Mme H. W., pálida, vestida de es curo, vem a minha casa para se queixar da sorte. É uma história triste que conta vertendo lágrimas. Uma vida falhada, lar infeliz.
   Da primeira vez que veio, fiquei comovido até as lágrimas e prestes a chorar com ela... Entrementes, dois longos anos passaram e ela continua a habitar as ruínas de suas esperanças, chorando sua vida perdida. Sua fisionomia acusa os primeiros sintomas do declínio, o que lhe dá mais uma razão de se queixar. "Em que estado me encontro, eu cuja beleza foi tão admirada!" Multiplica as queixas, acentua seu desespero, porque todos os amigos conhecem sua desgraçada sorte. Aborrece todo mundo com suas lamentações... Trata-se de mais uma oportunidade para ela de se sentir infeliz, solitária e incompreendida. Não havia mais saída para esse labirinto de dores... Essa mulher encontrava seu gozo nesse papel trágico. Embriagava-se literalmente com o pensamento de ser a mulher mais infeliz da terra. Todos os esforços para fazê-la tomar parte na vida ativa malograram.

continua página 401...
_______________

O Segundo Sexo. 2. A Experiência vivida
2.a Ed. Tradução de Sergio Milliet. Capa de Fernando Lemos. Título do original: L'EXPÉRIENCE VÉCUE. 1967.
____________________


O Segundo Sexo - 03. Justificações: Capítulo I - A narcisista (1)
______________________

As mulheres de nossos dias estão prestes a destruir o mito do "eterno feminino": a donzela ingênua, a virgem profissional, a mulher que valoriza o preço do coquetismo, a caçadora de maridos, a mãe absorvente, a fragilidade erguida como escudo contra a agressão masculina. Elas começam a afirmar sua independência ante o homem; não sem dificuldades e angústias porque, educadas por mulheres num gineceu socialmente admitido, seu destino normal seria o casamento que as transformaria em objeto da supremacia masculina.
Neste volume complementar de O SEGUNDO SEXO, Simone de Beauvoir, constatando a realidade ainda imediata do prestígio viril, estuda cuidadosamente o destino tradicional da mulher, as circunstâncias do aprendizado de sua condição feminina, o estreito universo em que está encerrada e as evasões que, dentro dele, lhe são permitidas. Somente depois de feito o balanço dessa pesada herança do passado, poderá a mulher forjar um outro futuro, uma outra sociedade em que o ganha--pão, a segurança econômica, o prestígio ou desprestígio social nada tenham a ver com o comércio sexual. É a proposta de uma libertação necessária não só para a mulher como para o homem. Porque este, por uma verdadeira dialética de senhor e servo, é corroído pela preocupação de se mostrar macho, importante, superior, desperdiça tempo e forcas para temer e seduzir as mulheres, obstinando-se nas mistificações destinadas a manter a mulher acorrentada.
Os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo do outro e de si. Perpetuar-se-á o inglório duelo em que se empenham enquanto homens e mulheres não se reconhecerem como semelhantes, enquanto persistir o mito do "eterno feminino". Libertada a mulher, libertar-se-á também o homem da opressão que para ela forjou; e entre dois adversários enfrentando-se em sua pura liberdade, fácil será encontrar um acordo.
O SEGUNDO SEXO, de Simone de Beauvoir, é obra indispensável a todo o ser humano que, dentro da condição feminina ou masculina, queira afirmar-se autêntico nesta época de transição de costumes e sentimentos.

"O que é uma mulher?"

Nenhum comentário:

Postar um comentário