Reproducção fiel da edição original de 1870
PRIMEIRO VOLUME
ESPUMAS FLUCTUANTES
EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica.
com uma inlroducção bibliographica e annotações de
AFRANIO PEIXOTO
ESPUMAS FLUCTUANTES
reproducção fiel da edição original de 1870
HYMNOS DO EQUADOR
publicações posthumas e poesias inéditas
OS ESCRAVOS
texto integral, parte inédita, com
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS
drama em 4 actos, segundo a edição original
VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA
conforme autographos e manuscriptos authenticos
ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870
A' MEMÓRIA
DE
MEU PAE,
DE
MINHA MÃE
E DE
MEU IRMÃO
O. D. C
Prologo
Era por uma d'essas tardes em que o azul do
céu oriental — é pallido e saudoso, em que o rumor
do vento nas vergas — é monótono e cadente, e o
quebro da vaga na amurada do navio — é queixoso
e tetrico.
Das bandas do occidente o sol se atufava nos
mares "como um brigue em chammas"... e
d'aquelle vasto incêndio do crepúsculo alastrava-se
a cabeça loura das ondas.
Além... os cerros de granito d'essa formosa
terra de Guanabara, vacillantes, á luctarem com a
onda invasora de azul, que descia das alturas...
recortavam-se indecisos na penumbra do horisonte.
Longe, inda mais longe... os cimos phantasticos
da serra dos Órgãos embebiam-se na distancia, su
miam-se, abysmavam-se n'uma espécie de naufrágio
celeste.
Só e triste, encostado á borda do navio, eu seguia
com os olhos aquelle esvaecimento indefinido e mi
nha alma apegava-se á forma vacillante das montanhas — derradeiras atalaias dos meus arraiaes da
mocidade.
E' que lá d'essas terras do sul, para onde eu levara o fogo de todos os enthusiasmos,. o viço de
todas as illusões, os meus vinte annos de seiva e
de mocidade, as minhas esperanças de gloria e de
futuro;... é que d'essas terras do sul, onde eu penetrara "como o moço Raphael subindo as escadas
do Vaticano;"... volvia agora silencioso e alque
brado... trazendo por única ambição — a esperança de repouso em minha pátria.
Foi então que, em face d'estas duas tristezas —
a noite que descia dos céus, — a solidão que subia
do oceano —, recordei-me de vós, ó meus amigos!
E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara; nem se quer a lembrança d'esta alma, que
comvosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara...
O' espíritos errantes sobre a terra! O' velas enfunadas sobre os mares!... Vós bem sabeis quanto
sois ephemeros... — passageiros que vos absorveis
no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.
E quando — comediantes do infinito — vos
obumbraes nos bastidores do abysmo, o que resta
de vós?
— Uma esteira de espumas... — flores perdidas na vasta indifferença do oceano. — Um punhado de versos... — espumas fluctuantes no
dorso fero da vida!...
E o que são na verdade estes meus cantos?...
Como as espumas, que nascem do mar e do céu,
da vaga e do vento, elles são filhos da musa — este
sopro do alto; do coração — este pelago da alma.
E como as espumas são, ás vezes, a flora sombria
da tempestade, elles por vezes rebentaram ao estalar fatídico do latego da desgraça.
E como também o aljofre dourado das espumais reflecte as opalas, rutilantes do arco-iris, elles por acaso reflectiram o prisma phantastico da ventura ou do enthusiasmo — estes signos brilhantes da alliança de Deus com a juventude!
E como também o aljofre dourado das espumais reflecte as opalas, rutilantes do arco-iris, elles por acaso reflectiram o prisma phantastico da ventura ou do enthusiasmo — estes signos brilhantes da alliança de Deus com a juventude!
Mas, como as espumas fluctuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lagrima saudosa do
marujo... possam elles, ó meus amigos! — ephemeros filhos de minh'alma — levar uma lembrança
de mim ás vossas plagas!...
S. Salvador — Fevereiro de 1870.
CASTRO ALVES.
DEDICATÓRIA
A pomba d'alliança o vôo espraia
Na superfície azul do mar immenso,
Rente... rente da espuma já desmaia
Medindo a curva do horizonte extenso...
Mas um disco se avista ao longe...
A praia
Rasga nitente o nevoeiro denso!...
O' po.uso! ó monte! ó ramo de oliveira!
Ninho amigo da pomba forasteira!...
Assim, meu pobre livro as asas larga
N'este oceano sem fim, sombrio, eterno...
O mar atira-lhe a saliva amarga,
O céu lhe atira o temporal de inverno...
O triste verga á tão pesada carga!
Quem abre ao triste um coração paterno?...
E' tão bom ter por arvore — uns carinhos!
E' tão bom de uns affectos — fazer ninhos!
Pobre orphão! Vagando nos espaços
Pobre orphão! Vagando nos espaços
Embalde ás solidões mandas um grito!
Que importa? De uma cruz ao longe os braços
Vejo abrirem-se ao misero precito...
Os túmulos dos teus dão-te regaços!
Ama-te a sombra do salgueiro afflicto...
Vai, pois, meu livro! e como louro agreste
Traz'-me no bico um ramo de... cypreste!
Bahia., Janeiro de 1870.
Espumas Fluctuantes, Edição original, I.
Espumas Fluctuantes, Edição original, I.
continua página 59...
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O Maior Poeta Brasileiro(a) / O Maior Poeta Brasileiro (b) / Prologo e Dedicatoria /
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia.
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo,
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP)
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
_______________LIVRARIA FRANCISCO ALVES
RIO DE JANEIRO
S. PAULO - BELLO HORIZONTE
1921
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