terça-feira, 13 de outubro de 2026

Ilíada: Homero (Canto VIII.a - A luta interrompida)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto VIII - A luta interrompida
 
“Zeus proíbe futuras intervenções dos deuses na guerra e vai ao monte Ida assistir aos combates. Os Troianos, então, sobrepujam os Gregos. Diomedes tenta, sem sucesso, recuperar a vitória para os Gregos. Estes são empurrados até suas naves. Hera e Atena, descendo para ajudar os Gregos, são impedidas por Zeus, enviando Íris, que as obriga a voltar para o Olimpo. A noite interrompe a batalha.”

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   O cróceo manto já abrira na Terra a solícita Aurora, 
quando Zeus grande, que os raios dispara, os eternos convoca 
para a assembleia no pico mais alto do Olimpo cumeoso. 
Zeus se pôs logo a falar; toda a Corte celeste o escutava: 
   “Deuses eternos, e deusas, agora atenção prestai todos 
ao que vos digo e no peito me ordena dizer-vos o espírito. 
Nenhum dos deuses, nem mesmo nenhuma das deusas se atreva 
a contestar meu discurso, mas, todos, concordes se mostrem, 
para que eu possa, sem perda de tempo, acabar esta empresa.

Quem quer que seja disposto, a de parte dos outros eternos, 
a socorrer os Troianos, ou, ainda, os grevados Aquivos, 
há de se ver fustigado, aqui mesmo, por modo irrisório, 
se eu o não lançar, sem nenhuma cautela, no Tártaro escuro, 
esta voragem profunda que embaixo da terra se encontra, 
de érea soleira munida e de portas de ferro, tão longe 
do Hades sombrio quanto há de permeio entre a Terra e o Céu vasto. 
Por esse modo há de ver quanto sou, mais que todos, potente. 
Caso queirais pôr à prova o que digo, será proveitoso: 
por uma ponta amarrai no Céu vasto áurea e grande cadeia,

e, da outra ponta, reunidos, ó deuses e deusas, forçai-a. 
Por mais esforço que nisso apliqueis, impossível a todos 
vos há de se arrastar a Zeus grande, o senhor inconteste. 
Mas se, ao contrário, eu quiser, seriamente, puxar para cima, 
a própria terra e o mar vasto, convosco trarei desde de baixo. 
Mais: ser-me-á fácil no pico mais alto do Olimpo amarrar-vos 
nessa corrente, deixando pendente tudo isso no espaço; 
tanto supero os mortais, tanto os deuses eternos supero.”¹
   Isso disse ele; os presentes calados e quedos ficaram, 
estupefatos perante a violência de suas palavras.

A de olhos glaucos, Atena, por fim a falar se resolve: 
   “Crônida, pai de nós todos, senhor poderoso e supremo, 
sobejamente sabemos que força invencível possuis, 
o que não priva nos causem piedade os lanceiros Argivos, 
por vermos como perecem, cumprindo o Destino funesto. 
Se determinas, porém, que afastados fiquemos das lutas, 
simples conselhos permite aos Argivos, então, ministrarmos, 
para evitar que tua ira, afinal, a eles todos dizime.” 
   Disse-lhe, a rir, em resposta, Zeus grande que as nuvens cumula: 
“Ó Tritogênia, acomoda-te; quando falei, foi produto,

certo, da cólera; mas para ti quero ser mais sereno.” 
   Disse, e no carro atrelou os cavalos de rápido curso, 
de crina de ouro ondulante e de cascos de bronze infrangível. 
Veste a armadura, também, de ouro puro, empunhando depressa 
áureo chicote de fino lavor, e subiu para o carro. 
Com chicotada os cavalos esperta, que partem, velozes, 
pelo caminho que fica entre a Terra e o Céu vasto estrelado. 
O Ida, afinal, alcançou, rico em fontes, de feras abrigo, 
onde, no Gárgaro, altar possuía num bosque virente. 
   O genitor dos mortais e dos deuses refreia os cavalos,

tira-os do carro, ali mesmo, envolvendo-os em densa neblina, 
e foi sentar-se radiante de glória, no pico mais alto, 
a contemplar a cidade dos Teucros e as naus dos Argivos. 
   As refeições os Acaios de soltos cabelos tomaram, 
rapidamente, nas tendas, armando-se logo em seguida. 
Por sua vez na cidade, os Troianos também se aprontaram, 
em menor número, é certo, mas todos sequiosos de lutas 
a que a defesa dos filhos e esposas decerto os forçava. 
A multidão, pelas portas franqueadas, então, se apinhava, 
os que lutavam de carro e os peões, era grande o alarido.

Quando os imigos exércitos vieram, num ponto, a encontrar-se, 
lanças e escudos se chocam, bem como a coragem dos homens 
com armaduras de bronze; broquéis abaulados embatem-se 
uns contra os outros; estrépito enorme se eleva da pugna. 
Dos vencedores os gritos de júbilo se ouvem e as queixas 
dos que tombavam vencidos; de sangue se encharca o chão duro. 
   Enquanto o dia sagrado crescia e a manhã não cessara, 
cruzam-se dardos de todas as partes e a turba perece. 
Mas, quando o Sol a porção mediana alcançou do Céu alto, 
toma Zeus grande de uma áurea balança, nos pratos coloca

as duas sortes da Morte funesta, de dor infindável, 
dos picadores Troianos e Aquivos de vestes de bronze, 
e pelo meio librou: baixa o dia fatal dos Aquivos. 
A sorte, sim, dos Acaios bater foi na terra fecunda; 
a dos Troianos, porém, para o céu foi depressa levada. 
Nesse momento, um rimbombo se ouviu; do Ida, Zeus poderoso 
um raio atira no meio dos homens Aqueus; espantaram-se 
com o prodígio eles todos, ficando tomados de medo. 
   Idomeneu não ousou continuar, nem o próprio Agamémnone, 
nem os Ajazes valentes, discípulos de Ares guerreiro.

Permaneceu tão somente Nestor, o baluarte dos Gregos, 
não por vontade, mas, sim, por haver-lhe ferido um cavalo 
Páris, o divo Alexandre, marido de Helena cacheada, 
precisamente na altura onde a crina a crescer principia, 
no alto da testa, o lugar, por sem dúvida, mais perigoso. 
Um salto deu o animal, pois a flecha lhe entrara até o cérebro, 
e, estrebuchando, produz confusão entre os outros cavalos. 
Enquanto os loros o velho tentava talhar com a espada, 
os corredores velozes de Heitor, pela turba cortando, 
se aproximaram, trazendo do herói o animoso cocheiro

e o próprio Heitor. E, sem dúvida, o velho ali mesmo ficara, 
se não houvesse notado o perigo Diomedes, o forte, 
que em altas vozes exclama, incitando Odisseu para a luta: 
   “Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso, 
voltas as costas e foges tal como os cobardes o fazem? 
Toma cuidado, não vá acontecer que te firam nas costas. 
Vem ajudar-me a livrar de adversário terrível o velho.” 
   Mas o paciente e sofrido Odisseu atenção não prestando 
a essas palavras, cortou para as naus dos Acaios grevados. 
Ainda que só, vem Diomedes meter-se entre as turmas da frente

e, junto ao carro parando do velho Nestor de Gerena, 
põe-se a falar-lhe, dizendo as seguintes palavras aladas: 
   “Muito te apremam, Nestor, inimigos no viço da idade. 
Emurcheceu teu vigor, pois infausta velhice te oprime. 
Tens um auriga de pouco expediente e corcéis muito lerdos. 
Vem para cá, porque vejas, alfim, como são excelentes 
estes cavalos de Trós, que tão rápidos correm no plaino, 
quer quando cumpre fugir, quer no encalço do imigo ligeiro. 
Arrebatei-os de Eneias, há tempo; o terror eles levam. 
Deixa aos cuidados dos servos os teus corredores, porque este

nos levarão para os fortes Troianos, a fim de que veja 
Heitor que a lança que eu vibro dispara, em verdade, com fúria.” 
   De boamente, o Gerênio Nestor aceitou-lhe os conselhos. 
Eurimedonte e o impecável Esténelo, fiéis escudeiros, 
dos corredores velozes do velho Nestor se ocuparam. 
Os dois heróis para o carro do nobre Diomedes subiram. 
Toma das rédeas brilhantes o velho Nestor, espertando, 
com chicotada, os cavalos; em pouco, de Heitor se aproximam, 
que para os dois avançava; atirou-lhe Diomedes a lança, 
sem que o atingisse. No auriga escudeiro acertou, entretanto,

junto do seio, de frente, quando ele os corcéis dirigia, 
filho do grande e animoso Tebaio, Eniopeu preclaríssimo. 
Estrepitoso, do carro caiu, espantando os cavalos 
de pés velozes; a vida e o vigor, ali mesmo, lhe fogem. 
Grande pesar sente Heitor com a morte do auriga preclaro; 
mas, muito embora sentisse sua perda, no solo o abandona, 
para outro auriga animoso ir buscar. Muito tempo não ficam 
os corredores sem guia, pois logo a Arqueptólemo encontra, 
de Ífito o filho extremado, que fez para o carro flexível, 
sem mais demora, subir, entregando-lhe as rédeas brilhantes.

Irreparável catástrofe, então, sucedera aos Troianos, 
que encurralados seriam, quais fracas ovelhas, em Ílio, 
se pelo pai dos mortais e dos deuses não fosse notado 
o que passava, Zeus, troando terrível, um raio dispara 
do alto, que veio cair junto dos fortes corcéis do Tidida: 
chama horrorosa elevou-se do enxofre que, então, crepitava. 
Cheios de susto, os corcéis, sob o carro, em desordem, se metem; 
caem as rédeas brilhantes das mãos de Nestor, que sentindo 
o coração palpitar-lhe a Diomedes se volta e lhe fala: 
   “Toma, Diomedes, das rédeas e faze virar os cavalos,

pois não estás vendo que Zeus nos denega alcançar a vitória? 
O grande Crônida a Heitor hoje glória concede perene; 
mas amanhã, se o quiser, far-nos-á vencedores de novo. 
Nunca os desígnios de Zeus alterar jamais pôde algum homem, 
por mais valente e galhardo, pois ele é o poder infinito.” 
   Disse-lhe, então, em resposta, Diomedes, de voz atroante: 
“Todas as tuas palavras, ancião, foram ditas com senso; 
mas sofrimento indizível o peito, nesta hora, me oprime, 
por ver que em meio aos Troianos Heitor possa um dia jactar-se: 
‘Veem? O Tidida de mim já fugiu, acolhendo-se às naves!’

Sorva-me a terra, primeiro que assim venha, ufano, a gloriar-se.” 
   Disse-lhe, então, o Gerênio Nestor, condutor de cavalos: 
“Como é possível que o filho do grande Tideu assim fale? 
Ainda que Heitor te acoimasse de imbele e covarde, impossível, 
fora-lhe a alguém convencer, não somente Dardânios e Teucros, 
mas as mulheres de tantos guerreiros de peito animoso, 
cujos maridos, no viço da idade, prostraste na poeira.”² 
   Pós ter falado, a voltar obrigou os velozes cavalos 
por onde os outros fugiam. Heitor e os Troianos, nessa hora, 
com sobre-humano alarido, atiraram-lhe setas pungentes.

Em grandes brados Heitor, do penacho ondulante, lhe grita: 
   “Os Dânaos todos, Diomedes, te honravam nas festas, cedendo-te 
a cabeceira e ofertando-te assados e vinho abundante. 
Ora dar-te-ão só desprezo, pois como mulher te portaste. 
Foge, donzela pudica! Jamais hei de o passo ceder-te; 
nunca hás de os muros sagrados subir-nos, nem nossas mulheres 
para os navios levar, que, antes disso, dar-te-ei morte infausta.” 
   Isso disse ele; indeciso se mostra o valente Diomedes, 
quanto a virar o cavalo e enfrentar o inimigo impetuoso. 
Na mente e no ânimo o herói, indeciso, reflete três vezes;

três vezes do Ida aprazível rimbomba Zeus, filho de Crono, 
para anunciar aos Troianos que deles seria a vitória. 
Em altos brados Heitor se dirige aos guerreiros Troianos: 
   “Lícios, Dardânios e Teucros, viris combatentes de perto, 
sede homens, caros amigos, e força mostrai impetuosa. 
Vi claramente que Zeus é por nós, tendo anuído em ceder-nos 
fama preexcelsa e a vitória, e aos Argivos apenas trabalhos, 
estes ingênuos, que a ideia tiveram de um muro altanado, 
sem resistência, construir, irrisório empecilho ao meu braço, 
pois meus corcéis hão de o fosso profundo transpor facilmente.

continua página 221...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto VII.a / Canto VII.b / Canto VII.c / Canto VIII.a / Canto VIII.b /                             
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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[1] Este trecho é um dos momentos mais solenes da Ilíada. Nele, Zeus reúne todos os deuses no Olimpo e afirma de forma categórica sua supremacia absoluta, proíbe qualquer intervenção na Guerra de Troia, ameaça os desobedientes com o Tártaro e proclama sua superioridade absoluta sobre deuses, homens, Terra e mar.
     Principais pontos:
- Convocação da assembleia divina: ao amanhecer, Zeus reúne todos os deuses e deusas no ponto mais alto do Olimpo.
- Proibição de interferência: ele ordena que nenhum deus ajude os Troianos nem os Aqueus (Gregos) na guerra.
- Ameaça de punição: qualquer divindade que desobedecer será lançada no Tártaro, o abismo mais profundo e terrível do universo.
- Demonstração de poder: Zeus desafia todos os deuses a testarem sua força.
- A corrente de ouro: ele imagina uma enorme cadeia dourada presa ao céu. Mesmo que todos os deuses juntos tentassem puxá-la, não conseguiriam mover Zeus.
- Superioridade absoluta: em contraste, Zeus afirma que sozinho poderia erguer não apenas os deuses, mas também a Terra e o mar.
- Afirmação da hierarquia cósmica: o discurso estabelece que Zeus não é apenas o rei dos deuses, mas uma força superior a todos os outros seres, divinos e humanos.
     O episódio serve para reforçar uma ideia central da epopeia: embora os deuses participem dos acontecimentos humanos, existe uma autoridade suprema que regula o destino da guerra. A imagem da corrente dourada é uma das metáforas mais famosas de Homero, simbolizando o poder irresistível de Zeus e a ordem do cosmos.

[2] Neste trecho, Homero apresenta Zeus como a autoridade suprema do universo, acima dos homens e até mesmo dos demais deuses. Reunindo a assembleia divina, ele proíbe qualquer intervenção na Guerra de Troia e deixa claro que sua vontade não pode ser contrariada.
     A ameaça do Tártaro, descrito como um abismo remoto e terrível, serve para destacar o caráter absoluto de seu poder. Não se trata apenas de uma ordem política entre deuses, mas da afirmação de uma hierarquia cósmica: quem desafia Zeus desafia a própria ordem do mundo.
     O ponto culminante do discurso está na imagem da corrente de ouro. A metáfora demonstra que, mesmo unidos, todos os deuses seriam incapazes de mover Zeus, enquanto ele, sozinho, poderia erguer a Terra, o mar e os próprios imortais. A cena simboliza a concentração de toda a força e toda a autoridade em uma única divindade.
     Do ponto de vista literário, o episódio marca uma pausa na ação da guerra para reforçar um tema central da Ilíada: embora heróis e deuses pareçam influenciar os acontecimentos, existe uma vontade superior que governa o destino. A guerra, portanto, não depende apenas da coragem dos combatentes nem das preferências das divindades, mas do plano estabelecido por Zeus.
     Em um sentido mais profundo, o trecho contrapõe unidade e autoridade. Todos os deuses juntos representam a multiplicidade das forças do universo; Zeus, sozinho, representa o princípio que as coordena e domina. Assim, Homero reafirma a ideia de que a ordem do cosmos prevalece sobre os interesses individuais, sejam humanos ou divinos.
     O discurso de Zeus não é apenas uma demonstração de força, mas uma proclamação da existência de uma autoridade suprema que sustenta a ordem do universo e determina o rumo dos acontecimentos da Guerra de Troia.


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