segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Prologo e Dedicatoria

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Prologo

     Era por uma d'essas tardes em que o azul do céu oriental — é pallido e saudoso, em que o rumor do vento nas vergas — é monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio — é queixoso e tetrico.
     Das bandas do occidente o sol se atufava nos mares "como um brigue em chammas"... e d'aquelle vasto incêndio do crepúsculo alastrava-se a cabeça loura das ondas.
      Além... os cerros de granito d'essa formosa terra de Guanabara, vacillantes, á luctarem com a onda invasora de azul, que descia das alturas... recortavam-se indecisos na penumbra do horisonte.
     Longe, inda mais longe... os cimos phantasticos da serra dos Órgãos embebiam-se na distancia, su miam-se, abysmavam-se n'uma espécie de naufrágio celeste. 
     Só e triste, encostado á borda do navio, eu seguia com os olhos aquelle esvaecimento indefinido e mi nha alma apegava-se á forma vacillante das montanhas — derradeiras atalaias dos meus arraiaes da mocidade.  
     E' que lá d'essas terras do sul, para onde eu levara o fogo de todos os enthusiasmos,. o viço de todas as illusões, os meus vinte annos de seiva e de mocidade, as minhas esperanças de gloria e de futuro;... é que d'essas terras do sul, onde eu penetrara "como o moço Raphael subindo as escadas do Vaticano;"... volvia agora silencioso e alque brado... trazendo por única ambição — a esperança de repouso em minha pátria.
     Foi então que, em face d'estas duas tristezas — a noite que descia dos céus, — a solidão que subia do oceano —, recordei-me de vós, ó meus amigos!
     E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara; nem se quer a lembrança d'esta alma, que comvosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara...
     O' espíritos errantes sobre a terra! O' velas enfunadas sobre os mares!... Vós bem sabeis quanto sois ephemeros... — passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.
     E quando — comediantes do infinito — vos obumbraes nos bastidores do abysmo, o que resta de vós?

— Uma esteira de espumas... — flores perdidas na vasta indifferença do oceano. — Um punhado de versos... — espumas fluctuantes no dorso fero da vida!... 

     E o que são na verdade estes meus cantos?...
     Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, elles são filhos da musa — este sopro do alto; do coração — este pelago da alma.
     E como as espumas são, ás vezes, a flora sombria da tempestade, elles por vezes rebentaram ao estalar fatídico do latego da desgraça.
     E como também o aljofre dourado das espumais reflecte as opalas, rutilantes do arco-iris, elles por acaso reflectiram o prisma phantastico da ventura ou do enthusiasmo — estes signos brilhantes da alliança de Deus com a juventude!
     Mas, como as espumas fluctuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lagrima saudosa do marujo... possam elles, ó meus amigos! — ephemeros filhos de minh'alma — levar uma lembrança de mim ás vossas plagas!...

S. Salvador — Fevereiro de 1870. 
 CASTRO ALVES. 


DEDICATÓRIA

 A pomba d'alliança o vôo espraia 
 Na superfície azul do mar immenso, 
 Rente... rente da espuma já desmaia 
 Medindo a curva do horizonte extenso... 
 Mas um disco se avista ao longe... 
A praia Rasga nitente o nevoeiro denso!... 
O' po.uso! ó monte! ó ramo de oliveira!
Ninho amigo da pomba forasteira!...

Assim, meu pobre livro as asas larga 
 N'este oceano sem fim, sombrio, eterno... 
 O mar atira-lhe a saliva amarga, 
 O céu lhe atira o temporal de inverno... 
 O triste verga á tão pesada carga! 
 Quem abre ao triste um coração paterno?... 
 E' tão bom ter por arvore — uns carinhos! 
 E' tão bom de uns affectos — fazer ninhos!

Pobre orphão! Vagando nos espaços 
 Embalde ás solidões mandas um grito! 
 Que importa? De uma cruz ao longe os braços 
 Vejo abrirem-se ao misero precito... 
 Os túmulos dos teus dão-te regaços! 
 Ama-te a sombra do salgueiro afflicto... 
 Vai, pois, meu livro! e como louro agreste 
 Traz'-me no bico um ramo de... cypreste! 

 Bahia., Janeiro de 1870. 
Espumas Fluctuantes, Edição original, I.

continua página 59...
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

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