A ORDEM
Aguilhão-ordem e disciplina
A disciplina constitui a essência do exército. Mas trata-se de
uma disciplina dupla: uma declarada e outra secreta. A disciplina declarada é a ordem: já se mostrou como o estreitamento da fonte de ordens conduz à formação de uma criatura
extremamente curiosa, mais figura estereométrica do que criatura humana propriamente dita: o soldado. O que mais o caracteriza é o fato de viver sempre em estado de espera de
ordens. Este estado marca sua atitude e sua estatura; o soldado
que sai deste estado já não está mais a serviço — simplesmente
é uma pessoa que usa uniforme para combinar com as aparências. A constituição do soldado é reconhecível por todas as
pessoas, ela não poderia ser mais pública do que é.
Mas esta disciplina declarada não é tudo. Com ela existe
outra a respeito da qual o soldado não fala, e que ele nem
deveria mostrar: uma disciplina secreta. Para certos tipos mais
obtusos é possível que esta outra disciplina se torne consciente
apenas algumas vezes. Mas na maioria dos soldados, principalmente em nosso tempo, ela sempre está desperta, se bem que
de maneira oculta. Trata-se da disciplina da promoção.
Pode parecer estranho que se qualifique como secreta
tuna coisa tão conhecida como a promoção. Mas a promoção apenas é a expressão pública de uma coisa muito mais profunda que permanece secreta, porque na maneira de sua função
é pouco compreendida A promoção é a expressão do que existe
de oculto no aguilhão-ordem.
É evidente que esses aguilhões devem acumular-se de
maneira francamente monstruosa no soldado. Tudo o que ele
faz, é obedecendo a uma ordem; ele não faz outra coisa, não
deve fazer outra coisa; é exatamente isto que a disciplina declarada exige deles. Seus próprios impulsos espontâneos são
reprimidos. Ele engole ordens e mais ordens e, como quer que
ele se sinta durante essas ações, jamais pode cansar-se delas.
Para cada ordem que ele executa — e executa todas as ordens
que recebe — fica um aguilhão, um espinho, dentro dele.
A saturação desses aguilhões dentro dele é um processo
rápido. Se ele está servindo como soldado raso, no mais baixo
degrau da hierarquia militar, lhe é negada toda e qualquer
oportunidade para se desfazer dos seus aguilhões, pois ele
próprio não pode dar ordem alguma. Somente pode fazer o
que lhe é ordenado. Obedece e vai se tornando cada vez mais
rígido em sua obediência.
Uma mudança nesse estado, que possui algo de violento,
somente é possível mediante uma promoção. Assim que ele
é promovido, deve começar a dar ordens também, e fazendo
isso começa a livrar-se de uma parte dos seus aguilhões. Sua
situação — se bem que de maneira muito restrita — se inverteu. Ele deve exigir coisas que anteriormente foram exigidas
dele próprio. O modelo da situação permaneceu exatamente o
mesmo; somente sua posição é que se modificou dentro dele.
Seus aguilhões aparecem agora como ordens. O que antes lhe
era ordenado por seu superior imediato, ele próprio começa a
ordenar. Não depende dos seus caprichos a libertação dos seus
aguilhões, mas ele é colocado numa posição que é ideal para
que isso aconteça: deve dar ordens. Cada posição permaneceu
exatamente a mesma, cada palavra continua sendo exatamente
a mesma. Outros ficam parados diante dele, exatamente na
mesma posição que ele assumia anteriormente. Dele se ouve
a mesma fórmula que ele ouvia antes, com o mesmo tom de
voz, carregada com a mesma energia. A identidade da situação tem algo de macabro: é como se ela tivesse sido inventada
unicamente para satisfazer seus aguilhões-ordens. Com o que
antes o atingia, ele passa agora a atingir outros.
Mas, embora ele agora tenha chegado a um nível onde seus antigos aguilhões-ordens podem manifestar-se embora
— por assim dizer — se exija agora que eles falem, ele continua recebendo ordens de cima. O processo então se torna
duplo: ao mesmo tempo que ele se desfaz dos seus antigos
aguilhões-ordens, vão se acumulando novos aguilhões dentro
dele. Agora são um pouco mais fáceis de serem suportados do
que antes, pois o processo da promoção que foi iniciado lhe
confere asas: a esperança fundamentada de que ele irá conseguir livrar-se também desses novos aguilhões. Resumindo este processo, podemos dizer o seguinte: a disciplina declarada do exército se expressa na emissão atual de ordens; a disciplina secreta consiste na utilização dos aguilhões-ordens que foram armazenados.
continua na página 177...
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Leia também:
Massa e Poder - A Ordem: Aguilhão-ordem e disciplina
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ELIAS CANETTI nasceu em 1905 em Ruschuk, na Bulgária, filho de judeus sefardins. Sua família estabeleceu-se na Inglaterra em 1911 e em Viena em 1913. Aí ele obteve, em 1929, um doutorado em química. Em 1938, fugindo do nazismo, trocou Viena por Londres e Zurique. Recebeu em 1972 o prêmio Büchner, em 1975 o prêmio Nelly-Sachs, em 1977 o prêmio Gottfried-Keller e, em 1981, o prêmio Nobel de literatura. Morreu em Zurique, em 1994.
Além da trilogia autobiográfica composta por A língua absolvida (em A língua absolvida Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura de 1981, narra sua infância e adolescência na Bulgária, seu país de origem, e em outros países da Europa para onde foi obrigado a se deslocar, seja por razões familiares, seja pelas vicissitudes da Primeira Guerra Mundial. No entanto, mais do que um simples livro de memórias, A língua absolvida é a descrição do descobrimento do mundo, através da linguagem e da literatura, por um dos maiores escritores contemporâneos), Uma luz em meu ouvido (mas talvez seja na autobiografia que seu gênio se evidencie com maior clareza. Com este segundo volume, Uma luz em meu ouvido, Canetti nos oferece um retrato espantosamente rico de Viena e Berlim nos anos 20, do qual fazem parte não só familiares do escritor, como sua mãe ou sua primeira mulher, Veza, mas também personagens famosos como Karl Kraus, Bertolt Brecht, Geoge Grosz e Isaak Babel, além da multidão de desconhecidos que povoam toda metrópole) e O jogo dos olhos (em O jogo dos olhos, Elias Canetti aborda o período de sua vida em que assistiu à ascensão de Hitler e à Guerra Civil espanhola, à fama literária de Musil e Joyce e à gestação de suas próprias obras-primas, Auto de fé e Massa e poder. Terceiro volume de uma autobiografia escrita com vigor literário e rigor intelectual, O jogo dos olhos é também o jogo das vaidades literárias exposto com impiedade, o jogo das descobertas intelectuais narrado com paixão e o confronto decisivo entre mãe e filho traçado com amargo distanciamento), já foram publicados no Brasil, entre outros, seu romance Auto de fé e os relatos As vozes de Marrakech, Festa sob as bombas e Sobre a morte.
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Copyright @ 1960 by Claassen Verlag GmbH, Hamburg
Copyright @ 1992 by Claassen Verlag GmbH, Hildescheim
Título original Masse und Macht
"Não há nada que o homem mais tema do que o contato com o desconhecido."
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e você... conhece alguém que em meio a nossa danação geral em 2020, 2021 e 2022, NÃO sentiu empatia por nós, os sobreviventes, nem mesmo pelos nossos mortos e mortas, e apenas repetia: NÃO sou coveiro!?
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e perguntas sem resposta te incomodam?
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