segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: A INVASÃO DOS BANCOS (5)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

A ESTRUTURA CONTEMPORÂNEA DA ESPOLIAÇÃO
     
52. Os Estados Unidos cuidam de sua poupança interna e dispõem da alheia: A INVASÃO DOS BANCOS
          
          A canalização dos recursos nacionais na direção das filiais imperialistas se explica em grande parte pela proliferação de sucursais bancárias norte-americanas, que nos últimos anos brotaram como cogumelos depois da chuva em todas as regiões da América Latina. A ofensiva sobre a poupança local dos satélites está vinculada ao crônico deficit da balança de pagamentos dos Estados Unidos, que obriga à contenção de investimentos no estrangeiro, e à dramática deterioração do dólar como moeda do mundo. A América Latina, além da comida, proporciona a saliva, e os Estados Unidos se limitam a pôr na boca. Da desnacionalização da indústria resultou um presente.
     Segundo o International Banking Survey¹, em 1964 havia 78 sucursais de bancos norte-americanos ao sul do rio Bravo, e em 1967 já eram 133. Tinham 800 milhões de dólares de depósitos em 1964, e em 1967 já somavam 1 bilhão e 270 milhões de dólares. Em 1968 e 1969, a banca estrangeira avançou com ímpeto: o First National City Bank, atualmente, conta com nada menos de 110 filiais semeadas em dezessete países da América Latina. O número inclui vários bancos nacionais adquiridos pelo City nos últimos tempos. O Chase Manhattan Bank, do grupo Rockefeller, adquiriu em 1962 o Banco Lar Brasileiro, com 34 sucursais no Brasil; em 1964, o Banco Continental, com 42 agências no Peru; em 1967, o Banco do Comércio, com 120 sucursais na Colômbia e no Panamá, e o Banco Atlântida, com 24 agências em Honduras; em 1968, o Banco Argentino de Comércio. A revolução cubana tinha nacionalizado 20 agências bancárias dos Estados Unidos, mas os bancos se recuperaram com juros daquele duro golpe: só em 1968, mais de 70 novas filiais de bancos norte americanos foram abertas na América Central, no Caribe e nos menores países da América do Sul.

[1] INTERNATIONAL BANKING SURVEY. Journal of Commerce. New York, 25 de fevereiro de 1968

     É impossível conhecer o simultâneo aumento de atividades paralelas – subsidiárias, holdings, financeiras, escritórios de representação – em sua precisa magnitude, mas sabe-se que em igual ou maior proporção aumentaram os fundos latino-americanos absorvidos por bancos que, embora não operem abertamente como sucursais, são controlados do exterior através de decisivos pacotes de ações ou pela abertura de linhas externas de crédito severamente condicionadas.
     Toda essa invasão bancária serve para desviar a poupança latino-americana para as empresas norte americanas que operam na região, enquanto as empresas nacionais caem estranguladas pela falta de crédito. Os departamentos de relações públicas de vários bancos norte americanos que operam no exterior apregoam, sem ruborizar, que seu propósito mais importante consiste em canalizar a poupança interna dos países onde operam para uso das corporações multinacionais que são clientes de suas matrizes¹. Empreendamos um voo de imaginação: poderia um banco latino-americano estabelecer-se em Nova York para captar a poupança nacional dos Estados Unidos? A bolha rebenta no ar: esta insólita aventura está expressamente proibida. Nos Estados Unidos, nenhum banco estrangeiro pode operar como receptor de depósitos dos cidadãos norte-americanos. Em troca, os bancos dos Estados Unidos, através das numerosas filiais, dispõem a seu arbítrio da poupança nacional latino-americana. A América Latina zela pela norte-americanização das finanças, tão ardentemente quanto os Estados Unidos. Em junho de 1966, o Banco Brasileiro de Descontos consultou seus acionistas para adotar uma resolução de grande vigor nacionalista. Em todos os seus documentos imprimiu a frase: Nós confiamos em Deus. Orgulhosamente, o banco fez questão de salientar que o dólar ostenta o lema In God we trust.

[1] BENNETT, Robert & ALMONTI, Karen. “International Activities of United States Banks”. In: The American Banker. New York, 1969

     Os bancos latino-americanos, inclusive os invictos, não infiltrados nem sitiados pelos capitais estrangeiros, não orientam os créditos em sentido diverso da orientação que têm as filiais do City, do Chase ou do Bank of America: eles também preferem atender a demanda das empresas industriais e comerciais estrangeiras, que contam com sólidas garantias e operam com amplos volumes.

continua na página 359...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
A Estrutura Contemporânea da Espoliação
A INVASÃO DOS BANCOS (5)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas? 

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