sábado, 8 de junho de 2013

Ele não é bicho, neinho, é meu fio

Ensaio 5B
baitasar
O tiuzin João saiu da intimidade do casarão. Desapareceu. Nenhuma palavra. Não deixou nenhum aclaramento. Ficou a falta da explicação para o sumiço. Sobraram suspeitas e suposições. No meu jeito preocupado de ver, o tiuzin não ficou conformado com o dinheiro cravado nas pedras do casarão, tinha e não tinha um dinheiro que não lhe existia. Não podia vender o casarão no contrário da vontade dos manos. Ele não existia, tinha e não tinha um nome, ninguém lhe via ou sabia. Nunca quis o Canela Preta, preferia as ruas.
Fui o último que viu o tiuzin naquele final de tarde, a última vez vestido de cavalo. Embaixo do céu vermelho ele foi atingido pelo fogo, arrancou o casco da tartaruga, largou a carroça e os arreios jogados no chão, saltou a cerca do curral, parecia uma lebre. Agora, ele era uma lebre. Continuou caminhando, não parou mais. O andarilho. Entre as paredes do casarão surgiu o primeiro comentário conhecido sobre aquela demência, Se é pra sê desse jeito destrambelhado qui fosse bem longe.
Maltrapilho, sujo, mijando e caminhando, não comendo e caminhando, não dormindo e caminhando, desprezado. Um errante com andadura de marcha. Anônimo, abandonado da sua ambição de homem, mais um, entre tantos outros. Sentia pena de mim mesmo, sentia raiva do tiuzin: um homem daquele tamanho se desperdiçando
—        O senhor quis vender a memória da nossa gente... da família...
—        Bosta de lembrança qui não tem serventia. — também fui o último que ouviu a voz do tiuzin João endereçada na família, a suposição mais aceita para o mutismo do tiuzin com os parente: voto de mudez até o casarão ser vendido, Depois de vendê... depois de vendê...
O tiuzin não tem uma organização convencional, não sabe onde caminha, é como enxerga o mundo: uma estrada, uma rua, um beco sem saída. O caminho não está por dentro do tiuzin
—        Moleque, deus não existe, e se acaso existi, ele não tem cuidado de cuidá dos preto, ele tem o padre pra cuidá pra ele... e padre não é a mesma coisa.
—        Deus não precisa de cuidado, Ele cuida da vida de todo mundo.
—        De um qui outro... até pode sê.
Fiz o sinal da cruz e resmunguei, pedi aos espíritos dos mais velhos intercedência pelo tiuzin, Neinho, deixa o João, ele ta sincero no desejo de andá sem preocupação de religião. Não ta com interesse em ninguém, não tem plano de ajudá nem atrapalhá
—        Ele perdeu a esperança, avó?
—        Ta sem um lugá de chegada. Não vê futuro. Escolheu vivê separado do seu prestígio de cavalgadura. Não qué esse caminho de bicho.
Entendi a avó: a mãe entende o filho que o mundo não aprende. O tiuzin não quer mais se ajustar aos arreios da carroça que recolhe garrafa vazia, ferro velho, junta osso e vidro quebrado, Ele não é bicho, neinho, é meu fio
—        Mas ele quer vender o casarão...
—        E daí?
—        A avó viveu no casarão, aqui tem as histórias dos preto...
—        Bobagem, moleque, os preto tem qui encontrá jeito de vivê melhó, se os branco qué pagá pelo casarão, e as memória qui tem dentro, vai tê qui trazê muito dinheiro. Si fô muito dinheiro, ocês leva as lembrança pra outro lugá.
—        A avó acha que é preciso vender? — antes da resposta, o palheiro com o fumo de corda é puxado num suspiro firme até que a brasa voltava com jeito de acendida, depois ficava entretida, saboreando o próprio entupimento daquela fumação. A avó é tão esperta para alcançar o conhecimento da nação dos preto, e tão ignorante com outras coisas
—        Se fô preciso... pode vendê.
—        Mas avó e todas as histórias que tão aqui?
—        Não vejo mistério nem segredo, é só o compradô aceitá os dois preço.
—        Os dois preços? Quê dois preços é esse?
O fumo da corda queima mais um pouco. Olho a avó, quero vê se ela brinca com essa ideia fixa do tiuzin João, mas não ta com jeito de brincadeira, não ta com jeito de tristeza, a avó sabe o tamanho do valor dele
—        São duas casas, essa qui ocê vê com as vista da cara, a outra, ocê só vê se fechá as vista e enchê o coração com as história do espírito dos mais velho. As história dos mais velho continua aqui. O compradô precisa pagá pelo serviço de discontá essas história, esvaziá o casarão, fecha o poço da nêga Laetitia.
—        Não tem comprador pra comprar o que não vê.
—        Neinho, não é dinheiro o problema do compradô, é as história qui ele conhece de ouvi falá, aqui e ali, não credita, mas não descredita. Não qué perdê dinheiro de pagá pra abri as corrente. Pagô pra apertá as corrente nas canela preta, mais não qué pagá pra soltá o Canela Preta das corrente. Se querê muito o casarão, vai tê qui indenizá as tortura e pagá pra abri as corrente dos mais velho qui continua agarrada nos mais novo.
A conversa resmungada com a avó nunca me deixa perder a confiança nas palavras. Tinha certeza que era preciso resistir a tentação de vender, mas era o caso de esperar a avó aclarar as ideias, depois voltava no assunto. O que se vende fica na mercê da vontade do comprador, se ele põe tudo abaixo, o casarão acaba, nunca mais existe. Isso não tinha que acontecer.
Essa vontade do tiuzin vender tem sua razão porque ele perdeu a confiança nele mesmo. Ficou doente de vagabundear pelo mundo, sem paradeiro, abandonou o casarão por qualquer lugar, e nada aprendia. Tinha vez que se postava na encruzilhada por onde passavam os que iam ou vinham. Pedia os ebós para Oxalá. Se algum passante perguntava sobre o seu trabalho, respondia, To sempre no posto guardando a casa de Oxalá. Carregava um ogó, Pra que serve esse porrete, perguntavam os que passavam na encruzilhada
—        É pra afastá gente ruim qui tentá enganá a vigilância.
Fez da encruzilhada a sua casa, agora tinha a fama e o seu lugar, sua casa
—        Acho qui agora fico rico, ninguém passa na encruzilhada sem pagá alguma coisa.
Mas o tiuzin não tirou de si a desesperante ansiedade pelo andar. Nesse tempo da sua andadura sem parar ou vigilância na encruzilhada, eu terminei meus estudos do segundo grau e escapei do quartel. A tia Vanda achava que precisava festejar as duas coisas, o diploma do colégio e o corte na vida de milico, Não quero sabê dessa conversa de arma e bala, nada é tão ruim qui não tenha jeito de melhoria.
O casarão não foi vendido, não tinha comprador para as duas casas. Foi o tempo das coisas irem se acomodando enquanto as águas voltavam para dentro das margens do casarão Canela Preta.
O que parecia sem jeito de melhorar era o tiuzin, já tinha dormido no zadrez. A fama dele ia de mau para pior. Diziam dele: é um tranca ruas. As tias não pareciam encontrar preparado de socorro para o tiuzinho andarilho, um jeito, um remédio, uma palavra, uma opinião, uma surra que pudesse tirar o mais velho acampado no corpo e no pensamento do tiuzin, Moleque, irremediável só a morte... há de tê um jeito.
Às vezes, não tem uma reabilitação. Um desastre. O primeiro amor, meu primeiro desconforto. A professora da geografia quis mudar o meu tamanho quando eu disse da vontade do meu coração, os atrevimentos das minhas mãos, depois que ela falou, Você precisa crescer, achei que poderia ter ficado calada, Você precisa crescer, ocê precisa crescê, Quem carecia de crescê era ela, fioneto.
Não conheço nenhum caso do anão que cresceu mais que um anão. Não tem remédio, não. Foi o jeito de me dizer, Moleque, vê se enxerga o teu lugar de ficar. Foi quando desisti da geografia, descobri que existem pessoas que não conseguem viver sem torturar as outras pessoas. O meu tamanho não precisa ter solução, já está resolvido, Avó, sou do jeito que eu quero, Esse é meu fioneto.
Nada é tão ruim que não tenha jeito de melhoria, o tiuzin Batata, depois que se firmou no cargo de motorista da Viação Anônima, chegou espalhando alegria
—        Consegui emprego de cobradô das passagens pro moleque, ele já tem a idade e o conhecimento pra trabalhá.
—        Não sei não, Batata. A mãezinha qué vê o moleque com diploma de doutô.
—        Trabalhá não faz estorvá, o qui pode impedí a conclusão do diploma é a falta do dinheiro. — o tiuzin tava na sua razão
—        Eu consigo, tia Vanda. Faço os dois: estudar e trabalhar.
—        Eu sei qui ocê consegue, mais a vontade da mãezinha não é essa...
O tiuzin Batata levantou em silêncio, a cara era de poucos amigos, caminhou pela cozinha, dava voltas — O moleque precisa de sabê trabalhá... já tem idade de homem.
—        Mais não tem o tamanho.
Olhei espantado, A tia, também?
O amor de muito cuidado pode provocar alergia, arrancar as medidas da confiança, tornar hábito o medo, transformar em tragédias as regras simples, um caldeirão fervente de coisa ruim
—        Eu vou trabalhar com o tiuzin! — a opinião geral era que eu estava condenado a não chegar ao tamanho de um homem. Um personagem esquisito, desusado, ocultado de maneira modesta até morrer. Sem reabilitação. Um desastre preto. Anão não cresce, é o amálgama das preces que não deram certo com os crioulos
—        Mais meu fio sobrinho...
—        Tia, já tenho decisão tomada. Assino contrato de temporário; se der no jeito, fico no carro do tiuzin, se não der no jeito, tudo bem. Começo já, onde for mandado.
—        E os estudo? Ocê carece de escutá a avó... — tinha desconfiança que a escola não foi feita para mim ou não estava pronta para os netos da avó —  Mais ocê, meu sobrinho, daqui de fora, não vai fazê mudá... daqui de fora, ocê só vai fazê é olhá.

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Leia também:
Ensaio 4BQuero ocê, até depois qui a vida se acabá 
Ensaio 06B - Ocê vai se enterrá sentado, enriquecendo o patrão

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Rei, Senhor da Terra... misericórdia e saúde

Xirê Omolu / Obaluayê Ketu






Ori Jena Paba

Osi E To Bo Wale

Ori Jena Paba

Osi E To Bo Wale ODagoluna Kewa Saworo

Dago Lele

Dagoluna Kewa Saworo

Dago Lele

Omolu A Fara E E

Fara Fara Faroji



Margareth Menezes






De Nego Tenga


"O negro segura a cabeça com a mão e chora

E chora, sentindo a falta do rei

O negro segura a cabeça com a mão e chora

E chora, sentindo a falta do rei


Quando ele explodiu pelo mundo

Ele lançou seu brilho de beleza

Bob Marley pra sempre estará

No coração de toda a raça negra

Quando Bob Marley morreu

Foi aquele chororô na Vila Rosenval

Muzemza trazendo Jamaica

Arrebentando nesse carnaval


Adeus não, me diga até breve

Adeus não, eu sou muzemza do reggae

Adeus não, me diga até breve

Adeus não, eu sou muzemza do reggae"



GAL COSTA

Saudação dos Povos Africanos - Brilho de Beleza







Xirê Omolu / Obaluayê Ketu


quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Fogo do Juízo Final

Zeca Baleiro


Flor da Pele



Flor Da Pele

Ando tão à flor da pele,
Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
Ando tão à flor da pele,
Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
Ando tão à flor da pele,
Que meu desejo se confunde com a vontade de não ser,
Ando tão à flor da pele,
Que a minha pele tem o fogo do juízo final.

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido.

Oh sim eu estou tão cansado,
Mas não pra dizer,
Que não acredito mais em você
Eu não preciso de muito dinheiro graças a Deus
Mas vou tomar aquele velho navio,
Aquele velho navio..

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido.

- Revelação -
Um dia vestido
De saudade, viva
Faz ressucitar
Casas mal vividas
Camas repartidas
Faz-se revelar

Refrão
Quando a gente tenta
De toda maneira
Dele se guardar
Sentimento ilhado
Morto, amordaçado
Volta a incomodar




Calma Aí, Coração




Meu Amor, Minha Flor, Minha Menina




Alma Nova

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Se todos fossem iguais a você

O Poetinha : "A vida é uma linda canção de amor!"


Se todos fossem iguais a você

Vinicius de Moraes e Tom Jobim





Sei lá.. a vida tem sempre razão

Vinicius de Moraes e Toquinho





Para Viver Um Grande Amor

Vinicius De Moraes e Toquinho





Garota de Ipanema

Vinicius de Moraes e Tom Jobim



Quer saber mais sobre o poetinha?
Veja o documentário abaixo

Documentário completo

sábado, 1 de junho de 2013

Quero ocê até depois qui a vida se acabá

Ensaio 4B
baitasar
O esquecimento que o tempo que passa faz nas lembranças parece acomodação da própria vida, um acordo faz de conta com a imagem de si mesma, infinita enquanto dure ela esquece que vai morrer, pula de uma para outra: da mãe na filha, depois na neta, na filha da neta, a vida vai viva, quem morre é o avô, pelo menos, na história dessa avó. Ela fica viva, mas vai perdendo no pensamento descolorindo, o feitio do rosto, o perfume da voz, o fumo da corda, cada pouco um pouco, vão sumindo. O barro que se desmancha em pó me assusta, o descuido com a memória ajuda deslembrar o cadáver aprontado, deixa mais fácil as lembranças acomodando no lugar mais apropriado: o tempo que foi uma vez de vez em quando, não será de novo um cadáver adiado, por enquanto a voz me chega, Neinho, não dá tempo de desperdiçá o tempo só com a dô, deixa pra sofrê se valê a dô, é melhó usá o desperdício da vida com a cantoria, os folguedo do amô. Não esquece da vida vivida, mais olha pra frente
Tem pensamento que vem com as memórias da avó, como se ela tivesse deixado mensagem da voz, não se anuncia com pedido de licença, apenas se chega, tem a força do amor, Nesse mundão tem muita gente do desamô, fazendo coisa feia de odiá, falando coisa ruim dos outro, se o neinho esfregá as vista vai se dá conta da beleza de tudo, não vira defunto antes da vez, esquece de falá dos outro, vê de vivê a vida, enquanto ocê fala dos outro tem alguém lhe querendo amô e ocê não vê
—        A avó sabe que não sou de ficar com fuxico.
Meu fio neto, falá dos outro é uma tentação sem fundo de acabá, quanto mais gente não se cuida mais cuida dos outro, tem gente qui cuida se os outro tão cuidando de cuidá, escutei dum amigo qui ele não queria sê perfeito, só queria sê feliz, respondi qui é assim o perfeito: sabe que não tem nada nesse mundão perfeito, então é bão trata logo de sê feliz porque tem sempre a vez de sentá pra conversá. É quando o relógio da parede pará de avisá a hora, pará de fazê o sangue circulá tic tac tic tac tic tac.
Tenho saudade do perfume da vida da avó, ficando adormecida até que revivia, revocada no redemoinho das lembranças a voz aparecia com ensinação. Gostava das conversas com os espíritos dos mais velhos, É bão escutá quem já viu a vida antes, pode de tê aconselhamento pra dá, avisá do perigo que foi descuidado. Ela não queria cometer injustiça com ninguém, gritava contra qualquer abuso, sempre preocupada em defender os preto, Mais cuidado, neinho, maldade não tem cô, mais tem nome; tudo qui é pessoa no mundo tem o qui ensiná, tem o qui aprendê, mais tem aquele qui não credita, só credita qui ele é qui sabe o ensinamento, só credita que preto pode sabê cantá, dançá, chutá bola, fazê batuqui e roubá, preto bão é o qui conhece o lugá de ficá.
A avó nunca foi na escola, mas elogiava, e rezava, para os netos não desistirem dos livros, Tá na hora dos preto ensiná na escola a lição dos livro e o assunto dos preto, não vai sê fofice, a história dos preto traído não é história qui os branco qué escutá
—        Eu sei, minha avó mãe... eu sei.
—        Não chega de sabê, neinho, tem qui fazê... enfrentá as caretice feia, deixá o cabelo crescê e enfeitá, cantá as cantorias, requebrá o corpo, fazê as oferenda e invoca os orixá, contá e escrevê as história dos preto desde muito antes da travessia da estrada das água, dizê do jeito de querê da vida, ensiná o batuque de tambô e a chave qui abre os caminho, não esquecê a abrição de porta da escola pros preto, entrá pela porta e ficá... até aprendê e ensiná.
Assim eu vivia, com essas memórias que iam e vinham, chegavam rápido e partiam mais ligeiro, quase não dava tempo de ter uma conversa, até que numa noite de muita escuridão a tia Vanda se resolveu de contar as história do jeito da avó, “Essa é uma vida da vez qui Ossaim chegô pra dançá na festa dos homê. Houve um tempo em qui os deus não atendia mais os pedido dos homê. Tudo o qui era pedido saia às avessa. Os homê, então, organizaram festa pros orixá. Cada semana um orixá era homenageado. Assim andava as coisa quando a avó advertiu, Nóis queremô uma surpresa vinda do mundo dos orixá. Certa noite, quando tavam homenageando Ossaim a festa foi interrompida pela chegada dum homê estranho, de traje e modo nobre, montado num antílope. Os homê não reconheceram, mais o receberam muito bem, parecia sê alguém importante, apesá de tê uma perna só. Os sacerdote mostraram todo o lugar e contaram os problema com os deus. A festa recomeçô muito animada e o estranho homê era o qui mais dançava. Ele parecia nunca se cansá. Quando ele já havia dançado toda noite e todos já tavam exausto, a montaria do homê falô: Vamos, já tá na hora de voltá. Ele foi embora e todos ficaram admirado de vê um animal falá. Os homê, então, descobriram qui aquele homê qui veio dançá era Ossaim. Ele gosta de passá despercebido. Ossaim também gosta de fazê surpresa. Ele veio dançá com os homê e quem sabe levá os pedido aos outros orixá.”
Conta mais, tia mãe
—        Agora, o fio sobrinho vai mais é dormí um pouco, precisa descansá as vista.
Naquela noite de festa e vigília, uma sombra sai do poço no casarão Canela Preta, caminha entre as frestas, para nos cantos, respira ofegante, o suor vermelho escorre da coroa de espinhos na testa, esparrama até o chão, deixa um rastro interminável de saudades, desaparecidos, extraviados na estrada grande das águas, encarreirados por correntes na canela preta, desacostumados dos costumes, e vomita mais escuridão nos passos arrastados atormentados pelo tempo não existido, o gosto perdido, arrancados das mãos, a dor parada entre muxoxos de choros , lamentos que rezam o sangue que parou de andar. No assoalho da madeira pesam os corpos que nunca dormem, vigiam. A assombração cuida para não caminhar sobre os sonhos daqueles cadáveres, tudo vem a seu tempo
—        Tia... tia... eu to com medo do sono. Conta mais...
—        Então, arregala as vista e se acomoda no colo da tia, isso, assim mesmo... “Ossaim tem as suas oferendas rejeitadas por Orunmilá.”
—        Quem é Orunmilá?
—        Ocê tem qui ficá com a boca fechada e as vista aberta...
—        Ta bom, tia... continua.
—        Vô continuá, “Era o dia da grande festa em homenagem a Orunmilá. Ossaim, qui recebeu de Orunmilá o podê sobre as folha, tava na porta da sua casa, muito mais triste e preocupado. Por ali passô Xangô, qui perguntô a Ossaim o qui tava acontecendo, qui motivo tinha de tanta tristeza? Ossaim respondeu qui tava triste porqui não podia í na festa de Orunmilá. Naquele ano a plantação só tinha dado abóbora. E os inhame, qui era o qui ele devia levá pra Orunmilá, era muito pouco, quase nada. Xangô disse qui isso não tinha importância e qui ele devia í assim mesmo. Ossaim, desolado, disse qui não queria í, mais pediu a Xangô qui entregasse seus inhame e suas abóbora pra Orunmilá. Quando Xangô chegô no palácio de Orunmilá, todos os orixá tavam lá. Eles havia trazido grandes quantidade de inhame, o suficiente pra abarrotá muitas tulha. Xangô descarregô os dele e fez o seu monte, juntando aos seus os inhame de Ossaim. Depois pegô só as abóbora de Ossaim e fez um outro monte. Orunmilá viu a pilha de inhame qui Xangô havia trazido e ficô muito satisfeito. Depois viu o monte de abóbora ao lado e perguntô a Xangô de quem vinha. Xangô, com mal disfarçada expressão de reprovação, respondeu qui as abóbora era presente de Ossaim. Orunmilá recusô a oferenda e mandô devolvê as abóbora a Ossaim qui ficô muito triste quando viu as abóbora de volta. Desde o acontecido da devolução das abóbora, Ossaim começô a passá por necessidade. Quase nem tinha o qui comê. Alguns dia depois, Ossaim tava com tanta fome qui resolveu cozinhá uma das abóbora rejeitadas por Orunmilá. Quando abriu a abóbora, Ossaim tomô um grande susto: em vez de semente, seu interiô tava recheado de dinheiro. Ossaim, então, partiu outra abóbora e outra e mais outra, e todas tavam repleta de dinheiro. Ossaim, qui era pobre, tinha a riqueza dentro de casa e não sabia. Com as suas abóbora Ossaim ficô rico e respeitado.”
—        O neinho ta com sono? Então, agora, dorme.
O colo da tia mãe é fofo e quente. Eu to embaixo da luz amarelada vigiando a avó. Não tem jeito, não consigo ficar num acordo com os olhos. Tento deixar eles abertos, mas caem e se fecham. É quando vejo a sombra chegando ao quarto da luz tênue e amarelada do abajur. Empurra à porta, nenhum ruído, as dobradiças se movem submissas, não gemem, convidam para entrar em silêncio, sem alarmes. aperto mais as vistas e coloco a mão na boca. Já entrou. A cobiça provando o gosto do mistério precisa acreditar que ela está ali, nunca partiu. Ele senta na cama, seus dedos flutuam delicadamente, sobrenadam como se pudessem agarrar com as mãos aquele amor alagado e voltar à vida.
Na cadeira do balanço, tia Vanda dormita comigo no colo. Na cama, a nêga toda enfeitada com tranças e contas nos cabelos, vestida em sua camisola mais fina e transparente, porque tudo ficou cristalino, o amor é óbvio, esvoaça com os sopros da escuridão, sorrindo levinho.
Eu apertava os olhos, mas não tinha jeito, não tinha nada que eu fizesse, nada me tirava daquele quarto com formas arredondadas, robusto, perfumado, quente, úmido. Podia sentir a dança dos amantes e a dor. A nêga Laetitia. O Capitão.
Não se lamentam pelas feridas, pelo sangue, pelos desaparecidos sem rosto, seria fácil terem desistido das lembranças, morrido, deixado de existido sem lágrimas, sem fome, sem miséria, tinham os beijos e os abraços, o desejo do um no outro, sonhando mais dentro, mais forte, mais demorado, inumeráveis noites de azuis, um mundo justo até o fundo, o balanço dos braços, as pernas, a caverna, os músculos amarrados pelas teias dos dedos. Um duro. Outra úmida. Trepam em suas tristezas dentro do outro para viverem sem intervalos, engolindo a fome de cravar os dentes nos beijos, a língua no canto do olho até devorar as lágrimas, secando a sede de uma história que vem se remendando por anos e anos, tão impossível, tão trágica. A dor da angústia grávida, mais uma vez, uma última vez, como se ela fosse o sêmen que coloca na caverna úmida as palavras revividas. Um, o pai. Outra, a mãe. Colhem-se no avesso
—        E o avô? — dei um grito que assustei a tia Vanda
—        Qui foi isso, sobrinho?
—        Desculpe, tia mãe, tava sonhando e acordei de preocupação e dó.
—        Volta pro sono...
—        Dá pra terminar de contar a história?
—        Ta bão, mais fecha as vista, aposto qui ocê dormi antes da história acabá...
—        Já fechei...
—        Hum, deixa eu vê, hum...
—        Quem era Ossaim, tia?
—        Era o nome dum escravo qui foi vendido a Orunmilá. Ele conhecia o segredo das erva, acabô sendo conhecido como um grande médico. O senhor das folha, da ciência e das erva, o orixá qui conhece o segredo da cura e o mistério da vida... hum... não falei, o neinho desabô em cima do sono... dorme qui a história não ta completa, a tia continua num outro dia.
Acabou o tempo da espera. Não é dia, nem é noite. Pelo menos, o Universo. Pelo menos, a Terra. Ela grávida mais uma vez de tanto ele duro, o sêmen derramando. A caverna úmida como as tumbas. A catinga e o perfume doces. A teia dos dedos vibrando. As asas querendo voar ao infinito gozo do desejo. As pernas abrindo às concupiscências cúmplices da sedução. Ela não quer nunca mais fechar as pernas para aquele amor, ele não quer nunca mais derramar o sêmen em outro amor. As chuvas do Universo escorrendo dos vales, dos montes, da boca, até às cavernas mais invisíveis. O pudor arrancado das suas asas, jogado no chão, esquecido, desaprendido. As súplicas, as juras do amor, os sussurros, estão metidos entre as transparências da penumbra amarelada. Gritam das suas bocas, Quero ocê, Me namora. Deitados de lado, o Capitão entre as pernas abertas da Terra, Quero ocê, até depois qui a vida se acabá, os olhos da nêga Laetitia sorrindo, Me namora, o Universo se expande devagar, duro. Entra e fica. Nunca mais o Universo e a Terra separados.
Tudo que veem é tão bonito, tão vivo. Nas asas do amor, a saudade regressa a verdadeira morada dos espíritos, se livra do cárcere do corpo, enlouquecendo a morte, nascendo de novo na direção dos sonhos como peixes-voadores, o frescor da mulher, seus pés encantadores, os joelhos dobrados, os pelos arretados, encaracolados, o perfume da umidade desaguando. A teia dos dedos do homem brotando, roçando, tocando de leve as terras, os rios, as margens. A língua do homem apontando o bico dos seios. A boca da mulher não respira, ela geme retirada da própria vontade, não fala, está mergulhada até os dentes, devorando as carnes. A saliva escorre da garganta e se espalha na cama, deixa um rastro interminável da vontade, é a criação do mundo. As mãos sobem às costas da mulher, os dedos enfiados em seus cabelos, a nuca arrepiada, Me come, me come, os olhos se fecham, não querem mais ver, o delírio chega com os espasmos da uva que faz o vinho dos embriagados, mergulham na profanação e lutam até serem o milagre sagrado de nascer de novo, Quero ocê até o mundo acabá da vida.
O Capitão ergue a nêga Laetitia da cama, sai mancando, abrindo caminho no pretume amarelado.
A tia Vanda continuava embalando o balanço da cadeira. Eu continuava imaginando a avó dormindo no abraço do Capitão.

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