segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Tolstói - A Felicidade Conjugal (2ªParte: 3 - A partir desse dia)

A Felicidade Conjugal

Liev Tolstói

Segunda Parte
3

     A partir desse dia, transformaram-se completamente nossa vida e nossas relações. Não sentíamos o mesmo prazer de outrora em ficar a sós. Havia problemas que evitávamos com circunlóquios, e conversávamos mais facilmente em presença de um terceiro. Apenas se abordava a nossa vida na roça ou num baile, ficávamos atordoados e com vergonha de olhar um para o outro. Era como se ambos sentíssemos o lugar onde ficava o abismo que nos separava, e temêssemos aproximar nos dele. Eu estava certa de que ele era orgulhoso e irritadiço e que devia tomar cuidado, a fim de não tocar nas suas fraquezas. Ele tinha certeza de que eu não podia viver longe da sociedade, que a vida rural não me aprazia e que era preciso submeter-se a este gosto infeliz. Ambos evitávamos conversas diretas sobre esses temas, e fazíamos juízo falso um sobre o outro. Havia muito tempo já que deixáramos de ser um para o outro a pessoa mais perfeita do mundo, já fazíamos comparações com gente conhecida e, em segredo, julgávamos um ao outro. Fiquei adoentada antes do dia da partida e, em lugar de irmos para o campo, mudamo-nos para nossa casa de veraneio, nas proximidades, de onde meu marido viajou sozinho para junto da mãe. Quando ele estava de partida, eu já me restabelecera o suficiente para acompanhá-lo, mas ele convenceu-me a ficar ali, como se temesse pela minha saúde. Percebi que o seu temor não era pela saúde, mas que estava com medo de que não viveríamos bem no campo; não insisti muito e fiquei. Na sua ausência, senti vazio e solidão, mas, quando voltou, percebi que ele não acrescentava mais à minha vida o que lhe acrescentara outrora. As nossas relações de antes, quando todo pensamento ou impressão não comunicados a ele pesavam-me como um crime, quando toda ação, toda palavra dele pareciam-me um exemplo de perfeição, quando, de alegria, dava-nos vontade de rir, ao olharmo-nos, essas relações transformaram se tão imperceptivelmente que nem o notamos. Apareceram para cada um de nós interesses e preocupações próprios, específicos, e que não tentávamos mais fazer comuns. Deixou de confundir-nos o fato de cada um ter o seu mundo isolado, estranho para o outro. Acostumamo-nos com esta ideia, e um ano depois até deixamos de ficar atordoados, quando nos encarávamos. Desapareceram completamente os seus acessos de alegria na minha presença, o comportamento juvenil, desapareceram o seu perdão e indiferença em relação a tudo, que antes me indignavam, não lhe apareceu mais o olhar profundo que, antes, sempre me deixava confusa e me alegrava, sumiram as orações, os êxtases em comum, deixamos até de ver-nos com frequência, ele estava continuamente de viagem, e não temia, não lamentava deixar-me sozinha; eu aparecia continuamente na sociedade, onde não precisava dele. 
     Não havia mais entre nós cenas e desavenças, eu procurava agradar lhe, ele satisfazia todas as minhas vontades, e parecíamos amar-nos.
     Quando ficávamos a sós, o que já acontecia raramente, eu não experimentava alegria, nem perturbação, nem encabulamento, como se estivesse a sós comigo mesma. Eu sabia muito bem que ele era o meu marido, não algum homem novo, desconhecido, mas um homem bom, o meu marido, que eu conhecia como a mim mesma. Estava certa de saber tudo o que ele faria e diria, e como olharia; e se ele fazia algo ou olhava de maneira diversa da que eu esperava, tinha a impressão de que fora ele quem se enganara. Não esperava dele nada. Numa palavra, era meu marido e nada mais. Parecia-me que tudo devia ser assim mesmo, que não existiam relações de outro tipo e que elas nunca existiram entre nós. Quando ele partia, sobretudo nos primeiros tempos, eu me sentia solitária, assustava-me, na sua ausência sentia mais intensamente a significação do seu apoio para mim; quando ele chegava, atirava-me de alegria ao seu pescoço, embora duas horas depois esquecesse completamente essa alegria e não tivesse mais o que falar com ele. Apenas nos momentos de uma ternura quieta, moderada, que havia entre nós, eu tinha a impressão de que algo não estava bem, que algo me machucava o coração, e parecia-me ler o mesmo nos seus olhos. Eu sentia essa fronteira da ternura que ele agora como que não queria, e que eu não podia transpor. Isso entristecia-me às vezes, mas não havia tempo para se ficar pensando fosse no que fosse, e eu procurava esquecer essa tristeza da mudança confusamente percebida, entregando-me a divertimentos que estavam continuamente à minha disposição. A vida de sociedade, que a princípio me deixou ofuscada com o brilho e com as lisonjas ao amor-próprio, logo apossou-se totalmente dos meus gestos, tornou-se um hábito, impôs-me suas cadeias e ocupou em minha alma todo o lugar disponível ali para o sentimento. Agora, nunca mais ficava a sós comigo mesma e temia pensar na minha situação. Todo o meu tempo, desde tarde da manhã até tarde da noite, estava ocupado e não me pertencia, mesmo que eu não saísse de casa. Isto não me alegrava nem entediava mais, mas dava a impressão de que tudo sempre devia ser assim e não de outra maneira.
     Passaram-se três anos, no decorrer dos quais as nossas relações permaneceram as mesmas, como que se detiveram, estratificaram-se, e não podiam já tornar-se melhores ou piores. Nesses três anos, houve em nossa vida familiar dois acontecimentos importantes, mas que não alteraram a minha existência. Foram o nascimento de meu primeiro filho e a morte de Tatiana Siemiônovna. Nos primeiros tempos, o sentimento maternal apossou-se de mim com tamanha força e causou-me um êxtase tão inesperado que eu pensei estar em vias de iniciar-se para mim uma vida nova; mas, decorridos dois meses, quando tornei a frequentar a sociedade, este sentimento, diminuindo sempre, transformou-se num hábito e na fria execução de um dever. O meu marido, pelo contrário, por ocasião do nascimento de nosso primeiro filho, voltou a ser o homem tranquilo, pacato e caseiro de antes e transferiu para a criança toda a sua ternura e alegria de outros tempos. Muitas vezes, ao entrar de vestido de baile no quarto da criança, a fim de fazer sobre esta o sinal da cruz, antes que adormecesse, e encontrando ali meu marido, eu notava o seu olhar como que de censura e severamente atento, fixo em mim, e ficava envergonhada. Horrorizava-me de repente com a minha indiferença pela criança e perguntava de mim para mim: “Serei eu pior que as outras mulheres? Mas o que fazer? Amo o meu filho, mas não posso ficar sentada com ele dias a fio, tenho tédio; e de modo algum vou fingir”. A morte da mãe causou-lhe grande aflição; conforme dizia, era lhe penoso, depois disso, viver em Nikólskoie, e embora eu a lastimasse e partilhasse o desgosto do meu marido, era-me agora mais agradável, mais tranquilo, viver no campo. Passamos a maior parte daqueles três anos na cidade, eu ia à aldeia somente por dois meses, e no terceiro ano viajamos para o estrangeiro.
     No verão íamos a estações de águas.
     Eu tinha então vinte e um anos, as nossas finanças, pensava, eram florescentes, e da vida familiar eu não exigia nada além daquilo que ela me dava; todos os nossos conhecidos pareciam gostar de mim; tinha boa saúde, os meus vestidos eram os melhores na estação de águas, eu sabia que era bonita, o tempo estava lindo, cercava-me uma atmosfera de elegância e beleza e eu me sentia muito alegre. Não era a mesma alegria que em Nikólskoie, quando eu sentia ser feliz no próprio imo, feliz por ter merecido essa felicidade, que o meu sentimento era grande, mas devia ser ainda maior, quando sentia desejar mais e mais felicidade. Então, era outra coisa; mas, mesmo nesse verão, eu me sentia bem. Não queria nada, não esperava nada, não temia nada, minha vida, parecia me, estava repleta, e minha consciência parecia tranquila. Entre a mocidade dessa estação não havia nenhum homem que eu distinguisse dos demais de algum modo, ou mesmo do velho príncipe K., nosso embaixador, e que me fazia a corte. O jovem e o velho, o inglês muito louro e o francês de barbicha, todos eram iguais para mim, mas todos indispensáveis. Eram todos vultos por igual indiferentes, que formavam a alegre atmosfera de vida ao redor de mim. Apenas um deles, o marquês italiano D., chamou minha atenção mais que os restantes, graças à ousadia com que expressou o seu entusiasmo por mim. Não perdia nenhuma ocasião de estar comigo, de dançar, de passear comigo a cavalo, de acompanhar-me ao cassino etc. e de dizer-me que eu era bela. Vi-o da janela algumas vezes, nas proximidades de nossa casa, e o olhar fixo, frequentemente desagradável, dos seus olhos brilhantes obrigava me a enrubescer e a desviar o rosto. Era moço, bonito, elegante e, sobretudo, lembrava o meu marido pelo sorriso e pela expressão da fronte, embora fosse muito mais belo. Ele espantava-me com esta semelhança, ainda que tivesse de modo geral, nos lábios, no olhar, no queixo comprido, em lugar da encantadora expressão de bondade e de tranquilidade ideal de meu marido, algo animal e grosseiro. Eu supunha então que ele me amasse apaixonadamente, e pensava nele às vezes, com uma orgulhosa comiseração. Queria às vezes acalmá-lo, levá-lo a um tom de confiança tranquila, meio amigável, mas ele repelia abruptamente todas essas tentativas e continuava a perturbar-me desagradavelmente com a sua paixão inconfessada, mas sempre pronta a confessar-se. Embora não desse conta disso a mim mesma, eu temia aquele homem e, contra a minha vontade, pensava nele com frequência. O meu marido conhecia-o e tratava-o com frieza e altivez, de maneira ainda mais acentuada do que em relação aos nossos demais conhecidos, para os quais ele era apenas o marido de sua mulher. No fim da estação, adoeci e passei duas semanas sem sair de casa. Quando, depois da doença, saí pela primeira vez à noitinha a fim de ouvir música, soube que, na minha ausência, chegara Lady S., havia muito esperada e famosa pela sua beleza. Formou-se junto a mim um círculo, fui recebida com satisfação, mas o círculo formado junto à leoa recém-chegada era ainda melhor. À minha volta, todos só falavam dela e da sua beleza. Ela me foi mostrada, e realmente era encantadora, mas impressionou-me desfavoravelmente a presunção em seu rosto, e eu disse isto. Nesse dia, pareceu-me aborrecido tudo o que antes era tão alegre. No dia seguinte, Lady S. organizou uma excursão a um castelo, mas recusei-me a participar. Quase ninguém ficou para me fazer companhia, e tudo se alterou definitivamente aos meus olhos. Tudo e todos me pareceram estúpidos e enfadonhos, quis chorar, terminar o quanto antes a cura de águas e regressar à Rússia. Tinha no íntimo certo sentimento mau, mas eu ainda não o confessava a mim mesma. Alegando que estava fraca, deixei de aparecer em sociedade numerosa, somente de manhã ia de raro em raro tomar as águas, sozinha, ou visitava as redondezas, na companhia de L. M., uma russa minha conhecida. Meu marido fora passar alguns dias em Heidelberg, onde esperaria o fim de meu tratamento, a fim de voltarmos para a Rússia, e raramente vinha visitar-me.
     De uma feita, Lady S. atraiu toda a sociedade para uma caçada e, depois do jantar, L. M. e eu fomos visitar o castelo. Enquanto avançávamos a passo em nossa caleça, sobre a estrada tortuosa de macadame, em meio aos castanheiros seculares, entre os quais se viam ao longo as bonitas e elegantes redondezas de Baden-Baden, iluminadas pelo poente, começamos a conversar a sério, como jamais o fizéramos. L. M., que eu conhecia desde muito tempo, apareceu-me então pela primeira vez como uma mulher boa, inteligente, com quem se podia falar a respeito de tudo e de quem era agradável ser amiga. Falamos de família, de filhos, do vazio daquela vida na estação de águas, tivemos vontade de voltar para a Rússia, para a aldeia, e sentimos ao mesmo tempo tristeza e bem-estar. Sob o influxo deste mesmo sentimento sério, penetramos no castelo. Entre os seus muros, havia sombra, frescor; em cima, sobre as ruínas, cintilava o sol, ouviam-se passos e vozes. Pela porta, como se fosse moldura, via-se o panorama de Baden, belo, mas frio para nós, russos. Sentamo-nos para descansar e olhamos em silêncio o sol que se punha. As vozes ressoaram com maior nitidez, e eu tive a impressão de distinguir o meu sobrenome. Comecei a prestar atenção e involuntariamente ouvi tudo o que se dizia. As vozes eram conhecidas: tratava-se do marquês D. e de um francês, seu amigo, e que eu conhecia também. Falavam de mim e de Lady S. O francês comparava-me com ela e pormenorizava a beleza de ambas. Não dizia nada de ofensivo, mas o sangue afluiu-me ao coração, quando distingui as suas palavras. Explicava minuciosamente o que eu tinha de bonito e o que havia de bonito em Lady S. Eu tinha já um filho, e Lady S. estava com dezenove anos; eu tinha trança mais bela, mas, em compensação, Lady possuía um vulto mais gracioso; Lady era uma grande dama, enquanto esta “sua — disse ele — é mais ou menos uma dessas princesinhas russas que deram para aparecer aqui com tanta frequência”. Concluiu dizendo que eu fazia muito bem não tentando lutar com Lady S., e que em Baden-Baden, eu estava morta e enterrada.

— Tenho pena dela. 
— Só se ela não quiser consolar-se com você — acrescentou ele, com um riso alegre e cruel. 
— Se ela partir daqui, vou segui-la — disse rudemente uma voz com sotaque italiano. 
— Que feliz mortal! Ele ainda pode amar! — riu o francês. 
— Amar! — disse a voz e calou-se um pouco. — Eu não posso deixar de amar! Sem isto, não há vida. Fazer da vida um romance é o que pode haver de bom. O meu romance nunca se interrompe no meio, e também este eu hei de levar ao fim. 
— Bonne chance, mon ami¹ — disse o francês.

[1] Em francês no original: “Boa sorte, meu amigo”. (N. do T.)

     Não ouvimos mais nada, pois eles dobraram uma esquina, e os seus passos ressoaram do outro lado. Desciam a escada e, instantes mais tarde, surgiram por uma porta lateral e ficaram muito surpreendidos ao encontrar-nos. Corei quando o marquês D. aproximou-se de mim e fiquei com medo quando, ao sairmos do castelo, ele me deu o braço. Não podia recusá-lo, e dirigimo-nos para a caleça, seguindo L. M., que ia na frente com o amigo dele. Eu estava ofendida com o que dissera de mim o francês, embora tivesse consciência, secretamente, de que ele apenas nomeara o que eu mesma sentia; mas as palavras do marquês surpreenderam-me e deixaram-me indignada com a sua brutalidade. Atormentava-me o pensamento de que eu ouvira as suas palavras e que, apesar disso, ele não me temia. Tinha asco de senti-lo tão perto; e, sem olhar para ele, sem lhe responder, procurando segurar o braço de modo a não sentir o contato, caminhei apressada atrás de L. M. e do francês. O marquês dizia algo sobre a vista magnífica, sobre a felicidade inesperada de me encontrar e alguma coisa mais, porém eu não o ouvia. Nessa ocasião, pensava em meu marido, no filho, na Rússia; envergonhava-me de algo, queria algo, e apressava-me para chegar o quanto antes ao meu quarto solitário no Hôtel de Bade, a fim de refletir bem, em liberdade, em tudo o que acabara de se levantar em meu íntimo. Mas L. M. caminhava suavemente, ainda estávamos longe da caleça, e o meu cavalheiro, parecia-me, diminuía obstinadamente o passo, como que tentando deter-me. “Não pode ser!” — pensei e apressei-me decididamente. Mas sem dúvida alguma ele me retinha, e até me apertava o braço. L. M. dobrou uma curva da estrada e ficamos completamente a sós. Tive medo.

— Desculpe — disse eu com frieza e tentei retirar o braço, mas a renda da minha manga prendeu-se num botão dele. O marquês inclinou para mim o peito, pôs-se a separar a manga do botão, e os seus dedos sem luva tocaram-me o braço. Um sentimento novo para mim, não sei se de horror, não sei se de prazer, percorreu-me frígido a espádua. Olhei-o, a fim de expressar com um olhar frio todo o desprezo que sentia por ele; porém o meu olhar expressou outra coisa: susto e perturbação. Os seus olhos incendiados, úmidos, bem junto ao meu rosto, olhavam-me apaixonados, o meu pescoço, o meu peito, as suas mãos mexiam em meu braço, pouco acima do punho, os seus lábios abertos diziam algo, diziam que ele me amava, que eu era tudo para ele, e esses lábios aproximavam-se de mim, as suas mãos apertavam-me os braços com mais força e queimavam-me. O fogo percorria-me as veias, minha visão obscurecia-se, eu tremia, e as palavras, com que eu queria detê-lo, secavam-se na garganta. De repente, senti um beijo sobre a face e, toda trêmula e fria, estaquei, olhando para ele. Sem forças para falar, nem para me mexer, horrorizada, eu esperava e desejava algo. Tudo isso durou um instante. Mas esse instante foi terrível! Nesse instante, eu o via inteiro e tão bem. O seu rosto era tão compreensível para mim: essa testa abrupta e baixa, que lhe aparecia sob o chapéu de palha e que lembrava a testa de meu marido, esse nariz bonito, reto, de narinas dilatadas, esses bigodes compridos, untados, em ponta, essa barbicha, essas faces bem escanhoadas e esse pescoço queimado.

     Odiava-o e temia-o, ele me era tão estranho; mas, nesse momento, repercutiam tão fortemente em meu íntimo a perturbação e a paixão desse homem odioso, estranho para mim! Eu queria tão incoercívelmente entregar-me aos beijos dessa boca rude e bonita, ao carinho dessas mãos brancas de veias finas e com anéis nos dedos. Tinha tanta vontade de me atirar de cabeça no abismo de repente aberto, e que me atraía, o abismo das delícias proibidas...

“Sou tão infeliz — pensei —, pois bem, que mais e mais desgraças se acumulem sobre a minha cabeça.”

     Ele me envolveu com um dos braços e abaixou-se para o meu rosto. “Que mais e mais vergonha e pecado se acumulem sobre a minha cabeça.”

Je vous aime² — murmurou ele com uma voz que era tão parecida com a voz de meu marido. Lembrei-me de meu marido e do filho como criaturas queridas, que tivessem existido havia muito tempo e com as quais eu tivesse acabado qualquer relação. Mas eis que ressoou além da curva a voz de L. M., que me chamava. Voltei a mim, desvencilhei o braço e, sem olhar para ele, quase corri na direção de L. M. Sentamo-nos na caleça e somente então olhei-o. Tirara o chapéu e perguntava algo, sorrindo. Não compreendia a repugnância inexprimível que eu sentia por ele nesse instante.

[2] Em francês no original: “Eu te amo”. (N. do T.)

     Minha vida pareceu-me tão infeliz, o futuro tão sem esperança, o passado tão negro! L. M. falava comigo, mas eu não compreendia suas palavras. Tinha a impressão de que ela falava comigo unicamente por compaixão, a fim de ocultar o desprezo que eu suscitava nela. Em cada palavra, em cada olhar seu, eu parecia perceber esse desprezo e uma comiseração ofensiva. Aquele beijo queimava-me a face com a vergonha, e era insuportável para mim a lembrança de meu marido e do filho. Ficando sozinha no quarto, eu esperava refletir sobre a minha situação, mas tinha medo de estar sozinha. Não acabei de tomar o chá que me serviram, e, eu mesma sem saber para quê, com uma pressa febril, pus-me no mesmo instante a arrumar as malas para viajar naquela noite para Heidelberg, a fim de reunir-me a meu marido.
     Quando me sentei com a empregada no vagão vazio, quando o trem partiu e recebi ar fresco pela janela, comecei a voltar ao normal e a representar melhor, para mim mesma, meu passado e meu futuro. Toda a minha vida de casada, desde o dia de nossa mudança para Petersburgo, apareceu-me de repente sob uma luz nova e depositou-se sobre a minha consciência como uma censura. Pela primeira vez, lembrei vivamente os nossos primeiros tempos na aldeia, os nossos projetos, pela primeira vez surgiu-me na cabeça a pergunta: quais foram, afinal, as alegrias dele no decorrer de todo esse tempo? E me senti culpada perante ele. “Mas por que ele não me deteve, por que foi insincero comigo, por que evitou explicações, por que me ofendeu? — perguntei a mim mesma. — Por que não utilizou sobre mim o poderio do seu amor? Ou não me amava?” Mas, por mais culpa que ele tivesse, o beijo de um homem estranho estava ali sobre a minha face, e eu o sentia. Quanto mais eu me aproximava de Heidelberg, mais nitidamente imaginava o meu marido e tanto mais terrível me parecia a próxima entrevista. “Vou dizer-lhe tudo, tudo, resgatarei tudo perante ele com lágrimas de arrependimento — pensei — e ele há de me perdoar.” Mas eu mesma não sabia o que era aquele “tudo” que eu lhe diria, e não acreditava em que ele me perdoasse.
     Mas apenas entrei no quarto de meu marido e vi o seu rosto tranquilo, ainda que surpreendido, senti que não tinha nada a dizer-lhe, não tinha o que confessar nem motivo para lhe pedir perdão. A aflição inconfessada e o arrependimento deviam conservar-se dentro de mim.

— Como foi que tiveste esta ideia? — disse ele. — Imagina que eu pretendia ir amanhã para junto de ti. — Mas, examinando mais de perto o meu rosto, pareceu assustar-se. — O que tens? O que te aconteceu? 
— Nada — respondi, mal contendo as lágrimas. — Vim de vez. Vamos para casa, para a Rússia, nem que seja amanhã.

     Olhou-me bastante tempo, em silêncio e com atenção.

— Mas conta-me o que te aconteceu. — disse.

     Corei sem querer e baixei os olhos. Nos dele faiscou um sentimento de ofensa e ira. Assustei-me com os pensamentos que podiam acudir-lhe à mente, e disse com uma força de fingimento que nem suspeitava em mim:

— Não aconteceu nada, apenas senti tristeza e tédio sozinha, e pensei muito em ti e em nossa vida em comum. Faz tanto tempo que sou culpada diante de ti! Por que viajas comigo para lugares que não te atraem? Faz muito tempo que sou culpada diante de ti — repeti, e lágrimas voltaram-me aos olhos. — Vamos para a roça, e que seja para sempre.
— Ah! meu bem, livra-me de cenas sentimentais — disse ele com frieza —, é excelente que tu queiras ir para a roça, inclusive porque estamos com pouco dinheiro; mas, quanto a viver lá para sempre, é apenas um sonho. Eu sei que não vais tolerar. E agora, toma o teu chá, isto será melhor — concluiu, erguendo-se para chamar o garção.

     Eu imaginava tudo o que ele podia estar pensando a meu respeito, e ofendi-me com os pensamentos terríveis que atribuí a ele, quando encontrei, fixo em mim, o seu olhar indeciso e como que envergonhado. Não! Ele não queria e não podia compreender-me! Eu disse que ia olhar a criança, e afastei-me dele. Tive vontade de ficar sozinha e chorar, chorar, chorar...


Continua na página 101...
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Primeira Parte:
Segunda Parte: 
3 - A partir desse dia / 
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Liev Tolstói é um escritor russo nascido em 9 de setembro de 1828 e morreu em 20 de novembro 1910. De família aristocrata, ficou órfão de pai e mãe ainda na infância. Mais tarde, iniciou a Faculdade de Direito, mas abandonou o curso logo depois, e participou da Guerra da Crimeia. Seu sucesso como escritor ocorreu já com a publicação de suas três primeiras obras, uma trilogia composta pelos livros Infância, Adolescência e Juventude. No entanto, suas obras mais conhecidas são Guerra e Paz e Anna Karenina.
Liev Tolstói, um dos maiores romancistas da literatura mundial, deixou um legado incomparável com suas obras-primas. Suas narrativas transcendem o tempo e continuam a ressoar com leitores de todas as gerações. Tolstói aborda temas como amor, guerra, moralidade e redenção, oferecendo uma rica reflexão sobre a condição humana.

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Título original: Semeynoye Schast'ye (1859)
Tradução: Luís Cardoso (1861-?)
2014 © Centaur Editions
centaur.editions@gmail.com

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