sábado, 8 de agosto de 2026

Augusto dos Anjos - As Scismas do Destino I

Augusto dos Anjos

EU 

Á MEMORIA DE MEU PAE

Á minha Mãe — Cordula C. R. dos Anjos
Á minha Mulher — Esther Fialho R. dos Anjos
Á minha filhinha — Gloria
Aos meus irmãos


As Scismas do Destino

 I

Recife. Ponte Buarque de Macedo. 
Eu, indo em direcção á casa do Agra, 
Assombrado com a minha sombra magra, 
Pensava no Destino, e tinha medo! 

Na austera abóbada alta o phósphoro alvo 
Das estrellas luzia. . 0 calçamento 
Saxeo, de asphalto rijo, atro e vidrento, 
Copiava a polidez de um cráneo calvo. 

Lembro-me bem. A ponte era comprida, 
E a minha sombra enorme enchia a ponte, 
Como uma pelle de rhinoceronte 
Estendida por toda a minha vida! 

A noite fecundava o ovo dos vícios 
Animaes. Do carvão da trevaimmensa 
Cahia um ar damnado de doença 
Sobre a cara geral dos edifícios!  

Tal uma horda feroz de cães famintos, 
Atravessando uma estação deserta, 
Uivava dentro do eu, com a bocca aberta. 
A matilha espantada dos instinctos! 

Era como si, na alma da cidade, 
Profundamente lubrica e revolta, 
Mostrando as carnes, uma besta solta 
Soltasse o berro da animalidade.

E aprofundando o raciocínio obscuro, 
Eu vi, então, á luz de áureos reflexos, 
O trabalho génésico dos sexos, 
Fazendo á noite os homens do Futuro. 

Livres de microscópios e escalpellos, 
Dansavam, parodiando saraus cynicos, 
Bilhões de centrosomas apollinicos 
Na câmara promiscua do vitellus

Mas, a irritar-me os globos oculares, 
Apregoando e alardeando a côr nojenta, 
Fetos magros, ainda na placenta, 
Estendiam-me as mãos rudimentares! 

Mostravam-me o apriorismo incognoscivel 
Dessa fatalidade egualitaria, 
Que fêz minha familia originaria 
Do antro daquella fábrica terrível! 

A corrente atmospherica mais forte 
Zunuia. E, na ignea crostra do Cruzeiro, 
Julgava eu ver o fúnebre candieiro 
Que ha de me allumiar na hora da morte.

Ninguém comprehendia o meu soluço, 
Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas, 
O vento bravo me atirava flechas 
E applicações hyemaes de gelo russo, 

A vingança dos mundos astronômicos 
Enviava á terra extraordinária faca, 
Posta em rija adhesão de gomma lacca 
Sobre os meus elementos anatômicos. 

Ah ! Com certeza, Deus me castigava! 
Por toda a parte, como um réu confesso, 
Havia um juiz que lia o meu processo 
E uma forca especial que me esperava!

Mas o vento cessara por instantes 
Ou, pelo menos, o ignis sapiens do Orço 
Abafava-me o peito arqüeado e porco 
Num núcleo de substancias abrazantes. 

E' bem possível que eu um dia cegue. 
No ardor desta lethal tórrida zona, 
A côr do sangue é a cor que me impressiona 
E a que mais neste mundo me persegue! 

Essa obsessão chromática me abate. 
Não sei porque me vêm sempre á lembrança 
O estômago esfaqueado de uma creança 
E um pedaço de viscera escarláte. 

Quizéra qualquer coisa provisória 
Que a minha cerebral caverna entrasse, 
E até ao fim, cortasse e recortasse 
A faculdade aziaga da memória.  

Na ascensão barométrica da calma, 
Eu bem sabia, anciado e contrafeito, 
Que uma população doente do peito 
Tossia sem remédio na minhalma! 

E o cuspo que essa hereditária tosse 
Golphava, á guisa de ácido residuo, 
Não era o cuspo só de um individuo 
Minado pela tísica precoce. 

Não ! Não era o meu cuspo, com certeza 
Era a expectoração pútrida e crassa 
Dos bronchios pulmonares de uma raça 
Que violou as leis da Natureza! 

Era antes uma tosse úbiqua, estranha, 
Igual ao ruido de um calháo redondo 
Arremessado no apogêo do estrondo, 
Pelos fundibularios da montanha! 

E a saliva daquelles infelizes 
Inchava, em minha bocca, de tal arte, 
Que eu, para não cuspir por toda a parte, 
Ia engolindo, aos poucos, a hemoptisis! 

Na alta allucinação de minhas scismas, 
O microcosmos liquido da gotta 
Tinha a abundância de uma artéria rota, 
Arrebentada pelos anéurismas. 

Chegou-me o estado máximo da magua! 
Duas, três, quatro, cinco, seis e sete 
Vezes que eu me furei com um canivete, 
A hemoglobina vinha cheia de água!  

Cuspo, cujas caudaes meus beiços regam, 
Sob a fôrma de minimas camándulas, 
Bemditas sejam todas essas glândulas, 
Que, quotidianamente, te segrégam! 

Escarrar de um abysmo n' outro abysmo, 
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro, 
Ha mais philosophia neste escarro 
Do que em toda a moral do christianismo! 

Porque, si no orbe oval que os meus pés tocam 
Eu não deixasse o meu cuspo carrasco, 
Jamais exprimiria o acerrimo asco 
Que os canalhas do mundo me provocam! 


Continua na página 30...
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Leia também:
  O Deus-Verme / As Scismas do Destino I /   
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Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Sapé, 20 de abril de 1884 – Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta e professor brasileiro reconhecido como um dos principais expoentes do simbolismo e do pré-modernismo brasileiro.
Augusto dos Anjos, talvez, o mais sombrio dos poetas brasileiros, foi também o mais original. Sua obra poética, composta por apenas um livro de poemas, não se encaixa em nenhuma escola literária, embora tenha sido influenciado por características do Naturalismo e do Simbolismo, a produção única de Augusto dos Anjos não pode ser enquadrada em nenhum desses movimentos. E por isso pode ser classificado juntamente aos seus contemporâneos do Pré-Modernismo.

Digitalização dos originais
Edição de referência: Rio de Janeiro: [s. n.], 1912. páginas 5-11.
Trata‐se de uma referência, a mais fiel possível, a um documento original. Neste sentido, foi mantida a integridade e a autenticidade da fonte, não realizando alterações. 
Obra publicada em 1912
Obras que entraram em domínio público pela lei 5988 de 1973
Eu (Augusto dos Anjos, 1912)
Augusto dos Anjos
Poesia brasileira

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