A Divina Comédia
Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes
INFERNO
Canto IV (Prosa)
Dante desperta e se vê no Limbo, o primeiro círculo do Inferno. Ali, se
encontram as almas das crianças, mulheres e homens que morreram
sem batismo ou que viveram antes de Cristo. Entre eles o próprio Virgílio.
As almas ali não sofrem castigos dolorosos, mas suspiram por desejarem a
Deus e jamais serem ouvidas por ele. Dante pergunta sobre a descida de
Cristo ao Inferno, e Virgílio conta-lhe o que viu. Em seguida, o poeta
romano é saudado por quatro grandes poetas, entre eles Homero, e Dante
acaba aceito pelo grupo, tornando-se o sexto entre eles. À parte vê um
castelo, cercado por sete muros, onde se depara com grandes homens da
Antiguidade, como Aristóteles, Ptolomeu e Averróis.
[1] Um trovão despertou-me repentinamente do sono, e me recuperei
como alguém que acorda com todo ânimo. Em pé, com os olhos
descansados, fitei fixamente em volta para saber onde estava. Na verdade,
eu me encontrava na borda do doloroso abismo, no fundo do qual se ouvem
infinitos lamentos. Era tão escuro ali, além de profundo e nebuloso, que, por
mais que eu tentasse enxergar algo, não via nada.
[13] – Vamos descer agora ao mundo cego – começou a falar o poeta,
mortificado. – Vou primeiro, depois vens tu.
Percebendo o rosto pálido de Virgílio, indaguei-lhe:
– Como irei se vejo em ti o mesmo temor que condenas em mim?
Ele me respondeu:
– A angústia das gentes que estão aqui embaixo faz meu rosto
empalidecer de piedade, mas não de pavor como em ti. Prossigamos, porque
um longo caminho nos espera.
Ele andou e entrei no primeiro círculo que cerca o abismo. Ali, segundo o
que era possível escutar, não havia pranto mas suspiros, que o ar dali
estremeciam. Suspiros porque era dor sem martírio, sentida pelas crianças,
damas e varões que vagavam em hordas pelo doloroso abismo.
[31] O gentil mestre então me disse:
– Não vais me perguntar que espíritos são estes que estás vendo? Antes
de seguires adiante, é bom que saibas que eles não pecaram. Mas isso de
nada lhes adiantou, tampouco o fato de serem honrados, tudo porque não
receberam o batismo, que é a porta da fé em que acreditas. Por viverem
antes de Cristo não adoraram devidamente a Deus, e entre eles me incluo.
Por tal omissão, não por maldade, fomos condenados, condição que nos faz
querer incessantemente a Deus, sem esperança de que nos escute.
Senti uma dor imensa quando compreendi que almas tão valorosas
estariam para sempre ali, suspensas, no Limbo.
– Diz-me, meu mestre, meu senhor – comecei a falar, por querer ter
certeza de minha fé que vence a todo erro –, jamais saiu alguém daqui, seja
por mérito próprio ou de outros, conseguindo assim a felicidade?
Entendendo o que minhas palavras escondiam, me respondeu:
– Eu acabara de cair aqui quando vi chegar um poderoso
8usando uma
coroa que sinalizava sua vitória. Ele resgatou a sombra do primeiro pai
9
, de
seu filho Abel, de Noé, do legislador e obediente Moisés, de Abraão e do rei
David, de Jacó, com seu pai Isaac e seus doze filhos, e mais Raquel, a quem
Jacó mereceu por sua fé, e tantos outros, que para beatitude os levou. Antes
disso, saiba, jamais espírito algum havia sido salvo.
[64] Continuávamos a caminhar enquanto ele falava, e atravessamos a
floresta, a espessa floresta de almas. Não havíamos descido muito ainda
quando vi uma chama, que vencia aquele hemisfério de trevas. Estava ainda
um pouco longe dela, mas o suficiente para discernir em parte a gente
honrada que lá estava. Perguntei a Virgílio, então:
– Ó tu, que honraste as ciências e as artes, diz-me, quem são estes cuja
aparência tão honrada os faz tão diferentes das demais almas?
Ele respondeu:
– A honrada fama que em vida eles tiveram os fez receber dos céus a
graça que aqui os distingue.
Nesse meio-tempo, ouvi uma voz, que disse:
– Seja bem-vindo, honrado e altíssimo poeta, cuja sombra agora retorna.
Assim que a voz calou-se, vi quatro grandes sombras andando em nossa
direção, em cujas faces não se viam alegria nem dor. O amável mestre
começou a falar:
– Olha aquele com a espada na mão, que vem à frente dos demais, como
senhor de todos. É Homero, poeta maior; o outro é Horácio, autor das
Sátiras; Ovídio é o terceiro e Lucano, o último. E muito me honra e me
deixa feliz o fato de virem até mim e me chamarem de poeta.
Assim estava eu reunido àquela bela escola daquele senhor de
elevadíssimo canto que a todos sobrevoa como uma águia. Após conversar
entre si, voltaram-se para mim e cumprimentaram-me com um aceno,
fazendo meu mestre sorrir, o que muito me honrou por sentir-me incluído
naquela companhia, como o sexto entre eles.
[103] Fomos então caminhando até o ponto luminoso, falando de coisas
belas sobre as quais é oportuno calar. Chegamos ao pé de um belo castelo,
sete vezes cercado por altos muros e protegido por um belo riacho. Por ele
caminhamos como se estivéssemos em terra firme e, junto com os outros
sábios, atravessei sete portas, no fim das quais demos num agradável jardim.
Havia ali pessoas com ar pesaroso e grave, cujos semblantes transmitiam
grande autoridade, falando baixa e suavemente. Fomos para um lugar mais
amplo, luminoso e alto, onde se podiam ver todos os que estavam ali. Lá em
cima, sobre o verde esmaltado do jardim, mostraram-se a mim grandes
espíritos, cuja visão deixou-me extasiado. Vi Electra, com muitos de seus
companheiros, entre os quais reconheci Heitor e Enéas; além de César,
armado com olhos rapaces. Vi Camila e Pentesileia; na outra fileira vi o rei
Latino, que se sentava ao lado de Lavínia, sua filha. Vi o Bruto que
perseguiu Tarquínio, Lucrécia, Júlia, Márcia e Cornélia, e, sozinho, à parte,
vi Saladino.
[130] Erguendo-me mais um pouco, vi Aristóteles, o mestre dos
filósofos, a quem todos admiram e cobrem de honras; ali vi também
Sócrates e Platão, que estão ao lado do mestre. Demócrito de Abdera, que o
mundo pôs sob o acaso; Diógenes, Anaxágoras e Tales de Mileto,
Empédocles, Heráclito e Zenão; e vi Dioscórides, coletor e médico de
grande valor, mais Orfeu, Túlio Cícero, Lino e o moralista Sêneca; Euclides,
o geômetra, e Ptolomeu, Hipócrates, Avicena e Galeno, e mais Averróis, o
grande comentador de Aristóteles.
[145] Não posso retratar plenamente todos e tudo, e tão vasto é esse
assunto que para dizê-lo me falta muito. A companhia dos seis poetas
dividiu-se em duas, pois o sábio guia por um outro caminho me conduziu,
para fora da quietude, rumo ao ar que tremula de suspiros, onde luz não há.
Canto IV (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro
Dante é despertado por um trovão e acha-se na orla do primeiro círculo. Entra
depois no Limbo, onde estão os que não foram batizados, crianças e adultos.
Mais adiante, num recinto luminoso, vê os sábios da Antiguidade, que
embora não cristãos, viveram virtuosamente. Os dois poetas descem depois
ao segundo círculo.
Por hórrido estampido, estremecendo
3 Como quem é por força despertado.
Ergui-me, e, os olhos quietos já volvendo,
Perscruto por saber onde me achava,6 E a tudo no lugar sinistro atendo.
A verdade é que então na borda estava
Do vale desse abismo doloroso,
9 Donde brado de infindos ais troava.
Tão escuro, profundo e nebuloso
Era, que a vista lhe inquirindo o fundo,
12 Não distinguia no antro temeroso.
“Eia! Baixemos, pois, da treva ao mundo!” —
O Poeta então disse-me enfiando —
15 “Eu descerei primeiro, tu segundo”. —
Tornei-lhe, a palidez sua notando:
“Como hei de ir, se és de espanto dominado,
18 Quando conforto estou de ti’sperando?” —
“Dos que lá são o angustioso estado
Causa a que vês no rosto meu impressa,
21 Piedade, medo não, como hás cuidado.
“Vamos: longa a jornada exige pressa”.
Entrou, e eu logo, o círculo primeiro
24 Em que o abismo a estreitar-se já começa,
Escutei: não mais pranto lastimeiro
Ouvi; suspiros só, que murmuravam,
27 Vibrando do ar eterno o espaço inteiro.
Pesares sem martírio os motivavam
Pesares sem martírio os motivavam
De varões e de infantes, de mulheres
30 Nas multidões, que ali se apinhoavam.
“Conhecer” — meu bom Mestre diz — “não queres
Quais são os que assim vês ora sofrendo?
33 Antes de avante andar convém saberes
“Que não pecaram: boas obras tendo
Acham-se aqui; faltou-lhes o batismo,
36 Portal da fé, em que és ditoso crendo.
“Na vida antecedendo o Cristianismo,
Devido culto a Deus nunca prestaram:
39 Também sou dos que penam neste abismo.
“Por tal defeito — os mais nos não mancharam —
Perdemo-nos: a pena é desesp’rança,
42 Desejos, que para sempre se frustaram”.
Ouvi-lo, em dor o coração me lança,
Pois muitos conheci de alta valia,
45 A quem do Limbo a suspensão alcança.
“O Mestre! Ó meu Senhor! diz-me — inquiria,
Para ter da certeza o firme esteio
48 A fé, que os erros todos desafia.
“Por seu merecimento ou pelo alheio
Daqui alguém ao céu já tem subido?”
51 Da mente minha ao alvo o Mestre veio,
E falou-me: “Des’pouco aqui trazido,
Descer súbito vi forte guerreiro;
54 De triunfal coroa era cingido.
“Almas levou — do nosso pai primeiro,
Abel, Noé, Moisés, que legislara,
57 Abraão na fé, na obediência inteiro,
“Davi, que sobre o povo hebreu reinara, Israel com seu pai e a prole basta,60 E Raquel, por quem tanto se afanara.
“Para a glória outros muitos mais afasta
Do Limbo; e sabe tu que antes não fora63 Salvo quem pertencera à humana casta”.
Andávamos, enquanto isto memora,
Sem parar, pela selva penetrando,66 Selva de almas, que aumenta de hora em hora,
E da entrada não longe ainda estando,
Eis um clarão brilhante divisamos69 Das trevas o hemisfério alumiando.
Dali distantes ainda nos achamos
Não tanto, que eu não discernisse em parte72 Que à sede de almas nobres caminhamos.
“Ó tu, que és honra da ciência e da arte,
Quem são” — disse — “os que, aos outros preferidos,75 Privilégio tamanho assim disparte?”
Falou Virgílio: “— Assim são distinguidos
Do céu, que atende à fama alta e preclara,78 Com que foram na terra engrandecidos”.
Eis voz escuto sonorosa e clara:
“Honrai todos o altíssimo poeta!81 “A sombra sua torna, que ausentara”.
Quatro sombras notei, quando aquieta
O rumor, que a nós vinham: nos semblantes84 Nem prazer, nem tristeza se interpreta.
E disse o Mestre, após alguns instantes:
“Aquele vê, que, qual monarca ufano,87 Empunha espada e os três deixa distantes.
É Homero, o poeta soberano;
O satírico Horácio é o outro, e ao lado90 Ovídio, em lugar último Lucano.
Como lhes cabe o nome assinalado
Que soou nessa voz há pouco ouvida,93 Me honrando, honrosa ação têm praticado”.
A bela escola assim vi reunida
Do Mestre egrégio do sublime canto,96 Águia em seu voo além dos mais erguida.
Discursado entre si tendo algum tanto,
A mim volveram gracioso o gesto:99 Sorriu Virgílio, dessa mostra ao encanto.
Mais foi-me alto conceito manifesto,
Quando acolher-me ao grêmio seu quiseram,102 Entre eles me cabendo o lugar sexto.
Té o clarão comigo se moveram,
Prática havendo, que omitir é belo,105 Sublime no lugar, onde a teceram.
Chegamos junto a um fúlgido castelo
Sete vezes de muro alto cercado:108 Cinge-o ribeiro lindo, mas singelo.
Passei-o a pé enxuto; acompanhado
Entrei por sete portas, caminhando111 De fresca relva até ameno prado.
Graves, pausados olhos meneando
‘Stavam sombras de aspecto majestoso,114 Com voz suave rara vez falando.
A um lado, sobre viso luminoso
Subimo-nos: de lá se divisava117 Dessas almas o bando numeroso.
No verde esmalte o Mestre me indicava
Egrégias sombras: inda me extasia120 O prazer com que vê-los exultava.
Eletra vi de heróis na companhia,
Eneias com Heitor e guarnecido123 Grifanhos olhos César nos volvia.
Pentesileia vi e o rosto ardido
De Camila, e sentado o rei Latino126 Junto a Lavínia estava enternecido.
Notei Márcia, Lucrécia e o que Tarquino
Lançou, Cornélia e Júlia; retirado129 De todos demorava Saladino.
Alçando os olhos, de respeito entrado,
O Mestre vejo dos que mais se acimam132 Em saber, de filósofos cercado.
Todos com honra e acatamento o estimam.
Aqui Platão e Sócrates estavam,135 Que na grandeza mais se lhe aproximam.
Demócrito, o atomista, acompanhavam
Tales, Zeno, Heráclito e Anaxagora.138 Empédocle e Diógenes falavam,
Dióscoris, o que a natura outrora
Sábio estudara, Orfeu, Túlio eloquente,141 Sêneca, o douto, que a moral explora,
Lívio, Euclides, Hipócrates ingente,
Ptolomeu, Galeno e o Avicena;144 Averróis, nos comentos sapiente.
Resenha não me é dado fazer plena
De todos; longo o assunto está-me urgindo,147 E a ser omisso muita vez condena.
A companhia então se dividindo,
Comigo o Mestre outra vereda trilha,Do ar sereno ao ar, que treme, vindo:
151 Chegados somos onde luz não brilha.
continua na página... 46
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— 95. Mestre egrégio etc., Homero, príncipe da poesia épica.
— 121. Eletra,
mãe de Dardano, fundador de Troia.
— 122. Eneias, príncipe troiano, filho de
Anquise e de Vênus. — Heitor, filho de Príamo, rei de Troia. — 124.
Pentesileia, rainha das Amazonas, morta por Aquiles.
— 125. Camila, filha
de Metabo, rei latino. — O rei Latino, rei dos aborígenes, pai de Lavínia, que
foi mulher de Eneias.
— 127. Márcia, mulher de Catão Uticense. —
Lucrécia, mulher de Colatino que, ao ser violado por Sesto Tarquínio, se
matou.
— 128.Cornélia, mãe dos Gracos. — Júlia, filha de César e mulher
de Pompeu.
— 129. Saladino, sultão do Egito e da Síria, que conquistou
Jerusalém.
— 131. O mestre etc., Aristóteles.
— 140. Orfeu de Trácia, poeta
e músico. — Túlio, eloquente, Marco Túlio Cícero.
— 143. Ptolomeu, o
autor do sistema do mundo que se chamou sistema ptolemaico. — Galeno e
Avicena, famosos médicos, o primeiro de Pérgamo, no Ponto, o segundo
árabe.
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