sábado, 8 de agosto de 2026

Odisseia: Parte I (Canto II.b)

 Odisseia


Homero

Tradução: Carlos Alberto Nunes


Parte I
A Viagem de Telêmaco
Canto II

A Assembleia em Ítaca e a partida de Telêmaco

     ““Junto com a Aurora, Telêmaco, convocando para a assembleia os itacenses, pede aos pretendentes que saiam da casa, e solicita um navio para viajar a Pilo e a Esparta, que não consegue. Recebendo um navio de Noémone e as provisões de sua ama Euricleia, parte escondido da mãe.” (Scholie H M S)

continuando...

mas se me vier a notícia de que não mais vive, que é morto, 
volto, a seguir, para a terra querida do meu nascimento, 
um cenotáfio lhe erijo e funéreas exéquias lhe apresto, 
ricas, tal como convém. Casarei minha mãe depois disso.” 
   Disse; e, depois de falar, assentou-se. Levanta-se, logo, 
o venerável Mentor, do preclaro Odisseu companheiro, 
que lhe entregara o palácio e a fazenda ao subir para a nave, 
recomendando que todos respeito ao ancião demonstrassem. 
Cheio de bons pensamentos lhe diz, arengando, o seguinte: 
“Ora Itacentes, ouvi quanto na alma pretendo dizer-vos.

Que, doravante, nenhum rei cetrado jamais se revele 
nobre, sensato e bondoso, nem cheio de retos desígnios 
mas, ao contrário, só pense austerezas e viva maldades, 
pois do divino Odisseu já ninguém dos do povo se lembra, 
que sobre todos reinou como pai de bondade extremada. 
Os pretendentes soberbos, não vou censurar, certamente, 
pelas violências que fazem, produto de instintos malvados, 
que eles as próprias cabeças arriscam pilhando a fazenda 
do valoroso Odisseu, na ilusão de que a casa não volta. 
Mas contra o resto do povo não posso deixar de indignar-me.

Com serdes muitos, ficais em silêncio, sentados, sem 
verdes que aos pretendentes, por poucos, podíeis impor vosso freio.” 
   Disse-lhe o filho de Evénor, Leócrito, então, em resposta: 
“Louco e insensato Mentor, que pretendes com esse discurso? 
Queres que a gente desta ilha nos venha refrear? Perigoso 
lhe fora, embora em mor número, vir disputar-nos as festas. 
Mesmo que o próprio Odisseu Itacense voltasse em pessoa 
e os pretendentes viesse encontrar em sua casa, em banquetes, 
caso pensasse consigo em tocá-los, sem mais, do palácio, 
dificilmente haveria de a esposa saudosa alegrar-se:

sim, Morte indigna encontra aqui mesmo o guerreiro solerte, 
se se medisse com muitos. Não foste oportuno em teus ditos. 
Eia! Disperse-se o povo e procure cada um seu trabalho. 
Quanto à viagem, incumbam-se disso Mentor e Haliterses, 
que companheiros, há muito, se prezam de ser do pai dele. 
Penso, porém, que não deve afastar-se desta ilha, onde quieto, 
há de notícias obter, sem jamais realizar essa viagem.” 
   Dessa maneira falou, dissolvendo, sem mais, a assembleia. 
Tendo-se assim dispersado, procura cada um sua casa; 
os pretendentes à casa do divo Odisseu se dirigem.

Foi, em seguida, Telêmaco, ao longo da praia marítima; 
molha nas ondas espúmeas as mãos e dirige-se a Atena: 
   “Ouve-me, ó deus, que estiveste no nosso palácio 
ontem, e me aconselhaste cruzar num navio o mar fosco, 
em busca de informações de meu pai, que, de há muito, está ausente, 
se vem de volta. Mas isso os Acaios procuram frustrar-me 
e os pretendentes, mormente, malvados e de ânimo altivo.” 
   Dessa maneira suplica. Aproxima-se Palas Atena, 
mui semelhante a Mentor, na figura exterior e na fala, 
e, começando a falar, lhe dirige as palavras aladas:

“Para o futuro nem fraco, nem fútil serás, ó Telêmaco, 
se de teu pai, em verdade, possuíres o ardor invencível. 
Homem como ele é bem raro; não só nos discursos, nas obras! 
Essa viagem, que intentas, nem vã há de ser nem frustrada. 
Se não descendes, porém, nem do herói, nem da sábia Penélope, 
não poderás realizar o projeto que no imo acalentas, 
pois são contados os filhos que à altura dos pais chegar podem; 
a maior parte é inferior; muito poucos conseguem passá-los. 
Mas é evidente que fútil nem fraco hás de um dia mostrar-te, 
porque do senso do astuto Odisseu não pareces privado.

Nutre a esperança, portanto, de dar bom recado da empresa. 
Os pretendentes despreza, quer falem, quer teçam projetos, 
os insensatos, porque nem são justos, nem obram com siso, 
sim, pois ignoram em seus pensamentos que a Morte e o sombrio 
Fado estão próximos, para que todos pereçam num dia. 
Por muito tempo a viagem que intentas não há de atrasar-se, 
pois companheiro fiel de teu pai encontrar em mim vieste: 
aprestarei um navio veloz, indo eu próprio contigo. 
Para tua casa retorna, mistura-te com os pretendentes. 
Vasos bastantes apresta e, também, os demais mantimentos,

vinho nos odres, bem como a farinha, medula dos homens, 
dentro de couros bem fortes, enquanto procuro no povo 
quem, voluntário, nos siga. Navios possui numerosos 
Ítaca, que pelo mar é cercada, entre novos e velhos. 
Desses, pretendo escolher para ti o que for mais prestante, 
e o lançaremos no vasto oceano, depois de esquipado.” 
   Palas Atena, nascida de Zeus, assim disse. Telêmaco 
não se detém por mais tempo, pós ter-lhe escutado o conselho. 
Para o palácio retorna, sentindo angustiar-se-lhe o peito. 
Os pretendentes soberbos foi logo encontrar, que no pátio

couros tiravam de cabras e porcos assavam no fogo. 
Rindo-se, Antínoo se foi para o lado onde estava Telêmaco, 
toma-lhe a mão e, falando, lhe diz as seguintes palavras: 
   “Altiloquente Telêmaco, de ânimo altivo, não cuides 
revolutear em teu peito ações más, ou sequer, pensamentos, 
mas vem conosco comer e beber, tal como antes fazias. 
Deixa ao cuidado dos nobres Aqueus arranjarem-te naves 
e remadores seletos, a fim de que possas a Pilo 
te transportar e notícias obter de Odisseu, como queres.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta:

“Não é possível, Antínoo, convosco ficar, arrogantes, 
nesses banquetes, calado, e que alegre e tranquilo me mostre. 
Ou já não basta me terem vastado a fazenda copiosa 
os pretendentes, durante esse tempo em que eu era criança? 
Ora que um homem já sou e que os ditos das outras pessoas 
ouço e compreendo, no peito, também, sinto estuar-me a coragem. 
Contra vós todos, por isso, hei de fado aprestar-vos funesto, 
ou seja em Pilo arenosa, ou aqui mesmo, entre o povo desta ilha. 
Já que é impossível obter remadores e barco, pois todos 
mais conveniente julgais recusarmos, sabei que essa viagem

não ficará infrutuosa; em navio sairei alugado.” 
   Isso disse ele, tirando depressa sua mão da de Antínoo. 
Os pretendentes, no entanto, preparam na casa o banquete, 
enquanto alguns ironias e ditos pungentes lhe assacam. 
Foi quando disse um qualquer desses moços de mente soberba: 
   “Oh! Com certeza Telêmaco pensa em matar-nos a todos, 
quer vá buscar defensores em Pilo, de solo arenoso, 
quer os conduza de Esparta. Empenhado em partir se revela. 
A Éfira, certo, de férteis campinas chegar ele almeja, 
para tentar adquirir qualquer droga de força homicida,

que nos misture no vinho, com o fim de que todos morramos.” 
   Fala, também, por seu lado, outro moço de mente soberba: 
“E quem nos diz que não venha a perder-se, também, na bojuda 
nave, distante dos caros amigos, tal como o pai dele? 
Se tal se desse, teríamos, por vossa vez, mais trabalhos. 
Fora mister dividir os bens todos, exceto o palácio, 
que lhe seria da mãe e daquele que esposo lhe fosse.” 
   Isso diziam. À câmara paterna baixa, de teto 
alto, e espaçosa, onde de ouro e bronze tesouros havia, 
bem como vestes em arcas e óleo cheiroso em grã cópia,

jarras de vinho de antiga colheita, de gosto inefável, 
tendo no bojo a divina bebida, extremada e sem liga, 
enfileiradas ao longo do muro, Odisseu aguardando, 
caso ao palácio voltasse, depois de trabalhos inúmeros. 
Duplo ferrolho engenhoso ajustava os batentes da porta. 
Sempre de guarda, ficava a intendente de dia e de noite, 
bem vigilante e dotada de grande prudência, Euricleia, 
gênita de Opos, que filho se diz do guerreiro Pisénor. 
Chama-a Telêmaco ao quarto e lhe diz as seguintes palavras: 
   “Ora, mãezinha, nas ânforas vinho agradável derrama,

em qualidade, o primeiro depois do que tens sob tua guarda, 
sempre a pensar no coitado, se acaso de novo voltasse 
livre dos riscos da Morte, Odisseu de linhagem divina. 
Enche-me doze e com rolhas prove todas elas a jeito; 
vinte medidas, também, de farinha nas mós triturada, 
que deitarás em um saco de couro mui bem-costurado. 
Mas que ninguém mais o saiba. Em lugar concertado põe tudo; 
eu mesmo, à noite, virei cá buscá-lo, no instante em que minha 
mãe para o quarto subir, com tenção de no leito deitar-se, 
para que a Esparta me vá, como a Pilo de solo arenoso,

ver se consigo notícias da volta de meu pai querido.” 
   Isso disse ele; Euricleia é tomada de súbito pranto; 
e, entre gemidos sentidos, lhe diz as palavras aladas: 
   “Mas, caro filho, que ideia foi essa que à mente te veio? 
Como pretendes viajar pelo mundo tão grande, sozinho, 
nosso consolo exclusivo? Morreu muito longe da pátria, 
em terra desconhecida, Odisseu de linhagem divina. 
Nem bem te apartes, decerto ciladas a ti serão feitas, 
para que morras e possam depois repartir-te a fazenda. 
Fica em tua casa, no meio do que te pertence; não corras

por longes terras, nem sofras trabalhos no mar infecundo.” 
   O ajuizado Telêmaco disse-lhe, então, em resposta: 
“Mãe, não te aflijas, que tenho a assistência de um deus no que faço. 
Quero, porém, que me jures que nada dirás à mãezinha 
antes que sejam onze dias completos, ou mesmo doze dias, 
salvo se der pela falta, ou souber por alguém dessa viagem, 
para que o rosto formoso, com lágrimas não desfigure.” 
   Disse; promete-o a anciã pela máxima jura dos deuses. 
Tendo assim, pois, completado as palavras da fórmula sacra, 
vai, sem demora, nas ânforas vinho deitar, saboroso,

mais a farinha num saco de couro mui bem-costurado. 
Volta Telêmaco para o palácio e aos demais se mistura. 
   A de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso: 
Sob as feições de Telêmaco toda a cidade percorre 
e apropinquando-se a cada um dos moços, aviso lhes dava, 
para que à noite se fossem reunir no navio bojudo. 
Pede, depois, a Noémone, filho preclaro de Frônio, 
queira emprestar-lhe o navio veloz; de bom grado ele o cede. 
E, quando o Sol se deitou e as estradas a sombra cobria, 
puxa o navio veloz para o mar e, em seguida, o apetrecha

com tudo que embarcação bem coberta levar costumava. 
Põe-na na entrada do porto, onde a tripulação expedita 
se reunira. Coragem em todos a deusa suscita. 
   A de olhos glaucos, Atena, concebe outro plano engenhoso: 
Para o palácio do divo Odisseu dirigiu-se depressa, 
onde lançou doce sono nas pálpebras dos pretendentes, 
que, vacilantes e bêbados, soltam das mãos as crateras. 
Foram-se todos dormir na cidade; ninguém mais consegue 
continuar assentado, que o sono atingira já todos. 
A de olhos glaucos, Atena, a Telêmaco fala, após tê-lo

feito sair de seu quarto de boa e formosa feitura, 
mui semelhante a Mentor, na figura exterior e na fala: 
   “Teus companheiros, de grevas bem-feitas, estão já, Telêmaco, 
com mãos nos remos, à espera, tão só, de que vás lhes dar ordens. 
Vamos, portanto. Não fique atrasada, por isso, a viagem.” 
   Palas Atena, depois que assim disse, se pôs a guiá-lo 
rapidamente. As pegadas da deusa seguia Telêmaco. 
Logo que foram chegados ao mar e, depois, ao navio, 
os companheiros, de longos cabelos, encontram na praia. 
Disse-lhes estas palavras o sacro poder de Telêmaco:

“Vamos, amigos! Só falta trazer as vitualhas que se acham 
no átrio, apartadas. Não só minha mãe, mas as criadas o ignoram, 
com exceção de uma apenas, a quem confiei todos os planos.” 
   Isso dizendo, se pôs a guiá-los; os outros o seguem. 
Tudo transportam, depois, para a nave de boa coberta, 
tal como o filho querido do herói Odisseu o ordenara. 
Sobe, depois, para a nave Telêmaco; Atena o guiava, 
indo sentar-se na popa. A seu lado assentou-se Telêmaco. 
Os companheiros, no entanto, depois de safar as amarras, 
sobem, também, para bordo e se sentam nos bancos dos remos.

A de olhos glaucos, Atena, bom vento lhes deu para a viagem, 
o forte Zéfiro, que ressoava no mar cor de vinho. 
Ora estimula Telêmaco os seus companheiros e manda que mãos pusessem 
na enxárcia; obedecem-lhe todos às ordens. 
Eis que primeiro levantam o mastro de abeto e na enora 
do travessão o colocam; depois, com estais o reforçam; 
içam a cândida vela com driças de couro trançado. 
Logo se enfuna no meio com o vento, e na frente do beque 
da nau, que avança, ressoam ruidosas as ondas inquietas. 
Corre veloz sobre as ondas, fazendo o caminho do estilo.

Tendo a manobra concluído na escura e mui célere nave,
logo levantam crateras repletas de vinho até a borda, 
e libações oferecem a todos os deuses eternos, 
principalmente à donzela nascida de Zeus, olhos glaucos. 
   Té que raiasse a manhã corre a nau, perfazendo o caminho. 

continua página 680...
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Prelúdio
Parte I
Canto II.a / Canto II.b /    
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Homero é considerado o maior poeta da Grécia Antiga. Estima-se que tenha vivido entre os séculos IX e VIII a.C. Sua obra foi composta e transmitida oralmente, e, devido à falta de evidências, alguns estudiosos chegam até a duvidar de sua existência.
Atribui-se a Homero, tradicionalmente, a autoria das obras Ilíada e Odisseia, dois clássicos que reconstituem a civilização grega com incrível riqueza de detalhes

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