quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Violeta Parra Mercedes Sosa

Filho... hoje volto aos 23, como já voltei a los diecisiete


Volver a los diecisiete




Volver a los diecisiete

Volver a los diecisiete
después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Mi paso retrocedido cuando el de usted es avance
El arca de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Colando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín


Gracias a La Vida


Gracias a la Vida

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio dos luceros que cuando los abro
perfecto distingo lo negro del blanco
y en el alto cielo su fondo estrellado
y en las multitudes el hombre que yo amo.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
me ha dado el oido que en todo su ancho
graba noche y dia grillos y canarios
martillos, turbinas, ladridos, chubascos
y la voz tan tierna de mi bien amado.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado el sonido y el abedecedario
con él las palabras que pienso y declaro
madre amigo hermano y luz alumbrando,
la ruta del alma del que estoy amando.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la marcha de mis pies cansados
con ellos anduve ciudades y charcos,
playas y desiertos montañas y llanos
y la casa tuya, tu calle y tu patio.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me dio el corazón que agita su marco
cuando miro el fruto del cerebro humano,
cuando miro el bueno tan lejos del malo,
cuando miro el fondo de tus ojos claros.

Gracias a la Vida que me ha dado tanto
me ha dado la risa y me ha dado el llanto,
asi yo distingo dicha de quebranto
los dos materiales que forman mi canto
y el canto de ustedes que es el mismo canto
y el canto de todos que es mi propio canto.

Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida
Gracias a la Vida


Todo Cambia



Todo Cambia

Cambia lo superficial
cambia también lo profundo
cambia el modo de pensar
cambia todo en este mundo

Cambia el clima con los años
cambia el pastor su rebaño
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Cambia el mas fino brillante
de mano en mano su brillo
cambia el nido el pajarillo
cambia el sentir un amante

Cambia el rumbo el caminante
aunque esto le cause daño
y así como todo cambia
que yo cambie no extraño

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Cambia el sol en su carrera
cuando la noche subsiste
cambia la planta y se viste
de verde en la primavera

Cambia el pelaje la fiera
Cambia el cabello el anciano
y así como todo cambia
que yo cambie no es extraño

Pero no cambia mi amor
por mas lejos que me encuentre
ni el recuerdo ni el dolor
de mi pueblo y de mi gente

Lo que cambió ayer
tendrá que cambiar mañana
así como cambio yo
en esta tierra lejana

Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia
Cambia todo cambia

Pero no cambia mi amor...

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

o carapááálida não entende, mas Mano Brown... explica

Mano Brown: “Eu vim aqui para falar de extermínio…”

23/10/2012

Publicado por Renato Rovai no Blog do Rovai

Tive o prazer de poder participar do encontro de Haddad com artistas de periferia que aconteceu há alguns dias. Foi uma reunião muito mais simbólica do que eleitoral. Um evento fechadão e sem grandes divulgações.

Um papo onde Haddad ficou umas três horas praticamente ouvindo. Falou pouco. Como se quisesse aproveitar ao máximo aquele momento para saber o que pensavam artistas tão importantes. Meu amigo Pedro Alexandre Sanchez fez um excelente relato deste evento e até por isso não vou me alongar aqui.

Na ocasião, uma fala que me impressionou demais foi a de Mano Brown. Ao pegar o microfone, já disse: eu não vim aqui para falar de cultura, vim aqui para falar de extermínio. Ou seja, sabia que para falar de cultura, tinha que falar de cor da pele, de classe social e de território.

O Pense Novo disponibilizou o vídeo com esta fala, vale a pena assistir.



Homem Invisível


O melhor livro de todos os tempos para Charlles Campos

Charlles Campos é médico veterinário, formado em História, e leitor profissional. 
A partir de hoje, diariamente, durante todo o período da Feira do Livro de Porto Alegre — , publicaremos textos a respeito de “melhores livros” na visão de colaboradores e leitores do Sul21. Você também poderá enviar sua colaboração para op@sul21.com.br. (Milton Ribeiro)
Homem invisível, de Ralph Ellison, por Charlles Campos
Eu cheguei a Homem Invisível através de uma dessas tantas listas dos dez melhores romances do século XX. Eu conhecia e havia lido boa parte dos outros títulos da lista, os Mann, os Kafka, os Faulkner, os Joyce, mas nunca nem ouvira falar do romance cujo título soava como os de ficção científica e era assinado por um tal de Ralph Ellison que me era um completo desconhecido. Na época eu tinha lá os meus 25 anos e a onisciência disponibilizadora da internet ainda não era uma realidade, de forma que eu não tinha como obter mais informações sobre o livro além de rápidas notas em revistas antigas desencavadas de caixas empoeiradas de bibliotecas públicas e uma coluna de reverência acadêmica de uma enciclopédia que ressaltava ser Ellison o maior escritor negro da América e seu único romance um libelo contra a discriminação racial. Não eram informaçõe s que me despertavam maior interesse pela leitura da obra, devido seu proselitismo e seu acento de correção política que poderia nada ter de real valor literário; parecia uma concessão. A grande sorte é que eu já investira parte de meu tempo no conhecimento dos grandes escritores e sabia que nas mãos deles, até um panfleto se transformava em alta expressão espiritual, e me ajudava saber que a academia e a maçonaria dos professores de letras faziam seu papel de sistematizar ao extremo a leitura até torná-la uma substância temerosa e destituída de prazer, e suas catalogações insípidas de borboletas literárias não escondiam o mérito da obra por sua canonização pelo gosto de leitores sinceros.
Comprei um exemplar de Homem Invisível, o último da livraria, publicado pela Marco Zero, em ótima tradução assinada por uma tal de Márcia Serra. Foi uma das raras aquisições em que a expectativa formada correspondeu milimetricamente ao que o livro tinha para oferecer. Há alguns anos eu dedicara uma semana de umas férias e devorar Os Possessos em uma biblioteca pública, o romance baluarte de Dostoiévski que era quase impossível de se encontrar no mercado editorial brasileiro (a tradução da editora 34 era uma ideia em formação em idos de 1995), e aquele volume duplo português encadernado em vermelho e com pranchas internas mostrando rascunhos do autor com  seus desenhos distraídos de mujiques barbudos na beirada das páginas, mesmo pessimamente traduzido, foi o equivalente a um ferro em brasa gravando em mim a beleza cruel que a ficção era i ncumbida de oferecer em sua elevada concepção da natureza humana, em nada bajuladora, e sua capacidade de ser ainda uma carreadora de primeiro nível da percepção profunda da História e da Filosofia. Então, eu esperava encontrar a mesma natureza sanguínea e violenta, o mesmo turbilhão de olho do furacão, em Homem Invisível, pois a ele era atribuído o panfletarismo libertário que outrora fora equivocadamente atribuído ao romance de Dostoiévski: e sendo que no russo eu descobrira algo tão desoladamente lúcido no lugar da propaganda oficial que se fazia deste seu romance. E lendo Homem Invisível, nos eufóricos três dias intensos em que não consegui fazer mais nada que me lançar nele, deparei-me ali com a mesma falta de pudor de Os Possessos, a mesma ausência absoluta de intenção em agradar, em ser digerível, em ser ameno.
Homem Invisível está tão distante de ser um panfleto de luta racial quanto Os Possessos está de ser uma cartilha marxista sobre a revolução de classe. Ambos podem ser lidos em negativo de tudo que superficialmente são tidos como apologistas de determinados setores formados da exclusão. Homem Invisível, com aqueles primeiros parágrafos antológicos, de enorme beleza, começa por afrontar um tipo de exclusão espiritual que vai muito além das circunvoluções dos conflitos raciais dos Estados Unidos, afundando-se na ferida de que a discriminação violenta tida por sobre uma raça não a distingue como determinada à nobreza do estoicismo ou à dignidade dos mártires. O narrador, contudo, aponta sua invisibilidade social tanto devido à sua cor quanto ao atraso espiritual que o pior crime da discriminação racial determina: a inà ©rcia acomodada de ambos os lados da repressão, que gera a promiscuidade e o animalismo. E no contraste entre tema e tom da narrativa que está a força incomensurável desse livro: a prosa de Homem Invisível é a melhor, a mais bem composta, a mais elevada e nietzschiana, a mais bombástica e musical da exigente prosa norte-americana do século passado. Cada parágrafo é intenso de luz verbal, em uma história movimentada que apresenta dezenas de personagens e situações inusitadas desenhadas no cenário de submundo e de constantes e disparatados movimentos sociais norte-americanos. Dizer sobre o contexto político de uma obra é desmotivar a leitura dela: Homem Invisível é antes um romanção de primeira, de mexer com o leitor na poltrona, de não se conseguir despegá-lo até o fim da leitura, daqueles livros que verdadeiramente nos transformam, e isso nada tem a ver com uma visão específica sobre partidarismo político. Sua carga filosófic a e sua acentuada verdade incondicional é o que sobressai da voz frenética e concentrada do narrador, e depois desta jornada que pouco se dá tempo para a respiração tranquila, o narrador encerra com a mesma poesia magnífica ao anunciar: “quem sabe se, em esferas mais baixas, eu não esteja falando sobre vocês?“.
O mercado editorial nacional, um dos melhores e mais dedicados do mundo, vem cometendo uma grande injustiça com esse romance de Ellison, que deveria ter por aqui uma edição bonita, com ensaios sobre a obra feita por outros autores (o de Saul Bellow, por exemplo), e a promoção devida para diminuir o desconhecimento entre os leitores brasileiros dessa obra capital.
Leia mais:

domingo, 28 de outubro de 2012

Sarau na kitnet


Ensaio 12
baitasar
Uma manhã esplêndida, maravilhosa, e sente um desperdício imenso do seu tempo infame, mentiroso, camas desfeitas que nunca espera tempo suficiente para ver refeitas. Levanta e caminha até a janela, recebe os primeiros raios de sol, aquece os pelos arrepiados. Eleva os braços espreguiçando com um longo bocejo. Leva as mãos aos cabelos e os une num único rabo, amarra os fios negros – quase crespos – e os deixa sobre os ombros. Fecha os olhos verdes que estão fixos na paisagem dos prédios e concretos à sua frente. A paisagem das cidades é cinza. Nenhuma brisa, nenhum alento, apenas uma breve anistia para o tempo que estava chegando. Amanhece e o brilho do neon sai de cena com seus murmúrios de prazer e mistérios, obedecem às claridades de mais um dia. Não têm as cantorias do galo a que Sèzar acostumou escutar, a mãe se mexendo na cozinha enquanto preparava o café dos homens da casa: ele e o pai. Têm o barulho do metrô que começa os trabalhos de ir e vir, partir e chegar carregado daquele gado novo, renovado pelas fábricas, escolas e igrejas, gente decente e trabalhadora, altruístas da vida. Casamentos, filhos, empregos, correrias, carnês, televisão, praia no verão. Vira-se e sente o sol nas costas, passeia lentamente o olhar ao redor do quarto envolto nos cheiros e vozerios daquelas manhãs. Vai até a cama e passa os dedos suavemente no dorso da amiga que aprende a gostar. Toca seu corpo como se pudesse fazer parte daquele silêncio, a harmonia dos livros fechados, o descaso com o caos, surdo para aquela vida de concreto e ferro, mais um pescoço cortado e pendurado por ganchos, escorrendo as águas, ela abre os olhos — Adelaide, você conhece Moriá?
A jovem se vira na cama, tem o sorriso do sono misturado ao olhar do desejo reaquecendo, leva uma das mãos aos olhos, como se esfregando eles pudessem acordar ou acenderem mais rápido — Sim.
Sèzar faz uma cara de espanto — Conhece?
Têm coisas que parecem idiotas e são idiotas, e a ficção não consegue imitar, a realidade se inventa do seu jeito, obedece aos caprichos e vontades de alguma autoria, que quase sempre não é a de ninguém, está sempre inquietos passos à frente de qualquer lápis e papel, se forma pela mistura das vontades de outras vontades com alegria e encanto, antipatia e fúria, esquecimentos e lembretes, não importa qual lado tem razão, às vezes, o melhor é observar os acontecimentos de algum lugar com distância segura  e não querer ter razão — Claro que a conheço, fazemos parte do mesmo círculo do livro, com leituras, trocas de livros, sugestões... mas, por quê?
—        Nada, nada não.
Ainda pensa em Moriá e sente-se misturado ao prazer, ódio e mágoa. Não entende como respirar o masculino e o feminino juntos, num corpo, num desejo. A curiosidade não lhe conferia dignidade, pelo contrário, sentiu arrepios antes mesmo de ouvir a resposta da Adelaide. O tom não foi grave, mas casual — Vou tomar uma ducha fria. — não teve ou não quis vontade de continuar o rumo daquele início de manhã. A realidade também se perde para outras realidades: omissão e covardia. Adelaide parecia se colocar em algum ponto alto, a uma distância segura
—        E eu vou aquecer a água do chimarrão.
Sèzar permaneceu na cama, olhava Adelaide, olhos carregados do desejo a observam se desenroscando dos lençóis — Você está linda, Adelaide. — o amor não respondeu, não queria agradecer nem duvidar daquele olhar de cobiça, têm vezes que mais vale a dúvida que a certeza. E ela, ainda não havia achado a razão da Moriá ter aparecido, antes de abrir os olhos e ganhar um sorriso de bom dia. Sentia-se solitária, mais que Sèzar na piscina da amiga. Parou, uma das mãos na alavanca do trinco, a outra, na altura dos seus ombros, no marco de madeira da porta, virou-se, levemente, Sèzar podia ver um dos seios — Parecem com uma cuia morena...
—        O que foi, Sèzar?
—        Os teus seios me lembram uma poesia...
—        Nada lhe alcança o coração, Sèzar, somente a poesia...
—        Por que diz assim? — ela apenas sabe, olha o amor do seu amor e vê palavras descumpridas. Fica em silêncio e vai para o banho. Não sente os olhos do homem, apenas os olhos do poeta.
Sai do banheiro para o quarto, está pronta para as tarefas de vigiar a vida — Vou tomar café, quer um?
—        Não, agora não. Tenho meu chimarrão.
Entra na cozinha para preparar o café e Sèzar começa cantarolar — Hum, tá fazendo na cozinha, tá cheirando aqui... merda!
Gosta de ouvir essa cantoria do café que aprendeu com a vó Déda, cresceu ouvindo a vó fazendo essa cantoria, na hora do café passado com o saco de pano: ‘Haiti, Haiti, Haiti... está fazendo na cozinha, está cheirando aqui...’. Depois de cantarolar uma única vez, o Sèzar adotou como sua lembrança da infância — O que foi, Sèzar?

—        O Gustavo mandou outro daqueles e-mails cheios da sabedoria raivosa: ‘Corta a esmola que a pobreza acaba!’ Gente egoísta e alucinada. Poderiam escrever, assim: ‘Corta a esmola que o pobre acaba, preciso trocar meus sapatos e carros!’ — os deslumbrados com eles mesmos, individualistas, não sabem mais como ser diferente, tanto faz se dentro de um carro ou no metrô, o gado lá dentro amarrotado, você asfixiado pela pressa, o rádio ao todo do volume que você não suporta mais, as notícias, a música, até que o grito do gol lhe convoca para a luta, uma única causa, onde todos são iguais... não é bem assim, mas que parece, até que parece um sonho de fraternidade, igualdade e amorosidade, quando no meio daquela multidão de uma só cor, alguém levanta e grita: ‘Chuta esse cara!’ ‘Mata, mata!’ ‘Bate, bate!’ ‘Filho-da-puta!’ ‘Juiz ladrão!’... mas é tudo alegórico, é uma guerra de brinquedo, faz de conta, uma catarse do metrô, do carro, do gado amarrotado, do volume, das notícias, do gol contra, da piscina, da Moriá
—        Eu nem abro essa merda toda. É a aposta que o doce veneno do egoísmo pode ser tomado até a embriaguez.
—        Dá um café?
—        Ué... e o chimarrão? — Adelaide está em pé ao lado da porta da cozinha, por ali é tudo muito pequeno, saindo da cozinha entram no quarto, alugam aquele kitnet mobiliado com eletrodomésticos, luz, água e internet com 10 megas, tudo individual, seguro, perto de tudo, vigiado por câmeras 24 horas, local para estacionar o carro da Adelaide e a moto do Sèzar, e o mais importante, estão à meia quadra do estádio novo: a Arena... e economizam suas casas de verdade
—        Perdeu a graça...
—        Interessante.
—        O que é interessante, Adelaide?
—        Você... tão prestimoso e diligente para algumas coisas, ao mesmo tempo, tão descuidado e intolerante com outras.

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Leia também: 
Ensaio 11 - Um sarau na piscina  
Ensaio 13 - Sarau da alma do corpo... e delírios

sábado, 27 de outubro de 2012

Haiti é aqui!

Caetano e Gil - Haiti 
Tropicália 2 - São Paulo 1993






Haiti
Caetano e Gil


Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui

Composição: Caetano Veloso e Gilberto Gil