segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Émile Zola - Germinal: Sétima Parte - (I.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sétima Parte

I
continuando...

     Outra vez encontrou o conjunto habitacional que parecia esperá-lo, os homens às portas, as mulheres às janelas. Assim que apareceu, começaram os murmúrios e a multidão aumentou. Um sopro de mexericos, que engrossava havia quatro dias, estourava numa maldição universal. Punhos ameaçavam-no, mães o apontavam para os filhos com um gesto de rancor, os velhos, ao vê-lo, cuspiam. Era o resultado da derrota, o reverso fatal da popularidade, uma execração que se exasperava em razão de todos os sofrimentos suportados sem resultado. Ele pagava pela fome e pela morte.
     Zacharie, que chegava acompanhado de Philomène, deu um empurrão em Etienne no momento em que este saía. E riu maldosamente: 

— Olha como está engordando! A carne dos outros deve ser um bom alimento...

     A mulher de Levaque já estava na porta em companhia de Bouteloup. Falou de Bébert, seu filho, morto por uma bala; gritou: 

— É verdade, há covardes que fazem massacrar crianças. Se ele quiser devolver-me o filho, que vá buscá-lo debaixo da terra!

     A mulher não se lembrava mais do marido preso, a cama continuava ocupada, já que Bouteloup permanecera. Contudo, lembrou-se dele, e continuou aos gritos: 

— Vejam estes! Os malandros passeiam, enquanto os valentes estão a ferros.

     Etienne, para evitá-la, fora dar de cara com a mulher de Pierron, que atravessara correndo os jardins. Esta recebera como um alívio a morte da mãe, cujas violências iam levá-los à perdição; e quase não chorara a morte da filha do marido, a devassa da Lydie, de quem também se via livre. Mas entrava no coro das vizinhas, com a intenção de fazer as pazes. 

— E a minha mãe? E a menininha? Viram-te muito bem, escondias-te por trás delas, quando receberam as balas que eram para ti!

     Que fazer? Esbofetear a mulher de Pierron e as outras? Bater-se com todo o conjunto habitacional? Por um momento teve vontade. O sangue fervia-lhe na cabeça, chamava os companheiros de animais, irritava-se de vê-los sem inteligência e bárbaros, a ponto de o tornarem culpado da lógica dos fatos. Que estupidez! Vinha-lhe um desgosto resultante da impotência de poder domá-los novamente. E limitou-se a apressar o passo, como que surdo às injúrias. Em breve foi uma fuga, cada casa o apupava na passagem, encarniçavam-se atrás dele, todo um povo amaldiçoando-o numa voz pouco a pouco ribombante, no transbordar do ódio. Era ele o explorador, o assassino, a causa única da desgraça de todos. Saiu do conjunto habitacional, pálido, transtornado, correndo, com aquela turba ululante atrás de si. Por fim, na estrada, muitos o largaram; outros, no entanto, obstinavam-se, quando, no fim do declive, defronte do Avantage, deu com outro grupo que saía da Voreux. Nele encontravam-se o velho Mouque e Chaval. Depois da morte dos filhos, Mouque continuou no seu trabalho de cavalariço, sem uma palavra de pesar ou de queixa. Bruscamente, quando divisou Etienne, foi sacudido por um verdadeiro furor, saltaram-lhe lágrimas dos olhos e uma enxurrada de impropérios jorrou da sua boca negra e ensanguentada de tanto mascar tabaco: 

— Canalha! biltre! velhaco!... Espera que vais pagar por meus pobres filhos, vou matar-te!

     Apanhou um tijolo, partiu-o e atirou os dois pedaços. 

— Isso, vamos liquidá-lo! — gritou Chaval, que gargalhava, encantado com aquela vingança. — Agora é a tua vez... Estás encurralado, porco imundo!

     E ele também começou a apedrejar Etienne. Um clamor selvagem elevou-se, todos pegavam em tijolos, quebravam-nos e atiravam-nos para matá-lo, como tinham querido fazer com os soldados. Aturdido, o rapaz não fugia mais, enfrentava-os, procurando acalmá-los com frases. Vinham-lhe aos lábios seus antigos discursos, tão aclamados outrora. Repetia as palavras com que os arrebatara, na época em que os tinha na palma da mão, como um rebanho fiel. Mas a sua influência estava morta, só as pedras respondiam. Já recebera um ferimento no braço esquerdo, recuava, em grande perigo, quando se viu acuado contra a fachada do Avantage.
     Havia um instante que Rasseneur surgira na porta. 

— Entra — disse ele simplesmente. 

     Etienne hesitava; humilhava-o ter de refugiar-se ali. 

— Vamos, entra, eu vou falar com eles.

     Resignou-se, foi esconder-se no fundo da sala, enquanto o taberneiro obstruía a porta com seus ombros largos. 

— Como é, meus amigos? Sejam razoáveis... Vocês sabem muito bem que eu nunca os enganei, sempre fui a favor da ordem, e, se me tivessem escutado, certamente não teriam chegado onde estão.

     Mexendo com os ombros e com a barriga, falou demoradamente, deixou fluir sua eloquência fácil, de uma brandura calmante de água tépida. E todo o seu sucesso de outrora lhe voltava, reconquistava a popularidade sem esforço, naturalmente, como se já não tivesse sido apupado e tratado de covarde, um mês antes. Vozes o apoiavam: muito bem! isso mesmo! assim é que se devia falar! Recebeu uma tempestade de aplausos.
     Dentro, Etienne sentia-se desfalecer, com o coração cheio de amargura. Lembrava-se da predição de Rasseneur na floresta, quando este o ameaçara com a ingratidão das massas. Que brutalidade imbecil! Que esquecimento imperdoável dos serviços que prestara! Era uma força cega, devorando-se constantemente a si própria. E, na cólera de ver aqueles brutos arruinarem a própria causa, havia o desespero de se ver acabado, o fim trágico de sua ambição. Pois muito bem! Estava tudo terminado? Lembrava-se de ter ouvido debaixo das faias três mil corações baterem no ritmo do seu. Naquele dia tivera sua popularidade nas mãos, esse povo lhe pertencia, sentira-se o senhor dele. Sonhos loucos o embriagavam então: Montsou aos seus pés, Paris ao longe, deputado talvez, fulminando os burgueses com um discurso, o primeiro discurso pronunciado por um operário na tribuna de um parlamento. E agora, tudo acabado! Despertava miserável e detestado; seu povo acabava de corrê-lo a pedradas.
     Elevou-se a voz de Rasseneur: 

— A violência nunca conseguiu nada, não se pode mudar o mundo num dia. Aqueles que prometeram a vocês mudar tudo com um passe de mágica são ou farsantes ou malandros! 
— Bravo! Bravo! — gritou a multidão.

     Quem era então o culpado? E esta pergunta, que Etienne fazia a si próprio, acabou de desesperá-lo. Realmente, seria culpa sua aquela desgraça da qual ele mesmo sangrava, a miséria de uns, a morte de outros, as mulheres e crianças esqueléticas e sem pão? Tivera essa visão horrível, uma noite, antes da catástrofe. Mas já então uma força o impelia, foi de cambulhada com os demais companheiros. Aliás, nunca os tinha dirigido, eram eles que o levavam, que o obrigavam a fazer coisas que nunca teria feito sem o empurrão daquela multidão por trás dele. A cada violência, ficara estupefato com os acontecimentos, porque não tinha previsto ou querido nenhum. Podia ele esperar, por exemplo, que os seus fiéis do conjunto habitacional o escorraçassem um dia? Esses loucos mentiam quando o acusavam de lhes haver prometido uma existência farta e de preguiça. E nessa justificativa, nos raciocínios com que tentava combater seus remorsos, agitava-se a surda inquietação de não se ter mostrado à altura da sua missão: era a dúvida do semiletrado que o perseguia constantemente. Mas sentia-se sem coragem, já não estava solidário com os companheiros, tinha medo deles, dessa massa enorme, cega e irresistível do povo, passando como uma força da natureza, varrendo tudo, fora das regras e teorias. Uma repugnância o afastara deles pouco a pouco, o mal-estar dos seus gostos que se iam refinando, a subida lenta de todo o seu ser para uma classe superior.
     Nesse momento a voz de Rasseneur se perdeu no meio das aclamações entusiásticas:

— Viva Rasseneur! Não há outro como ele! Bravo! Bravo!

     O taberneiro entrou e fechou a porta enquanto a turba se dispersava Os dois homens se olharam em silêncio e deram de ombros. Acabaram bebendo uma cerveja juntos.
     Nesse mesmo dia houve um grande jantar na Piolaine, onde se festejava o noivado de Négrel e Cécile. Na véspera, os Grégoire tinham mandado encerar a sala de jantar e espanar o salão. Mélanie reinava na cozinha, vigiando os assados, mexendo os molhos, cujo odor subia até as águas-furtadas. Fora decidido que o cocheiro Francis ajudaria Honorine a servir à mesa. A jardineiro lavaria a louça, o jardineiro abriria o portão. Nunca tamanha festa pusera tanto alvoroço naquela mansão patriarcal e rica.
     Tudo se passou às mil maravilhas. A Sra. Hennebeau mostrou-se encantadora com Cécile e sorriu para Négrel, quando o notário de Montsou propôs um brinde à felicidade dos futuros cônjuges. O Sr. Hennebeau foi também muito amável. Seu ar risonho impressionou os convivas; corria o boato de que, novamente no agrado da administração, ia ser em breve nomeado oficial da Legião de Honra, pela maneira enérgica com que tinha subjugado a greve. Evitava-se falar dos últimos acontecimentos, mas havia um tom de triunfo na alegria geral, o jantar transformava-se na celebração oficial de uma vitória. Enfim, estavam livres, podiam voltar a comer e dormir em paz! Fez-se discretamente uma alusão aos mortos, cujo sangue mal tinha secado sobre a lama da Voreux: fora uma lição necessária, e todos se comoveram quando os Grégoire acrescentaram que, agora, o dever de cada um era ir curar as feridas nos conjuntos habitacionais mineiros. Os donos da casa tinham readquirido a sua placidez benévola, perdoando os seus bons mineiros, vendo-os já no fundo das minas, dando o bom exemplo de uma resignação secular. Os notáveis de Montsou, que não tremiam mais, convieram em que a questão do salário exigia ser estudada com toda a prudência. Ao assado, a vitória tornou-se completa quando o Sr. Hennebeau leu uma carta do bispo anunciando a transferência do Padre Ranvier. Toda a burguesia da província comentava com paixão a história desse padre, que chamava os soldados de assassinos. E o notário, à altura da sobremesa, declarou-se firmemente livre-pensador.
     Deneulin, acompanhado das duas filhas, estava presente à festa. No meio de toda essa alegria, esforçava-se por esconder a melancolia da sua ruína. Na manhã daquele dia tinha assinado a venda da sua concessão de Vandame à companhia de Montsou. Posto contra a parede, com a corda no pescoço, submetera-se às exigências dos administradores, entregando-lhes finalmente a presa cobiçada há tanto tempo, conseguindo apenas o dinheiro necessário para pagar seus credores. Chegara até a aceitar, no último momento, como uma grande coisa, a oferta de o conservarem como engenheiro de divisão, resignando-se assim a velar, como simples assalariado, por essa mina onde enterrara sua fortuna. Era a morte das pequenas empresas individuais, o próximo desaparecimento dos patrões comidos um a um pelo monstro sempre faminto do capital, afogados na maré montante das grandes empresas. Ele, sozinho, pagava as despesas da greve, sabia muito bem que se brindava ao seu desastre e à condecoração do Sr. Hennebeau. Seu único consolo era ver a bela arrogância de Lucie e Jeanne, encantadoras nos seus vestidos reformados, rindo da derrocada, desenvoltas como rapazes, desdenhosas do dinheiro.
     Quando passavam ao salão para tomar o café, o Sr. Grégoire chamou o primo de parte e felicitou-o pela coragem da sua decisão. 

— Que mais queres? O único erro que cometeste foi arriscar em Vandame o milhão do teu dinheiro de Montsou. Tiveste dores de cabeça terríveis, para no fim fazeres desaparecer o dinheiro nesse trabalho de escravo, ao passo que o meu, que não saiu da gaveta, dá-me de comer sem que eu tenha de fazer nada, como continuará alimentando os filhos dos meus netos.
continua na página 386...
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Sétima Parte - (I.a) / Sétima Parte - (I.b) /         
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.


Germinal
, de Émile Zola





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