segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Dante: A Divina Comédia - Canto IV

Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes

INFERNO

Canto IV (Prosa)

Dante desperta e se vê no Limbo, o primeiro círculo do Inferno. Ali, se encontram as almas das crianças, mulheres e homens que morreram sem batismo ou que viveram antes de Cristo. Entre eles o próprio Virgílio. As almas ali não sofrem castigos dolorosos, mas suspiram por desejarem a Deus e jamais serem ouvidas por ele. Dante pergunta sobre a descida de Cristo ao Inferno, e Virgílio conta-lhe o que viu. Em seguida, o poeta romano é saudado por quatro grandes poetas, entre eles Homero, e Dante acaba aceito pelo grupo, tornando-se o sexto entre eles. À parte vê um castelo, cercado por sete muros, onde se depara com grandes homens da Antiguidade, como Aristóteles, Ptolomeu e Averróis.
     
     [1] Um trovão despertou-me repentinamente do sono, e me recuperei como alguém que acorda com todo ânimo. Em pé, com os olhos descansados, fitei fixamente em volta para saber onde estava. Na verdade, eu me encontrava na borda do doloroso abismo, no fundo do qual se ouvem infinitos lamentos. Era tão escuro ali, além de profundo e nebuloso, que, por mais que eu tentasse enxergar algo, não via nada.

[13] – Vamos descer agora ao mundo cego – começou a falar o poeta, mortificado. – Vou primeiro, depois vens tu.

     Percebendo o rosto pálido de Virgílio, indaguei-lhe:

– Como irei se vejo em ti o mesmo temor que condenas em mim?

     Ele me respondeu:

– A angústia das gentes que estão aqui embaixo faz meu rosto empalidecer de piedade, mas não de pavor como em ti. Prossigamos, porque um longo caminho nos espera.

     Ele andou e entrei no primeiro círculo que cerca o abismo. Ali, segundo o que era possível escutar, não havia pranto mas suspiros, que o ar dali estremeciam. Suspiros porque era dor sem martírio, sentida pelas crianças, damas e varões que vagavam em hordas pelo doloroso abismo.
     [31] O gentil mestre então me disse:

– Não vais me perguntar que espíritos são estes que estás vendo? Antes de seguires adiante, é bom que saibas que eles não pecaram. Mas isso de nada lhes adiantou, tampouco o fato de serem honrados, tudo porque não receberam o batismo, que é a porta da fé em que acreditas. Por viverem antes de Cristo não adoraram devidamente a Deus, e entre eles me incluo. Por tal omissão, não por maldade, fomos condenados, condição que nos faz querer incessantemente a Deus, sem esperança de que nos escute.

     Senti uma dor imensa quando compreendi que almas tão valorosas estariam para sempre ali, suspensas, no Limbo.

– Diz-me, meu mestre, meu senhor – comecei a falar, por querer ter certeza de minha fé que vence a todo erro –, jamais saiu alguém daqui, seja por mérito próprio ou de outros, conseguindo assim a felicidade?

     Entendendo o que minhas palavras escondiam, me respondeu:

– Eu acabara de cair aqui quando vi chegar um poderoso 8usando uma coroa que sinalizava sua vitória. Ele resgatou a sombra do primeiro pai 9 , de seu filho Abel, de Noé, do legislador e obediente Moisés, de Abraão e do rei David, de Jacó, com seu pai Isaac e seus doze filhos, e mais Raquel, a quem Jacó mereceu por sua fé, e tantos outros, que para beatitude os levou. Antes disso, saiba, jamais espírito algum havia sido salvo.

     [64] Continuávamos a caminhar enquanto ele falava, e atravessamos a floresta, a espessa floresta de almas. Não havíamos descido muito ainda quando vi uma chama, que vencia aquele hemisfério de trevas. Estava ainda um pouco longe dela, mas o suficiente para discernir em parte a gente honrada que lá estava. Perguntei a Virgílio, então:

– Ó tu, que honraste as ciências e as artes, diz-me, quem são estes cuja aparência tão honrada os faz tão diferentes das demais almas?

     Ele respondeu:

– A honrada fama que em vida eles tiveram os fez receber dos céus a graça que aqui os distingue.

     Nesse meio-tempo, ouvi uma voz, que disse:

– Seja bem-vindo, honrado e altíssimo poeta, cuja sombra agora retorna.

     Assim que a voz calou-se, vi quatro grandes sombras andando em nossa direção, em cujas faces não se viam alegria nem dor. O amável mestre começou a falar:

– Olha aquele com a espada na mão, que vem à frente dos demais, como senhor de todos. É Homero, poeta maior; o outro é Horácio, autor das Sátiras; Ovídio é o terceiro e Lucano, o último. E muito me honra e me deixa feliz o fato de virem até mim e me chamarem de poeta.

     Assim estava eu reunido àquela bela escola daquele senhor de elevadíssimo canto que a todos sobrevoa como uma águia. Após conversar entre si, voltaram-se para mim e cumprimentaram-me com um aceno, fazendo meu mestre sorrir, o que muito me honrou por sentir-me incluído naquela companhia, como o sexto entre eles.
     [103] Fomos então caminhando até o ponto luminoso, falando de coisas belas sobre as quais é oportuno calar. Chegamos ao pé de um belo castelo, sete vezes cercado por altos muros e protegido por um belo riacho. Por ele caminhamos como se estivéssemos em terra firme e, junto com os outros sábios, atravessei sete portas, no fim das quais demos num agradável jardim. Havia ali pessoas com ar pesaroso e grave, cujos semblantes transmitiam grande autoridade, falando baixa e suavemente. Fomos para um lugar mais amplo, luminoso e alto, onde se podiam ver todos os que estavam ali. Lá em cima, sobre o verde esmaltado do jardim, mostraram-se a mim grandes espíritos, cuja visão deixou-me extasiado. Vi Electra, com muitos de seus companheiros, entre os quais reconheci Heitor e Enéas; além de César, armado com olhos rapaces. Vi Camila e Pentesileia; na outra fileira vi o rei Latino, que se sentava ao lado de Lavínia, sua filha. Vi o Bruto que perseguiu Tarquínio, Lucrécia, Júlia, Márcia e Cornélia, e, sozinho, à parte, vi Saladino.
     [130] Erguendo-me mais um pouco, vi Aristóteles, o mestre dos filósofos, a quem todos admiram e cobrem de honras; ali vi também Sócrates e Platão, que estão ao lado do mestre. Demócrito de Abdera, que o mundo pôs sob o acaso; Diógenes, Anaxágoras e Tales de Mileto, Empédocles, Heráclito e Zenão; e vi Dioscórides, coletor e médico de grande valor, mais Orfeu, Túlio Cícero, Lino e o moralista Sêneca; Euclides, o geômetra, e Ptolomeu, Hipócrates, Avicena e Galeno, e mais Averróis, o grande comentador de Aristóteles.
     [145] Não posso retratar plenamente todos e tudo, e tão vasto é esse assunto que para dizê-lo me falta muito. A companhia dos seis poetas dividiu-se em duas, pois o sábio guia por um outro caminho me conduziu, para fora da quietude, rumo ao ar que tremula de suspiros, onde luz não há.

continua na página....39


Canto IV (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro

Dante é despertado por um trovão e acha-se na orla do primeiro círculo. Entra depois no Limbo, onde estão os que não foram batizados, crianças e adultos. Mais adiante, num recinto luminoso, vê os sábios da Antiguidade, que embora não cristãos, viveram virtuosamente. Os dois poetas descem depois ao segundo círculo.

     Desse profundo sono fui tirado 
Por hórrido estampido, estremecendo
3        Como quem é por força despertado. 
     Ergui-me, e, os olhos quietos já volvendo, 
Perscruto por saber onde me achava,
6        E a tudo no lugar sinistro atendo. 
     A verdade é que então na borda estava 
Do vale desse abismo doloroso, 
9        Donde brado de infindos ais troava. 
     Tão escuro, profundo e nebuloso 
Era, que a vista lhe inquirindo o fundo, 
12      Não distinguia no antro temeroso. 
     “Eia! Baixemos, pois, da treva ao mundo!” — 
O Poeta então disse-me enfiando — 
15      “Eu descerei primeiro, tu segundo”. — 
      Tornei-lhe, a palidez sua notando: 
“Como hei de ir, se és de espanto dominado, 
18      Quando conforto estou de ti’sperando?” — 
     “Dos que lá são o angustioso estado 
Causa a que vês no rosto meu impressa, 
21      Piedade, medo não, como hás cuidado. 
     “Vamos: longa a jornada exige pressa”. 
Entrou, e eu logo, o círculo primeiro 
24      Em que o abismo a estreitar-se já começa, 
     Escutei: não mais pranto lastimeiro 
Ouvi; suspiros só, que murmuravam, 
27      Vibrando do ar eterno o espaço inteiro. 
     Pesares sem martírio os motivavam 
De varões e de infantes, de mulheres 
30      Nas multidões, que ali se apinhoavam. 
     “Conhecer” — meu bom Mestre diz — “não queres 
Quais são os que assim vês ora sofrendo? 
33      Antes de avante andar convém saberes 
     “Que não pecaram: boas obras tendo 
Acham-se aqui; faltou-lhes o batismo, 
36      Portal da fé, em que és ditoso crendo. 
     “Na vida antecedendo o Cristianismo, 
Devido culto a Deus nunca prestaram: 
39      Também sou dos que penam neste abismo. 
     “Por tal defeito — os mais nos não mancharam — 
Perdemo-nos: a pena é desesp’rança, 
42      Desejos, que para sempre se frustaram”. 
     Ouvi-lo, em dor o coração me lança, 
Pois muitos conheci de alta valia, 
45      A quem do Limbo a suspensão alcança. 
     “O Mestre! Ó meu Senhor! diz-me — inquiria, 
Para ter da certeza o firme esteio 
48      A fé, que os erros todos desafia. 
     “Por seu merecimento ou pelo alheio 
Daqui alguém ao céu já tem subido?” 
51      Da mente minha ao alvo o Mestre veio, 
     E falou-me: “Des’pouco aqui trazido, 
Descer súbito vi forte guerreiro; 
54      De triunfal coroa era cingido. 
     “Almas levou — do nosso pai primeiro, 
Abel, Noé, Moisés, que legislara, 
57      Abraão na fé, na obediência inteiro, 
     “Davi, que sobre o povo hebreu reinara,
Israel com seu pai e a prole basta,
60      E Raquel, por quem tanto se afanara.
     “Para a glória outros muitos mais afasta
Do Limbo; e sabe tu que antes não fora
63      Salvo quem pertencera à humana casta”.
     Andávamos, enquanto isto memora,
Sem parar, pela selva penetrando,
66      Selva de almas, que aumenta de hora em hora,
     E da entrada não longe ainda estando,
Eis um clarão brilhante divisamos
69      Das trevas o hemisfério alumiando.
     Dali distantes ainda nos achamos
Não tanto, que eu não discernisse em parte
72      Que à sede de almas nobres caminhamos.
     “Ó tu, que és honra da ciência e da arte,
Quem são” — disse — “os que, aos outros preferidos,
75      Privilégio tamanho assim disparte?”
     Falou Virgílio: “— Assim são distinguidos
Do céu, que atende à fama alta e preclara,
78      Com que foram na terra engrandecidos”.
     Eis voz escuto sonorosa e clara:
“Honrai todos o altíssimo poeta!
81      “A sombra sua torna, que ausentara”.
     Quatro sombras notei, quando aquieta
O rumor, que a nós vinham: nos semblantes
84      Nem prazer, nem tristeza se interpreta.
     E disse o Mestre, após alguns instantes:
“Aquele vê, que, qual monarca ufano,
87      Empunha espada e os três deixa distantes.
     É Homero, o poeta soberano;
O satírico Horácio é o outro, e ao lado
90      Ovídio, em lugar último Lucano.
     Como lhes cabe o nome assinalado
Que soou nessa voz há pouco ouvida,
93      Me honrando, honrosa ação têm praticado”.
     A bela escola assim vi reunida
Do Mestre egrégio do sublime canto,
96      Águia em seu voo além dos mais erguida.
     Discursado entre si tendo algum tanto,
A mim volveram gracioso o gesto:
99      Sorriu Virgílio, dessa mostra ao encanto.
     Mais foi-me alto conceito manifesto,
Quando acolher-me ao grêmio seu quiseram,
102    Entre eles me cabendo o lugar sexto.
     Té o clarão comigo se moveram,
Prática havendo, que omitir é belo,
105    Sublime no lugar, onde a teceram.
     Chegamos junto a um fúlgido castelo
Sete vezes de muro alto cercado:
108    Cinge-o ribeiro lindo, mas singelo.
     Passei-o a pé enxuto; acompanhado
Entrei por sete portas, caminhando
111    De fresca relva até ameno prado.
     Graves, pausados olhos meneando
‘Stavam sombras de aspecto majestoso,
114    Com voz suave rara vez falando.
     A um lado, sobre viso luminoso
Subimo-nos: de lá se divisava
117    Dessas almas o bando numeroso.
    No verde esmalte o Mestre me indicava
Egrégias sombras: inda me extasia
120    O prazer com que vê-los exultava.
     Eletra vi de heróis na companhia,
Eneias com Heitor e guarnecido
123    Grifanhos olhos César nos volvia.
     Pentesileia vi e o rosto ardido
De Camila, e sentado o rei Latino
126    Junto a Lavínia estava enternecido.
     Notei Márcia, Lucrécia e o que Tarquino
Lançou, Cornélia e Júlia; retirado
129    De todos demorava Saladino.
     Alçando os olhos, de respeito entrado,
O Mestre vejo dos que mais se acimam
132    Em saber, de filósofos cercado.
     Todos com honra e acatamento o estimam.
Aqui Platão e Sócrates estavam,
135    Que na grandeza mais se lhe aproximam.
     Demócrito, o atomista, acompanhavam
Tales, Zeno, Heráclito e Anaxagora.
138    Empédocle e Diógenes falavam,
     Dióscoris, o que a natura outrora
Sábio estudara, Orfeu, Túlio eloquente,
141    Sêneca, o douto, que a moral explora,
     Lívio, Euclides, Hipócrates ingente,
Ptolomeu, Galeno e o Avicena;
144    Averróis, nos comentos sapiente.
     Resenha não me é dado fazer plena
De todos; longo o assunto está-me urgindo,
147    E a ser omisso muita vez condena.
     A companhia então se dividindo,
Comigo o Mestre outra vereda trilha,
          Do ar sereno ao ar, que treme, vindo:
151    Chegados somos onde luz não brilha.

continua na página... 46
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— 95. Mestre egrégio etc., Homero, príncipe da poesia épica. 
— 121. Eletra, mãe de Dardano, fundador de Troia. 
— 122. Eneias, príncipe troiano, filho de Anquise e de Vênus. — Heitor, filho de Príamo, rei de Troia. — 124. Pentesileia, rainha das Amazonas, morta por Aquiles.
— 125. Camila, filha de Metabo, rei latino. — O rei Latino, rei dos aborígenes, pai de Lavínia, que foi mulher de Eneias. 
— 127. Márcia, mulher de Catão Uticense. — Lucrécia, mulher de Colatino que, ao ser violado por Sesto Tarquínio, se matou. 
— 128.Cornélia, mãe dos Gracos. — Júlia, filha de César e mulher de Pompeu. 
— 129. Saladino, sultão do Egito e da Síria, que conquistou Jerusalém. 
— 131. O mestre etc., Aristóteles. 
— 140. Orfeu de Trácia, poeta e músico. — Túlio, eloquente, Marco Túlio Cícero. 
— 143. Ptolomeu, o autor do sistema do mundo que se chamou sistema ptolemaico. — Galeno e Avicena, famosos médicos, o primeiro de Pérgamo, no Ponto, o segundo árabe. 
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A Divina Comédia
Inferno
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