A Divina Comédia
Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes
Apresentação
UMA SEMANA ENTRE OS MORTOS
Eugênio Vinci de Moraes¹
UMA OUTRA VIAGEM
Na noite da Sexta-Feira Santa do longínquo ano de 1300 um poeta se vê perdido numa selva escura. Desorientado, vê os primeiros raios da aurora apontarem atrás de uma colina, e a esperança de reencontrar o caminho reacende em seu coração. Mas, ao começar a subida, três feras interrompem sua caminhada: uma onça, um leão e uma loba. Ele recua, desesperançado. Pressente a presença de alguém, “sombra ou homem certo?”, que logo se dirige a ele. É o poeta latino Virgílio, autor da Eneida, que vem em seu socorro e lhe diz para tomar outro rumo, para fazer “outra viagem”. Uma viagem pelos três reinos dos mortos: o Inferno, o Purgatório e o Paraíso.
Daí em diante o leitor os acompanhará pela “cidade dolente”, o “doloroso asilo” onde penam os pecadores; os seguirá pelos íngremes degraus da montanha do Purgatório, onde os convertidos e arrependidos expiam seus pecados; até encontrar Beatriz, que tomará o lugar de Virgílio como guia de Dante pelos céus do último reino, onde estão os beatos que contemplam o sumo bem.
O Inferno é fosco, escuro, malcheiroso, pedregoso, perigoso, quente, gelado, habitado por seres extraordinários, como Minós, cuja longa cauda se retorce para indicar o fosso no qual cada condenado deve sofrer seu castigo; ou como Cérbero, o cão de três cabeças que guarda o círculo onde granizo, água escura e neve caem eternamente sobre os gulosos; ou Gerião, monstro com rosto de homem, corpo de serpente e cauda de escorpião, que representa a fraude. Ainda há uma variada sorte de demônios, incluindo o poderoso Lúcifer, que pena no nono e último círculo, destinado aos traidores.
No Purgatório, novas personagens se apresentam. Elas ajudam os poetas e lhes fazem companhia. São o romano Cipião e o poeta Estácio. O primeiro os orienta na antessala da montanha, e o outro segue com eles até o Paraíso. Se no Inferno os peregrinos caminham num ambiente fétido, sujo e escuro, aqui eles sobem por uma imensa colina composta por degraus, terraços e patamares onde se encontram os homens que cometeram os sete pecados capitais e se arrependeram. Nessas seções, os pecadores vão expiando seus erros com castigos dolorosos, como carregar grandes rochas nas costas, suportar grossas linhas de ferro costurando-lhes as pálpebras, sentir fome e sede sem poder saciar-se, punições que, a despeito da crueldade, não lhes reduzem a esperança de redenção, a qual alcançarão adiante: a ascensão ao Paraíso.
No terceiro e último reino, luz e melodia, alegria e harmonia envolvem toda a viagem. Ali o leitor acompanhará a subida de Dante e Beatriz pelos dez céus ou esferas nas quais vivem, em alegria eterna, figuras como Adão, mártires da Igreja, apóstolos, São Bento, São Domingos, São Tomás de Aquino, São Pedro, Santa Lúcia, a Virgem Maria, personagens do Velho e Novo Testamentos, além de homens notáveis dos mundos pagão e cristão. Imagens fantásticas apresentam-se a eles, como a grande águia formada pelas luzes dos espíritos beatos, a grande rosa mística em cujas pétalas se sentam santos e beatos, e os próprios anjos, como Gabriel, que anunciou a Maria a vinda de Cristo. E Beatriz.
Ao fim desta viagem, que dura sete dias, narrada em cem cantos, com
cerca de catorze mil versos, Dante – autor, narrador e personagem da
Comédia – completa sua viagem pessoal, política e espiritual e reencontra o
verdadeiro caminho.
O AUTOR
A vida e a obra de Dante encontram-se definitivamente entrelaçadas. Boa parte do que se sabe sobre ele vem dos seus próprios escritos e de fontes que se basearam na biografia escrita por Giovanni Boccaccio (1313 1375) e de autores que o seguiram. A data de seu nascimento calcula-se pelo que Dante escreveu em várias passagens de seus textos, somadas e comparadas a outros elementos. Uma das indicações aparece no canto XXII do Paraíso, em que narra ter nascido sob a constelação de Gêmeos: “Ó gloriosa constelação, ó lume impregnado de virtude, do qual reconheço ter recebido todo meu engenho; quando senti pela primeira vez o ar da Toscana, convosco nascia e se punha aquele que é pai de toda vida, e foi por teu zodíaco que me foi concedida a graça de entrar nesta grande esfera que aqui gira”. Para Giorgio Petrocchi é possível estipular que Durante Alighieri (nome de batismo do poeta, Dante é um diminutivo) teria nascido entre 14 de maio e 13 de junho de 1265.
A vida e a obra de Dante encontram-se definitivamente entrelaçadas. Boa parte do que se sabe sobre ele vem dos seus próprios escritos e de fontes que se basearam na biografia escrita por Giovanni Boccaccio (1313 1375) e de autores que o seguiram. A data de seu nascimento calcula-se pelo que Dante escreveu em várias passagens de seus textos, somadas e comparadas a outros elementos. Uma das indicações aparece no canto XXII do Paraíso, em que narra ter nascido sob a constelação de Gêmeos: “Ó gloriosa constelação, ó lume impregnado de virtude, do qual reconheço ter recebido todo meu engenho; quando senti pela primeira vez o ar da Toscana, convosco nascia e se punha aquele que é pai de toda vida, e foi por teu zodíaco que me foi concedida a graça de entrar nesta grande esfera que aqui gira”. Para Giorgio Petrocchi é possível estipular que Durante Alighieri (nome de batismo do poeta, Dante é um diminutivo) teria nascido entre 14 de maio e 13 de junho de 1265.
Filho de Alighiero Alighieri ou Alighiero II ou Alighiero di Bellincione
e de Bela, sua primeira mulher, Dante teve uma irmã que morreu jovem e
mais dois irmãos do segundo casamento do pai. Alighiero II levou fama de
usurário e era um guelfo, facção política toscana partidária do papa. Facção
dividida, por sua vez, entre Negros e Brancos, sendo estes mais moderados
e aqueles mais radicais em relação à extensão do poder papal. Os guelfos se
opunham aos gibelinos, os quais apoiavam o imperador. A questão central
girava, portanto, em torno do alcance do poder do papa e do imperador,
quem devia mandar mais, em suma. Dante se reunirá aos brancos quando
começar na política. (Mais tarde, já no exílio, Dante irá aderir a teses mais
próximas às dos gibelinos, sem, no entanto, juntar-se a eles.)
A divisão entre Brancos e Negros em Florença tomou forma entre as
forças sociais que a compunham: de um lado, estavam os nobres, que
adotaram o partido dos Negros; do outro, os comerciantes e protoburgueses
que ascendiam socialmente na Florença do século XIII, que se filiaram aos
Brancos. Aqueles, mais radicais no que se refere à dotação de poder ao
papa, defendendo a intromissão direta deste nos assuntos do Estado; estes,
embora do lado do papa, propondo um distanciamento maior da Igreja em
relação às questões de Estado.
Aos 35 anos, Dante entrará para política e sairá chamuscado. Ele toma posse como membro no Conselho dos Cem, órgão político que administrava a cidade, em junho de 1300. Nesse cargo se posicionará contra as demandas do papa Bonifácio VIII, figura recorrente na Comédia. O pontífice desejava intervir politicamente em Florença com o apoio do rei francês e dos negros. Por se posicionar contra o papa, Dante irá conhecer “o mais amargo e glorioso exílio de que a história política e cultural se recorda”, nas palavras de Giorgio Petrocchi (1963, p. 15). Ao opor-se ao papa, indispôs-se como os negros, que o expulsaram de Florença ao tomar o poder, em 1302.
Entre as cidades onde Dante viveu no exílio estão Verona e Ravena. Naquela, morou entre 1312 e 1318 sob a proteção do príncipe Cangrande dela Scala, aludido na Comédia no canto XVII do Paraíso, e em Ravena, de 1318 a 1321, sob os cuidados de Guido Novello da Polenta, mencionado indireta e positivamente no círculo dos fraudulentos, seção do Inferno onde Dante conversa com Ulisses.
Quando estava exilado em Verona, Dante empreendeu talvez a sua última ação política relevante. Cada vez mais contrário às teses de um governo teocrático, o poeta florentino aproveita a viagem à Itália do imperador Henrique VII, comandante do Império Sacro-Germânico entre 1310 e 1312, para propor-lhe uma intervenção na Toscana. Antes de encontrá-lo pessoalmente escreve-lhe uma carta apaixonada exortando-o a não permanecer no norte da Itália, mas descer até a Toscana e apear os negros do governo de Florença. Para sua frustração, o rei alemão morre em 1313 em Buonconvento, quando viajava para o reino de Nápoles, no sul da Itália.
Aos 35 anos, Dante entrará para política e sairá chamuscado. Ele toma posse como membro no Conselho dos Cem, órgão político que administrava a cidade, em junho de 1300. Nesse cargo se posicionará contra as demandas do papa Bonifácio VIII, figura recorrente na Comédia. O pontífice desejava intervir politicamente em Florença com o apoio do rei francês e dos negros. Por se posicionar contra o papa, Dante irá conhecer “o mais amargo e glorioso exílio de que a história política e cultural se recorda”, nas palavras de Giorgio Petrocchi (1963, p. 15). Ao opor-se ao papa, indispôs-se como os negros, que o expulsaram de Florença ao tomar o poder, em 1302.
Entre as cidades onde Dante viveu no exílio estão Verona e Ravena. Naquela, morou entre 1312 e 1318 sob a proteção do príncipe Cangrande dela Scala, aludido na Comédia no canto XVII do Paraíso, e em Ravena, de 1318 a 1321, sob os cuidados de Guido Novello da Polenta, mencionado indireta e positivamente no círculo dos fraudulentos, seção do Inferno onde Dante conversa com Ulisses.
Quando estava exilado em Verona, Dante empreendeu talvez a sua última ação política relevante. Cada vez mais contrário às teses de um governo teocrático, o poeta florentino aproveita a viagem à Itália do imperador Henrique VII, comandante do Império Sacro-Germânico entre 1310 e 1312, para propor-lhe uma intervenção na Toscana. Antes de encontrá-lo pessoalmente escreve-lhe uma carta apaixonada exortando-o a não permanecer no norte da Itália, mas descer até a Toscana e apear os negros do governo de Florença. Para sua frustração, o rei alemão morre em 1313 em Buonconvento, quando viajava para o reino de Nápoles, no sul da Itália.
Mais tarde Dante torna-se embaixador de Ravena. No retorno de uma
viagem a Veneza nessa função, contrai malária, que acaba levando-o à
morte em 1321. Seu protetor em Ravena lhe fará um enterro digno,
homenagem que não pôde receber de Florença em vida.
A FORMAÇÃO LITERÁRIA
Dentre os episódios mais conhecidos da vida de Dante está o famoso relato do seu encontro com Beatriz, aos nove anos, narrado em Vida nova: “Desde o meu nascimento, nove vezes o céu de luz havia retornado ao mesmo ponto, em seu giro, quando aos meus olhos surgiu, pela primeira vez, a senhora gloriosa da minha mente, que por muitos foi chamada de Beatriz, mesmo antes de a conhecerem pelo nome” (Pignatari, 2006, p. 18). Sobre esse encontro, não há documento algum além de tal testemunho. Sequer é possível afirmar com certeza que Beatriz tenha existido, mas tudo indica que sim. Seria Beatriz Portinari, filha de Folco Portinari. Nove anos depois do primeiro encontro ele a teria visto na rua e teria sido cumprimentado por ela “tão virtuosamente que, naquela saudação, julguei ver todas as expressões da santidade”. Mas, de concreto mesmo, sabe-se que o poeta casou-se com Gemma Donati dois anos mais tarde, em 1285, e teve três filhos com ela, talvez quatro.
A FORMAÇÃO LITERÁRIA
Dentre os episódios mais conhecidos da vida de Dante está o famoso relato do seu encontro com Beatriz, aos nove anos, narrado em Vida nova: “Desde o meu nascimento, nove vezes o céu de luz havia retornado ao mesmo ponto, em seu giro, quando aos meus olhos surgiu, pela primeira vez, a senhora gloriosa da minha mente, que por muitos foi chamada de Beatriz, mesmo antes de a conhecerem pelo nome” (Pignatari, 2006, p. 18). Sobre esse encontro, não há documento algum além de tal testemunho. Sequer é possível afirmar com certeza que Beatriz tenha existido, mas tudo indica que sim. Seria Beatriz Portinari, filha de Folco Portinari. Nove anos depois do primeiro encontro ele a teria visto na rua e teria sido cumprimentado por ela “tão virtuosamente que, naquela saudação, julguei ver todas as expressões da santidade”. Mas, de concreto mesmo, sabe-se que o poeta casou-se com Gemma Donati dois anos mais tarde, em 1285, e teve três filhos com ela, talvez quatro.
São escassas também as informações sobre seus estudos. Muito
provavelmente foi educado por um tutor, com o qual aprendeu latim, língua
que usou para escrever algumas de suas obras e ler Cícero e Virgílio. Sabe
se que foi aluno de Brunetto Latino, com quem estudou os provençais, os
clássicos de sua época e filosofia medieval. Seu encontro com ele na vala
dos sodomitas, no canto XV do Inferno, corrobora tal suposição.
Além do latim, Dante conheceu outras línguas em Florença, uma cidade
grande para os padrões medievais, com cerca de 100 mil habitantes.
Comuna rica, circulavam por lá franceses, alemães e italianos de todas as
regiões. Uma babel humana e linguística. Os estudos com Brunetto
despertaram-lhe o interesse pela poesia provençal, escola que empregou
pela primeira vez na Europa a língua vulgar em seus poemas. Isso
certamente despertou-lhe o interesse pela língua popular, o italiano, que
acabou empregando na Comédia.
Esses estudos todos somados à sua experiência direta na agitada
Florença do século XIII o fizeram figurar, junto com Guido Cavalcanti,
entre os maiores poetas da Itália. Por volta de 1285, com cerca de vinte
anos, Dante já é um expoente do dolce stil nuovo, escola literária criada em
Bolonha (onde também estudou). O amor era o tema central dessa corrente,
que o entendia como uma forma de sublimação da virtude, identificando-o
com o coração nobre da mulher idealizada, que é percebida como ligação
entre o homem e Deus. (Este sem dúvida é o papel de Beatriz na Comédia,
na qual ela salva Dante da floresta escura, conclama-o a se arrepender no
topo do Purgatório e o guia quase até a sublime visão de Deus.)
Antes de escrever a Comédia, cuja redação começa em 1307, Dante já
produzira várias obras em prosa e verso. Entre 1293 e 1295 escreveu Vida
nova; em latim produziu De vulgari eloquentia (1302-1305), sobre a língua
italiana; em 1307, termina Il convívio, obra de cunho filosófico, e alguns
poemas das Rime petrose. Produziu ao mesmo tempo que compunha a
Comédia e Da Monarquia, que terminou em 1317, e vários poemas e cartas,
escritos em italiano e latim. Nessas obras Dante tratou da sua vida, de sua
lírica, da língua italiana, de filosofia e política. Temas e formas que
aparecerão na Comédia com o mesmo rigor, mas embalados pelos versos
decassílabos (de dez sílabas métricas) organizados em tercetos rimados
(num esquema ABA/ BCB/ CDC e assim por diante) de prodigiosa
regularidade e beleza.
A OBRA
A OBRA
O título dado por Dante a seu poema foi Comédia – pois, ao contrário da
tragédia, o poema acaba bem, ou seja, termina no Paraíso. Comédia porque
mistura os estilos elevado e baixo (cômico) e também por ter sido escrito
em italiano – não em latim, a língua culta da época. O adjetivo “divina”
incorporou-se ao título cerca de três décadas depois de sua morte, graças a
Boccaccio, autor de Decameron, que assim a chamou na sua obra
Trattatello in laude di Dante (Pequeno tratado em louvor a Dante), escrita
no século XIV.
O poema é dividido em três partes – Inferno, Purgatório e Paraíso –, tem
cem cantos (com cerca de 130 versos cada um), distribuídos quase
igualmente entre os três reinos: 34 cantos no Inferno e 33 nos dois últimos.
O Inferno é um abismo em forma de cone escavado pelo corpo do príncipe
dos demônios, Lúcifer, que foi lançado do céu assim que se rebelou contra
Deus. Sua queda não só gerou tal buraco escuro e doloroso, mas também
deslocou imensa massa de terra que formou a montanha do Purgatório no
hemisfério oposto. Elevação altíssima onde penam os arrependidos, em seu
cume está o Paraíso Terrestre, ou Éden, região próxima das dez esferas
celestes que compõem o Paraíso. Este é um reino de luz e som harmônicos,
cujas esferas ou céus giram à força do Primeiro Motor, a nona esfera. Na
última, no Empíreo, emana a luz de Deus. Essa organização do mundo
corresponde às concepções cosmológicas medievais, elaboradas à época de
Dante com base nas concepções de Aristóteles e Ptolomeu. Segundo esse
modelo cosmológico, a Terra estava no centro do universo e nove céus
circulavam à sua volta (Aristóteles dizia serem sete) sustentando os
planetas, incluindo o sol, que só bem mais tarde viria a ser pensado como
uma estrela.
Os modelos literários de Dante remontam à literatura latina, sobretudo a
Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), autor da Eneida, e Lucano (39-65), autor da
Farsália, além de Estácio (c. 45-95), autor da Tebaida, e outros poetas; às
passagens bíblicas do Novo e do Antigo Testamento; às visões alegóricas da
literatura religiosa medieval; e em especial ao Livro da escada de Maomé,
da literatura árabe, que narra a ascensão do profeta muçulmano ao céu. Em
relação aos versos, a poesia provençal e o círculo dos poetas sicilianos são
as fontes que calibram seus tercetos. Todos esses autores o leitor encontrará
na Comédia. Para o contemporâneo de Dante, a visão do mundo dos mortos
era um motivo recorrente na cultura da época. Hoje diríamos, talvez,
verossímil.
Dante precisou de dezessete anos para escrevê-la. Acabou de redigir o
Inferno em 1308. Precisou de mais quatro anos para escrever o Purgatório.
Antes de começar o Paraíso, fez uma revisão do que já redigira por volta de
1315, e em 1316 inicia o Paraíso, cujas últimas linhas escreveu no ano de
sua morte. Cópias dela passaram a circular pela Toscana desde 1316, o que
fez com que se tornasse, assim, conhecida nos círculos literários da época
quando Dante ainda vivia. Quando as cópias do Paraíso se juntaram às
outras, completando o poema, ele se tornou famoso em toda a Itália. A
história da recepção da Comédia é marcada por idas e vindas. No
Renascimento, foi admirada por Michelangelo, mas menosprezada pelos
humanistas, sentimento que recebeu também durante o barroco tardio e que
assim chegou ao iluminismo (Voltaire foi um de seus principais detratores).
A corrente que o resgatou foi sem dúvida o romantismo. No século XVIII a
admiração recaía principalmente sobre o Inferno, reino que tem marcado a
imagem da obra e está por trás do adjetivo “dantesco” usado até hoje; os
góticos estão entre os que legaram a imagem do grotesco da Comédia no
Ocidente. Entre os alemães, August W. Schlegel (1767-1845) chegou a
traduzir parte do Inferno e Hegel (1770-1831) estendeu a recepção da
Comédia para os outros dois cânticos, elaborando uma visão geral da obra.
Na passagem do século XVIII para o XIX, a recepção toma impulso
também na Inglaterra, sendo o poema admirado por William Blake, e depois
por Coleridge e Wordsworth; T.S. Eliot, já no início do século XX, elege
Dante como um de seus poetas prediletos. Escritores da “periferia” como
Gogol, Sousândrade, Machado de Assis, Ricardo Piglia e Jorge Luis Borges
foram seus admiradores, mostrando assim a amplitude da obra do italiano e
sua consolidação no cânone da literatura ocidental.
A recepção da Comédia hoje pode ser medida pelas várias adaptações
que vem recebendo, desde best-sellers até versões em quadrinhos, filmes e
videogames. São releituras que de alguma forma ecoam a recepção
romântica, centrando-se no Inferno, como no jogo Dante’s Inferno, no livro
Inferno, de Dan Brown, entre outros. Sem avaliar a qualidade dessas
versões, o fato de existirem já é uma boa razão para ler a obra toda,
conhecer o que este clássico tem a ponto de ser recriado de tantas formas
quase setecentos anos depois de escrito. Outra razão talvez seja vivenciar a
história de alguém que se perdeu, testemunhou as piores experiências
humanas, viu como a esperança de salvação faz o homem suportar os mais
cruéis sofrimentos e comprovou com os próprios olhos a alegria daqueles
que chegaram à plena felicidade. Tudo isso num outro mundo, no mundo
dos mortos, espelho e alegoria do nosso.
SOBRE A TRADUÇÃO
Há alguns pares de anos ouvi falar da versão em prosa de Hernâni
Donato (Cultrix, 1965) de A divina comédia em uma aula de literatura
brasileira na Universidade de São Paulo. O professor conhecia muitíssimo
bem o italiano e indicara essa obra para quem quisesse iniciar sua viagem
nela.
Uma tradução em prosa de uma obra em versos serve como porta de
entrada para a leitura do original, ou seja, um primeiro passo para um
público menos familiarizado com o texto clássico. Donato diz em seu
prefácio que a “intenção que presidiu à tarefa de traduzir foi a de tornar
Dante mais facilmente compreensível ao leitor comum”. Embora esse
propósito esteja por trás deste trabalho, creio que a prosa sirva neste caso
também para preparar o leitor, de modo que ele possa, ao encarar a versão
em versos, fruí-la melhor, uma vez que as passagens principais,
personagens, situações já não são novidade para ele.
Mas uma versão em prosa não resolve todos os obstáculos para a
compreensão desta obra no que se refere ao entendimento de seu conteúdo,
da sua história. Os distanciamentos histórico e literário não desaparecem na
tradução em prosa; basta ver a quantidade de notas necessárias para ajudar
o leitor a compreendê-la. Não é possível elucidar sem notas de rodapé o
complicado jogo político da Itália dos séculos XIII e XIV. Elas são
imprescindíveis neste caso. O que a prosa traz é a clareza dada pela ordem
sintática mais linear e mais articulada que a dos versos. Sem contar, além
disso, que a prosa é mais próxima do gênero épico do que do lírico. Aquele
gênero, que está na origem do romance, narra uma história, ao passo que
este expressa uma aproximação maior entre o eu lírico e o mundo, de modo
que elementos como tempo e espaço perdem sua dimensão usual, por
exemplo. Evidente que há passagens líricas na Comédia, como os trechos
do canto V do Inferno ou os belíssimos versos do último canto do Paraíso,
mas a narrativa épica é predominante na obra.
Outro fator que favorece uma tradução em prosa é o estilo de Dante.
Seus versos são menos retorcidos do que muitas traduções deixaram
transparecer ao leitor brasileiro. Há tercetos que podem ser vertidos na
nossa ordem direta, pois assim estão no original. O hábito de inverter sua
ordem deve-se a uma arraigada tradição beletrista nacional. Augusto de
Campos chamou atenção para isso quando comentou a versão de Machado
de Assis do canto XXV do Inferno, no prefácio às suas belas traduções de
Dante, em Invenção – de Arnaut e Raimbaut a Dante e Cavalcanti: “Pecado
muito frequente e às vezes inevitável é o do torcicolo das frases, do arrocho
das indesejáveis inversões que o ouvido dos brasileiros está cansado de
desentender desde as margens plácidas do nosso Ipiranga, mas que aqui
desmoronam inevitavelmente quando confrontadas com a linguagem dúctil
e fluente da Divina comédia”. Procurou-se, portanto, sempre que possível,
traduzir os tercetos em ordem direta ou pelo menos sem os torcicolos
mencionados por Campos.
Contudo, não há como escapar de um problema neste caso. Uma
tradução, mesmo em prosa, tem de procurar preservar a força poética a
despeito da mudança da forma de expressão. Se não o fizer, corre o risco de
constituir uma anódina e escolar paráfrase. Anódina, pois transformaria
todas as dificuldades e incríveis invenções poéticas em sentenças pedestres.
Escolar, porque lembraria a série de paráfrases da obra realizadas por
estudantes italianos que ainda as praticam em sala de aula, nas quais
procura-se explicar e até solucionar passagens mais complexas ou até
obscuras acrescentando termos, sentenças, informações que não existem na
obra original.
Aqui se fez uma tradução em prosa, não uma paráfrase. Ou seja, procurou-se fazer, como escreveu Donato, “um esforço especial no sentido de não sacrificar aquele intraduzível ‘quê’ existente na poesia da Comédia”. Nesse sentido, as inumeráveis menções indiretas – seja por antonomásias, metáforas, metonímias – a personagens, cidades, entidades mitológicas, constelações, entre outros, foram mantidas, com uma ou outra exceção, empregada ou para diminuir a elaboração de notas de determinada passagem ou para dar mais fluência a este ou aquele trecho.
Aqui se fez uma tradução em prosa, não uma paráfrase. Ou seja, procurou-se fazer, como escreveu Donato, “um esforço especial no sentido de não sacrificar aquele intraduzível ‘quê’ existente na poesia da Comédia”. Nesse sentido, as inumeráveis menções indiretas – seja por antonomásias, metáforas, metonímias – a personagens, cidades, entidades mitológicas, constelações, entre outros, foram mantidas, com uma ou outra exceção, empregada ou para diminuir a elaboração de notas de determinada passagem ou para dar mais fluência a este ou aquele trecho.
O original utilizado foi a versão de Giorgio Petrocchi – Dante Alighieri
La Commedia secondo l’antica vulgata –, cujo trabalho de estabelecimento
do texto é reconhecido como o mais criterioso atualmente. Em italiano
usaram-se também a edição de Italo Borzi, Dante, Tutte Le opere, da
Newton Compton (1997), que serviu sobretudo para o estabelecimento das
notas, e as organizadas por Umberto Bosco (2001) e Lodovico Magugliani
(1949), que também foram úteis para confrontos e redação de trechos e
notas.
Para cotejar, tirar dúvidas, buscar inspirações e citar, foram consultadas
as traduções integrais em português e em verso de J.A. Xavier Pinheiro (A
divina comédia, 1918), de Cristiano Martins (5
Eugênio Mauro (8
a edição, 1989) e de Ítalo
a reimp., 2001), além da tradução do Inferno, de Jorge
Wanderley (2004). Também foram consultadas e citadas as traduções de
poetas e escritores brasileiros que verteram alguns cantos da Comédia:
Machado de Assis, Dante Milano, Mário de Andrade, Augusto de Campos e
Haroldo de Campos. Em algumas passagens, soluções desses tradutores e
escritores foram citadas integralmente como homenagem a seus trabalhos e
como forma de mostrar ao leitor que existe no Brasil desde o século XIX
uma recepção importante dessa obra.
É possível reconhecer dois tipos de tradutores da Comédia: os que
enfrentaram a dura tarefa de traduzir em versos integralmente o poema
dantesco e os que optaram por verter apenas alguns cantos. Aqueles
realizaram a proeza de verter tudo, o que nem sempre é fácil, como
aconteceu com Jorge Wanderlei, que morreu antes de terminar seu projeto
(só acabou o Inferno); estes últimos – como Machado de Assis, Dante
Milano e os irmãos Campos – conseguem outro tipo de proeza: uma beleza
muito similar à dos versos de Dante.
Essa homenagem de certa forma ecoa um procedimento comum entre os
épicos, o de citar ou traduzir versos de seus antecessores. Dante faz isso
várias vezes com passagens de obras de Virgílio, por exemplo. Todos
sabemos que o início dos Lusíadas ecoa o da Eneida. A diferença é que
nesta edição damos os créditos, algo próprio da nossa era pós-romântica.
Não são muitas passagens, mas o bastante para ilustrar essa tradição.
As traduções dos livros da Bíblia usadas aqui foram retiradas da edição
da Bíblia de Jerusalém (1985), e da Eneida usamos as versões da Manuel
Odorico Mendes e de Tassilo Orpheu Spalding.
Por fim, agradeço especialmente à editora Caroline Chang, que me deu a
oportunidade de realizar este projeto e foi bastante paciente com meu ritmo
de tradução, bem abaixo do que ela esperava.
continua na página... 20
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A Divina Comédia
Apresentação
Canto I /
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[1] Eugênio Vinci de Moraes é bacharel em Língua e Literatura Portuguesa e Italiana, e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, com uma tese intitulada A Tijuca e o Pântano. A Divina comédia na obra de Machado de Assis entre 1870 e 1881. É professor do Centro Universitário Uninter (UNINTER-PR). Traduziu, entre outras obras, A arte da guerra, de Maquiavel (L&PM Editores), e As novelas de Pescara, de Gabriele D'Annunzio (Berlendis&Vertecchia).
Literatura Fundamental 01 - Divina Comédia - Pedro Heise
[1] Eugênio Vinci de Moraes é bacharel em Língua e Literatura Portuguesa e Italiana, e doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo, com uma tese intitulada A Tijuca e o Pântano. A Divina comédia na obra de Machado de Assis entre 1870 e 1881. É professor do Centro Universitário Uninter (UNINTER-PR). Traduziu, entre outras obras, A arte da guerra, de Maquiavel (L&PM Editores), e As novelas de Pescara, de Gabriele D'Annunzio (Berlendis&Vertecchia).
Literatura Fundamental 01 - Divina Comédia - Pedro Heise
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