Liev Tolstói
Segunda Parte
3
A partir desse dia, transformaram-se completamente nossa vida e nossas relações. Não sentíamos o mesmo prazer de outrora em ficar a sós. Havia problemas que evitávamos com circunlóquios, e conversávamos mais facilmente em presença de um terceiro. Apenas se abordava a nossa vida na roça ou num baile, ficávamos atordoados e com vergonha de olhar um para o outro. Era como se ambos sentíssemos o lugar onde ficava o abismo que nos separava, e temêssemos aproximar nos dele. Eu estava certa de que ele era orgulhoso e irritadiço e que devia tomar cuidado, a fim de não tocar nas suas fraquezas. Ele tinha certeza de que eu não podia viver longe da sociedade, que a vida rural não me aprazia e que era preciso submeter-se a este gosto infeliz. Ambos evitávamos conversas diretas sobre esses temas, e fazíamos juízo falso um sobre o outro. Havia muito tempo já que deixáramos de ser um para o outro a pessoa mais perfeita do mundo, já fazíamos comparações com gente conhecida e, em segredo, julgávamos um ao outro. Fiquei adoentada antes do dia da partida e, em lugar de irmos para o campo, mudamo-nos para nossa casa de veraneio, nas proximidades, de onde meu marido viajou sozinho para junto da mãe. Quando ele estava de partida, eu já me restabelecera o suficiente para acompanhá-lo, mas ele convenceu-me a ficar ali, como se temesse pela minha saúde. Percebi que o seu temor não era pela saúde, mas que estava com medo de que não viveríamos bem no campo; não insisti muito e fiquei. Na sua ausência, senti vazio e solidão, mas, quando voltou, percebi que ele não acrescentava mais à minha vida o que lhe acrescentara outrora. As nossas relações de antes, quando todo pensamento ou impressão não comunicados a ele pesavam-me como um crime, quando toda ação, toda palavra dele pareciam-me um exemplo de perfeição, quando, de alegria, dava-nos vontade de rir, ao olharmo-nos, essas relações transformaram se tão imperceptivelmente que nem o notamos. Apareceram para cada um de nós interesses e preocupações próprios, específicos, e que não tentávamos mais fazer comuns. Deixou de confundir-nos o fato de cada um ter o seu mundo isolado, estranho para o outro. Acostumamo-nos com esta ideia, e um ano depois até deixamos de ficar atordoados, quando nos encarávamos. Desapareceram completamente os seus acessos de alegria na minha presença, o comportamento juvenil, desapareceram o seu perdão e indiferença em relação a tudo, que antes me indignavam, não lhe apareceu mais o olhar profundo que, antes, sempre me deixava confusa e me alegrava, sumiram as orações, os êxtases em comum, deixamos até de ver-nos com frequência, ele estava continuamente de viagem, e não temia, não lamentava deixar-me sozinha; eu aparecia continuamente na sociedade, onde não precisava dele.
Não havia mais entre nós cenas e desavenças, eu procurava agradar
lhe, ele satisfazia todas as minhas vontades, e parecíamos amar-nos.
Quando ficávamos a sós, o que já acontecia raramente, eu não
experimentava alegria, nem perturbação, nem encabulamento, como se
estivesse a sós comigo mesma. Eu sabia muito bem que ele era o meu
marido, não algum homem novo, desconhecido, mas um homem bom, o
meu marido, que eu conhecia como a mim mesma. Estava certa de saber
tudo o que ele faria e diria, e como olharia; e se ele fazia algo ou olhava
de maneira diversa da que eu esperava, tinha a impressão de que fora ele
quem se enganara. Não esperava dele nada. Numa palavra, era meu
marido e nada mais. Parecia-me que tudo devia ser assim mesmo, que
não existiam relações de outro tipo e que elas nunca existiram entre nós.
Quando ele partia, sobretudo nos primeiros tempos, eu me sentia
solitária, assustava-me, na sua ausência sentia mais intensamente a
significação do seu apoio para mim; quando ele chegava, atirava-me de
alegria ao seu pescoço, embora duas horas depois esquecesse
completamente essa alegria e não tivesse mais o que falar com ele.
Apenas nos momentos de uma ternura quieta, moderada, que havia entre
nós, eu tinha a impressão de que algo não estava bem, que algo me
machucava o coração, e parecia-me ler o mesmo nos seus olhos. Eu
sentia essa fronteira da ternura que ele agora como que não queria, e que
eu não podia transpor. Isso entristecia-me às vezes, mas não havia tempo
para se ficar pensando fosse no que fosse, e eu procurava esquecer essa
tristeza da mudança confusamente percebida, entregando-me a
divertimentos que estavam continuamente à minha disposição. A vida de
sociedade, que a princípio me deixou ofuscada com o brilho e com as
lisonjas ao amor-próprio, logo apossou-se totalmente dos meus gestos,
tornou-se um hábito, impôs-me suas cadeias e ocupou em minha alma
todo o lugar disponível ali para o sentimento. Agora, nunca mais ficava a
sós comigo mesma e temia pensar na minha situação. Todo o meu
tempo, desde tarde da manhã até tarde da noite, estava ocupado e não
me pertencia, mesmo que eu não saísse de casa. Isto não me alegrava
nem entediava mais, mas dava a impressão de que tudo sempre devia ser
assim e não de outra maneira.
Passaram-se três anos, no decorrer dos quais as nossas relações
permaneceram as mesmas, como que se detiveram, estratificaram-se, e
não podiam já tornar-se melhores ou piores. Nesses três anos, houve em
nossa vida familiar dois acontecimentos importantes, mas que não
alteraram a minha existência. Foram o nascimento de meu primeiro filho
e a morte de Tatiana Siemiônovna. Nos primeiros tempos, o sentimento
maternal apossou-se de mim com tamanha força e causou-me um êxtase
tão inesperado que eu pensei estar em vias de iniciar-se para mim uma
vida nova; mas, decorridos dois meses, quando tornei a frequentar a
sociedade, este sentimento, diminuindo sempre, transformou-se num
hábito e na fria execução de um dever. O meu marido, pelo contrário,
por ocasião do nascimento de nosso primeiro filho, voltou a ser o
homem tranquilo, pacato e caseiro de antes e transferiu para a criança
toda a sua ternura e alegria de outros tempos. Muitas vezes, ao entrar de
vestido de baile no quarto da criança, a fim de fazer sobre esta o sinal da
cruz, antes que adormecesse, e encontrando ali meu marido, eu notava o
seu olhar como que de censura e severamente atento, fixo em mim, e
ficava envergonhada. Horrorizava-me de repente com a minha
indiferença pela criança e perguntava de mim para mim: “Serei eu pior
que as outras mulheres? Mas o que fazer? Amo o meu filho, mas não
posso ficar sentada com ele dias a fio, tenho tédio; e de modo algum vou
fingir”. A morte da mãe causou-lhe grande aflição; conforme dizia, era
lhe penoso, depois disso, viver em Nikólskoie, e embora eu a lastimasse
e partilhasse o desgosto do meu marido, era-me agora mais agradável,
mais tranquilo, viver no campo. Passamos a maior parte daqueles três
anos na cidade, eu ia à aldeia somente por dois meses, e no terceiro ano
viajamos para o estrangeiro.
No verão íamos a estações de águas.
Eu tinha então vinte e um anos, as nossas finanças, pensava, eram
florescentes, e da vida familiar eu não exigia nada além daquilo que ela
me dava; todos os nossos conhecidos pareciam gostar de mim; tinha boa
saúde, os meus vestidos eram os melhores na estação de águas, eu sabia
que era bonita, o tempo estava lindo, cercava-me uma atmosfera de
elegância e beleza e eu me sentia muito alegre. Não era a mesma alegria
que em Nikólskoie, quando eu sentia ser feliz no próprio imo, feliz por
ter merecido essa felicidade, que o meu sentimento era grande, mas
devia ser ainda maior, quando sentia desejar mais e mais felicidade.
Então, era outra coisa; mas, mesmo nesse verão, eu me sentia bem. Não
queria nada, não esperava nada, não temia nada, minha vida, parecia
me, estava repleta, e minha consciência parecia tranquila. Entre a
mocidade dessa estação não havia nenhum homem que eu distinguisse
dos demais de algum modo, ou mesmo do velho príncipe K., nosso
embaixador, e que me fazia a corte. O jovem e o velho, o inglês muito
louro e o francês de barbicha, todos eram iguais para mim, mas todos
indispensáveis. Eram todos vultos por igual indiferentes, que formavam
a alegre atmosfera de vida ao redor de mim. Apenas um deles, o
marquês italiano D., chamou minha atenção mais que os restantes,
graças à ousadia com que expressou o seu entusiasmo por mim. Não
perdia nenhuma ocasião de estar comigo, de dançar, de passear comigo a
cavalo, de acompanhar-me ao cassino etc. e de dizer-me que eu era bela.
Vi-o da janela algumas vezes, nas proximidades de nossa casa, e o olhar
fixo, frequentemente desagradável, dos seus olhos brilhantes obrigava
me a enrubescer e a desviar o rosto. Era moço, bonito, elegante e,
sobretudo, lembrava o meu marido pelo sorriso e pela expressão da
fronte, embora fosse muito mais belo. Ele espantava-me com esta
semelhança, ainda que tivesse de modo geral, nos lábios, no olhar, no
queixo comprido, em lugar da encantadora expressão de bondade e de
tranquilidade ideal de meu marido, algo animal e grosseiro. Eu supunha
então que ele me amasse apaixonadamente, e pensava nele às vezes, com
uma orgulhosa comiseração. Queria às vezes acalmá-lo, levá-lo a um
tom de confiança tranquila, meio amigável, mas ele repelia
abruptamente todas essas tentativas e continuava a perturbar-me
desagradavelmente com a sua paixão inconfessada, mas sempre pronta a
confessar-se. Embora não desse conta disso a mim mesma, eu temia
aquele homem e, contra a minha vontade, pensava nele com frequência.
O meu marido conhecia-o e tratava-o com frieza e altivez, de maneira
ainda mais acentuada do que em relação aos nossos demais conhecidos,
para os quais ele era apenas o marido de sua mulher. No fim da estação,
adoeci e passei duas semanas sem sair de casa. Quando, depois da
doença, saí pela primeira vez à noitinha a fim de ouvir música, soube
que, na minha ausência, chegara Lady S., havia muito esperada e famosa
pela sua beleza. Formou-se junto a mim um círculo, fui recebida com
satisfação, mas o círculo formado junto à leoa recém-chegada era ainda
melhor. À minha volta, todos só falavam dela e da sua beleza. Ela me foi
mostrada, e realmente era encantadora, mas impressionou-me
desfavoravelmente a presunção em seu rosto, e eu disse isto. Nesse dia,
pareceu-me aborrecido tudo o que antes era tão alegre. No dia seguinte,
Lady S. organizou uma excursão a um castelo, mas recusei-me a
participar. Quase ninguém ficou para me fazer companhia, e tudo se
alterou definitivamente aos meus olhos. Tudo e todos me pareceram
estúpidos e enfadonhos, quis chorar, terminar o quanto antes a cura de
águas e regressar à Rússia. Tinha no íntimo certo sentimento mau, mas
eu ainda não o confessava a mim mesma. Alegando que estava fraca,
deixei de aparecer em sociedade numerosa, somente de manhã ia de raro
em raro tomar as águas, sozinha, ou visitava as redondezas, na
companhia de L. M., uma russa minha conhecida. Meu marido fora
passar alguns dias em Heidelberg, onde esperaria o fim de meu
tratamento, a fim de voltarmos para a Rússia, e raramente vinha visitar-me.
De uma feita, Lady S. atraiu toda a sociedade para uma caçada e,
depois do jantar, L. M. e eu fomos visitar o castelo. Enquanto
avançávamos a passo em nossa caleça, sobre a estrada tortuosa de
macadame, em meio aos castanheiros seculares, entre os quais se viam
ao longo as bonitas e elegantes redondezas de Baden-Baden, iluminadas
pelo poente, começamos a conversar a sério, como jamais o fizéramos.
L. M., que eu conhecia desde muito tempo, apareceu-me então pela
primeira vez como uma mulher boa, inteligente, com quem se podia
falar a respeito de tudo e de quem era agradável ser amiga. Falamos de
família, de filhos, do vazio daquela vida na estação de águas, tivemos
vontade de voltar para a Rússia, para a aldeia, e sentimos ao mesmo
tempo tristeza e bem-estar. Sob o influxo deste mesmo sentimento sério,
penetramos no castelo. Entre os seus muros, havia sombra, frescor; em
cima, sobre as ruínas, cintilava o sol, ouviam-se passos e vozes. Pela
porta, como se fosse moldura, via-se o panorama de Baden, belo, mas
frio para nós, russos. Sentamo-nos para descansar e olhamos em silêncio
o sol que se punha. As vozes ressoaram com maior nitidez, e eu tive a
impressão de distinguir o meu sobrenome. Comecei a prestar atenção e
involuntariamente ouvi tudo o que se dizia. As vozes eram conhecidas:
tratava-se do marquês D. e de um francês, seu amigo, e que eu conhecia
também. Falavam de mim e de Lady S. O francês comparava-me com
ela e pormenorizava a beleza de ambas. Não dizia nada de ofensivo, mas
o sangue afluiu-me ao coração, quando distingui as suas palavras.
Explicava minuciosamente o que eu tinha de bonito e o que havia de
bonito em Lady S. Eu tinha já um filho, e Lady S. estava com dezenove
anos; eu tinha trança mais bela, mas, em compensação, Lady possuía um
vulto mais gracioso; Lady era uma grande dama, enquanto esta “sua —
disse ele — é mais ou menos uma dessas princesinhas russas que deram
para aparecer aqui com tanta frequência”. Concluiu dizendo que eu fazia
muito bem não tentando lutar com Lady S., e que em Baden-Baden, eu
estava morta e enterrada.
— Tenho pena dela.
— Só se ela não quiser consolar-se com você — acrescentou ele,
com um riso alegre e cruel.
— Se ela partir daqui, vou segui-la — disse rudemente uma voz com
sotaque italiano.
— Que feliz mortal! Ele ainda pode amar! — riu o francês.
— Amar! — disse a voz e calou-se um pouco. — Eu não posso
deixar de amar! Sem isto, não há vida. Fazer da vida um romance é o
que pode haver de bom. O meu romance nunca se interrompe no meio, e
também este eu hei de levar ao fim.
— Bonne chance, mon ami¹ — disse o francês.
[1] Em francês no original: “Boa sorte, meu amigo”. (N. do T.)
Não ouvimos mais nada, pois eles dobraram uma esquina, e os seus
passos ressoaram do outro lado. Desciam a escada e, instantes mais
tarde, surgiram por uma porta lateral e ficaram muito surpreendidos ao
encontrar-nos. Corei quando o marquês D. aproximou-se de mim e
fiquei com medo quando, ao sairmos do castelo, ele me deu o braço.
Não podia recusá-lo, e dirigimo-nos para a caleça, seguindo L. M., que
ia na frente com o amigo dele. Eu estava ofendida com o que dissera de
mim o francês, embora tivesse consciência, secretamente, de que ele
apenas nomeara o que eu mesma sentia; mas as palavras do marquês
surpreenderam-me e deixaram-me indignada com a sua brutalidade.
Atormentava-me o pensamento de que eu ouvira as suas palavras e que,
apesar disso, ele não me temia. Tinha asco de senti-lo tão perto; e, sem
olhar para ele, sem lhe responder, procurando segurar o braço de modo a
não sentir o contato, caminhei apressada atrás de L. M. e do francês. O
marquês dizia algo sobre a vista magnífica, sobre a felicidade inesperada
de me encontrar e alguma coisa mais, porém eu não o ouvia. Nessa
ocasião, pensava em meu marido, no filho, na Rússia; envergonhava-me
de algo, queria algo, e apressava-me para chegar o quanto antes ao meu
quarto solitário no Hôtel de Bade, a fim de refletir bem, em liberdade,
em tudo o que acabara de se levantar em meu íntimo. Mas L. M.
caminhava suavemente, ainda estávamos longe da caleça, e o meu
cavalheiro, parecia-me, diminuía obstinadamente o passo, como que
tentando deter-me. “Não pode ser!” — pensei e apressei-me
decididamente. Mas sem dúvida alguma ele me retinha, e até me
apertava o braço. L. M. dobrou uma curva da estrada e ficamos
completamente a sós. Tive medo.
— Desculpe — disse eu com frieza e tentei retirar o braço, mas a
renda da minha manga prendeu-se num botão dele. O marquês inclinou
para mim o peito, pôs-se a separar a manga do botão, e os seus dedos
sem luva tocaram-me o braço. Um sentimento novo para mim, não sei se
de horror, não sei se de prazer, percorreu-me frígido a espádua. Olhei-o,
a fim de expressar com um olhar frio todo o desprezo que sentia por ele;
porém o meu olhar expressou outra coisa: susto e perturbação. Os seus
olhos incendiados, úmidos, bem junto ao meu rosto, olhavam-me
apaixonados, o meu pescoço, o meu peito, as suas mãos mexiam em
meu braço, pouco acima do punho, os seus lábios abertos diziam algo,
diziam que ele me amava, que eu era tudo para ele, e esses lábios
aproximavam-se de mim, as suas mãos apertavam-me os braços com
mais força e queimavam-me. O fogo percorria-me as veias, minha visão
obscurecia-se, eu tremia, e as palavras, com que eu queria detê-lo,
secavam-se na garganta. De repente, senti um beijo sobre a face e, toda
trêmula e fria, estaquei, olhando para ele. Sem forças para falar, nem
para me mexer, horrorizada, eu esperava e desejava algo. Tudo isso
durou um instante. Mas esse instante foi terrível! Nesse instante, eu o via
inteiro e tão bem. O seu rosto era tão compreensível para mim: essa testa
abrupta e baixa, que lhe aparecia sob o chapéu de palha e que lembrava
a testa de meu marido, esse nariz bonito, reto, de narinas dilatadas, esses
bigodes compridos, untados, em ponta, essa barbicha, essas faces bem
escanhoadas e esse pescoço queimado.
Odiava-o e temia-o, ele me era tão estranho; mas, nesse momento,
repercutiam tão fortemente em meu íntimo a perturbação e a paixão
desse homem odioso, estranho para mim! Eu queria tão
incoercívelmente entregar-me aos beijos dessa boca rude e bonita, ao
carinho dessas mãos brancas de veias finas e com anéis nos dedos. Tinha
tanta vontade de me atirar de cabeça no abismo de repente aberto, e que
me atraía, o abismo das delícias proibidas...
“Sou tão infeliz — pensei —, pois bem, que mais e mais desgraças se
acumulem sobre a minha cabeça.”
Ele me envolveu com um dos braços e abaixou-se para o meu rosto.
“Que mais e mais vergonha e pecado se acumulem sobre a minha
cabeça.”
— Je vous aime² — murmurou ele com uma voz que era tão
parecida com a voz de meu marido. Lembrei-me de meu marido e do
filho como criaturas queridas, que tivessem existido havia muito tempo e
com as quais eu tivesse acabado qualquer relação. Mas eis que ressoou
além da curva a voz de L. M., que me chamava. Voltei a mim,
desvencilhei o braço e, sem olhar para ele, quase corri na direção de L.
M. Sentamo-nos na caleça e somente então olhei-o. Tirara o chapéu e
perguntava algo, sorrindo. Não compreendia a repugnância inexprimível
que eu sentia por ele nesse instante.
[2] Em francês no original: “Eu te amo”. (N. do T.)
[2] Em francês no original: “Eu te amo”. (N. do T.)
Minha vida pareceu-me tão infeliz, o futuro tão sem esperança, o
passado tão negro! L. M. falava comigo, mas eu não compreendia suas
palavras. Tinha a impressão de que ela falava comigo unicamente por
compaixão, a fim de ocultar o desprezo que eu suscitava nela. Em cada
palavra, em cada olhar seu, eu parecia perceber esse desprezo e uma
comiseração ofensiva. Aquele beijo queimava-me a face com a
vergonha, e era insuportável para mim a lembrança de meu marido e do
filho. Ficando sozinha no quarto, eu esperava refletir sobre a minha
situação, mas tinha medo de estar sozinha. Não acabei de tomar o chá
que me serviram, e, eu mesma sem saber para quê, com uma pressa
febril, pus-me no mesmo instante a arrumar as malas para viajar naquela
noite para Heidelberg, a fim de reunir-me a meu marido.
Quando me sentei com a empregada no vagão vazio, quando o trem
partiu e recebi ar fresco pela janela, comecei a voltar ao normal e a
representar melhor, para mim mesma, meu passado e meu futuro. Toda a
minha vida de casada, desde o dia de nossa mudança para Petersburgo,
apareceu-me de repente sob uma luz nova e depositou-se sobre a minha
consciência como uma censura. Pela primeira vez, lembrei vivamente os
nossos primeiros tempos na aldeia, os nossos projetos, pela primeira vez
surgiu-me na cabeça a pergunta: quais foram, afinal, as alegrias dele no
decorrer de todo esse tempo? E me senti culpada perante ele. “Mas por
que ele não me deteve, por que foi insincero comigo, por que evitou
explicações, por que me ofendeu? — perguntei a mim mesma. — Por
que não utilizou sobre mim o poderio do seu amor? Ou não me amava?”
Mas, por mais culpa que ele tivesse, o beijo de um homem estranho
estava ali sobre a minha face, e eu o sentia. Quanto mais eu me
aproximava de Heidelberg, mais nitidamente imaginava o meu marido e
tanto mais terrível me parecia a próxima entrevista. “Vou dizer-lhe tudo,
tudo, resgatarei tudo perante ele com lágrimas de arrependimento —
pensei — e ele há de me perdoar.” Mas eu mesma não sabia o que era
aquele “tudo” que eu lhe diria, e não acreditava em que ele me
perdoasse.
Mas apenas entrei no quarto de meu marido e vi o seu rosto tranquilo, ainda que surpreendido, senti que não tinha nada a dizer-lhe, não tinha o que confessar nem motivo para lhe pedir perdão. A aflição inconfessada e o arrependimento deviam conservar-se dentro de mim.
Mas apenas entrei no quarto de meu marido e vi o seu rosto tranquilo, ainda que surpreendido, senti que não tinha nada a dizer-lhe, não tinha o que confessar nem motivo para lhe pedir perdão. A aflição inconfessada e o arrependimento deviam conservar-se dentro de mim.
— Como foi que tiveste esta ideia? — disse ele. — Imagina que eu
pretendia ir amanhã para junto de ti. — Mas, examinando mais de perto
o meu rosto, pareceu assustar-se. — O que tens? O que te aconteceu?
— Nada — respondi, mal contendo as lágrimas. — Vim de vez.
Vamos para casa, para a Rússia, nem que seja amanhã.
Olhou-me bastante tempo, em silêncio e com atenção.
— Mas conta-me o que te aconteceu. — disse.
Corei sem querer e baixei os olhos. Nos dele faiscou um sentimento
de ofensa e ira. Assustei-me com os pensamentos que podiam acudir-lhe
à mente, e disse com uma força de fingimento que nem suspeitava em
mim:
— Não aconteceu nada, apenas senti tristeza e tédio sozinha, e
pensei muito em ti e em nossa vida em comum. Faz tanto tempo que sou
culpada diante de ti! Por que viajas comigo para lugares que não te
atraem? Faz muito tempo que sou culpada diante de ti — repeti, e
lágrimas voltaram-me aos olhos. — Vamos para a roça, e que seja para
sempre.
— Ah! meu bem, livra-me de cenas sentimentais — disse ele com
frieza —, é excelente que tu queiras ir para a roça, inclusive porque
estamos com pouco dinheiro; mas, quanto a viver lá para sempre, é
apenas um sonho. Eu sei que não vais tolerar. E agora, toma o teu chá,
isto será melhor — concluiu, erguendo-se para chamar o garção.
Eu imaginava tudo o que ele podia estar pensando a meu respeito, e
ofendi-me com os pensamentos terríveis que atribuí a ele, quando
encontrei, fixo em mim, o seu olhar indeciso e como que envergonhado.
Não! Ele não queria e não podia compreender-me! Eu disse que ia olhar
a criança, e afastei-me dele. Tive vontade de ficar sozinha e chorar,
chorar, chorar...
Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Continua na página 101...
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Primeira Parte:
1. Estávamos de luto por nossa mãe / 2. Chegara a primavera / 3a. Um dia, no tempo da entrada dos trigos /
3b. Quando nos encontrámos de novo junto de Mach / 4. Quando nos encontrámos de novo junto de Macha /
Segunda Parte:
3 - A partir desse dia /
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Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.
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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com
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