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sábado, 27 de abril de 2024

Memórias - 16: um costume secular

No se puede hacer la revolucion sin las mujeres

Livro Dois

baitasar

Memórias

16 – um costume secular

naquela casa, ninguém sabia das histórias entre cristãos e judeus ou cristãos e mulçumanos ou mulçumanos e judeus, menos sabiam das lutas entre romanos e bárbaros, não compreendiam as histórias do holocausto nem ouviram falar sobre fascismo, desconfiavam que seu povo estava diminuindo em quantidade, mas as dominações, as revelações, as traições, as cruzadas, não eram assunto conhecido, Mariá ainda não sabia do inferno nem do céu nem da serpente e da maçã, nem escutava histórias de bruxas queimadas em fogueiras, mortes decretadas por homens com medo da magia das mulheres, mortes em nome da igreja, tamanho embaraço em nome da cruz, do pai, do filho e do espírito santo, da pia batismal e da água benta, amém, mas já sabia do medo do comunismo

eu, muito menos, sabia disso tudo, mas conhecia o extermínio rigoroso en la Montaña, as outras histórias se vai conhecendo aqui e ali, desde que se queira escutar

cheguei, naquela casa, por minha necessidade de sumir de la Montaña, e porque dona Manuela havia discursado exausta das suas tarefas de dona-de-casa sem qualquer ajuda, havia anunciado um basta vigoroso, Se quieres seguir con travassuras de luna llena y tardes locas, búscate outra criada ¡porque yo ya estoy hasta con cuidar de esta casa yo sola! Ni siquiera Anadyr me ayuda, ¡prefere las vacas! Qué mujer más infeliz será para casarse...

depois do silêncio da oração de agradecimento vinham conversas e comentários daquela manhã, dona Manuela servia a todos com seus sabores preferidos

tudo em ordem e oração à vida na família

Hoje, a vaca leiteira Feição fez de novo, puxou conversa antes de derramar o leite das tetas. Ela gosta de prosa, acredita que uma boa conversa deixa o leite mais saboroso.

todos acharam graça daquela história da Anadyr, a vaca leiteira falante

E sobre o quê vocês conversaram, perguntou Angélyca

Ela queria saber do seu bezerro.

E o que você respondeu, foi a vez do Crespo perguntar curioso

Eu respondi que ele estava bem, crescendo forte, prometi que à tardinha levaria ele para mamar nas suas tetas

Mamá, eu posso ver?

Eso depende de tu padre, Aryani. Ahora, vamos a comer.

Nunca vi uma vaca que fala, saiu do seu silêncio, Chiado, o caçula dos varões

Ya basta... vamos a comer...

Isso é porque tu nunca vai na vacaria, foi a vez de todos à mesa ouvirem o Calssado 

a voz assobiada do Chiado retrucou, Não vou porque tenho a escola...

dona Manuela não conseguiu evitar aquele trabalho nas mãos da Anadyr e Calssado, mas não permitia que nenhuma outra das suas crias visitasse a vacaria, Estas vacas no negarán a los niños y niñas la possibilidad de una infancia sana y la oportunidad de recibir una educación adecuada, Essa foi a minha educação... com as vacas leiteiras. Não está satisfeita com o que tenho para oferecer a ti e nossos filhos?, No hablo de ti. Hablo de nuestros hijos y hijas, del direcho a jugar, aprender y crecer de una forma que se adapte a niños y niñas. ¡Repites a tu padre!, Não estou a repetir meu pai!, Pues hazlo de outra manera.

Chega dessa conversa, vocês escutaram sua mãe... vamos comer.

as formalidades daquela casa à mesa eram homilia de agradecimento, preocupação determinada dos lugares de cada filho, cada filha, e a distribuição das comidas por dona Manuela

sem algazarras discordantes

primeiro o pai

apenas, torno a repetir, minha querida amiguinha, estou a contar o que a memória me lembra daqueles dias provisórios

não reconheço no transitório a eternidade, é na morte que se encontra o verdadeiro poder, morrer é um poder definitivo sobre todos

esse jeito de pensar me atrai

as memórias da morte esmagam as lembranças da vida e determinam os lugares de cada um de nós na continuação em nome do pai e da memória de si mesma, envelhecer sem lembranças é um preanuncio da morte 

os lugares à mesa sempre eram preenchidos naturalmente, um costume secular

um mandamento tradicional em que as criaturas que vinham ao mundo infantil o primeiro diploma era ao sentar à mesa sem a cadeirinha para crianças

uma a uma, elas esperavam sua chance de crescerem

a teta

as fraldas

a chupeta

a mamadeira

o engatinhar

os primeiros passinhos

as primeiras palavras

o penico, Es todo tan rápido, don Juan... 

cada um com as suas manias e tudo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo

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Memórias - 10: família e vacas
Memórias - 16: um costume secular

sábado, 20 de abril de 2024

Memórias - 15: rainha do lar

No se puede hacer la revolucion sin las mujeres

Livro Dois

baitasar

Memórias

15 – rainha do lar

quando o relógio despertador destruía o encanto do adormecimento com seu canto de galo, não pensava duas vezes, levava a mão ao lado e num só golpe apertava o pescoço do Alvorado até se quebrar, ¡Ya está! ¡Está listo para ser asado y servido en la mesa del almuerzo!

o jogo de perguntas, respostas e estalos estava começando, o casarão acordava e ordenava que dona Manuela retomasse suas funções genéricas, ela é a dona-da-casa

revestir seu corpo com a invariável e monótona vestimenta de esposa mãe dedicada e serva para o uso do ferro de desamassar roupas esfregar o banheiro dos bons costumes varrer casa lavar louças e panelas cozinhar as carnes para as carnes da sua carne, tudo feito, sem ouvir, ¡Gracias, mamá!

assim era, de tal modo, gerações e gerações em sua família, não sentia ser legítimo reclamar deste personagem que faz tudo por amor, suas vontades não tinham boca para reclamar

lhe foi dado o título honorífico de rainha do lar, uma soberana serviçal da trupe de hóspedes, ela sempre esteve lá para eles, uma presença constante em suas vidas, sempre pronta para atender seus pedidos, responder suas perguntas, achar seus perdidos, mas nunca escutou um obrigado real e amoroso em troca de tanto uso casual que faziam dela, recebendo recebendo e recebendo, ela se oferecendo oferecendo oferecendo, não acho que dona Manuela pedia reconhecimento, mas às vezes me perguntava se eles entendiam do esforço e dedicação que colocava de si mesma para cuidar deles

tudo isso, esse amor altruística e visceral, foi ensinado de mãe para filha, sob a vigilância da autoridade que tudo escuta e vê, uma prisão hereditária e vitalícia da sublime tríade: pai, mãe e filha

na verdade, eu acho que dona Manuela sentia um orgulho resignado do seu aprendizado, Se puede aprender a ser feliz, repetia baixinho

esposo, filhos e filhas chegavam aos contornos da dona Manuela em conta-gotas, no meio do dia, simplesmente esperavam que tudo estivesse pronto

os primeiros eram Anadyr e Calssado, os dois eram espantados para o banho, ¡Por favor, quítate esse olor de vaca y leche del pelo, manos y pies!

don Juan chegava abrindo panelas, experimentando os cheiros

¡Don Juan, vaya a lavarse!

os seis filhos saiam no atacado das manhãs e chegavam a granel para o almoço, jeitos de cada um e cada uma, criaturas únicas para quem aquela mulher vivia em devoção e permanente estado de alerta

cuidava e garantia a sobrevida das suas crias, era como esconder nas próprias entranhas a tesoura e o corte do cordão umbilical, entre ela, os filhos e as filhas, as ligações eram como os ventos do ar que não se pode ver, mas se materializam no medo dos ventos fortes, no bem-estar das brisas amenas do refrescamento

¡Niños, el almuerzo está en la mesa!

a primeira chamada, para acertarem os relógios desacertados, reajustava os ponteiros a cada novo chamado à mesa

Anadyr, quase sempre, era a primeira a sentar-se à mesa, depois se aproximavam Aryani e Angélyca

nada dos meninos

!Niños, la comida se esfría!

depois do segundo convite, don Juan fazia sua convocação, Rapazes, desçam já!

sob o comando de quem tem o direito e o poder chegavam em frenesi e colocavam-se em seus lugares

para don Juan e dona Manuela a organização da mesa durante as refeições era muito especial

arrumar os lugares na mesa era como usar determinada louça para certas comidas, seguir um protocolo específico de ordem e disposição das coisas e personagens, Essas tradições ajudam a fortalecer os laços familiares e criar momentos significativos durante nossas vidas, entenderam?

dona Manuela incluía receitas tradicionais da família nas refeições, ensinava as receitas para suas filhas, esperava o tempo de ensinar e encorajar suas filhas no uso do fogão

don Juan usava o tempo à mesa para contar e escutar histórias, memórias, usava seus instintos para fortalecer os laços entre os filhos e filhas

não começavam as refeições até que todos estavam à mesa sempre posta e preparada do mesmo modo

o chefe na cabeceira da mesa, os meninos sentados de um lado, Calssado, Crespo e Chiado, as meninas sentadas do outro lado, Anadyr, Angélyca e Aryani, na cabeceira oposta estava a dona da casa, e do seu jeito, deitada na cesta de vime, estava Maryá, como boa menina, dormia indiferente às conversas e revezamentos da família

eu, em pé, atrás da dona Manuela, em prontidão para retirar ou levar à mesa

tudo pronto, a mesa estava posta, todos nos seus lugares habituais, faltava agradecimento, Senhor Bom Deus, cheio de misericórdia. Queremos agradecer o alimento desta família e pedir que a graça da sua bondade jamais nos abandone. Amém.

Amém!

respondia o coro agradecido e faminto

ninguém contestava, apenas Maryá virava e revirava a cabeça desassossegada, Tem paciência, hija mía... las chicas gruñonas son infelices...

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Memórias - 10: família e vacas
Memórias - 15: rainha do lar

sábado, 13 de abril de 2024

Memórias - 14: No estoy contento ni triste

No se puede hacer la revolucion sin las mujeres

Livro Dois

baitasar

Memórias

14 – No estoy contento ni triste

tudo era descomedido na vida da dona Manuela, menos às suas vontades satisfeitas, deu vida para um pequeno exército devorador, Vivir tu propria vida es algo para lo que no siempre tenenmos tiempo, vivimos nuestra vida en función de los demás e para muchas ni siquiera hay tiempo para sobrevivir y mucho menos para dedicarse a los libros.

o mergulho aconchegante nas águas mornas da banheira batismal era o seu abrigo do frio, calor, chuva e solidão, manhãs perfumadas e macias com suas espumas brancas de algodão, pequenas bolhas de sabão coloridas

o turbilhão das águas acariciando sua pele morna, o lugar onde se perdia e se encontrava, seu refúgio de tranquilidade, onde aquietava os pensamentos e o corpo aquecia, Es mi próprio momento de cuidado y afecto en el que el peso de ser ama de casa se disipa, era um refúgio para a sua alma, ali podia aquecer das agruras do seu mundo de dedicação exclusiva e se entregar ao prazer simples de existir

o vapor suave, Siento que cada músculo se relaja, abraçava seu ser, um luxo simples e purificador, era seu jeito de lutar para não esquecer de si mesma, o seu refúgio, o seu jeito de cuidar-se, um doce alívio que o aconchego da água lhe proporcionava nas coxas

nos pés

nas costas

os seios não eram tetas, apenas seios para serem acariciados e desejados, sentia as pontinhas durinhas como um arrepio de prazer

o ventre subia e descia, respirava

os olhos roçavam os ombros

os braços

pernas

sentia o seu prazer, Frota mi espalda, eu esfregava suas costas enquanto ela relaxava profundamente e ligava-se, juntava seus pedaços, era mágico, aprendi que buscar o conhecimento de si mesma não tem fim, são passos em um mesmo caminho percorrido inúmeras vezes

um jeito de ficar dentro de si mesma, não sair, não procurar e não encontrar

ficar morna

tocar uma música para si mesma, sem querer agradar ou servir o que nos está rodeando, um conhecimento que nunca se acaba, a cada dia aparecem coisas que estavam invisíveis, ocultas, e curas novas são necessárias para a velha doença da submissão que nos seca e interrompe, paralisa nossos pensamentos, e voltamos a viver nossa vida em função dos demais, sem tempo além de sobreviver e muito menos dedicar-se aos livros

o frio come e o calor bebe ao exagero

esvoaçava com os perfumes e cores das suas ervas e flores preferidas, seus poderes e mistérios, No basta con ponerlas en práctica. La magia es un ritual evocador que activa energías y misterios.

aprendi com dona Manuela que uma praticante de magia pode ser de qualquer religião, o cajado de Moisés fazendo jorrar água da pedra, os xamãs com suas plantas e cogumelos, unguentos, compressas chás que tratam febre, defumação, a consagração da hóstia lembrando vinho e pão, que utiliza uva e trigo

fumo e tabaco nas nossas religiões indígenas servem para curar e entrar em contato com a espiritualidade, flores em coroas para presentear o caminho do morto na ajuda da sua passagem

plantas e seu poder

dona Manuela parecia uma árvore frondosa que me guiava para a sabedoria dentro do nosso coração ancestral, Deja que la tierra hable. Siente y escucha, mas pouco ou quase nada era ouvida

disse que, depois que cheguei naquela casa, pode se dedicar a entender ela mesma, reaprendeu ler, Sigo desviándome de mi próprio camino ancestral, um caminho que precisava debulhar, grão por grão, enquanto se oferecia para concentrar em si mesma a vida que pulsava naquela casa, uma antena de amor, acreditava que esse era seu propósito devido à vida

nesses encontros consigo mesmo recitava suas mulheres escondidas, imprecisas e imperfeitas, as Cecílias para todas as idades da mulher

Yo canto porque el instante existe

Y mi vida esta completa

No estoy contento ni triste

Soy poeta

não perguntava se gostei ou se entendia o significado daquelas palavras, seguia contando e cantando dessas mulheres maternidade, amor, natureza, morte como destino, e que Deus e todo universo são uma única e mesma coisa, não existimos como espíritos separados, Escuta esto de Mistral

Hay besos silenciosos, besos nobles

hay besos enigmáticos, sinceros

hay besos que se dan sólo las almas

hay besos por prohibidos, verdaderos

as palavras lhes saiam como bolhas coloridas de sabão

¿Coneces a Dulce Loynaz? No lo creo, escuta el viento cálido de otros versos...


Si me quieres, quiéreme entera,
no por zonas de luz o sombra...
Si me quieres, quiéreme negra
y blanca. Y gris, y verde, y rubia,
y morena...
Quiéreme día,
quiéreme noite...
¡Y madrugada en la venta abierta!
Si me quieres, no me recortes:
¡Quiéreme toda... O no me quieras!

 

ficávamos as duas olhando, tomando conhecimento de nós mesmas, eu me perguntava se encontraria alguém que me queira assanhada em mim mesma, descobria que queria aprender, ler coisas assim

não me bastava mais a  aparência das coisas, não me bastava a honestidade dos pensamentos, precisava mais, a consciência de mim mesma

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Memórias - 10: família e vacas
Memórias - 14: No estoy contento ni triste
Memórias - 15: rainha do lar

sábado, 6 de abril de 2024

Memórias - 13: filhos são visitas

No se puede hacer la revolucion sin las mujeres

Livro Dois

baitasar

Memórias

13 – filhos são visitas

as curvas do tempo, na metade do dia, eram as mesmas faces tecidas dia após dia, naquela tapeçaria de costumes e tradição

Como foi sua manhã, querida?, ¡Mamá! A comida está pronta?, Sempre a mesma comida, mamá...

ela faz de conta que não ouve

tem as respostas decoradas, mas se nega a ficar refém daquela rotina que enfeita cortinas, mesas e cadeiras, o lugar das visitas, filhos são visitas

querem a casa impecavelmente arrumada com cheiro tentador da comida pairando no ar, os passos da entrada trazem consigo uma energia contagiante e sorrisos, é verdade

a casa se enche com vida, risadas ecoam pelos corredores, histórias e memórias são compartilhadas, fotografias nas paredes parecem paralisar o tempo, trazem agitação e juventude, promessas de novas aventuras

lembranças preciosas do futuro

a mesa posta é um convite à partilha daqueles laços intrincados e indecifráveis, encontros preciosos com abraços de afeto e prometimentos, um cotidiano para celebrar aquela chama

pequenas coisas que se repetiam todos os dias, enfiavam suas raízes devoradoras nas suas carnes, mesmo quando essas pequenas coisas não eram reconhecidas não retiravam seu prazer, a emoção de se surpreender com seu orgulho de mãe e esposa, a dimensão da maternidade

no entanto, passa se vendo sem conseguir enxergar além da negação do que ela mesma estava se fazendo, encoberta pela submissão, insatisfação e os truques dos pequenos silêncios, dores apertadas e miúdas, humores e sorrisos moldados em gesso branco e higiene

Misma... sin noticias..., respondia sem excitação, nada claramente identificável da mulher dentro dela mesma, parecia querer esconder que eles a interessavam, mas deveriam notar sua importância em suas vidas, uma exibição dramática sem novidades, muito menos, resultados práticos

hábitos são costumes que na presença do tempo se transformam em necessidades que o corpo se nega a abandonar, deixar de lado e seguir em frente

são carcaças de ataque e defesa, subterfúgios da sobrevivência, Siempre há sido así...

sentia o conforto adaptado nesse papel que lhe foi desenhado desde antes de ser concebida, a submissão consentida não está perdida

uma mulher retalhada por pequenas proibições só mostra o que é sensato, decente, cômodo e tolerado, sente-se mal quando não cumpre com suas obrigações daquele cotidiano não desejado espontaneamente

aos poucos murchando sem se perceber murchando, apesar dos sorrisos e promessas

conto à dona Manuela que existe uma mulher corajosa chamada La Leporina, ela vive en un pequeño pueblo de la Montaña de maíz y plátanos

um lugar onde as mulheres eram ensinadas desde cedo a serem submissas e obedientes aos homens

la Leporina, no entanto, sempre questionou essa tradição, ela sonhava e lutava para viver em um mundo onde as mulheres são livres e respeitadas

um dia, o líder da vila decidiu impor a prática da mutilação da submissão, onde as mulheres seriam forçadas a passar por um ritual doloroso para mostrar que estavam dispostas a obedecer cegamente aos homens

la Leporina se recusou aceitar isso, determinada a encontrar um jeito de se libertar dessa submissão até então, um destino cruel

conheceu outras mulheres corajosas, e juntas compartilharam suas histórias, decidiram que era hora de tomar uma atitude

la Leporina liderou essas mulheres em uma jornada para desafiar aquelas crenças opressivas, se tornou uma líder de um exército de mulheres

viajaram de aldeia em aldeia, contando suas histórias, ensinando as mulheres a se defenderem, elas mostraram que a verdadeira força não vinha da submissão, mas sim da coragem e da união

com o tempo, a mensagem delas começou a se espalhar, e as mulheres em todas as aldeias se uniram para desafiar as normas que não respeitam as mulheres

finalmente, a pressão foi tanta que o líder da aldeia revogou a prática da mutilação da submissão, e as mulheres foram libertadas daquela imposição terrível

aquelas mulheres provaram que juntas podiam superar qualquer obstáculo e mudar o curso das suas vidas, inspirando outras mulheres a se levantarem contra a opressão dos homens

¡No existe tal mundo, jovencita! No podemos escapar de la realidad, vivimos en una cueva desde que nacemos, encadenadas, de cara a las paredes sin poder movernos, sin poder ver la luz del sol. Este es el único mundo que conocemos, un mundo de sombras y fuegos.

acredito que o início desta invencionice da submissão das mulheres vem com a  fantasia da mulher pensada a partir de uma adão qualquer, tudo merda, tudo prisão, um pesadelo de dor e morte

Mas, dona Manuela...

¡Basta de historias!

Dona Manuela, la Leporina diz que não somos uma cópia imperfeita dos homens, não somos cópia de ninguém, essa ignorância é o engano que nos aprisiona e submete...

dona Manuela ergueu a mão para me interromper

¡Cállate, jovencita! O tendré que echarte de esta casa...

somos do mesmo barro, mas modeladas à gosto dos homens pela exaustão do tempo, costumes e tradições, com milhares de amostras deixadas pelo caminho, educadas para acreditar em uma versão limitada e distorcida da realidade, vivendo sem questionar ideias parciais que favorecem somente uma narrativa: o homem é mais forte, mais inteligente e protetor

assim, aos poucos, murchamos sem nos perceber murchando

é só procurar bem, iremos encontrar essas molduras entalhadas nas pedras, nossa evolução é um jogo de tentativas, muitos erros, desaparecimentos e mortas pelo ódio dos homens

não fomos baldadas de olhos fechados, numa adivinhação de cabra-cega em sete dias, esse discurso da costela do tal adão deu muito certo para os homens, perceberam o paraíso que se escondia atrás do jogo da argila, costela e maçã

um mundo que não existe nos a pressionar num mundo que existe

e claro, minha querida amiga, isso é parte da mentira que ao homem foi assoprada: a dica de correr, à mulher que não foi avisada restou ser comida

desde então, estamos emprenhando enquanto o homem faz de conta que não é com ele as providências sensíveis da vida

garimpamos as ambições dos filhos e abastecemos as vontades de atenção das filhas, mas não temos as respostas, ¿Soy feliz?, ¿y cómo sabemos cuándo somos felices?, ¿quién sabe?, ¿el reloj despertador?, ¿la felicidad es una buena comida?

as perguntas que nos fazemos terminam com a determinação de aprontar camas e agarrar roupas espalhadas pelo chão, Haga que su servício...

despia o uniforme da sobrevivência e ficava nua das fortes vontades, ela se sentia espalhada por todos os cantos e esquinas da casa

derramada entre frestas e arestas

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Memórias - 10: família e vacas
Memórias - 13: filhos são visitas

sábado, 30 de março de 2024

Memórias - 12: a lua... minha cúmplice

No se puede hacer la revolucion sin las mujeres

Livro Dois

baitasar

Memórias

12 – a lua... minha cúmplice

¿Por qué tanta prisa?

o sossego se perdia quando o horário do almoço se apresentava com todas fomes para devorarem

assim, dona Manuela se sentia percorrida velozmente de uma só vez, todos dias engolida avidamente, por todas e todos, sem dó nem piedade, querendo e exigindo, um jogo contínuo de se impor ao outro com a própria vontade ou com naturalidade pelo comportamento dos costumes

uma mulher com mil atribuições genéricas, as específicas entram na mesma conta: mãe e amante desejada, bonita e gostosa... e cheirosa

ali, naquele casarão, que dominava a vacaria e o rebanho esparramado pelo campo, onde o sol beijava suavemente as ondas do seu universo ao nascer com o canto do Alvorado, e ao se pôr, viveu ou vive a dona Manuela – não sei mais o que se passa com aquela gentarada –, uma mulher de espírito resiliente e coração generoso com a família

suas manhãs iniciavam com o despertar rústico entoado pelo Alvorado, ainda com as carícias leves do luar se dissipando, todos erguiam ruidosamente para o balé diário das grandes e pequenas atribuições

a quietude de dona Manuela recebia toda aquela invasão, uma epifania na família

não era sempre, mas, às vezes, ela aparecia enquanto eu preparava café, o aroma forte e reconfortante se espalhava por cada canto, café era o amuleto para despertá-la depois do Alvarado

a cada dia, meticulosamente, colocava à mesa um pequeno banquete de ovos, pães, frutas e um bule de café que prometia vigor, uma das serventias que aprendi com dona Manuela, A partir de ahora serás el cuidadora de esta gente, desde lo Alvorado hasta mi baño, Sim, senhora. Espero não decepcionar, Se trata de memorizar los movimientos y repetir... repetir... repetir...

as crianças emergiam de seus quartos, ainda enredada nos últimos fios de Morfeu, sonhadoras e mormacentas

entre uma mastigação e outra, revisavam entre si suas lições, ajeitavam uma camisa desalinhada, corriam de um canto a outro procurando seus esquecimentos

don Juan, às voltas com as notícias da manhã, compartilhava com os filhos seus planos do dia, tudo entre goles de café e comentários sobre o clima e os animais

assim que a porta se fechava atrás das últimas crianças, geralmente, eram Aryani e Chiado, a quietude retornava

era hora de metamorfear-me novamente, seguindo as ordens da dona Manuela, Hay que ordenar la cocina, recoger la ropa del suelo y lavarla, barrer el suelo una vez al día, tais ordens, por mais repetitivas que fossem, eram orquestradas com uma precisão que só ela possuía, acredito que por anos de prática transformando o ordinário em uma coreografia nua e peculiar pelo casarão

depois de um tempo se quer respirar outros ares, tinha paixão por novas histórias, trocar sorrisos com pessoas, conversar bobagens, reconhecer e ser reconhecida, despertar alegria e tristeza, abraçar e ser abraçada, tocar e ser tocada, desvelar medos e ser amparada

à tarde, não me permitia descansar, o dever chamava novamente, as obrigações de limpeza da cozinha, curar as feridas dos restos de comida nos pratos, limpar talheres e copos, preparar panelas e jarros para a próxima refeição enquanto as conquistas e inquietações familiares carregavam à volta ao fim do dia

depois devia iniciar o preparo do jantar

após o jantar, dona Manuela e don Juan sentavam no terraço, olhos perdidos no horizonte, onde o sol tocava a vacaria num raro silêncio

a lua... minha cúmplice, sorria do alto, enviava um sorriso de cumplicidade, ela entendia de fases e transformações, luz e sombra, assim me recarregava para dançar este balé ao amanhecer com as minhas mil atribuições, dia após dia, na tapeçaria de uma vida familiar que não era a minha

Como foi seu dia, querida?

Mismo... sin noticias...

Mamá, estou pronta! Vou dormir...

a lua me sorria, Vá viver sua vida, rapariga bonita.

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Memórias - 10: família e vacas
Memórias - 12: a lua... minha cúmplice

sábado, 23 de março de 2024

Memórias - 11: Ah, la vía láctea

No se puede hacer la revolucion sin las mujeres

Livro Dois

baitasar

Memórias

11 – Ah, la vía láctea


para dona Manuela, seu homem fuçador confessava que tinha pesadelos, uma visão aterrorizante da automatização da produção do leite, Manu... espero nunca ver minhas leiteiras com seus úberes fazedores de leite ligados ao sugadores de tetas...

¿De qué se trata isso, Juan?

olhou para a dona Manuela com carinho e deu volta em toda a sua vida, mesmo não lembrando tudo, por que é impossível acordar tudo o que dorme em nossas cabeças, é muito grande, percebeu que levou muito tempo para aprender que precisa de pouco para ser feliz

Ventosas, minha dona...

ela ergueu os olhos surpresa, aquele homem peludo, parado em pé, nu, na sua frente, nunca dissera nada sobre ela ser a mandante da sua vida, não quis comentar nem entender mais do que foi dito, as vozes em nossas vidas não são apenas as nossas, estão à nossa volta, basta saber olhar e escutar, apenas sugeriu que continuasse, Y...

Elas regulam e obram a transfusão por si mesmas, o leite faz caminho do úbere para a via láctea sem carinho, chega aos vasos bojudos em metal fundido sem nenhuma palavra de conforto.

Ah, la vía láctea...

as vozes na cabeça da dona Manuela não sabiam explicar aquela realidade, muito menos, aquele pesadelo

Seria preciso ajustes na rotina da vacaria e muito investimento, não sei não, essa automação da ordenha tirando o máximo de leite no menor espaço de tempo sem afetar a saúde da vaca... não acredito. Confio em cuidar da saúde da vaca enquanto estão no cio, depois na reprodução, precisam de limpeza, alimentação, água e uma boa conversa, o animal precisa de cuidados de perto... são essenciais.

¿Y cuánto cuesta esta automatización?

Bem... isso é um bloqueio para automação do maquinário da nossa vacaria, é alto o custo de aquisição do maquinário que vêm de outros países. Ainda é realidade apenas para os grandes produtores de leite... ainda bem, Não aceito aposentar as mãos.

¿Es ése el único problema... jubilar tus manos?

don Juan percebeu que o rumo daquela conversa tinha mudado, achou mais respeitável àquela conversa se estivesse enrolado em uma toalha

Bem, dona Manuela, as vacas só produzem leite após darem à luz, assim são obrigadas a parir um bezerro por ano para produzir leite.

¡Qué horror! ¿Y cómo lo haces?

Temos o nosso touro, mas precisamos cuidar que não deixe prenhe as suas crias.

¿Y cómo se hace eso?

Marcamos as crianças e soltamos no pasto. O animal não utilizado no tambo vira força de trabalho ou é vendido para a pecuária de corte.

Ah, pues eso... o tienes un ternero al año, trabajos hasta la extenuación en confinamiento o convertirse en un asado...

Resumindo... é assim mesmo, as vacas pagam tudo aqui em casa.

Un mundo sin opciones, con prohibiciones y muertes, creo que sólo hay un beneficiario en todo este embrollo, el toro...

E nós... enquanto cumprem com sua tarefa.

¡Dios mío!, levou a mão à boca, ¡Qué horror! Empiezo a entender a los veganos. ¿Y cuánto tiempo produce leche uma vaca?

don Juan sentou na cama, esperava que aquela conversa ajudasse dona Manuela entender seu foco no trabalho do tambo, não era só apertar e puxar tetas

Em média, isso varia de animal para animal, sofre variação com a raça e também com o manejo do animal, o tempo de lactação é de aproximadamente 305 dias e é diretamente influenciado pelo parto. Após o parto a produção de leite é estimulada pela ordenha e dura quase 10 meses, os outros 60 dias do ano permanece em período seco, até iniciar uma nova gestação.

Hasta que el toro vuelva a cumplir su faena... don Juan...

ela estava pronta para a próxima pergunta, ele pensou que talvez não estivesse pronto para responder

Pergunte...

¿Se há puesto mi marido en el lugar de la vaca? Si estuviera en su lugar, ¿cómo le gustaría que le trataran?

Não sei, Manu... creio que posso responder que do contrário não teríamos uma produção de leite que sustentasse nossas vidas. O leite que sai pela teta e entra nas nossas bocas depende do conforto, alimentação e sanidade do animal. Faz muito tempo que as lendas de manejo do velho Caraca nos acompanham... mas sofreram mudanças.

os folhetos propagandistas não fazem don Juan sonhar com essa ajuda mecânica, braços alongados e dedicados que por certo farão sobras de tempo para uma prometida vida de preguiça, folgada de afazeres e sem rumo, prontidão para se dedicar ao ócio, às coberturas da mulher e essas frescuras com as putas enquanto tiver apetites

... por enquanto, preciso de 10 mortos de fome para apertar e puxar as tetas. Gente desagradável, cheia de amarguras, desencantos, inveja e frustração, vazios de ambição, parou um segundo para respirar, um bando cheio de pedidos, queixas, reclamações, críticas, xingamentos e acusações, um pequeno inferno de almas perdidas pelo mundo. Sei que com a automatização acabo com essa merda toda, o mecanismo espremedor precisa de 2 funcionários com vistas de cuidado sem exageros, gritos ou reclamações. E mais 2, no máximo 3, no manejo das vacas secas, bezerros e touro. Um rio de leite nas mamadeiras e xícaras da cidade. E um lucro maior, é claro!

Entonces...

Não sei, esses pesadelos...

dona Manuela não cansava de se repetir, No quiero esas cosas que desencantan la vida, ela queria das manhãs o conforto séptico do silêncio, não queria, na sua volta, pessoas que não sabem o que fazer com a própria língua, ¿Y de qué sirve tener cosas bonitas sin tener tiempo o ganas de disfrutarlas?

agora, no silêncio do casarão, depois que todos se foram para cumprir suas obrigações, seguia calada, olhava sua nudez orgulhosa dos apetites que provocava – e ainda provocava... – em don Juan, na luz do quarto, gozava naquele olhar de cobiça do bicho cabeludo quando estão descobertos de panos, escondidos dos olhares curiosos, prometia devorar sem dó nem piedade sua caça indefesa para ser comida

mergulha nas águas mornas da banheira com as carícias da quietude, exilada de tudo e todos, apenas vultos solenes e indefinidos, acaricia o regaço insaciável e o seu modo humano de viver

nenhuma voz chamando

não tem medo das mãos, é dona de si mesma, sabe que o seu tempo de viver está passando, não há como se esconder disso, tão pouco adianta desejar que não seja tão depressa como parece ser nem querer de volta o tempo já vivido

sente um tremor nos pés, ouve o som da água, goza o frescor da natureza... está limpa

sai das águas, e ali, parada em frente ao espelho, esfrega a imagem refletida, a toalha cabeluda cai, vira de costas e sai, retorna vestindo seu uniforme de dona de casa, caminha juntando e limpando sem afobação

nenhum sorriso nos lábios

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Memórias - 10: família e vacas
Memórias - 11: Ah, la vía láctea

sábado, 16 de março de 2024

Memórias - 10: família e vacas

No se puede hacer la revolucion sin las mujeres

Livro Dois

baitasar

Memórias

10 – família e vacas

Juanito foi o único dos filhos e filhas que ficou para tocar o negócio de espremer e puxar tetas do velho Caraca quando uma das mãos do pai endureceu torta, adoecimento conhecido como desgraça de um lado só

o homem deitou alinhado, acordou velho e desarrumado, um dos lados deformado, justamente o lado que mais usava

por algum motivo acharam que deveriam benzer, mesmo desconfiando de tudo, algum mau jeito ou golpe de ar, até quem sabe, praga de um dos filhos, chamaram dona Lothária para benzimento

chegou com um galho de arruda atrás da orelha, toda vestida de simplicidade, voz arrastada e áspera, perguntou de alguma queda, Só se foi da cama, respondeu Juanito, Não é bastante pra tanto estrago... alguma batida ou golpe de ar, Não, dona Lothária, ele deitou reto e acordou torto da boca, da mão e do pé.

deu para ver que estava desconsertada e sem entender do porquê daquele entortamento súbito, a ansiedade só fazia aumentar, Vô benzê... mais cura não prometo, vai sê benzedura pra num piorá o aleijume que já tá bem ruim.

aquela benzedura foi só pra ninguém dizer que nada foi feito ou tentado, tudo que era gente sabia, mesmo sem entender tudo, que o velho tinha dado meia volta na vida

Juanito saiu, foi desabafar com suas vacas, desconfiava que tudo estava mudando com jeito de não voltar atrás

embora não abandonasse da ideia das benzeduras, o médico da vila não lhe deu nenhum alento que algo feito pudesse desentortar o que já estava torto, percebeu que a vida apontava novos caminhos que devia trilhar, escutava vozes das suas vacas na cabeça, elas estavam à sua volta, fechou os olhos para ver com o coração

o tempo foi acomodando a vida, dia após dia, o velho Caraca parecia forte e quase cheio de vida, mas bastava desviar atenção para direita e ele se mostrava como alguém que se perdia para algum propósito casual, olhar enviesado pelo canto mais apropriado, a mão sem força para espremer e puxar, conformada com a moldura de garra, a perna dura com pé apontando à esquerda

o crepúsculo passou espreitar a vida como um bêbado desalinhado, a pálpebra do olho erguida pela metade, boca e olhar perdidos da forma de prontidão, língua confusa e pastosa, sem a conversa consistente com suas vacas, foi assim que os gritos do velho cessaram

daquela voz poderosa ficara apenas o rosnar indefeso dos gatinhos, como um sussurro sem malícia em meio ao caos, perdera aparência ameaçadora, na verdade, ficara inofensivo, e até mesmo frágil

o braço se contraiu para dentro de si mesmo, a mão e as pinças ficaram em desenho de concha, não apertavam mais os úberes nem levavam à boca o fumo de palha, para esse serviço deixou no seu lado uma índia velha e cansada para reclamar, montava o seu palheiro e oferecia acesso na mão boa

passou a viver uma vida desencantada em algum canto do casarão com sua teimosia e vício de defumar seu fumo de corda

a velha índia afastada dos seus quefazeres montava guarda ao lado do velho, usava as mãos para acender no velho a chama do fumo de corda enrolado e mijado, trocava palha de milho e fraldas, os panos que o velho Caraca passou usar no meio das pernas

o palheiro se recusava abandonar, repetia que sempre que soprava fumaça estranhos poderes surgiam, plantas cresciam mais rápido, curava ferimentos e até mesmo afugentava criaturas perigosas do mato

com o passar das histórias de boca em boca, os poderes do velho Caraca se espalharam pelo tambo, algumas vacas passaram a temê-lo, outras se maravilhavam com suas novas habilidades para proteger o mato, ajudar as vacas que precisavam ajuda

foi tornando-se uma lenda entre o gado

apesar dos avisos dos médicos para parar de fumar, continuou fumando seu palheiro e se afumentando nas mãos da velha índia, repetia que seus poderes com as vacas estavam diretamente ligados ao seu fumo de corda, Esses doutores não sabem de nada, tudo enganação.

sua teimosia combinada com o fumo, fez dele um personagem para ser esquecido através das gerações, o fumante teimoso com poderes mágicos de conversar com vacas, um mito entortado

a perna continuava durona de não se dobrar, caminhar passou a ser um gesto desumano de equilíbrio e acidentes

o velho havia perdido harmonia das coisas simples, perdeu o fio prumo e o poder do chicote que lançava no ar, lambia o chão ao lado dos filhos sempre que algum guri enfraquecia ou parava de apertar e puxar tetas, Por que o descansado parou? A teta não derrama sozinha!

pararam os gritos e estalos no chão, restaram as fraldas, babeiros e a índia velha

um a um, os filhos e filhas que restavam no tambo foram embora, doze resistiram de um total de vinte e um até a idade de fugirem para o mundo, bem antes, cada um dos filhos do velho Caraca aprendeu começar e terminar suas tarefas nos estábulos da vacaria

todo dia, o chicote convencia qualquer vontade em contrário e deixava suas marcas no chão

o filho que lhe sobrou jurou, Papá... filho meu jamais vai conhecer golpe de trança de couro!

Assim, seja, amém...

depois, o velho ficava quieto

não sabia mais o que lhe responder, nada parecia lhe interessar além do palheiro na boca e trocar as fraldas

Papá, desconfio que a vida é só família e vacas...

E a Pátria, Juanito! E a Pátria..., levou a mão desgarrada até o canto da boca, sentia a baba melosa escorrendo

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Memórias - 10: família e vacas

sábado, 9 de março de 2024

Memórias - 09: a lenda da fonte mágica

No se puede hacer la revolucion sin las mujeres

Livro Dois

baitasar

Memórias

09 – a lenda da fonte mágica

no casarão da família Gonçalves Lara, as manhãs sempre começavam embaraçadas, tranquilidade apenas enquanto a clareza do dia não se firmava e as histórias do senhor don Juan  bondoso, honrado, respeitável e augusto patriarca  não soavam pelas paredes, devidamente combinadas com correrias da filharada se ajustando para seus quefazeres naquele galpão de quartos

um patriota das vacas com seus dois enormes braços peludos e suas dez pinças enormes e tortas

mas, bem que cabe aqui – talvez, não –, avaliar os dedos de don Juan como deformados, visto a mania que o homem passou a ter de apertar e puxar o úbere da mulher, resultado da sua experiência em ordenhar desde seus tempos indivisos de filho do velho Caraca Lara

tempos duros aqueles que moldaram o caráter do filho e desfigurou-lhe o uso das mãos

o velho Caraca carregava para lá e cá uma malha branca embaixo do focinho, louvaminha que marcava sua mistura de metade homem e metade gado

traquejo que usava e abusava na ordenha, o cheiro de um se misturava no cheiro da outra, coisa que acalmava as leiteiras, o homem era deixado de lado até ser esquecido por completo, ficavam apenas vozes em sua cabeça, um conversando a outra escutando, por um bom tempo

a rotina da ordenha nunca foi fácil 

as dificuldades do dia-a-dia e os filhos questionando que as coisas da vida não seriam apenas no tambo, deveria ter mais algum sentido

buscavam por conta própria entender sozinhos a vida longe das vacas leiteiras, tentavam de todas as formas possíveis, mas lá estava o velho Caraca se intrometendo, e algo não dava certo, geralmente, era o dinheiro da mesada que não era liberado, e por cansaço, acabavam desistindo da nova jornada

o velho não aceitava muito opinião de quem quer que fosse, até que a coisa ficava séria, era então que se fecha no silêncio taciturno e conversava com os fios do bigode

não tinha diplomas de formação da escola, mas sabia tirar leite de pedra como ninguém mais, todos seus quinze filhos aprenderam ofício de apertar e puxar, Quando se decidirem partir pelo mundão desconhecido  e partirão com certeza , levarão na bagagem nosso jeito de ordenhar que por menos que possa valer vai lhes dar recurso para arrumar comida.

caso perguntassem sobre o ofício de qualquer um dos guris – as gurias ficavam com as tarefas de limpeza e comida –  do velho Caraca, a resposta estava carregada na ponta da língua, Graças à Deus, fazem ordenha de tetas! E as gurias que brotaram em bem menor quantidade, graças aos descuidos da mulher, cuidam muito bem da limpeza e da comida. Não tenho queixas, poderia ser pior.

Juanito foi o único dos filhos e filhas que ficou para tocar o negócio do pai, o guri ficou conhecido por sua habilidade única de acalmar vacas e extrair leite delas de forma suave e eficiente

um dia, uma das vacas do tambo começou a produzir leite mais saboroso e nutritivo que se viu, Juanito percebeu que algo mágico estava acontecendo e decidiu investigar. ele passava horas conversando com vacas, tentando descobrir segredos por trás desse leite especial

certo dia, enquanto ordenhava a vaca mais velha do tambo, conhecida como Margarida, Juanito ouviu um sussurro vindo de dentro do celeiro. para sua surpresa, ele descobriu que as vacas estavam se comunicando entre si e com ele. elas falavam de uma antiga lenda sobre uma fonte mágica escondida nas profundezas das colinas, essa fonte mágica poderia conceder poderes especiais ao leite das vacas

determinado ajudar as vacas descobrirem a verdade por trás da lenda, Juanito partiu em uma jornada épica pelas colinas, enfrentando desafios e perigos

no final da sua jornada, ele não descobriu uma fonte mágica, mas percebeu que o segredo para leite especial estava no cuidado, dedicação e amor que as vacas recebiam

ao retornar para o tambo, Juanito compartilhou sua descoberta com irmãos e irmãs, que não estavam dispostos a tratar vacas com carinho e respeito, decidiram que chegara o momento de partirem

e assim, foi acontecendo a debandada da filharada do velho Caraca, um a um, uma a uma, foram seguindo passos dos mais velhos que se estabeleciam longe do tambo, esparramaram-se pelo mundo

Juanito ficou, tratava vacas ainda com mais carinho e respeito – e pelo nome de batismo

o leite produzido no tambo ficou famoso em toda região, trazendo prosperidade e alegria ao velho Caraca

assim, Juanito se tornou herói no tambo, conhecido não apenas por sua habilidade em apertar e puxar tetas, mas também por sua bondade e compaixão com vacas

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