quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Victor Hugo - Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - O mau pobre / III — Os Quadrifrons

Victor Hugo - Os Miseráveis

Terceira Parte - Mário

Livro Oitavo — O mau pobre

     III — Os Quadrifrons

             A noite, ao despedir-se para se deitar, Mário meteu casualmente a mão ao bolso do casaco e encontrou o embrulho que achara no boulevard e de que já se tinha esquecido. Lembrou-se que seria conveniente abri-lo porque talvez dentro viesse a indicação da morada das raparigas, se, na realidade, este lhes pertencia, e, em todo o caso, os esclarecimentos necessários para o restituir à pessoa que o perdera.
     Desfez o embrulho e encontrou nele quatro cartas abertas, mas todas com direção e exalando forte cheiro a tabaco.
     A primeira era dirigida à Senhora Marquesa de Grucheray, defronte do palácio das cortes n.º...
     Mário julgou que talvez nesta carta encontrasse as indicações que procurava, e parecendo-lhe verosímil que, visto ela não estar fechada, podia ser lida sem inconveniente, resolveu lê-la.
     A carta era concebida nos seguintes termos:

Senhora Marquesa:
A virtude da clemência e piedade é a que mais estreitamente une a sociedade. Digne-se V. Ex.ª dar largas aos seus sentimentos cristãos, lançando um olhar de compaixão sobre este infeliz espanhol, vítima da sua lealdade e afeto à sagrada causa da legitimidade, pela qual verteu o seu sangue e arruinou toda a sua fortuna, vendo-se hoje na maior miséria. Bem certo está ele de que V. Ex.ª lhe não negará algum socorro para conservar os tristes dias da vida a um militar bem educado, honrado e coberto de feridas, que de antemão conta com os sentimentos da humanidade que animam V. Ex.ª e com o interesse que sempre tem mostrado por uma nação tão desditosa. As suas súplicas, pois, não serão vãs, pelo que desde já me confesso eternamente grato.
Digne-se V. Ex.ª aceitar os protestos de respeito e veneração com que tenho a honra de ser.
De V. Ex.ª
Dom Alvarez, capitão espanhol de cavalaria, realista refugiado em França, que se dispõe a regressar para a sua pátria, mas que lhe faltam os recursos para continuar a viagem.

     Nem uma só palavra depois da assinatura continha a carta por onde o jovem conhecesse a residência do capitão espanhol.
     Esperando encontrá-la na segunda carta, resolveu lê-la também. Era dirigida à Senhora Condessa de Montvernet, rua Cassette n.º 9, e o seu conteúdo era o seguinte:

Senhora Condessa:
Sou uma desgraçada mãe de família com seis filhos, tendo o último só oito meses. Desde o meu último parto que estou doente e abandonada há cinco meses por meu marido, sem recurso nenhum no mundo e na mais completa indigência.
Esperançada em V. Ex.ª, tenho a honra de ser com o mais profundo respeito.
De V. Ex.ª
A infeliz Balizard 

     Passou à terceira carta, que era uma súplica, como as precedentes, e eis o que leu:

Senhor Pabourgeot, eleitor, negociante de bonés por atacado, Rua de S. Dinis, à esquina da Rua dos Ferros.
Tomo a liberdade de me dirigir ao senhor para lhe rogar que me conceda o precioso favor das suas simpatias e tome debaixo da sua proteção um homem de letras, autor de um drama que deseja pôr em cena, no Teatro Francês. O assunto deste drama é histórico, e a ação passa-se no Auvergne no tempo do império; o seu estilo, no meu entender, é natural, lacónico, e tem talvez algum merecimento. Tem «couplets» para se cantarem, em quatro passagens. Ao chiste, gravidade e arrojo dos lances, junta este drama a variedade nos caracteres e uns laivos românticos ao de leve espalhados por todo o entrecho, que se desenvolve misteriosamente, indo afinal, após peripécias de grande efeito, terminar no meio de muitos lances admiráveis.
O meu fito principal é satisfazer o desejo que progressivamente anima o homem do nosso século, quero dizer, a «moda», caprichosa e singular grimpa, que quase muda a cada novo vento. 
Apesar destas qualidades receio que a inveja, o egoísmo dos autores privilegiados, consiga a minha exclusão do teatro, pois bem sei os dissabores que têm a tragar os autores que pela primeira vez se apresentam.
Senhor, a sua justa reputação de protetor esclarecido dos homens de letras, infunde-me ousadia para lhe mandar minha filha que lhe exporá a nossa indigente situação, faltos de pão e de lume, nesta invernosa quadra. Dizer-lhe que lhe peço que aceite a homenagem que desejo fazer-lhe do meu drama e de todos os que vier a compor, é dar-lhe uma prova de quanto ambiciono a honra de me abrigar debaixo da sua égide e adornar os meus escritos com o seu nome. Se se dignar honrar-me aceitando tão modesta oferenda, brevemente encetarei uma peça em verso, para deste modo lhe pagar o meu tributo de reconhecimento. Esta peça que diligenciarei tornar o mais perfeita que me seja possível, ser-lhe-á enviada antes de ser inserida no princípio do drama, e recitada em cena. 
Ao senhor e senhora Pabourgeot, as minhas mais respeitosas homenagens
Genflot 
Homens de letras.
P. S. — Ainda que não sejam senão quarenta soldos. 
Desculpe-me por mandar minha filha e não me apresentar eu mesmo; porém, infelizmente, não o permitem tristes motivos de vestuário...

     Mário abriu por fim a quarta carta, cujo sobrescrito era endereçado ao Senhor benfeitor da igreja de S. Jacques du Haut-Pas, e continha estas poucas linhas:

Homem caridoso: 
Se se dignar acompanhar minha filha verá uma calamidade miserável e eu lhe mostrarei os meus atestados.
Ao aspecto destes escritos a sua generosa alma experimentará um sentimento de sensível benevolência, pois os verdadeiros filósofos experimentam sempre vivas emoções. 
Decerto concorda comigo, homem compassivo, que necessariamente tem de sofrer grandes necessidades e ser-lhes bem doloroso, que os que gemem na penúria o façam atestar pela autoridade, como se nem ao menos fosse isto sofrer e morrer de inanição, enquanto os não aliviam na sua miséria. O destino que tão pródigo ou tão protetor se mostra para alguns, para outros não pode ser mais fatal. 
Espero a vossa presença ou a esmola que se dignar mandar-me, e peço-lhe aceite os protestos de respeito com que tenho a honra de ser,
Homem verdadeiramente magnânimo,
Humilde servo e criado obrigadíssimo, 
P. Fabantou 
artista dramático

     Mário, depois de ter lido estas quatro cartas não se achou mais adiantado do que dantes.
     Em primeiro lugar nenhuma das assinaturas estava acompanhada da morada; depois, pareciam provir de quatro indivíduos diferentes: D. Alvarez, uma mulher apelidada Belizard, o poeta Genflot, e o artista dramático Faibantou; mas o seu lado extraordinário, era serem todas escritas com a mesma letra.
     O que havia de concluir senão que provinham da mesma pessoa?
     Além de tudo, o que tornava a conjectura ainda mais verosímil, o papel grosso e amarelado era igual nas quatro cartas, todas cheiravam a tabaco, e, conquanto tivessem evidentemente diligenciado variar o estilo, produziam-se em todas os mesmos erros de ortografia com a mais profunda tranquilidade, não sendo mais isento deles o homem de letras Genflot, do que o capitão espanhol.
     Esforçar-se em adivinhar este mistério, era trabalho inútil. Se não vesse sido um achado, parecia um logro. Mário estava demasiadamente triste para aceitar de bom grado um gracejo do acaso e prestar-se aos brinquedos que pareciam oferecer-lhe as pedras da rua. Pareceu-lhe estar jogando a cabra-cega com as quatro cartas que se riam dele.
     No fim de tudo, coisa nenhuma indicava que as cartas pertencessem às raparigas que Mário encontrara no boulevard. Tornou portanto a embrulhá-las e atirou o embrulho para um canto e deitou-se.
     As sete horas da manhã tinha-se levantado e almoçado, e dispunha-se para começar a trabalhar, quando ouviu bater de mansinho à porta.
     Como não possuía coisa nenhuma, não tirava a chave da porta, senão às vezes, e essas muito raras, quando estava fazendo algum trabalho com muita pressa. Fora destas ocasiões deixava sempre a chave na fechadura.

— Algum dia roubam-lhe as suas coisas — dizia-lhe mame Bougon. 
— O quê? — respondia Mário.

     O fato é que um dia roubaram-lhe um par de botas velhas, o que foi grande triunfo para mame Bougon.
     Bateram segunda pancada, devagarinho, como da primeira vez.

— Entre — disse Mário.

     A porta abriu-se.
— Que me quer, senhora Bougon? — tornou Mário, sem afastar os olhos dos livros e manuscritos que tinha em cima da mesa.

     A isto respondeu-lhe uma voz, que não era a da senhora Bougon.

— Queira desculpar...

     Era uma voz surda, falhada, rouca. Voz de um velho saturado de aguardente. 
     Mário voltou-se de repente e viu que era uma rapariga.

continua na página 551...
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Victor-Marie Hugo (1802—1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo, ensaísta, artista, estadista e ativista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de Les Misérables e de Notre-Dame de Paris, entre diversas outras obras clássicas de fama e renome mundial.
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Segunda Parte
Os Miseráveis: Mário, Livro Oitavo - III — Os Quadrifrons
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Victor Hugo
OS MISERÁVEIS 
Título original: Les Misérables (1862)
Tradução: Francisco Ferreira da Silva Vieira

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