quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Ilíada: Homero (Canto II.b - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus)

Ilíada

Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes

Canto II - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
 
“Zeus persiste na sua promessa a Tétis e envia um Sonho enganoso a Agamémnone de que este conquistaria Troia. Agamémnone faz um teste com seus homens e os manda voltar para casa. Atena, enviada por Hera, inspira Odisseu a incitar os homens junto a Nestor para que eles se preparem para a batalha. Enumeração das naus e chefes dos Gregos e dos Troianos.”

.continuando...

 “Para essa bulha, covarde, e atenção presta aos ditos dos outros, 
que são melhores que tu, pois te mostras imbele e sem préstimo. 
Não vales nada na guerra, ou, sequer, nas reuniões dos Argivos. 
Reis não queiramos ser todos que, aqui, nos achamos reunidos. 
É mau que muitos comandem; um, só, tenha o posto supremo; 
um, seja o rei, justamente a quem Zeus, descendente de Crono, 
deu cetro e leis, para o mando no povo exercer inconteste.” 
   Como senhor, percorria ele as filas. Reflui novamente 
a multidão, que concorre das tendas e naves simétricas, 
tumultuando, tal como onda grande do mar ressoante 

vem sobre a praia quebrar-se, fazendo que o mar todo ecoe. 
   Todos, então, se sentaram calados, cada um no seu posto. 
Unicamente Tersites sem pausa a falar continuava, 
pois tinha sempre o bestunto repleto de frases ineptas, 
que contra os reis costumava atirar, sem propósito ou regra, 
contanto que provocasse dos nobres Argivos o riso. 
Era o mais feio de quantos no cerco de Troia se achavam. 
Pernas em arco, arrastava um dos pés; as espáduas, recurvas, 
se lhe caíam no peito e, por cima dos ombros, em ponta, 
o crânio informe se erguia, onde raros cabelos flutuavam.

Tanto Odisseu como o divo Pelida ódio grande lhe tinham, 
pois, de contínuo, os pungia. Mas ora insultava Agamémnone 
com voz de timbre estridente, com quem os guerreiros Acaios 
aborrecidos estavam e muito agastados no espírito. 
Em altos berros, portanto, a Agamémnone increpa insultuoso: 
“Por que resmungas, Atrida, e que mais, ainda, julgas faltar-te? 
As tuas tendas transbordam de bronze e de lindas escravas, 
todas a dedo escolhidas, que os homens Aqueus te ofertamos 
sempre em primeiro lugar, ao tomarmos alguma cidade. 
Ou, porventura, desejas mais ouro, que, acaso, um Troiano 

da alta cidade te traga, em resgate do filho querido 
que, porventura, eu prendesse, ou qualquer dos guerreiros Aquivos. 
Ou nova escrava ambicionas, que, à parte, sozinho, retenhas 
para saciar teus amores? Não fica decente a um monarca, 
que o mando exerce, lançar os Acaios em tantas desgraças. 
Bando covarde e imprestável de aquivas, não digo de Aquivos! 
Sim, para casa voguemos, deixando-o nos plainos de Troia, 
a digerir quantos dons lhe couberam por sorte. Que sinta 
se de vantagem lhe somos, ou não, nos perigos da guerra, 
já que o divino Pelida, que tão superior lhe é em tudo,

muito ofendeu: sua escrava tomou e dela, ora, se goza. 
Mas esse Aquiles mostrou ser pessoa sem fel; é indolente. 
Caso contrário, Agamémnone, o último ultraje fora esse.” 
   Por esse modo, Tersites o Atrida possante insultava. 
Mas sem demora o divino Odisseu veio pôr-se-lhe ao lado, 
e com terrível olhar, encarando-o, increpou-o desta arte: 
   “Néscio Tersites, conquanto orador de palavra fluente, 
cala essa boca, não queiras sozinho com reis abarbar-te. 
És o mais vil e insolente de quantos guerreiros vieram 
para lutar sob os muros de Troia, seguindo os Atridas.

Não queiras vir concionar tendo o nome de rei nessa boca, 
nem cumulá-lo de insultos, cuidando somente da fuga. 
Ainda ignoramos, ao certo, que fim há de ter isso tudo, 
se para os homens Acaios a volta será vantajosa. 
Cessa, portanto, de insultos lançar no pastor de guerreiros, 
o grande filho de Atreu, a quem muitos Argivos distinguem 
com copiosos presentes. Somente a ti coube insultá-lo. 
Vou revelar-te com toda a clareza o que vai realizar-se. 
Ao te encontrar novamente dizendo impropérios como esses 
não mais nos ombros de herói Odisseu continue a cabeça,

nem mais me orgulhe de ser designado por pai de Telêmaco, 
se sobre ti não puser logo as mãos, arrancando-te as vestes, 
o manto e a própria camisa e o que mais as vergonhas encobre, 
para enviar-te, depois, a chorar, para as rápidas naves, 
das reuniões expulsando-te com boa dose de açoites.” 
   Ao dizer isso, golpeou-o com o cetro nas costas e espáduas, 
o que o obrigou a encurvar-se, nadando-lhe os olhos em lágrimas. 
Incha-lhe, logo, nas costas sanguíneo vergão da pancada 
do cetro de ouro. Sentar-se foi ele a tremer, temeroso, 
apatetado, a enxugar, dolorido, dos olhos as lágrimas.

Riram-se todos do mísero, embora enfadados se achassem. 
Muitos dentre eles falavam, virando-se para o mais próximo: 
   “Que maravilha! Odisseu já se orgulha de inúmeros feitos, 
quer como bom conselheiro, quer quando os combates dirige. 
Mas esta ação, por sem dúvida, a todas as outras supera, 
pois obrigou a calar-se de vez esse vil maldizente. 
O coração temerário não mais quererá, com certeza, 
sobre a pessoa do rei atirar insultuosas palavras.” 
   A chusma assim se expressava. Odisseu, eversor de cidades, 
o cetro empunha, de pé. Sob a forma do arauto, ao seu lado,

a de olhos glaucos, Atena, ordenava silêncio às fileiras, 
para que todos os homens Acaios, de perto e de longe, 
suas palavras ouvissem e, após, orientar-se soubessem. 
Cheio de bons pensamentos lhe diz, arengando, o seguinte: 
   “Filho de Atreu, soberano, os guerreiros Aquivos desejam 
que ante o universo dos homens mortais infamado tu fiques. 
Não querem dar cumprimento às promessas com que se empenharam 
ao virem de Argos, nutriz de corcéis, sob o teu regimento: 
que voltariam somente depois de destruir Ílio forte. 
Como se fossem mulheres a quem falta o esposo, ou crianças,

uns para os outros se queixam, chorando o almejado retorno. 
Grande é, realmente, a fadiga, e o desejo da volta, explicável. 
Quem fica apenas um mês afastado da esposa querida, 
muito se queixa na nave provida de remos, se acaso 
as tempestades do inverno no mar o detêm agitado. 
Nós, entretanto, já vimos nove anos completos passarem, 
sempre detidos aqui. Não censuro, por isso, aos Acaios 
por se angustiarem nas naves recurvas. Mas é vergonhoso 
com mãos vazias voltarmos depois de demora tão longa. 
Caros amigos, paciência! Esperai mais um pouco, até vermos

 se de Calcante os augúrios nos saem verazes ou falsos. 
Sim, todos vós, que da Morte escapastes, ainda no espírito 
tendes presente a ocorrência, do que podeis dar testemunho. 
Ontem, parece, ou anteontem, se achavam reunidos em Áulide 
as naves todas que a Príamo e a Troia a desgraça trouxeram. 
Junto das aras sagradas, ao pé de uma fonte, nós todos 
às divindades do Olimpo hecatombes perfeitas fazíamos, 
sob a frescura de um plátano, donde fluía água límpida. 
Nisso, um prodígio nos veio: uma serpe com dorso sanguíneo, 
monstro terrível, que à luz fora enviado por Zeus poderoso.

Do supedâneo surgindo, do altar, subiu logo pela árvore, 
onde a ninhada se achava de um pássaro, míseros seres, 
sob as folhinhas ocultos, no ramo mais alto do plátano; 
oito eram eles; incluindo-se a mãe, que os gerou, nove ao todo. 
Por entre pios sentidos ali devorou todos eles 
e a própria mãe, que, gemente, esvoaçava ao redor dos filhinhos: 
o bote atira-lhe o monstro, apanhando-a por uma das asas. 
Mas, pós haver o dragão os filhotes e a mãe devorado, 
foi pelo deus, que o enviara, mudado num grande prodígio; 
petrificou-o ali mesmo o nascido de Crono tortuoso.

Quantos ao fato assistíamos, cheios de espanto ficamos. 
Mas, vaticínios Calcante começa ali mesmo a tecer-nos 
sobre o terrível prodígio, que em meio do ofício nos viera: 
‘Por que calados ficastes, Aquivos de soltos cabelos? 
Esse prodígio por Zeus grande e sábio nos foi enviado. 
Vai demorar; veio tarde; mas fama vai ter sempiterna. 
Do mesmo modo que o drago os filhotes matou e a mãe deles — 
oito eram eles, incluindo-se a mãe, que os gerou, nove ao todo — 
o mesmo número de anos devemos passar nesta guerra, 
mas no dezeno, haveremos de entrar a cidade espaçosa.’

Foi esse o seu vaticínio, que se há de cumprir sem demora. 
Por isso tudo, esforçados Acaios, ficai mais um pouco, 
té que possamos tomar a espaçosa cidade de Príamo.” 
   Dessa maneira concluiu, provocando estrondosos aplausos 
dos Aqueus todos, grevados, que as naves recurvas atroam; 
tão agradável lhes fora o discurso do divo Laertíada. 
O domador de cavalos, Nestor, de Gerena, lhes disse: 
   “Caso inaudito, que todos faleis como crianças ingênuas, 
que não possuem nenhuma experiência das coisas da guerra! 
Para onde as juras se foram, e os votos, que todos fizemos?

Sejam lançados ao fogo os desígnios e planos de todos, 
as libações impolutas e apertos de mão, que trocamos. 
Só com palavras sabemos brigar, sem que achemos caminho 
para as ações eficientes, pesar de aqui estarmos há muito. 
Como o costumas, Atrida, mantém teu propósito firme, 
e para os prélios terríveis conduze os guerreiros Argivos. 
Que este e outros poucos se percam, que têm por costume aos Acaios 
dar maus conselhos. Porém jamais hão de alcançar seus intentos, 
de retornarmos para Argos, sem termos obtido, primeiro, 
de Zeus potente a certeza se falso ou veraz prometeu-nos.

Sou de opinião, entretanto, que o filho potente de Crono 
nos falou certo no dia em que as naves entramos velozes 
para trazer a estas gentes de Troia o extermínio e a desgraça: 
fez-nos surgir um relâmpago à destra, sinal infalível. 
Por isso tudo, ninguém mais insista em voltar para a pátria, 
sem que, primeiro, haja ao leito subido de esposa Troiana 
e ressarcido os trabalhos e o choro por causa de Helena. 
Mas se houver quem ainda insista em voltar para a pátria querida, 
e ouse tocar no navio anegrado, de boa coberta, 
seja o primeiro a ser presa do Fado inditoso e da Morte.

Eia, senhor, aconselha-te bem, mas aceita outros planos, 
que não será de somenos valor o que passo a dizer-te: 
Teus homens todos, Atrida, por tribos divide e famílias 
que cada tribo se ajude e uns aos outros os membros de um grupo. 
Caso me aceites o alvitre, e os Acaios, também, te obedeçam, 
fácil será de saber qual dos chefes, qual dentre os do povo, 
fraco, ou de prol, se revela; que à parte eles todos combatem. 
Hás de, então, ver se a cidade resiste por causa dos deuses, 
ou por fraqueza dos homens, nas coisas da guerra inexpertos.” 
   Disse-lhe, então, em resposta Agamémnone, rei poderoso:

“Tornas, ó ancião, a vencer os Acaios com tua eloquência. 
Fosse do gosto de Zeus, e de Palas Atena, e de Apolo, 
dez conselheiros assim nas fileiras Acaias mostrarem-me! 
Em pouco tempo cairia a cidade potente de Príamo, 
por nossos braços vencida e por nós arrasada e saqueada. 
Mas sofrimentos me deu Zeus potente, nascido de Crono, 
com me lançar em litígios inúteis e vão falatório. 
Por causa, sim, de uma escrava, eu e Aquiles Peleio brigamos 
com termos ásperos, tendo partido de mim as ofensas. 
Mas se algum dia concordes ficarmos de novo, não há de

demorar muito a ruína de Troia, um momento que seja. 
Ide, no entanto, comer, porque logo encetemos a luta. 
Todos, as lanças agucem; a ponto os escudos preparem; 
Deem ração abundante aos cavalos de patas velozes 
e aos carros passem revista, pensando no próximo embate, 
pois todo o dia teremos de a luta manter espantosa. 
Pausa nenhuma há de haver, um momento sequer de repouso, 
enquanto a Noite não vier aplacar o furor dos guerreiros. 
Há de correr muito suor pelo bálteo dos altos escudos, 
e, do maneio da lança, hão de os braços tombar de cansados;

muito hão de suar os cavalos, do esforço de os carros puxarem. 
Mas se eu alguém vir do prélio sangrento afastado, querendo 
nas curvas naus ocultar-se, remédio nenhum, com certeza, 
há de livrá-lo de pasto tornar-se de cães e de abutres.” 
   Disse; os Argivos romperam em grande alarido, tal como 
quando vem onda quebrar-se, por Noto impelida, de encontro 
a promontório elevado; outras muitas, constantes, o cercam, 
que, pelos ventos, de todos os lados, ali são jogadas: 
em direção dos navios, desta arte, eles todos se espalham, 
fogo nas tendas acendem e logo ao repasto se entregam.

continua página 98...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a /  Canto II.b / Canto II.c /          
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.

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