quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Eduardo Galeano: As veias abertas da América Latina - Segunda Parte: Os empréstimos e as ferrovias na deformação econômica da América Latinai (6)

O desenvolvimento é uma viagem com mais Náufragos do que Navegantes


SEGUNDA PARTE 

HISTÓRIA DA MORTE PREMATURA

     46. Os empréstimos e as ferrovias na deformação econômica da América Latina
          O visconde Chateaubriand, ministro de assuntos estrangeiros na França no reinado de Luís XVIII, escrevia com despeito e, provavelmente, com boa base de informação: “No momento da emancipação, as colônias espanholas se tornaram uma espécie de colônias inglesas” [1]. Citava alguns números. Dizia que, entre 1822 e 1826, Inglaterra havia proporcionado dez empréstimos às colônias espanholas libertadas, num valor nominal de cerca de 21 milhões de libras esterlinas, mas que, deduzidos os juros e as comissões dos intermediários, a sobra que chegou às terras da América era de apenas sete milhões. Ao mesmo tempo, criavam-se em Londres mais de 40 sociedades anônimas para explorar os recursos naturais minas, agricultura – da América Latina e para instalar empresas de serviços públicos. Os bancos brotavam como cogumelos em solo britânico: num só ano, 1836, foram fundados 48 bancos. Apareceram as ferrovias inglesas no Panamá, em meados do século, e a primeira linha de bondes foi inaugurada em 1868, por uma empresa britânica, na cidade brasileira de Recife, enquanto a banca da Inglaterra financiava diretamente o tesouro dos governos [2]. Os bônus públicos latino-americanos, com suas crises e culminâncias, circulavam ativamente no mercado financeiro inglês. Os serviços públicos estavam em mãos britânicas; os novos estados nasciam sobrecarregados pelos gastos militares e ainda deviam fazer frente ao deficit dos pagamentos externos. O livre-comércio implicava um frenético aumento das importações, sobretudo das importações de luxo; para que uma minoria pudesse estar na moda, os governos contraíam empréstimos que sempre geravam a necessidade de novos empréstimos: os países hipotecavam de antemão seus destinos, alienavam a liberdade econômica e a soberania política. O mesmo processo ocorria – e segue ocorrendo ainda hoje, embora os credores sejam outros e outros também os mecanismos em toda a América Latina, com a exceção, aniquilada, do Paraguai. O financiamento externo tornava-se, como a morfina, imprescindível. Abriam-se buracos para tapar buracos. A deterioração dos termos comerciais de intercâmbio não é tampouco um fenômeno exclusivo de nossos dias: segundo Celso Furtado [3], os preços das exportações brasileiras entre 1821 e 1830, e entre 1841 e 1850, baixaram quase à metade, enquanto os preços das importações estrangeiras permaneciam estáveis: as vulneráveis economias latino-americanas compensavam a queda com empréstimos.

[1] SCALARINI ORTIZ, R. Política británica en el Río de la Plata. Buenos Aires, 1940.
[2] RIPPY, J. Fred. British investments in Latin America (1822-1949). Minneapolis, 1959.
[3] FURTADO, op. cit.

     “As finanças desses jovens estados”, escreveu Schnerb, “não estão saneadas (...). É preciso recorrer à inflação, que produz a depreciação da moeda, e aos empréstimos onerosos. A história dessas repúblicas, de certo modo, é a história de suas obrigações econômicas contraídas com o absorvente mundo das finanças europeias” [4]. As bancarrotas, as suspensões de pagamento e os refinanciamentos desesperados, de fato eram frequentes. As libras esterlinas escorriam como água entre os dedos da mão aberta. Do empréstimo de um milhão de libras acordado pelo governo de Buenos Aires, em 1824, com a casa Baring Brothers, a Argentina recebeu apenas 570 mil, e não em ouro, como rezava o contrato, mas em papéis. O empréstimo consistiu no envio de ordens de pagamento aos comerciantes ingleses estabelecidos em Buenos Aires, e eles não dispunham de ouro para entregar ao país, pois sua missão era justamente remeter a Londres todo metal precioso que lhes caísse diante dos olhos. Foram recebidas letras, portanto, mas foi preciso pagar, claro está, em ouro reluzente: quase no princípio do século XX, a Argentina cancelou esta dívida, que havia aumentado, ao longo de sucessivos refinanciamentos, para quatro milhões de libras [5]. A província de Buenos Aires ficava hipotecada em sua totalidade – todas as suas rendas, todas as suas terras públicas – como garantia de pagamento. Dizia o ministro da Fazenda, na época em que o empréstimo foi contratado: “Não estamos em condições de tomar uma atitude contra o comércio estrangeiro, especialmente o inglês, pois atrelados como estamos a grandes dívidas com essa nação, estaríamos expostos a um rompimento que nos causaria grandes males”. A utilização da dívida como instrumento de chantagem, como se vê, não é uma intervenção norte americana recente.

[4] SCHNER , Robert. Le XIXe siècle. L’apogée de l’expansion européenne (1815-1914), t.6 da História Geral das Civilizações, dirigida por Maurice Crouzet. Paris, 1968.
[5] SCALARINI ORTIZ, op. cit.

     As operações agiotistas encarceravam os países livres. Em meados do século XIX, o serviço da dívida externa já absorvia quase 40 por cento do orçamento do Brasil, e o panorama era semelhante em todos os lugares. As ferrovias também se integravam decisivamente à jaula de ferro da dependência: estenderam a influência imperialista, já em plena época do capitalismo dos monopólios, até as retaguardas das economias coloniais.
     Muitos dos empréstimos se destinavam ao financiamento de ferrovias, com o fim de facilitar o embarque para o exterior de minerais e alimentos. As linhas férreas não constituíam uma rede que unisse as diversas regiões interiores entre si: conectavam os centros de produção com os portos. O desenho coincide com os dedos da mão aberta: assim as ferrovias, tantas vezes saudadas como fatores do progresso, impediam a formação e o desenvolvimento do mercado interno. Isto também era feito de outras maneiras, sobretudo por meio de uma política de tarifas posta a serviço da hegemonia britânica. Os fretes dos produtos elaborados no interior argentino, por exemplo, eram muito mais caros do que os fretes dos produtos enviados em bruto. As tarifas ferroviárias pareciam uma maldição, inviabilizando a fabricação de cigarros nas comarcas do tabaco, fiar ou tecer nos centros lanígeros, ou trabalhar a madeira em zonas florestosas [6]. A ferrovia argentina por certo desenvolveu a indústria florestal em Santiago del Estero, mas com tais consequências que um autor santiaguino chega a dizer: “Oxalá Santiago não tivesse nem uma só árvore” [7]. Os dormentes das linhas férreas eram de madeira, e o carvão vegetal servia de combustível; as madeireiras, criadas pelo trem, desintegraram os núcleos rurais de população, destruíram a agricultura e a pecuária, por arrasar as pastagens e os matos de abrigo, escravizaram na floresta várias gerações de santiaguinos e provocaram a despovoação. O êxodo em massa não cessou, e hoje Santiago del Estero é uma das províncias mais pobres da Argentina. A utilização do petróleo como combustível ferroviário submergiu a região numa profunda crise.

[6] Ibid.
[7]  RETONDO, J. Eduardo. El bosque y la industria florestal en Santiago del Estero. Santiago del Estero, 1962.

     Não foram capitais ingleses os que estenderam as primeiras linhas férreas na Argentina, Brasil, Chile, Guatemala, México e Uruguai. Tampouco no Paraguai, como já vimos, mas as ferrovias construídas pelo Estado paraguaio, com a colaboração de técnicos europeus por ele contratados, passaram às mãos inglesas após a derrota. Idêntico destino tiveram as ferrovias e os trens nos demais países, sem que ocorresse o desembolso de nenhum centavo de investimento novo; acresce que o Estado se preocupou em assegurar às empresas, por contrato, um nível mínimo de lucros, para preveni-las de possíveis surpresas desagradáveis.
     Muitas décadas depois, ao término da Segunda Guerra Mundial, quando já as ferrovias não rendiam dividendos e tinham caído em relativo desuso, a administração pública as retomou. Quase todos os estados compraram dos ingleses apenas ferro-velho, e o que nacionalizaram de fato foram as perdas das empresas.
     Na época do auge ferroviário, as empresas britânicas haviam obtido, com frequência, consideráveis concessões de terras de cada lado das linhas, além das próprias linhas e o direito de construir novos ramais. As terras eram um estupendo negócio adicional: o fabuloso presente concedido em 1911 à Brazil Railway significou o incêndio de um sem número de cabanas e a expulsão ou a morte das famílias camponesas assentadas na área da concessão. Esse foi o gatilho que deflagrou a rebelião do Contestado, uma das mais intensas páginas da fúria popular de toda a história do Brasil.

continua na página 316...
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As Fontes Subterrâneas do Poder
História da Morte Prematura
Segunda Parte: Os empréstimos e as ferrovias na deformação econômica da América Latinai (6)
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o petróleo é da Venezuela... o petróleo no pré-sal é do Brasil... os minerais nas terras raras são do Brasil... ? 
e o pix?
até quando iremos entregar nossas riquezas?

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