Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Canto II - Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
“Zeus persiste na sua promessa a Tétis e envia um Sonho enganoso a
Agamémnone de que este conquistaria Troia. Agamémnone faz um teste com
seus homens e os manda voltar para casa. Atena, enviada por Hera, inspira
Odisseu a incitar os homens junto a Nestor para que eles se preparem para a
batalha. Enumeração das naus e chefes dos Gregos e dos Troianos.”
.
Os outros deuses e os homens, que em carros combatem, dormiam
a noite toda. Somente Zeus pai não gozava do sono,
a revolver no imo peito a maneira de honrar o Pelida
e
de morrerem à volta das naves Acaios inúmeros.
Dos vários planos pensados, alfim o melhor pareceu-lhe
ao poderoso Agamémnone um Sonho mandar mentiroso.
Vira-se, então, para o Sonho, e lhe diz as palavras aladas:
“Vai, Sonho falso, até as naves velozes dos homens Acaios,
e, quando a tenda alcançares do filho de Atreu, Agamémnone,
exatamente o recado lhe dá, que ora passo a dizer-te:
Manda que apreste os guerreiros Aquivos, de soltos cabelos,
sem perder tempo; é o momento, talvez, de expugnar a cidade
ampla dos homens Troianos, que os deuses do Olimpo cindidos
não mais se encontram, pois Hera, afinal, conseguiu convencê-los
com suas súplicas. Sobre os Troianos as dores impendem.”
O Sonho, logo, dali se partiu, pós ouvir o recado.
Rapidamente, aos navios velozes chegou aos Acaios,
e para o Atrida Agamémnone foi, que se achava deitado,
dentro da tenda, a dormir, pelo sono divino cercado.
Sob a figura do velho Neleio, Nestor, lhe aparece,
dos conselheiros aquele que o Atrida entre todos prezava.
Disse-lhe o Sonho divino, depois de tomar essa forma:
“Dormes, Atrida prudente e viril, domador de cavalos?
Não fica bem para um príncipe em quem todo o povo confia
e de quem tudo depende, dormir, sem parar, toda a noite.
Presta atenção ao que digo; da parte de Zeus sou mandado,
que se interessa por ti, muito embora distante, e se apiada.
Manda que aprestes os homens Aquivos, de soltos cabelos,
sem perder tempo; é o momento, talvez, de expugnar a cidade
ampla dos homens Troianos, que os deuses do Olimpo cindidos
não mais se encontram, pois Hera, afinal, conseguiu convencê-los
com suas súplicas. Sobre os Troianos as dores impendem,
que Zeus lhes manda. Retém na memória todo este recado;
não aconteça o esqueceres, no instante de o sono deixar-te.”
Tendo isso dito, voltou logo o Sonho, deixando Agamémnone
a refletir no imo peito o que nunca viria a cumprir-se.
Imaginava, o insensato, tomar a cidade dos Troas
no mesmo dia, ignorante dos planos que Zeus concebera.
Este, realmente, aprestara iminentes trabalhos e dores
para os Aqueus e os Troianos, que os duros combates trariam.
Do sono, pois, despertou, o recado de Zeus ainda ouvindo;
salta do leito, com pressa, e vestiu logo a túnica fina,
nova e brilhante, por cima da qual pôs um manto bem cômodo;
calça, a seguir, as formosas sandálias nos pés delicados,
nos ombros largos a espada lançou, cravejada de prata,
e o cetro, alfim, empunhando, que herdara do pai, incorrupto,
foi para as naves dos homens Aqueus, revestidos de bronze.
A diva Aurora, entrementes, já estava a caminho do Olimpo,
para que a Zeus e às demais divindades o dia anunciasse,
quando Agamémnone ordena aos divinos arautos que chamem
para a assembleia os Acaios de soltos cabelos nos ombros.
Gritam, sem mora, o pregão; apressados, aqueles concorrem.
Primeiramente, o conselho reuniu dos magnânimos velhos
junto da nave do sábio Nestor, que reinava nos Pílios.
Vendo-os ali reunidos, por modo discreto lhes disse:
“Caros, ouvi-me! No sono me veio uma imagem divina,
na noite suave, que o ilustre Nestor por demais parecia,
não só na altura e no aspecto, também na imponência do gesto.
Junto, bem junto à cabeça, me disse as seguintes palavras:
‘Dormes, Atrida, prudente e viril domador de cavalos?
Não fica bem para um príncipe em que todo o povo confia
e de quem tudo depende, dormir, sem parar, toda a noite.
Presta atenção ao que digo; da parte de Zeus sou mandado,
que se interessa por ti, muito embora distante, e se apiada.
Manda que aprestes os homens Aquivos de soltos cabelos,
sem perder tempo; é o momento, talvez, de expugnar a cidade
ampla dos homens Troianos, que os deuses do Olimpo cindidos
já não se encontram, pois Hera, afinal, conseguiu convencê-los
com suas súplicas. Sobre os Troianos as dores impendem,
que Zeus lhes manda. Retém na memória todo esse recado.’
Disse e voou, no momento em que o sono se foi, justamente.
Eia! Vejamos se armar conseguimos os homens Aquivos.
Procurarei com palavras, primeiro, como é mais factível,
aconselhar a que fujam nas naves providas de remos.
Por outro lado, vós todos tentai da intenção demovê-los.”
Tendo isso dito, voltou novamente a assentar-se. Levanta-se
logo Nestor, o monarca de Pilo de solo arenoso.
Cheio de bons pensamentos, lhes diz, arengando, o seguinte:
“Vós, conselheiros e guias dos povos Acaios, ouvi-me!
Se outro qualquer dos Argivos houvesse contado este sonho,
de mentiroso eu o tachara, sem dar-lhe importância nenhuma.
Mas quem afirma que o viu é o mais nobre dos chefes Acaios.
Eia! Vejamos se armar conseguimos os homens Aquivos.”
Tendo isso dito, foi ele o primeiro a sair do conselho.
Obedientes ao filho de Atreu, os demais reis cetrados
se levantaram, também. Acudiu, logo, o povo em balbúrdia.
Do mesmo modo que enxames copiosos de abelhas prorrompem
do oco da pedra, zumbindo, a que bandos, sem pausa, se seguem,
e umas, pendentes em cachos, à volta se ficam das flores
primaveris, enquanto outras variados caminhos percorrem:
dessa maneira afluíram das tendas e naves simétricas
povos sem conta, ao comprido da praia do mar, mui profunda,
para a assembleia. Inflamara-se entre eles a Fama ligeira,
a mensageira de Zeus, concitando-os de novo a reunirem-se.
A ágora tumultuava; rimbomba o chão duro ao sentarem-se
tantos guerreiros; por tudo é algazarra; esforçavam-se arautos,
nove a um só tempo, por ver se o tumulto aplacar conseguiam,
para que ouvidos os reis, descendentes de Zeus, fossem logo.
A multidão, afinal, se conteve; sentaram-se todos;
cessa, de vez, o barulho. Levanta-se o forte Agamémnone,
nas mãos o cetro que Hefesto com muito artifício forjara
para presente fazer a Zeus pai, que de Crono nascera.
O mensageiro veloz, por sua vez, foi por Zeus presenteado,
Hermes, que a Pélope o entrega, o senhor domador de cavalos;
Pélope, então, o passou para Atreu, o pastor de guerreiros,
que para Tiestes o deixa ao morrer, opulento em rebanhos;
para Agamémnone Tiestes o deu, porque, firme, o empunhasse
e em muitas ilhas o mando tivesse, bem como em toda Argos.
Nele apoiando-se, vira-se para os Argivos e fala:
“Caros amigos, heroicos Aqueus, de Ares forte sequazes!
O grande Crônida, Zeus, em terrível desgraça me enleia,
ele, o maldoso, que havia asselado, antes disso, a promessa
de retornar para a pátria, depois de destruir Ílio forte.
Ora resolve enganar-me, ordenando que volte, de novo,
sem nenhum brilho para Argos, depois de perder tanta gente.
Isso, por certo, há de ser agradável a Zeus poderoso,
que já estruiu muitos muros e grandes e fortes cidades,
e há de arrasar outras mais, pois imenso é o poder de seu braço.
Té mesmo aos pósteros há de chegar o labéu vergonhoso
de que um exército Acaio, de tantos e fortes guerreiros,
haja sem êxito feito esta guerra, conquanto lutando
contra tão poucos imigos, sem nunca lhe vermos o cabo.
Pois, em verdade, se os Troas e Aquivos quiséssemos todos
tréguas jurar para, assim, facilmente, contar nossos homens,
caso os Troianos o número exato dos seus nos dissessem,
e dividíssemos, logo, os Acaios, em várias dezenas,
e cada grupo elegesse escanção um dos homens de Troia,
a muitas décadas, certo, faltaria quem vinho mexesse.
Por tal maneira, presumo, ultrapassam os homens Aquivos
aos moradores dos muros de Troia. Porém numerosos
auxiliares lanceiros lhes vieram de muitas cidades,
que por maneira sensível me impedem de ao plano dar corpo
de Ílio sagrada expugnar, o baluarte de muros fortíssimos.
Já são corridos nove anos, mandados por Zeus poderoso;
os lenhos todos já podres se encontram, delidos os cabos;
nossas esposas queridas e os filhos infantes, ainda,
em nossas casas se encontram, saudosos, enquanto nós outros
vemos frustrada esta empresa, que a todos em Troia reúne.
Ora façamos conforme o aconselho; obedeçam-me todos:
para o torrão de nascença fujamos nas céleres naves,
pois é impossível tomar a cidade espaçosa dos Teucros.”
O coração no imo peito ficou sobremodo abalado
de toda a turba, que ausente se achara ao conselho dos velhos.
A ágora, então, se agitou, como o fazem as ondas furiosas
no Ponto Icário, que são percutidas por Euro e por Noto,
quando das nuvens irrompem, mandados por Zeus poderoso.
Do mesmo modo que Zéfiro agita uma grande lavoura,
impetuoso a soprar, e as espigas, forçadas, se curvam:
a multidão correu logo, revolta, com grande alarido,
em direção dos navios velozes. Bastante poeira
os pés faziam subir; afanosos, exortam-se todos
para lançar mãos às naves e às ondas sagradas deitá-las.
Todos, os regos alimpam e as naus dos espeques libertam.
Sobe ao Céu alto o alarido dos que para casa voltavam.
E para a pátria, talvez, retomassem, pesar do Destino,
se para Atena divina, Hera, alfim, não tivesse falado:
“Palas Atena indomável, donzela de Zeus poderoso,
é, então, possível, que fujam, desta arte, os guerreiros Argivos
no dorso extenso do mar, para a terra dos pais, extremosa?
E deixarão que Troianos e Príamo tanto enaltecem,
a Argiva Helena, por quem tantos homens Aquivos morreram
longe da pátria, jogados nas vastas planícies de Troia!
Vamos! Dirige-te aos homens Acaios, vestidos de bronze,
e com palavras afáveis procura detê-los a todos,
não consentindo que lancem ao mar os navios simétricos.”
A de olhos glaucos, Atena, ao conselho, sem mais, lhe obedece.
Célere baixa, passando por cima dos cumes do Olimpo.
Rapidamente, chegou aos navios Acaios velozes;
quedo encontrou a Odisseu, que de Zeus tinha o sendo elevado.
Nem levemente ele havia tocado em sua nave coberta,
de cor escura, que dor excruciante lhe o peito angustiava.
A de olhos glaucos, Atena, lhe foi deste modo dizendo:
“Filho de Laertes, de origem divina, Odisseu engenhoso!
É, então, possível que todos fujais para a pátria querida,
precipitando-vos, cegos, nas naves providas de remos?
E deixareis que Troianos e Príamo tanto enaltecem,
a Argiva Helena, por quem tantos homens Aquivos morreram
longe da pátria, jogados nas vastas planícies de Troia?
Vamos! Dirige-te aos homens Acaios, sem perda de tempo,
e com palavras afáveis procura detê-los a todos,
não consentindo que lancem ao mar os navios simétricos.”
Isso disse ela; Odisseu compreendeu que era a voz de uma deusa.
Corre, atirando de si longe o manto, que foi por Euríbates,
o fiel arauto, apanhado, Itacense, que a ponto o acompanha.
Chega-se para Agamémnone, o filho de Atreu poderoso,
e o incorruptível bastão lhe tomou, que de Atreu recebera.
Com ele foi para as naves dos fortes guerreiros Aquivos.
Se, porventura, encontrava um dos reis, ou pessoa graduada,
com termos brandos tentava detê-lo, embargando-lhe os passos:
“Não fica bem, caro amigo, mostrar o temor do homem baixo;
cuida, isso sim, de acalmar-te; concita essa gente a assentar-se,
pois desconheces em todo o seu âmbito os planos do Atrida.
Ora procura tentar-nos, mas breve há de a pena infligir-nos.
Nem todos nós percebemos o que ele externou no conselho.
Não aconteça, colérico, males causar aos Argivos.
Sempre é violento o rancor do monarca de Zeus descendente.
A majestade e o poder ele os herda de Zeus poderoso.”
Mas se encontrava, a gritar, um qualquer dentre os homens do povo,
o percutia com o cetro, increpando-o, desta arte, em voz alta:
continua página 85...
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A peste e a ira
Apêndice
Sonho, teste e beócia ou o catálogo das naus
Canto II.a / Canto II.b /
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A Ilíada é um poema épico atribuído a Homero que narra os eventos do último ano da Guerra de Troia, destacando a ira de Aquiles e suas consequências. É considerada uma das obras fundadoras da literatura ocidental, composta por cerca de 15.693 versos em hexâmetro datílico e dividida em 24 cantos, cada um correspondente a uma letra do alfabeto grego. A autoria é tradicionalmente atribuída a Homero, poeta grego que teria vivido no século VIII a.C., na região da Jônia, atual Turquia.
O poema se passa durante 51 dias do décimo ano da Guerra de Troia, iniciando com a ira de Aquiles, causada pela disputa com Agamenon, comandante dos exércitos gregos, que lhe retira a serva Briseida. A narrativa aborda:
- O cerco de Troia pelos aqueus para resgatar Helena, esposa de Menelau, raptada por Páris.
- A retirada de Aquiles do combate e o impacto dessa decisão sobre os gregos.
- A morte de Pátroclo, amigo de Aquiles, que leva o herói a retomar a luta.
- O duelo final entre Aquiles e Heitor, culminando com o funeral do herói troiano.
- A obra também inclui episódios de deuses e heróis, como Afrodite, Zeus, Páris e Helena, que influenciam diretamente os acontecimentos humanos.
A Ilíada, junto com a Odisseia, representa a síntese da tradição oral grega e permanece até hoje como um estudo essencial da literatura e da cultura clássica.
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