quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Mexendo comigo, mexendo em mim...


Ensaio 10
baitasar

Cada um descarrega o seu deserto onde lhe for possível, onde lhe deixam. Escrever neste deserto não é mais complicado que antes do deserto existir, continua um exercício de juntar e desjuntar, e separar, e copiar, e pontuar, e desfazer amigos. Um caminho lento e gradual, para uns, uma latência que se transforma em borboleta, para outros, bem menos em quantidade, um desespero que destrói com tudo, derruba as pedras, esmaga a lagarta, uma latência de ocultação e revelação, aí vêm os inimigos, com seus elogios fanáticos, esquisitos, fugazes. E os amigos insatisfatórios que fazem caso, se importam, mas não dão confiança, não bebem junto, não fumam junto, não morrem de overdose junto, preferem - que bom! – envelhecer na segurança dos seus apartamentos de cobertura, com seus jardins suspensos de frente para o pôr do sol, com suas cores bem definidas da vida, mesmo que seja uma beleza insuficiente, estreita para tanto desespero. Esqueceram o sabor do cafezinho antes do nascer do sol, não lembram do silêncio do sono da rua. E os que morrem junto, não têm importância, são parceiros no desvendamento do mistério, tornam-se criminosos da frouxeza, descobrindo um pouco mais a cada capricho, a cada zanga, a cada perdão, a cada desespero, perdendo o medo da revelação. Deus é um fora-da-lei com outras leis, para esses que morrem de overdose, não querem lutar pelos mesmos vícios do pai — Enquanto houver miséria não posso dizer que Deus é bom!
—        Por que Deus? Por que não deixar só na conta dos homens? — olha para o pai dormindo, desgruda algumas remelas do olho, recobra o viço, ele não quer acordar se não for sonhando com a cana, o feijão, a abóbora, o arroz, o milho; quando adoece fica mais forte, o espírito dança até ficar alegre, parece tudo tão natural para o pai — Viver é simples, meu filho, porque o Pai, o Filho e o Espírito, reunidos num só, são a imagem e semelhança da tua paz.
O amor não lhe chega, e quando chega, aparece e desaparece. Abre bem a boca, enfia os dedos, espicha a língua, os olhos latejam, está de joelhos rezando - quando o medo aperta sempre ajoelha - o suor e as lágrimas escorrendo pela pança, esse não é um sonho de amor, é um pesadelo que não lhe desgruda, não é cinema. Tinha a mulherada - pelo menos até o dinheiro acabar - do cabaré, mulherada bonita, mulher feia no puteiro é pra quem não tem dinheiro, não tem nada — As coisas são nossos donos, eu não sou louco... fui feito louco.
Mergulha os olhos entre as colunas, agora descansadas de sustentar a sua amada, uma mulher qualquer, essas vagabundas destilam mirra preciosa, esfolam com as correntes das águas, lavadas no leite dos lírios gotejando, era encantado por aquela mirra preciosa, doce, desejável — A quem importa o que eu sou, se sou a sua amada é o que importa, vem e desce aos canteiros de bálsamo, para pastorear nos meus jardins, colher os lírios derramados, mas antes de sair deixa algumas moedas.
Implora que a amada desvie os olhos dele porque aqueles olhos o perturbam — Sinto vergonha, não, são os teus dentes brancos que brilham através do véu, não, são os meneios dos teus quadris, não, é a taça do teu umbigo redondo, não, são os lírios, a mirra preciosa, os teus dois seios, a torre de marfim do teu pescoço, os teus olhos, o teu nariz, a tua cabeça, a tua cabeleira, estou preso em tuas tranças, estou afogando.
Não quer ser de ninguém, nem dele mesmo, mas tem saudades da mão esquerda da mulher debaixo da sua cabeça, a sua direita despertando o amor, até que este a queira, uma torre de marfim mirando o vale florescendo com ervas aromáticas, canteiros de bálsamos, e os lírios gotejando a mirra preciosa, a súplica que lhe dói. Sente a saudade que nunca quis ter, o medo de se entregar pelo medo da saudade, fecha os olhos aos seus sussurros — É assim que te quero: com gosto de sal e cheiro de terra, quente, penetrante... em mim, exatamente assim, te mostrando, te enfiando, bem assim que te quero, profundo, andando sem roupa pelo meu jardim de mirra, exatamente assim, mexendo comigo, mexendo em mim...
Adelaide e Sèzar acomodavam os costumes com as maneiras das suas vidas, depois dos dias de chuva o céu trás os dias de sol, seja lá o que isso signifique. Estavam na cama, ela recostada nos travesseiros, nua... lendo os remendos que o corpo do Sèzar lhe deixava para ajuntar, passeava as mãos no ar, imaginava o que poderia ter feito, o que não queria ter feito — Eu não deveria ter deixado...
Deixou e fez dele sua sela.
Moravam em uma caverna desassombrada do cotidiano, estavam ausentes das coisas simples, viviam dos encontros do acaso até que parecessem os mais importantes da vida inteira, mas só é possível quando for de verdade e sem nenhuma chance de sentir medo porque criaram asas, e voam em direção à liberdade do sonho — Onde está o endereço da felicidade? Não está neste quarto, é tudo tão provisório, apesar dos anos que emprestamos o quarto para nós.
Ela se gosta nua com esse homem, mas tem medo que tenha chegado tarde à vida, entristece, não sabe se sobrou algo — Nunca mais volto aqui.
(Estou acompanhando com ternura o teu desapego de mim, Adelaide – anotação do Sèzar).
Tenho vontade de lhe chamar a atenção por seu comportamento de covardia, embriagado com as teias do tédio que arrastou à alcova. Fugindo do cotidiano de esperanças com a saia de Adelaide — A mulher da minha vida.
(Você não quer desapegar de mim – anotação do Sèzar)
Esse covarde a obriga para esse endereço de tédio, onde o leito se assemelha a uma tumba alugada — É possível querer andar de costas para frente. — assim, já pronto para partir, Sèzar escapa das mãos para outros lugares, de costas, com muitas dores, ele diz, enquanto ela espera em seu sensual monólogo de amor. Esperar pode desandar um vício.
(O vício de fumar – anotação de Sèzar)
Volta para a cama, deitada com a cabeça nua de orgulhos inúteis, enrolada em Sèzar, aguçada em sua barba espetada, as pernas gemendo — Oh, como és formosa, minha amada, como és formosa! O teu falar de amor é doce, tens o meu coração em tuas mãos. — o homem assente a vontade da mulher se estiver atento à mulher.
(Não quero despegar de você – anotação do Sèzar – deixo o peso do meu corpo assentar-se na vontade da mulher, me chamas com os olhares do apego e fecha os olhos, fico perdido, leva o dedo até os lábios e me avisa para ficar calado, não precisamos das palavras. O teu convite é aceito – essa anotação dentro da anotação é coerente, ele tem medo das palavras que são ditas e não têm conserto, permanecem asfixiadas na memória - com a mão esquerda embaixo da tua nuca, enfio os dedos em teus cabelos, e com a direita vou despertando o teu amor até que tu me queiras. — Adoro, exatamente assim, mexendo comigo, mexendo em mim...)
Estavam na cama, ele recostado nos travesseiros, desvestido de macho... escrevendo sobre as pernas, a luz da pantalha mostrando as sombras da Adelaide dormindo
(As tais leituras que tenho esclarecidas no pensamento não são mais importantes que as outras leituras do inconsciente, as duas formam o meu caráter humano de maneira solidária, mas já não sei se o que escrevo é uma invenção minha ou se eu sou já, agora, uma invenção do que li, estou lendo e ainda vou ler – escolho os livros e vou me inventando, escolhes o livro e vais me inventando. Talvez, eu não consiga ser uma invenção nova nem de mim mesmo, mas um resumo de tudo que tenha se aproximado e ficado ao alcance do gosto possível de sentir sem a boca – o gosto da memória - ou do perfume empoeirado de livros esquecidos em estantes solitárias, abandonados de leitura. A Academia recita as normas das boas maneiras, tento ser justo com as boas maneiras, mas não sou um homem comportado. Minha esperança é o resumo dos autores que li, sobre a vida e sobre assassinatos da vida, sobre a grosseria e a leveza do humano envolvido com as suas humanidades, até que alguma coisa aconteça. Mas de tudo isso eu sei: eu sou um resumo de você em mim.)

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Leia também: 
Ensaio 09 - Golos e Cânticos com mirra e incenso 
Ensaio 11 - Um sarau na piscina

Edgar Allan Poe

Contos de imaginação e mistério


Poe, Edgar Allan, 1809-1849. Contos de imaginação e mistério / Edgar Allan Poe ; prefácio de Charles Baudelaire ; tradução de Cássio de Arantes Leite. -- São Paulo : Tordesilhas, 2012.

Primeiro se deliciar com o prefácio de Charles Baudelaire ( o mesmo poeta francês que publicou As Flores do Mal, em 1857), depois ir se enfeitiçando com a estranheza dos contos de Allan Poe e as gravuras de Harry Clarke, edição de 1919.










O que fizemos com nossos filhos?

AC/DC

São 4 horas d'manhã and AC/DC - For those about to rock está tocando na biblioteca.

Eu e Sândhya estamos ouvindo, escutando (eu estou enxergando).

Ela comprou o LP.

Estou pensando que os meus heróis envelheceram todos...

Então, ela me fez a pergunta

"Pai, esse disco tem dois lados?"

Foi quando me perguntei "O que fizemos com nossos filhos?"

Escondemos o LP... coitadinhos... cresceram acreditando em cd...




Terminou o lado A...

"Pai, posso trocar o lado?" (Claro!)

"Como é que faz? Esse bracinho tinha que ter pra canhoto..."

"Qual o nome disso?" (Agulha!)

Tudo isso porque aos 18 anos comprou o seu primeiro LP...





Não tem preço redescobrir o toca-disco... às 4 e tantas d'manhã... com a minha filha.

We Salute You

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Dor de cotovelo: eitaeita... essa é uma história muito complicada

Lupicínio Rodrigues


Esses moços




Esses Moços
Lupicínio Rodrigues


Esses moços, pobres moços
Ah! Se soubessem o que eu sei
Não amavam, não passavam
Aquilo que já passei
Por meu olhos, por meus sonhos
Por meu sangue, tudo enfim
É que peço
A esses moços
Que acreditem em mim

Se eles julgam que há um lindo futuro
Só o amor nesta vida conduz
Saibam que deixam o céu por ser escuro
E vão ao inferno à procura de luz
Eu também tive nos meus belos dias
Essa mania e muito me custou
Pois só as mágoas que trago hoje em dia
E estas rugas o amor me deixou

Esses moços, pobres moços
Ah! Se soubessem o que eu sei
Não amavam, não passavam
Aquilo que já passei
Por meu olhos, por meus sonhos
Por meu sangue ,tudo enfim
É que peço
A esses moços
Que acreditem em mim

Composição: Lupicínio Rodrigues


Nervos de aço



Nervos de Aço
Lupicínio Rodrigues


Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor,
Nos braços de um tipo qualquer?

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço,
Que nem um pedaço do seu pode ser?

Há pessoas de nervos de aço,
Sem sangue nas veias e sem coração,
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação.

Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, é despeito, amizade ou horror.
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor.

Composição: Lupicínio Rodrigues


Vingança



Vingança
Lupicínio Rodrigues


Eu gostei tanto,
Tanto quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar,
E que quando os amigos do peito
Por mim perguntaram
Um soluço cortou sua voz,
Não lhe deixou falar.

Eu gostei tanto,
Tanto, quando me contaram
Que tive mesmo de fazer esforço
Prá ninguém notar.
O remorso talvez seja a causa
Do seu desespero
Ela deve estar bem consciente
Do que praticou,
Me fazer passar tanta vergonha
Com um companheiro

E a vergonha
É a herança maior que meu pai me deixou;
Mas, enquanto houver força em meu peito
Eu nao quero mais nada
Só vingança, vingança, vingança
Aos santos clamar
Ela há de rolar como as pedras
Que rolam na estrada
Sem ter nunca um cantinho de seu
Pra poder descansar

Composição: Lupicínio Rodrigues


Loucura



Loucura
Lupicínio Rodrigues


E aí
Eu comecei a cometer loucura
Era um verdadeiro inferno
Uma tortura
O que eu sofria
Por aquele amor
Milhões de diabinhos martelando
O meu pobre coração que agonizando
Já não podia mais de tanta dor
E aí
Eu comecei a cantar verso triste
O mesmo verso que até hoje existe
Na boca triste de algum sofredor
Como é que existe alguém
Que ainda tem coragem de dizer
Que os meus versos não contêm mensagem
São palavras frias, sem nenhum valor
Oh! Deus, será que o senhor não está vendo isso
Então, porque é que o senhor mandou Cristo
Aqui na terra para semear amor
E quando se tem alguém
Que ama de verdade
Serve de riso pra humanidade
É um covarde, um fraco, um sonhador
Se é que hoje tudo está tão diferente
Porque não deixa eu mostrar a essa gente
Que ainda existe o verdadeiro amor
Faça ela voltar de novo pro meu lado
Eu me sujeito a ser sacrificado
Salve seu mundo com minha dor

Cadeira Vazia ( Lupicinio Rodrigues )
Nervos de Aço ( Lupicinio Rodrigues )



Cadeira Vazia
Lupicínio Rodrigues


Entra, meu amor, fica à vontade
E diz com sinceridade o que desejas de mim
Entra, podes entrar, a casa é tua
Já que cansaste de viver na rua
E os teus sonhos chegaram ao fim

Eu sofri demais quando partiste
Passei tantas horas triste
Que nem quero lembrar esse dia
Mas de uma coisa podes ter certeza
O teu lugar aqui na minha mesa
Tua cadeira ainda está vazia

Tu és a filha pródiga que volta
Procurando em minha porta
O que o mundo não te deu
E faz de conta que sou teu paizinho
Que tanto tempo aqui ficou sozinho
A esperar por um carinho teu

Voltaste, estás bem, estou contente
Mas me encontraste muito diferente
Vou te falar de todo coração
Eu não te darei carinho nem afeto
Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto
Pra te alimentar, podes comer meu pão.

Composição: Lupicínio Rodrigues e Alcides Gonçalves


Pout pourri (Programa "Sambão" - 1973)



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Sementes germinantes

Parábolas e pedagogia

Ensaio

I
baitasar
Uma tarde perfeita, viver uma vida perfeita, outra terça-feira, mas em outro lugar
—        Com licença, peço desculpas pelo atraso. — é o Paulo que se anuncia num atraso, interrompendo a reunião. — Estava fazendo a releitura de um texto com alguns alunos, o tempo foi passando na sua medida, mas enfim, cheguei atrasado para a reunião.
O professor Paulo é possuidor de um carisma muito grande, entre todos, que de alguma maneira, ou por alguma razão, privam da sua palavra e suas reflexões sobre educação. Começa por ser um velhinho de cabelos brancos e longos, um andar calmo e curtinho como se não tivesse pressa em chegar, o que parece lhe interessar é o percurso e o caminho percorrido. Sua voz é tranqüila e clara, não deixa dúvidas sobre a sua intenção ao falar, seus olhinhos parecem sempre em busca de tudo que possa ser visto e aprendido na intenção de unir a ação com o pensamento — Parabéns, professor! Já é muito difícil uma leitura de frases com estes alunos, imagine uma releitura, chamo a isto de magia, o máximo da bruxaria nos dias de hoje. Enfim, temos o nosso mago!
Observo a enferma Ofélia, não é possível que fique calada frente a tamanho disparate! Busco com o olhar o professor do corredor. Não está! Como o necessito. Deus havia sido a minha mais importante carência, mas a ele necessito mais que a Deus. Não é possível que fique calada, sempre acreditei na possibilidade de construção de uma escola diferente, voltada para as práticas da conscientização, da inclusão, da autonomia, da participação, da auto-organização, da libertação, da alegria, da cidadania. Enfim, a construção de uma escola verdadeiramente democrática. Deixo Paulo e Marko sozinhos... Calei e não encontro resposta — Professora Ofélia, então é verdadeira a lenda que comenta ser uma escola vazia, sem suas crianças, um imenso casarão mal-assombrado, onde só ficam as bruxas!
Eis uma reunião que promete, a Lia mostra sua capacidade de combate na ironia que brinca com o deboche, tudo é dito sem ingenuidade. Eis as manobras das forças reacionárias e progressistas durante o combate ou na iminência dele, se posicionam, medem as forças, granjeiam aliados, agrupam-se. Não existe lirismo neste combater nem sangramentos aparentes, as conseqüências estão depositadas no fazer ou deixar de fazer nas aulas, os seus efeitos se concretizam nas maneiras de ensinar arrogante para alguém ou nos desejos humildes de aprender junto
—        Querida professora, a mim parece importante chamar a atenção para quantas e quantas vezes sucumbimos frente a falas destrutivas e desesperançadas, que nos fragmentam e nos implodem em pequeninos pedaços voadores, transformando em poeira nossas tentativas íntimas. Nas muitas e mais tantas oportunidades em que isto acontece, não o sabemos se ocorre por intenção deliberada ou por não sabermos pensar e sentir diferente. Guardamos silêncio para o enfrentamento final quando o bem vencerá definitivamente o mal. Eis o imobilismo na crença que haverá somente um embate e que todos os desgastes dos afrontamentos anteriores se dão sem razão. Ao assumir uma posição critica e não lírica deixamos de assumir os defeitos e dificuldades dos outros para estabelecer parcerias razoáveis de comprometimento com a esperança, dentro de uma práxis libertadora do outro em mim que retorna ao outro que está fora de mim.
Não há fadas ou benfeitores, todos e todas nós precisamos caminhar com as próprias pernas, errando ou acertando, mas nos basta - por agora - o movimento. Parando vez que outra para estabelecer diálogos íntimos, produzindo alguns enfrentamentos pessoais, fixando regras de ação e deixando o coração livre para voar os maiores e melhores sentimentos da esperança, não se deixar vencer pela insônia do medo e ficar escondido. Levantar da cômoda cadeira e retirar o disco do toca-disco, virar o vinil e tocar o lado B, movimento e reflexão, quanta sonoridade no vinil, nem tudo que é novo supera em qualidade o antigo — Não se opta pelo novo apenas como conseqüência da novidade, decide-se pelo novo através da reflexão que temos do velho e do desejo de fazer nascer diferente do antigo.
—        Concordo, Lia, aquilo que é novo, a notícia ou a colheita, não nos embaraça tanto, quanto o novo que chega pelas idéias de fazer diferente. Não se diz querer o novo das ideias por astúcia ou ingenuidade, pois tanto uma como a outra farão da novidade mentiras diárias. Cresceremos com as ideias do novo fazer e pensar, na discussão permanente entre mim e o eu, entre o eu e o nós, entre o nós e o todo, entre o todo e o que repito que é meu, pois sempre retorno ao início que sou eu. Minha dor não é nova, mas meu sorriso está diferente. Estou refletido em mim mesmo, clareando e esclarecendo minhas próprias perguntas - Sou astuto, ingênuo ou progressista? - por ora, já me basta responder por está investigação, permanentemente atento, mesmo que sofrendo muito com o esforço, mas em movimento.
Fico animada e acrescento que superando estes papéis mágicos e autoritários, precisamos de novos olhares sobre o nosso quê fazer na escola, sacudindo a poeira do tempo e descobrindo aos poucos um novo eu que já existia, permanecia escondido pela poeira da imperturbabilidade ingênua ou solércia medrosa. — Professor, por favor, sente-se. Vamos continuar.
O professor Paulo senta-se calmamente na fórmica verde e menos dura e menos fria da sua cadeira pedagógica, se eu pudesse acabaria com a pedagogia. Pior que a possibilidade de matar as pessoas, é a maneira como transforma todos em bonecos de pau — Calma, Anita... isso é apenas parte da contenda, não é traição.
Sinceramente não sei se a pedagogia é uma traição - ou seu uso ou desuso – mas sua intencionalidade desvela as diferentes concepções de mundo que cada pedagogo carrega consigo... — Anita, por acaso somos pedagogos.
—        Por acaso ou por intenção? O que é ser um pedagogo? Qual seu objeto de estudo? O que é afinal a pedagogia? Uma ciência pensada para dar conta de muitas ciências dentro de uma instituição chamada escola? Aí começa o emaranhado, o lio, Como podemos dar conta de todo o saber científico para ensiná-lo na escola? Criamos os programas, os conteúdos, os métodos, as estratégias...
—        Eis o começo da traição aos miseráveis. — olho para o professor Paulo.
Sei, que através dos tempos, de acordo com os diferentes momentos históricos, tivemos construções importantes no campo da pedagogia no sentido de transformar as práticas coercitivas, disciplinadoras, autoritárias. Lembro de citar Gramsci com sua pedagogia crítica, Frenet com a escola nova, Makarenko com a pedagogia socialista, Paulo Freire com a pedagogia libertadora. Outros de agora, outros que virão, mas me interessa perguntar: — Eles foram traidores?
—        Foram traídos... — me responde o professor do corredor — O que pensas deles? — tento envolvê-lo nessa nossa pequena peça de oratória
—        Todos eles pensaram uma nova escola a partir da utopia da construção de sociedade baseada em princípios solidários, onde a pedagogia estaria a serviço da construção desse ideário... — minha provocação está aceita — O que deu errado?
—        Olhamos para o mundo, mas basta olhar para a África, América Latina, veremos a fome, as favelas, as desigualdades extremas e, talvez, tenhamos alguma resposta. As pessoas não estão preocupadas com justiça social, estão treinando recursos humanos nas grandes corporações, amestradores de mentes e adestradoras de corações.
—        Mas que feio, o professor generalizar tanto assim... — a Ofélia não vai nos afastar da discussão com suas provocações. Não deixo que ele se aparte da discussão
—        O que deu certo?
O professor do corredor para e responde com outra pergunta
—        Ou o que poderá dar certo? Uma pedagogia da esperança? Uma pedagogia do possível? O que é possível fazer em uma sociedade onde se duvida da possibilidade de pensar em solidariedade e, principalmente, como construir os conceitos de justiça e ética numa sociedade dominada pelo consumismo e individualismo?
Concordo, mas não basta fazermos a leitura da realidade e dos saberes existentes em determinada comunidade — Até onde precisamos ir?
—        Ao céu e inferno, precisamos compreender como quem interpreta a sua própria realidade, não há outra saída, creio, a qual não seja estar junto das pessoas mais humildes, falar, escutar, dialogar, aceitar, meter a colher, mudar nosso modo de vê-los, deixar que nos ensinem e nos toquem. Fazer, não para teorizar em cima, com relatos em seminários, mas para mudar a nossa vida. Pensando assim a pedagogia não é uma traição, é uma ferramenta de mudança, desde que assim o façamos, ou melhor, desde que assim a entendemos, mas tudo isso exige disciplina e método dialético, com toda certeza.
—        O abismo nos espera, professor?
—        E nós, a quem esperamos? Um cavaleiro inexistente, o último voo do flamingo...
—        Quem sabe...
Paro meus devaneios.