Odisseia
Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Parte II
Os Relatos na Casa de Alcínoo — Odisseu na Ilha de Calipso e na Feácia¹
Canto V
A Caverna de Calipso e a balsa de Ulisses
“Formando uma segunda assembleia dos deuses, Zeus envia Hermes para Calipso mandando libertar Odisseu. Ela faz o que é ordenado. No décimo oitavo dia, Posido o vê e, se irritando, desfaz a balsa. Mas Ino lhe entrega o seu véu com ordem de o devolver assim que chegar à terra. Depois de muito sofrimento, salvo, chega à terra dos Feácios.” (Scholie P Q V)
continuando...
Honras funéreas teria e aos Aqueus minha fama espalharam.
Ora é razão que pereça por modo assim mísero e escuro.”
Disse, no ponto em que uma onda mui grande se lança, de cima,
terrivelmente, contra ele, abalando-lhe os paus da jangada,
para atirá-lo bem longe, obrigando-o a soltar, desse modo,
das mãos o leme. Partiu-se-lhe o mastro no meio, forçado
por turbilhão tempestuoso de ventos num vórtice unidos.
Longe nas ondas é a vela jogada com a verga ainda presa.
Por muito tempo Odisseu submergido ficou, sem que do ímpeto
da onda pudesse livrar-se e surdir novamente à flor da água,
da onda pudesse livrar-se e surdir novamente à flor da água,
pois lhe pesavam as vestes que a ninfa Calipso lhe dera,
té que, por fim, veio à tona, expelindo da boca a salgada
água amargosa, que em fio lhe escorre, também, da cabeça.
Não se esqueceu da jangada, conquanto se achasse extenuado;
mas, pelas ondas abrindo caminho, agarrou-se-lhe presto,
sobe e se assenta no meio, escapando, com isso, da Morte.
Ei-la jogada de um lado para outro por ondas enormes.
Tal como Bóreas, soprando na vasta planície, os espinhos
leva do cardo, que em número grande entre si se amontoam:
dessa maneira, no pélago os ventos a atiram sem rumo,
dessa maneira, no pélago os ventos a atiram sem rumo,
ora por Noto lançada até Bóreas, que adiante a levasse,
ora deixada por Euro ao capricho da sanha de Zéfiro.
Mas Leucoteia o avistou, a nascida de Cadmo com o nome
de Ino, de pés bem-moldados, que voz de mortal já possuíra,
e ora nas ondas do mar participa das honras dos deuses.
Vendo Odisseu padecer à mercê da corrente, apiedou-se;
qual mergulhão que surdisse das águas, à tona ela emerge,
na bem-trançada jangada se assenta e o consola desta arte:
“Qual o motivo de estar contra ti tão zangado o que os muros
térreos sacode e que tanto te oprime com males sem conta?
Não poderá aniquilar-te, apesar de que muito o deseje.
Presta atenção ao que digo, não creio que o senso te falte:
despe essas vestes e deixa a jangada ao sabor, tão somente,
dos próprios ventos; a nado, depois, vê se à terra feácia
podes chegar, onde o Fado te apresta encontrar salvamento.
Toma este véu imortal e o traspassa por baixo do peito.
Dessa maneira não temas nenhum sofrimento nem Morte.
Mas, depois que com tuas mãos alcançar conseguires a terra,
tira-o de novo e nas ondas escuras do mar o projeta,
longe da praia, mantendo em tudo isso teu rosto virado.”
Essas palavras, o véu entregando-lhe, a deusa lhe disse,
para, em seguida, atirar-se de novo nas ondas marinhas,
qual mergulhão. Pelas ondas escuras foi logo escondida.
Mas fica em dúvida ainda Odisseu, o guerreiro solerte;
vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala:
“Pobre de mim, tenho muito receio de que outra cilada
queira um dos deuses fazer-me, mandando que largue a jangada.
De forma alguma dar-lhe-ei atenção, pois mui longe dos olhos
vejo o lugar em que disse haveria encontrar salvamento.
Antes farei doutro modo, que mais vantajoso parece:
por quanto tempo no engaste ficarem as tábuas seguras,
continuarei na jangada, a sofrer até o fim os trabalhos;
mas, depois que pelas ondas divinas for toda desfeita,
hei de nadar, pois não sei de outro plano de mais eficiência.”
No coração e no espírito dessa maneira reflete.
Fez surgir logo Posido, que a terra sacode, uma vaga
cheia de grandes perigos, que se arca e sobre ele desaba.
Bem como vento impetuoso, que monte de palha desmancha,
para levá-lo em remoinho de um lado para outro desfeito:
dessa maneira o mar forte os pranchões espalhou. Odisseu
monta num deles, tal como se fosse cavalo de pista.
Despe-se logo das roupas que a ninfa Calipso lhe dera,
para que o véu imortal, apressado, no peito cingisse.
Prono se lança no meio das ondas, os braços abrindo
para nadar. Viu-o o deus que os pilares da terra sacode;
move, zangado, a cabeça, e consigo comenta o seguinte:
“Voga, desta arte, no mar, continuando a sofrer tantos males,
té que consigas chegar a indivíduos de Zeus descendentes.
Mas, quero crer que nunca hás de queixar-te por falta de dores.
Tendo isso dito, os cavalos de crina formosa fustiga
e se dirige para Egas, lugar de sua bela morada.
Palas, a filha de Zeus, outro plano engenhoso concebe:
faz ela própria obstruir os caminhos de todos os ventos,
tendo ordenado a eles todos que fossem dormir sossegados.
Somente Bóreas ligeiro deixou, porque as ondas abrisse,
té que aos Feácios, amantes do remo, chegasse o guerreiro
filho de Zeus, e da Morte e do negro Destino escapasse.
Dessa maneira flutuou duas noites e dias nas ondas
encapeladas, a ver muitas vezes a Morte ante os olhos
Mas, quando a Aurora, de tranças bem-feitas, mais um fez que viesse,
Mas, quando a Aurora, de tranças bem-feitas, mais um fez que viesse,
eis que de súbito o vento se aplaca e tranquila se estende
a calmaria. Com vista aguçada distingue o guerreiro,
do alto de uma onda maior, que bem perto já a terra se achava.
Bem como filhos que à vista do pai muito alegres se mostram,
que por doença jazera a sofrer muitas dores atrozes,
por longo tempo abatido, que nume funesto persegue,
alegremente se vê pelos deuses liberto das dores:
dessa maneira Odisseu se alegrou, quando viu terra e matas,
pondo-se ansioso a nadar, porque a terra com os pés alcançasse.
Mas, ao chegar a distância de grito, somente, da praia,
Mas, ao chegar a distância de grito, somente, da praia,
bem claro ouviu o barulho do mar ao quebrar-se nas pedras;
ondas enormes troavam de encontro à aridez do terreno,
com fragor grande, espalhando-se em tudo alva espuma salgada.
Portos, enseadas e abrigos em parte nenhuma se viam,
mas promontórios talhados na pedra, alcantis e rochedos.
O coração de Odisseu se abalou, fraquejaram-lhe os joelhos.
Vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala:
“Pobre de mim! Já que Zeus me concede ver terra tão perto,
sem que o pensasse, e consigo vencer a voragem do abismo,
não vejo meio nenhum de livrar-me do mar pardacento.
Tudo é cercado de pedras a prumo, e em redor vêm quebrar-se
ondas ruidosas, que molham as rochas erguidas e nuas.
A água é profunda demais, sem que ponto ofereça onde eu possa
firmar os pés para, alfim, conseguir escapar dos perigos.
Muito receio que uma onda me apanhe ao tentar sair da água
e contra as pedras me atire. Será todo o esforço baldado.
Mas, se, nadando, costear ainda um pouco, até ver se é possível
porto abrigado encontrar, ou lugar de viável aclive,
temo que mais uma vez a voragem das ondas me trague,
e para o oceano piscoso me arraste por entre gemidos,
e para o oceano piscoso me arraste por entre gemidos,
ou que demônio potente do mar contra mim um dos monstros
faça atirar-se, dos muitos que a ilustre Anfitrite alimenta.
Sei quanto se acha zangado comigo o que a terra sacode.”¹
No coração e no espírito dessa maneira reflete.
Eis que uma vaga maior o lançou contra os duros recifes;
e lacerara, sem dúvida, a pele, ou quebrara ali os ossos,
se a de olhos glaucos, Atena, o expediente não lhe sugerisse
de contra a rocha atirar-se, abarcando-a com as mãos resistentes,
onde gemendo ficou, até que a vaga potente passasse.
Dessa maneira escapou; mas, ao vir, novamente, em refluxo,
fere-o com força, atirando-o bem longe, no meio das ondas.
Bem como o polvo, quando é do escond’rijo com força arrancado,
traz nas ventosas um número grande de pedras pequenas:
dessa maneira nas pedras a pele das mãos do guerreiro
se lacerou, ficando ele coberto pela onda gigante.
E, contra o próprio Destino, teria o infeliz perecido,
se inspiração não lhe desse a donzela de Zeus de olhos glaucos.
Tendo emergido das ondas, que se iam quebrar contra a terra,
nada ao comprido da costa, a espiar para ver se podia
porto abrigado encontrar, ou terreno de viável aclive.
À embocadura, porém, ao chegar de uma bela corrente
o nadador, o lugar pareceu-lhe o mais próprio de todos,
por não ter pedras e estar resguardado da fúria dos ventos.
Reconheceu que era um rio, e a seguinte oração lhe dirige:
“Quem quer que sejas, atende-me, ó deus a quem muitos invocam!
Venho fugindo do mar, das ameaças do divo Posido.
São veneráveis, até para os deuses eternos, os homens,
quando errabundos suplicam, tal como eu agora, que chego
à tua corrente, depois de sofrer, e teus joelhos enlaço.
Tem compaixão, que eu também necessito de amparo nesta hora.”
Disse; a corrente ele susta de pronto, detendo suas ondas;
junto do herói fez as águas tornarem-se calmas, salvando-o
na embocadura do rio. Extenuado de tanta labuta
nas ondas bravas, vergaram-lhe as pernas e os braços robustos.
Intumescera-lhe a pele do corpo; da boca e narinas
água abundante escorria; no solo prostrou-se, sem fala,
quase de todo privado de fôlego pelo cansaço.
Quando lhe vieram de novo os sentidos e a vida preciosa,
o véu sagrado, que a deusa lhe dera, desprende depressa,
para lançá-lo, em seguida, no rio que ao mar se dirige.
Uma onda grande o levou na corrente, de modo que logo
Ino nas mãos o recebe. Afinal, libertado do rio,
entra um juncal e se deita, beijando o terreno fecundo.²
Vendo-se em tanta aflição, ao magnânimo espírito fala:
“Quão infeliz, ai de mim! Que me falta passar de mais grave?
Se toda a noite afanosa passar aqui perto do rio,
temo que a geada funesta e, também, a umidade do orvalho,
pós o desmaio, consigam vencer este pouco de vida.
Do rio cedo começa a soprar vento frio e cortante.
Mas, se subir o barranco e me for para a mata sombrosa,
para dormir entre os ramos espessos, se o frio e o cansaço
me abandonarem e o sono agradável de mim apossar-se,
temo que venha também a ser presa e repasto das feras.”
Como tais coisas pensasse, afinal pareceu-lhe prudente
ir para a mata. Encontrou-a, de fato, não longe do rio,
em parte em torno visível. Debaixo duma árvore pôs-se,
dupla, porém, tendo só uma raiz: zambujeiro e oliveira.
Não conseguia vará-las o vento que traz umidade,
nem com seus raios brilhantes o Sol o local clareava,
nem mesmo a chuva até lá penetrava, por tal modo unidas
e entrelaçadas cresceram as árvores onde o guerreiro
fora acolher-se. Arranjou, muito às pressas, com as mãos uma cama
larga, pois tanta abundância de folhas havia no solo,
que de coberta chegara, talvez, para dois ou três homens,
quando no inverno, por mais rigoroso que entrado ele fosse.
Vendo-a formada, o paciente e preclaro Odisseu alegrou-se
e, bem no meio deitando-se, cobre-se todo com folhas.
Tal como alguém, quando esconde um tição sob a cinza anegrada,
na ponta extrema do campo, onde mora sem gente por perto
para não ter que ir buscar noutra parte a semente do fogo:
para não ter que ir buscar noutra parte a semente do fogo:
dessa maneira Odisseu se escondeu entre as folhas. Atena
deita-lhe sono nos olhos, porque libertado se visse,
com o cerrar-se das pálpebras, logo dos graves trabalhos.
b) A oposição ao caos de Posídon - O mar é destruição; o rio é acolhimento. Odisseu passa do domínio hostil de Posídon para o domínio benevolente de outra divindade.
c) A intervenção divina como parte do destino - O Fado exige que Odisseu sobreviva. O deus do rio cumpre essa função.4. A exaustão física do herói
Homero descreve Odisseu com realismo impressionante: pernas e braços vergados, pele intumescida, água saindo da boca e narinas, prostrado no solo, quase sem fôlego. Essa descrição:
a) Humaniza profundamente o herói - Ele não é invencível: é um homem no limite da morte.
b) Reforça a violência da tempestade - Posídon quase o destruiu completamente.
c) Cria contraste com a salvação - Quanto maior o sofrimento, maior o impacto da proteção divina.
5. O gesto ritual: devolver o véu
Quando recupera os sentidos, Odisseu: “desprende depressa o véu sagrado… e o lança no rio.” Esse gesto é essencial:
a) Cumpre a instrução de Ínô-Leucótea - Ela ordenou que o véu fosse devolvido ao mar.
b) Marca o fim da proteção sobrenatural - O véu era um objeto mágico. Ao devolvê-lo, Odisseu volta ao mundo humano.
c) Simboliza gratidão e respeito - Ele não retém o objeto divino para proveito próprio.
6. A recepção do véu por Ínô
“Uma onda grande o levou… de modo que logo Ino nas mãos o recebe.” Isso reforça: a presença contínua da deusa, a ordem cósmica sendo respeitada, a relação harmoniosa entre Odisseu e o mundo divino.
7. O beijo da terra: símbolo máximo do retorno à vida
“entra um juncal e se deita, beijando o terreno fecundo.” Este é um dos gestos mais belos da Odisseia.
a) O beijo da terra é gratidão pela sobrevivência - Depois de quase morrer no mar, tocar a terra é tocar a vida.
b) A terra é o oposto do mar - Mar = caos, morte, imprevisibilidade; Terra = estabilidade, acolhimento, futuro
c) É o primeiro passo rumo à Feácia - Odisseu finalmente alcança o espaço que o conduzirá de volta a Ítaca.
8. Conclusão interpretativa
Este trecho é um dos mais simbólicos do Canto V. Ele representa:
- a vitória da vida sobre a morte,
- a força da súplica e da humildade,
- a benevolência dos deuses menores,
- a passagem do caos para a ordem,
- o renascimento do herói após o sofrimento extremo.
Odisseu, ao beijar a terra, não apenas agradece por sobreviver: ele reafirma sua ligação com o mundo humano, com a mortalidade e com o destino que o conduz de volta ao lar.
continua página 743...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b / Canto III.a / Canto III.b / Canto IV.a / Canto IV.b / Canto IV.c / Canto IV.d /
Parte II
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes.
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[1] Odisseu, à beira do naufrágio, reflete sobre sua situação. Este é um dos momentos mais intensos do Canto V da Odisseia, pois revela o conflito interior do herói diante da morte iminente.
Análise do monólogo de Odisseu diante da tempestade
1. Contexto narrativo - Odisseu está sendo perseguido por Posídon, que desencadeou uma tempestade devastadora. Sua balsa já foi destruída, e ele luta para sobreviver no mar. Neste momento, ele avista terra — mas não uma salvação imediata. O trecho registra seu monólogo interior, um recurso literário que Homero usa para revelar a mente do herói.
2. A estrutura emocional do monólogo
Odisseu passa por três estados psicológicos:
a) Esperança inicial - Ele reconhece que Zeus permitiu que ele chegasse perto da terra: “Já que Zeus me concede ver terra tão perto…” Essa esperança é breve, quase irônica: ele vê a salvação, mas não pode alcançá-la.
b) Desespero racional - a costa é rochedo vertical, impossível de escalar; as ondas quebram violentamente contra as pedras; não há ponto de apoio para os pés; qualquer tentativa de aproximação pode resultar em morte. Ele não se entrega ao pânico: ele pensa, calcula, pondera.
c) Medo profundo - Ele teme: ser lançado contra as rochas; ser tragado novamente pelo mar; ser atacado por monstros marinhos (“dos muitos que Anfitrite alimenta”). Aqui surge o medo mítico: o mar não é apenas natureza, mas um reino habitado por forças hostis.
3. A inteligência de Odisseu como marca do herói
Este trecho é exemplar da característica mais importante de Odisseu: a metis, a astúcia, a inteligência prática. Mesmo em desespero, ele: avalia o terreno; considera alternativas; prevê riscos; calcula probalidades.
Odisseu não é um guerreiro impulsivo: é um pensador, alguém que sobrevive porque pensa.
4. A presença do destino e da hostilidade divina
O herói reconhece que Posídon está por trás de tudo: “Sei quanto se acha zangado comigo o que a terra sacode.” Essa consciência reforça dois temas centrais da Odisseia:
a) O conflito entre homem e deus - Odisseu não luta apenas contra o mar, mas contra a vontade de Posídon.
b) A inevitabilidade do sofrimento - Mesmo próximo da salvação, o herói ainda precisa enfrentar o último obstáculo.
O retorno nunca é simples; o destino exige esforço extremo.
5. A paisagem como símbolo
A costa descrita por Odisseu é mais do que cenário: é símbolo. Rochas verticais → obstáculos intransponíveis; Ondas violentas → forças caóticas da natureza e dos deuses; Mar profundo → perigo absoluto, ausência de controle; Monstros marinhos → o desconhecido, o medo primordial.
A paisagem reflete o estado interior do herói: tudo é hostil, tudo ameaça sua vida.
6. A técnica narrativa de Homero
Homero usa aqui:
a) Monólogo interior - Revela o pensamento íntimo do herói, criando empatia e tensão.
b) Realismo descritivo - A descrição do mar é precisa, física, concreta — quase documental.
c) Suspense - O leitor sabe que Odisseu deve sobreviver (o Fado o garante), mas não sabe como.
d) Humanização do herói - Odisseu não é invencível: ele teme, sofre, hesita.
7. Dimensão simbólica
O trecho representa:
- A luta do homem contra forças superiores
- A fragilidade humana diante da natureza
- A persistência da esperança mesmo no limite da morte
- A inteligência como arma contra o caos
Odisseu é o arquétipo do ser humano que enfrenta o mundo com coragem e pensamento.
8. Conclusão interpretativa
Este monólogo é um dos momentos mais humanos da Odisseia. Odisseu, sozinho no mar, sem barco, sem ajuda, sem armas, enfrenta a morte com: medo, lucidez, reflexão, e uma vontade inquebrantável de sobreviver. Ele não é salvo pela força, mas pela razão — e pela capacidade de manter a calma diante do impossível. É um retrato poderoso da condição humana: mesmo cercado de perigos, o herói pensa, escolhe, luta — e continua.
[2] Análise do trecho: a súplica ao deus do rio e o resgate final
1. Contexto narrativo
Odisseu acaba de sobreviver ao ataque de Posídon. Sua balsa foi destruída, ele quase morreu contra as rochas, e só conseguiu escapar graças ao véu de Ínô-Leucótea. Agora, à deriva, ele avista a foz de um rio — o primeiro lugar onde a água não o destrói, mas pode acolhê-lo. Este é o momento em que o herói passa da luta desesperada para a súplica ritual.
2. A súplica ao deus fluvial: humildade e sacralidade
Odisseu não sabe qual deus habita o rio, mas isso não importa: ele reconhece que toda força natural possui um poder divino. “Quem quer que sejas, atende-me, ó deus a quem muitos invocam!”
Aqui vemos:
a) Humildade absoluta - O herói, que já enfrentou ciclopes, tempestades e monstros, agora se curva diante de um deus local.
b) Reconhecimento da sacralidade da natureza - Rios, montanhas, mares — tudo é habitado por divindades. Odisseu sabe que só sobreviverá se respeitar esse mundo.
c) A condição do suplicante - Ele se apresenta como alguém que “enlaça os joelhos” do deus — gesto ritual de súplica.
d) A ética da hospitalidade divina - “São veneráveis, até para os deuses eternos, os homens, quando errabundos suplicam…”
Odisseu apela para uma lei universal: o suplicante deve ser protegido, mesmo pelos deuses.
3. A resposta imediata do deus do rio
O rio “susta de pronto” sua corrente e “torna as águas calmas”. Isso revela:
a) A eficácia da súplica - Odisseu é um homem que sabe falar aos deuses. Sua relação com o divino é baseada em respeito e inteligência.b) A oposição ao caos de Posídon - O mar é destruição; o rio é acolhimento. Odisseu passa do domínio hostil de Posídon para o domínio benevolente de outra divindade.
c) A intervenção divina como parte do destino - O Fado exige que Odisseu sobreviva. O deus do rio cumpre essa função.4. A exaustão física do herói
Homero descreve Odisseu com realismo impressionante: pernas e braços vergados, pele intumescida, água saindo da boca e narinas, prostrado no solo, quase sem fôlego. Essa descrição:
a) Humaniza profundamente o herói - Ele não é invencível: é um homem no limite da morte.
b) Reforça a violência da tempestade - Posídon quase o destruiu completamente.
c) Cria contraste com a salvação - Quanto maior o sofrimento, maior o impacto da proteção divina.
5. O gesto ritual: devolver o véu
Quando recupera os sentidos, Odisseu: “desprende depressa o véu sagrado… e o lança no rio.” Esse gesto é essencial:
a) Cumpre a instrução de Ínô-Leucótea - Ela ordenou que o véu fosse devolvido ao mar.
b) Marca o fim da proteção sobrenatural - O véu era um objeto mágico. Ao devolvê-lo, Odisseu volta ao mundo humano.
c) Simboliza gratidão e respeito - Ele não retém o objeto divino para proveito próprio.
6. A recepção do véu por Ínô
“Uma onda grande o levou… de modo que logo Ino nas mãos o recebe.” Isso reforça: a presença contínua da deusa, a ordem cósmica sendo respeitada, a relação harmoniosa entre Odisseu e o mundo divino.
7. O beijo da terra: símbolo máximo do retorno à vida
“entra um juncal e se deita, beijando o terreno fecundo.” Este é um dos gestos mais belos da Odisseia.
a) O beijo da terra é gratidão pela sobrevivência - Depois de quase morrer no mar, tocar a terra é tocar a vida.
b) A terra é o oposto do mar - Mar = caos, morte, imprevisibilidade; Terra = estabilidade, acolhimento, futuro
c) É o primeiro passo rumo à Feácia - Odisseu finalmente alcança o espaço que o conduzirá de volta a Ítaca.
8. Conclusão interpretativa
Este trecho é um dos mais simbólicos do Canto V. Ele representa:
- a vitória da vida sobre a morte,
- a força da súplica e da humildade,
- a benevolência dos deuses menores,
- a passagem do caos para a ordem,
- o renascimento do herói após o sofrimento extremo.
Odisseu, ao beijar a terra, não apenas agradece por sobreviver: ele reafirma sua ligação com o mundo humano, com a mortalidade e com o destino que o conduz de volta ao lar.
Odisseia, de Homero - Canto 5 - Calipso liberta Odisseu
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