quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Émile Zola - Germinal: Sexta Parte - (III.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Sexta Parte

III

continuando...

     Mas não tiveram tempo de notar sua emoção; a porta abrira-se violentamente e surgiu Chaval, empurrando à sua frente Catherine Após se ter embriagado de cerveja e fanfarronadas em todas as tabernas de Montsou, tivera a ideia de ir até o Avantage mostrar aos antigos amigos que não tinha medo. Entrou dizendo à amante: 

— Diabo de mulher! Já te disse que vais beber uma cerveja! Quebro a cara do primeiro que me olhar atravessado!

     Catherine, ao divisar Etienne, pusera-se muito pálida. Ao vê-lo Chaval deu uma gargalhada maldosa. 

— Sra. Rasseneur, duas cervejas! Estamos festejando a volta ao trabalho.

     Sem dizer palavra, como mulher que não recusava a ninguém sua cerveja, encheu os copos. Fizera-se silêncio. Nem o taberneiro nem os dois outros tinham-se movido de onde estavam. 

— Eu sei que disseram que eu sou um espião — continuou Chaval cheio de arrogância —, e estou esperando que me digam isso na cara, para ir à forra.

     Ninguém respondeu, os homens olhavam vagamente para as paredes. 

— O caso é que há os que são vagabundos e os que não são vagabundos — continuou ele mais alto. — Eu não tenho nada a esconder, larguei aquela porcaria do Deneulin e amanhã desço à Voreux com doze belgas, que estão sob as minhas ordens, porque sou estimado. Se isso contraria alguém, pode ir dizendo, bateremos um papo.

     Mas, como o mesmo silêncio desdenhoso acolhesse suas provocações, enfureceu-se contra Catherine. 

— Vais beber ou não, raio?! Vamos, brinda comigo à morte de todos os crápulas que não querem trabalhar.

     Ela brindou, mas com uma mão tão trêmula, que se ouviu o leve tilintar dos copos. Então ele tirou do bolso um punhado de moedas de prata que espalhou no balcão com uma ostentação de bêbado, dizendo que fora com seu suor que ganhara aquilo e desafiava os vagabundos a mostrarem dez soldos. A atitude dos outros o exasperava, chegou aos insultos diretos.

— Então esta é a noite em que as toupeiras saem da toca? É preciso que os policiais estejam dormindo para que a gente encontre bandidos!

     Etienne levantou-se, muito calmo e decidido. 

— Escuta aqui, não me aborreças... Sim, tu és um espião, esse teu dinheiro está fedendo a alguma traição que fizeste, e tenho nojo de tocar no teu couro vendido. Mas não importa! Há muito que me vens provocando, hoje vamos resolver essa parada.

     Chaval cerrou os punhos. 

— Pois muito bem! O covardão primeiro tem de ouvir boas se espinhar! Eu quero só a ti, cachorro! Tu vais pagar-me direitinho todas as sem-vergonhices que fizeram!

     Com os braços estendidos, suplicante, Catherine interpôs-se entre eles, que não tiveram necessidade de repeli-la, pois ela própria sentiu a fatalidade daquela luta e recuou lentamente. Encostada à parede, permaneceu muda, tão paralisada pela angústia que nem tremia mais, com os olhos arregalados e fixos naqueles homens que iam matar-se por ela.
     A Sra. Rasseneur simplesmente retirou os copos do balcão para que não os quebrassem, e voltou a sentar-se na sua banqueta, sem dar mostras de demasiada curiosidade. Contudo, não era possível deixar que dois antigos companheiros se atracassem assim. Rasseneur tentou intervir, mas Suvarin o agarrou pelo braço, levando-o para perto da mesa, dizendo: 

— Não tens nada que ver com isso... Um deles é demais, o mais forte que viva.

     Já Chaval, sem esperar o ataque, lançava no vácuo seus punhos cerrados. Era o mais alto e desenvolto, visava sempre ao rosto do adversário com furiosos golpes cortantes, com ambos os braços, um após o outro, como se estivesse manejando um par de sabres. E não parava de falar, exibia-se para a plateia, com uma enxurrada de insultos que o excitavam. 

— Ah! maldito garanhão, vou achar-te as ventas! É o teu nariz que vou enfiar naquele lugar que tu já sabes! Vamos, mostra a cara, conquistador de putas, que eu quero fazer com ela uma lavagem para os porcos, e depois veremos se as cadelas das mulheres vão correr atrás de ti.

     Mudo, de dentes cerrados, Etienne defendia-se na sua pequena estatura, fazendo o jogo certo, o peito e o rosto cobertos pelos dois punhos; e assim esperava para arremessá-los como se fossem molas, em profundidade.
     A princípio não se machucaram muito. A dança falada de um, a fria expectativa do outro prolongavam a luta. Uma cadeira foi emborcada, os sapatos grossos esmagavam a areia branca esparzida no soalho. Com o tempo começaram a ficar cansados, ouvia-se o ruído da respiração, suas caras vermelhas inchavam, como se tivessem uma fornalha interna cujas chamas saíam pelos buracos claros dos olhos. 

— Atingido! — berrou Chaval. — Achei-te a carcaça!

     Com efeito, seu punho, igual a um malho lançado de través, atingira o ombro do adversário. Este conteve um grito de dor, houve apenas um ruído macio, o surdo esfacelamento dos músculos. E ele respondeu com um golpe em pleno peito, que teria rebentado o outro, se não se tivesse desviado com seu saltitar de cabra. Mas assim mesmo o soco atingiu-o no flanco esquerdo, e com tanta força que cambaleou, com a respiração cortada. Cheio de ódio por sentir que os braços amoleciam de tanta dor, atirou-se como uma fera, visando à barriga para atingi-la com um pontapé. 

— Toma! nas tripas! — gaguejou sufocado. — Quero pô-las para fora!

     Etienne esquivou-se do golpe, tão indignado com aquela infração às regras de um combate leal, que saiu do seu silêncio. 

— Cala a boca, animal! E não metas as patas, filho da mãe, ou agarro uma cadeira e deixo-te em frangalhos!

     Desde aí a briga ficou mais séria. Rasseneur, revoltado, teria intervindo de novo se não fosse o olhar severo de sua mulher que o continha. Será possível que dois fregueses não podiam resolver seus problemas em paz? O taberneiro pôs-se então diante do fogão, pois temia que os dois acabassem caindo no fogo. Suvarin, com sua calma habitual, enrolara um cigarro, que, no entanto, esquecia de acender. Contra a parede, Catherine permanecia imóvel; inconscientemente pusera as mãos nas cadeiras e contorcia-as, arrancando a fazenda do vestido, em movimentos rítmicos. Fazia um esforço imenso para não gritar, para não matar um, expondo sua preferência, apesar de que, de tão enlouquecida, já nem sabia qual preferia.
     Dentro de algum tempo Chaval ficou exausto, inundado de suor, batendo a esmo. Apesar de sua cólera, Etienne continuava a cobrir-se, aparando quase todos os golpes, alguns dos quais o tocavam de leve. Teve uma orelha cortada, uma unha arrancou-lhe um pedaço da pele do pescoço, causando tal ardência, que ele praguejou também, desfechando um dos seus terríveis diretos. Outra vez Chaval livrou o peito com um salto, mas tinha se abaixado e o punho o atingiu no rosto, esmagando o nariz e afundando um olho. Imediatamente começou a jorrar sangue das narinas, e o olho foi inchando e ficando roxo. E o miserável, cego com o jato de sangue, atordoado com a pancada na cabeça, braceava perdidamente no ar, ando outro murro em pleno peito finalmente o derrubou. Houve um estalar e ele caiu de costas, com o baque pesado de um saco de gesso que se descarrega.
     Etienne esperou. 

— Vamos, levanta. Se queres ainda, podemos recomeçar...

     Sem responder, Chaval, após alguns segundos de embotamento, remexeu-se por terra, estirou os membros. Começou a levantar-se com grande esforço, permaneceu um momento de joelhos, encurvado, pegando com a mão, no fundo do bolso, alguma coisa que não se via. Depois, quando se pôs de pé, precipitou-se de novo, com as veias do pescoço saltadas e urrando como um selvagem.
     Catherine, porém, tinha visto; e, sem querer, soltou um grito que lhe saíra do coração e a deixou abismada, porque era a confissão de uma preferência que ela mesma ignorava. 

— Cuidado! Ele tem uma faca!

     Etienne só tivera tempo de aparar o primeiro golpe com o braço. A lã do suéter foi cortada pela lâmina grossa, uma dessas lâminas fixadas num cabo de pau por uma virola de cobre. Mas já agarrara o pulso de Chaval e começou então uma luta assustadora, ele sabendo estar perdido se o largasse, o outro dando safanões para se soltar e ferir. Pouco a pouco a arma descia, seus membros retesados fatigavam-se, por duas vezes Etienne sentiu o frio do aço contra a pele. Teve de fazer um esforço supremo, apertou o pulso com tal força que a faca escorregou da mão aberta. Ambos se atiraram ao chão e foi Etienne quem a apanhou e por sua vez a brandiu. Mantinha Chaval deitado, debaixo do seu joelho, e ameaçava cortar-lhe o pescoço. 

— Ah, velhaco, traidor, desta vez mato-te!

     Uma voz horrível, dentro dele, enlouquecia-o. Ela subia das entranhas e golpeava sua cabeça como se fosse um martelo, uma repentina loucura de homicídio, uma sede de sangue. Nunca tivera uma crise tão violenta, e contudo não estava embriagado. Mas lutava contra o mal hereditário, com a excitação desesperada do enlouquecido de amor que se debate à beira do estupro. Acabou por vencer-se, atirou a faca para trás de si, balbuciando com voz rouca: 

— Levanta-te e vai embora!

     Desta vez Rasseneur acorreu, mas sem ousar arriscar-se demasiado entre eles, com medo de receber algum golpe. Não queria assassinatos em sua casa, estava tão zangado que a esposa, muito tesa ao balcão, fazia-lhe notar que ele gritava sempre antes do tempo. Suvarin, que quase recebera a faca nas pernas, decidiu-se a acender o cigarro. Já tinham acabado? Catherine continuava olhando, aparvalhada diante dos dois homens, ambos vivos. 

— Vai embora, vai embora — repetiu Etienne —, senão dou cabo de ti!

     Chaval levantou-se, limpou com as costas da mão o sangue que continuava a escorrer do nariz; e, com o queixo sujo de sangue, o olho roxo, saiu arrastando os pés, no auge do ódio com a sua derrota. Maquinalmente Catherine o seguiu. Ele então empertigou-se e seu ódio explodiu numa torrente de torpezas: 

— Ah, não! Isso é que não! Já que é ele quem tu queres, vai dormir com ele, cadela imunda! E, se tens amor à pele, não voltes a pôr os pés na minha casa!

     E desapareceu, batendo violentamente com a porta. Houve um grande silêncio na sala tépida, onde se ouvia o leve rumor da hulha queimando. No chão só havia a cadeira emborcada e a poça de sangue que a areia ia absorvendo.

continua na página 351...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando-se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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