Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Canto II - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
“Zeus persiste na sua promessa a Tétis e envia um Sonho enganoso a Agamémnone de que este conquistaria Troia. Agamémnone faz um teste com seus homens e os manda voltar para casa. Atena, enviada por Hera, inspira Odisseu a incitar os homens junto a Nestor para que eles se preparem para a batalha. Enumeração das naus e chefes dos Gregos e dos Troianos.”
.continuando...
Quem, sacrifícios a um deus; quem, a um outro, perfeitos, fazia,
a suplicarem que de Ares sangrento e da Morte o salvassem.
O próprio Atrida Agamémnone, chefe prestante, uma vítima
sacrificou de cinco anos ao filho de Crono tortuoso.
Para o conselho dos velhos fez vir os mais nobres Acaios:
o velho Pílio Nestor em primeiro lugar; depois dele,
Idomeneu, os Ajazes e o filho do grande Tideu;
sexto, fez vir Odisseu, que de Zeus tinha o senso elevado.
Vem Menelau sem convite, o guerreiro de voz retumbante,
pois bem sabia os cuidados que na alma do irmão se agitavam.
Com bolos sacros nas mãos, ao redor do animal se postaram.
Súplice a voz levantou Agamémnone, rei poderoso:
“Máximo Zeus poderoso, que no éter as nuvens cumulas,
dá que não desça o Sol fúlgido, nem sobre nós venha a Noite,
sem que eu atire por terra a cumeeira de Príamo, escura
pela fuligem, e às chamas ardentes as portas entregue;
sem que do peito de Heitor rasgue a túnica brônzea com minha
lança, e em redor dele os sócios, também, veja todos de bruços,
uns sobre os outros, na areia amontoados, mordendo o chão duro.”
Por esse modo, implorava; mas Zeus não lhe atende o pedido:
o sacrifício aceitou, mas trabalhos sem conta lhe apresta.
Tendo concluída a oração e espalhada a farinha do rito,
as reses, postas a jeito, degolam, os couros lhes tiram,
as coxas, cortam, peritos, e em dupla camada da própria
graxa as envolvem, jogando por cima pedaços de músculos,
que, depois disso, na lenha, de folhas privada, queimaram.
Nas labaredas, enfim, espetadas, as vísceras tostam.
Quando queimadas as coxas e as vísceras todas comidas,
logo o restante retalham, espetos enfiam nas postas,
e cuidadosos as queimam, tirando-as, depois, dos espetos.
Findo todo esse trabalho, e o convívio, desta arte, aprontado,
se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva.
Tendo assim, pois, a vontade da fome e da sede saciado,
pôs-se a falar o Gerênio Nestor, domador de cavalos:
“Filho de Atreu, gloriosíssimo, chefe de heróis, Agamémnone,
não prossigamos com ocas palavras, nem fique mais tempo
sem ser levada a bom termo esta empresa, que um deus nos destina.
Faze que logo os arautos convoquem por todas as naves,
em altos brados, as gentes aquivas, de túnicas brônzeas.
Nós, entretanto, corramos ao longo das filas do exército,
para que logo espertemos em todos o ardor dos combates.”
Obedeceu-lhe ao conselho Agamémnone, rei poderoso.
Manda, sem mora, aos arautos, de voz penetrante, que chamem
para os combates os homens Aquivos, de soltos cabelos.
Gritam, de fato, o pregão; apressados, aqueles concorrem.
Os reis, alunos de Zeus, reunidos à volta do Atrida,
os ordenavam prestantes, com Palas Atena a ajudá-los;
a égide sacra e imortal empunhava, de preço infinito,
da qual pendiam cem franjas, trabalho de fino traçado,
de ouro sem mescla, valendo cada uma o que valem cem bois.
A sobraçá-la, irradiante, atravessa as fileiras Acaias,
a estimular os guerreiros, fazendo acordar-lhes no peito
o irresistível ardor de aos combates, sem pausa, entregarem-se.
Para eles todos, realmente, mais doce era entrar nos combates
do que voltar para a pátria querida nas côncavas naves.
Tal como o fogo voraz que se ateia em floresta densíssima
pelas cumeadas de um monte, espalhando o fulgor a distância:
do mesmo modo pelo éter o brilho até o Céu alcançava,
das armaduras infindas, que, à marcha, ainda mais, esplendiam.
Bem como bando infinito de seres alados, revoantes,
gansos ou gralhas ou cisnes dotados de longos pescoços,
que no Ásio plaino se abate, ao redor do Caístro sinuoso,
alegremente estadeando a plumagem de um lado para outro,
té se assentarem com grande alarido, que o prado estremece:
número infindo de heróis, desse modo, das naus e das tendas
para a planície concorre do Xanto, de forma que o solo
terrivelmente retumba ao passar dos heróis e cavalos.
Nas veigas, pois, do Escamandro florido eles se acham, quais folhas
primaveris, infinitas, e flores que nascem vivazes.
Do mesmo modo que enxames de moscas, de número infindo,
pelos currais dos pastores volteiam, sem pausa nenhuma,
na primavera, no tempo em que os jarros de leite transbordam:
tantos guerreiros Aquivos, de coma flutuante, se viam
pela planície dos Teucros, sedentos de a todos vencerem.
Tal como um hábil pastor facilmente põe ordem nos fatos
esparramados de cabras, quando estas, no prado, se mesclam:
os comandantes, assim, os guerreiros, cuidosos, dispunham
para a batalha. No meio se achava Agamémnone, ao grande
fulminador semelhante, no olhar e feitio do rosto,
a Ares no talho do cinto e a Posido no peito fortíssimo.
Bem como o touro de grande manada, que a todos os outros
bois sobre-excede, e após si vai levando, reunidas, as vacas:
tal aparência emprestou nesse dia Zeus grande a Agamémnone,
para que fosse o primeiro entre tantos heróis excelentes.
Musas, que o Olimpo habitais, vinde agora, sem falhas, contar-me
pois sois divinas e tudo sabeis; sois a tudo presentes;
nós, nada vimos; somente da fama tivemos notícia —
os nomes, sim, revelai-me, dos chefes supremos dos Dânaos.
Da multidão não direi coisa alguma, nem mesmo os seus nomes,
em que tivesse dez bocas e dez, também, línguas tivesse,
voz incansável e forte, e de bronze infrangível o peito,
se vós, ó Musas, nascidas de Zeus portador da grande égide,
não me quisésseis nomear os que os campos de Troia pisaram.
Dos chefes, pois, dos navios, direi, do conjunto das naves.
Vieram trazidos, os homens da Beócia, por Lito valente,
Arcesilau, Peneleu, Protoénor e Clônio fortíssimo,
de Áulide pétrea habitante, dos campos da Hiria e de Esqueno,
os de Eteono, de montes e selvas, de Escono e de Escolo,
Téspio, também, Micalesso, de vastas campinas, e Graia;
mais: os que à volta habitavam de Iléssio, de Eritras e de Harma;
os moradores, ainda, de Eleona, Peteona, Ocaleia,
de Hila e Medeona, cidade de muros de forte estrutura,
Copas, Eutrésis e Tisbe, onde pombas adejam ruidosas:
de Coroneia os que moram na ervosa Haliarto vieram,
os de Plateia habitantes, bem como os campônios de Glissa;
os de Hipotebas, ainda, cidade de aspecto imponente,
da sacra Onquesto, onde o bosque se encontra do divo Posido:
de Arne, também, pampinosa, chegaram, da extensa Mideia,
Nisa divina e de Antedo postrema, lugar fronteiriço:
todos, armaram cinquenta navios, e cada um dos cascos
com cento e vinte guerreiros da Beócia se achava pejado.
Os moradores de Orcómeno Mínia e da fértil Asplédone
vieram trazidos por Iálmeno e Ascálafo, filhos de Astíoque,
na casa de Áctor, o filho de Azeu, e do deus Ares forte,
que ao aposento do andar superior conseguiu esgueirar-se,
onde, às ocultas, do leito partilha da virgem pudica:
esses, em trinta navios dispostos em fila, embarcaram.
Aos moradores da Fócida, Epístrofo e Esquédio trouxeram,
de Ífito filhos, magnânimo, e netos de Náubolo grande;
de Ciparisso, também, de Pitão, região pedregosa,
Crisa divina e de Dáulide, assim como de Panopeia;
vieram, também, de Anemória, os que vivem à volta do Hiâmpole,
e os que nas margens do divo Cefisso as moradas construíram,
bem como os que pelas fontes dele, ainda, em Lilaia, habitavam:
todos, quarenta navios perfazem, de casco anegrado.
Os comandantes, os homens Focenses, cuidosos, dispunham
ao lado esquerdo dos Beócios, que juntos nos prélios entrassem.
O leste Ajaz, descendente de Oileu, trouxe os Lócrios pugnazes.
De bem menor estatura que o Ajaz Telamônio era esse outro;
sim, bem menor; cobre o corpo franzino com roupa de linho,
mas os Acaios vencia e os Helenos no jogo da lança.
Os Lócrios, pois, de Opoenta e Caliaro vieram, de Cino,
de Bessa e Escarfe, bem como de Augeia de amena paisagem,
de Trônio e Tarfe, que se acham construídas nas margens do Boágrio:
esses, quarenta navios de casco anegrado perfazem;
vieram das terras que se acham além da ilha sacra de Eubeia.
Os corajosos Abantes chegaram, guerreiros de Eubeia,
Cálcide, Erétria e Istieia, onde as uvas são sempre abundantes,
Dio rochosa e Cerinto, que à beira do mar foi construída;
Vieram, também, de Caristo os guerreiros, os homens de Estira,
por Elefénor mandados, guerreiro que de Ares descende,
o Calcodôncio valente, que rege os guerreiros Abantes,
sim, os Abantes, que deixam crescer os cabelos na nuca,
todos armados de lanças de freixos, vibrando sedentos
de atravessar a couraça, que o corpo do imigo protege:
esse, quarenta navios de casco anegrado perfazem.
Vieram, também, os guerreiros de Atenas, cidade bem-feita,
gente do herói Erecteu de alma grande, nascido da terra
e por Atena educado, a donzela do pai poderoso,
no próprio templo magnífico, dentro dos muros de Atenas,
onde, anualmente, nas festas, os moços nativos procuram
com sacrifícios de bois e de ovelhas torná-lo propício.
Por Menesteu, de Peteu descendente, eram todos mandados.
Homem nenhum, sobre a terra arrumar, tal como ele, sabia
os combatentes de carro e os que lutam armados de escudo,
com exceção de Nestor, por ser muito mais velho do que ele:
esse, cinquenta navios de casco anegrado perfazem.
De Salamina Ajaz trouxe, também, doze naves simétricas,
indo postá-las a par com as falanges dos homens de Atenas.
De Argos os homens, heróis de Tirinto, por muros cingida,
os moradores de Hermíone e Asina, no golfo profundo,
os de Trezena, os de Eione e Epidauro, abundosa em vinhedos,
bem como os moços Acaios guerreiros de Egina e Maseta,
por Diomedes vieram trazidos, de voz poderosa,
e por Esténelo, o filho do herói Capaneu valoroso.
Como terceiro, guiava-os Euríalo, qual um dos deuses,
que descendia do rei Mecisteu, o viril Talaiônida.
Era, porém, de Diomedes, o forte, o comando supremo:
esses, oitenta navios de casco anegrado perfazem.
Os moradores, também, de Micenas, de bela feitura,
os da opulenta Corinto, os de Cleona, de casas bem-feitas,
os que lavravam de Ornias a terra, os da bela Aretira,
e os de Sicíone amena, onde Adrasto reinou, a princípio,
os de Hiperésia, bem como os heróis de Gonoessa altanada,
os de Pelene habitantes, os de Egio, também, moradores,
e, finalmente, os de Egíalo e os da zona extensíssima de Hélice,
em cem navios chegaram, trazidos pelo alto Agamémnone.
O continente melhor esses formam, em número e brio.
Cheio de orgulho, no meio das tropas, o bronze ardoroso
ele envergava, entre os fortes guerreiros o mais distinguido,
por nobilíssimo ser e haver gente infinita trazido.
Os que moravam no vale escavado de Lacedemônia,
dentro de Esparta, de Fáride e Messa, cidade de pombas;
os habitantes, também, de Brísias e Augias amena,
e os que em Amicla demoram e em Helo, cidade marítima,
bem como os homens de Etilo e os que os muros de Laia habitavam,
trá-los o irmão de Agamémnone, o herói Menelau de voz forte,
dentro de naves sessenta; a de parte eles todos se armavam.
No próprio ardor confiado, as fileiras o chefe percorre,
a estimulá-los. Pedia-lhe o peito ardoroso vingar-se
dos sofrimentos passados por causa do rapto de Helena.
Vieram de Pilo os guerreiros, bem como os de Arena agradável,
os de Épi bem-construída e os de Trio, onde o Alfeu dá passagem,
os de Anfigênia habitantes e os homens de Ciparessenta,
os de Pteleu, de Elo forte e os de Dório, onde vieram as Musas
o Trácio vate Tamíris buscar e o privarem do canto,
quando da casa voltava do alto Eurito, nado na Ecália.
Vangloriava-se, sim, de vencer em compita até mesmo
as próprias Musas, as filhas de Zeus, se com ele cantassem.
Elas, por isso, indignadas, da vista o privaram, fazendo
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica
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