quinta-feira, 8 de junho de 2017

O Brasil nação - v1: § 37 – “Conciliação”... para o usufruto... - Manoel Bomfim

Manoel Bomfim



O Brasil nação volume 1





PRIMEIRA PARTE
SEQUÊNCIAS HISTÓRICAS



capítulo 4
o definitivo império do brasil







§ 37 – “Conciliação”... para o usufruto...




Refeito o bragantismo, definitivamente composto no golpe de 1840, firmado com as vitórias de 1842 e 48, compreenderam os mais legítimos dos seus comparsas que não havia razão para aquela divisão de hostes, a arrastar o trambolho dos respectivos programas, e, com desembaraço idêntico ao de Vasconcelos ao pronunciar o regresso, disseram conciliação. Como no caso da interpretação, a ideia foi de Hermeto, fecundando a gravidade de Olinda. Conta José de Alencar que a conciliação veio para suceder à camarilha... Nada mais lógico: a Aureliano-Vilela Barbosa, sucede Carneiro Leão, puxando Araújo Lima. O poeta do Guarani dá o seu parecer:


... conciliação, ideia insinuante, que, sob pretexto de aplacar os rancores da luta, coava no seio dos partidos o filtro da corrupção... A dissolução geral dos partidos, a dissolução dos princípios que nutriam a vida pública do Brasil é o que se convencionou chamar de conciliação, termo honesto e decente para qualificar a prostituição política.


A ideia luziu em 1851, como ensaio de Eusébio de Queiroz, e teve pleno fulgor de realização em 1853, com Paraná, que “... falando ao interesse pessoal, prometendo elevadas posições, excitando a cobiça etc., conseguiu famosas transformações...” Uma das tais famosas foi a do democrata do libelo do povo, que se elevou a Inhomirim. José de Alencar, como o liberal-republicano Saldanha Marinho, insiste em deixar com o imperador a responsabilidade da conciliação. Certamente foi ele quem mais lucrou, na obra de prostituição dos partidos; mas é inegável que nada teria o imperante conseguido se não encontrasse a carne pronta a prostituir-se.

Nascida de embustes, nutrida de mentira e traições, a política nacional, de passagem pela conciliação, chegou àquela situação (em 1860), que Landulfo enquadra nestas linhas:


... as crenças pela ação dissolvente dos interesses pessoais se dissipam das consciências; o desânimo se apodera do espírito público e faz suceder, às crenças fortes, um pessimismo desconfiado e pusilânime, que condena o presente sem ter confiança no futuro; tudo se julga pela medida do interesse; a ninguém é lícito a pretensão de exceder a mediocridade; toda aspiração generosa é loucura, todo cálculo ignóbil, sem merecimento e sem lustre – a suprema habilidade... o espírito popular, cruelmente desiludido, descrê de tudo, e lança às aventuras do porvir a derradeira esperança... 154


De fato, no desenvolver dos sucessos de então, verifica-se o só estímulo dos egoísmos, a ausência absoluta de qualquer ideal vivificante. Nos processos, uma dignidade convencional, por sobre o vazio do pensamento, com a secura de coração dos insinceros. Destarte, a política se caracterizava em negação ativa. Pátria, fé dos seus destinos, nobreza de propósitos, caráter nas afirmações, entusiasmos de intuitos, sequência confessável de ação... não intervinham no proceder dos governantes. Chegada a nação a essa atividade torva, Tavares Bastos repetirá, como lamento: “A indiferença mata o vigor do espírito. E há indiferença moral, política e religiosa maior do que a que estamos observando?...155 

A conciliação, prostituição para José de Alencar, fora obra de Hermeto, diz-se, por inspiração do trono; chefe de governo, após a morte inesperada de Paraná, Olinda declarou, no próprio ato


154 Op. cit., págs. 37 e 60.

155 Op. cit., pág. 37.


de apresentar-se ao Parlamento: “Venho continuar a conciliação, pensamento augusto, necessidade proclamada do alto do trono...” No entanto, de tal modo se acentuou a subserviência e o servilismo, que esse mesmo Carneiro Leão já não podia dobrar o cangote na medida do que se lhe exigia: teve de sacudir o lombo, e, assim, passou à história como um representante da hombridade política no segundo Império. E, como não bastasse a conciliação de Paraná, veio Olinda completar-lhe a obra de deliquescência, com o seu famoso partido progressista. Não era nenhum partido, senão um bando deles, sôfregos pelos proventos do poder, prontos a formar gabinetes – para Pedro II governar e administrar à vontade. Era uma turma de descaracterizados, ostensivamente indiferentes a compromissos, indiferentes, mesmo, ao letreiro com que entravam no governo. Só faziam questão de serem os preferidos. Hermeto, apesar das aparências, era sincero quando proclamava implicitamente a desnecessidade de dois partidos, se eram todos UM; mas também mostrou desconhecer os companheiros em redor do poder. Olinda, mas experiente e matreiro, foi quem soube achar o que mais convinha à política do tempo: conservou o nome de partido, separando nele os mais utilizáveis, fosse para o que fosse. Nesse período, que foi a expressão pujante e definitiva do segundo Império, esse ganhou tanta força que se atirou a grande guerra exterior, de extermínio. Sobre a nação abandonada, emergiu, e definitivamente se firmou, o poder efetivo e único da coroa. Foi o período da grande obra – de cristalização da soberania nacional na vontade do soberano. Foi uma cristalização viva, e que teve de fazer-se em águas turvas: a política tem aquela aparência de barafunda – nove anos, de 1857 a 66, em que se organizaram e viveram 10 ministérios. Foi quando Zacarias, por um tanto coerente, não arranjava liberais para constituir um gabinete, se bem que tivesse por si o ânimo e a eloquência de José Bonifácio, o moço, ao passo que Olinda, deserto de ideias e de convicções, organizava ministério liberal, juntando a mocidade de Sinimbu à senilidade trêfega de Holanda Cavalcanti. Em 1867, justamente, prosperou e definhou o último governo de progressistas, liberal in nomine, veementemente combatido pelo que restava de legítimos liberais. O imperial capricho havia exterminado, quase, um povo americano, como havia sacrificado a vida de centenas de milhares de brasileiros em plenitude de forças; o surto para a liberdade renovava-se; a miséria da política já cansava os ânimos, como entenebrecia os horizontes; e abriu-se um novo período na vida da Nação brasileira, em expressões que divergiam cada vez mais, em renovado conflito, de formas e de intuitos; era para a miséria que se agravava, o esforço de redenção peremptória.




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"Morreu no Rio aos 64 anos, em 1932, deixando-nos como legado frases, que infelizmente, ainda ecoam como válidas: 'Somos uma nação ineducada, conduzida por um Estado pervertido. Ineducada, a nação se anula; representada por um Estado pervertido, a nação se degrada'. As lições que nos são ministradas em O Brasil nação ainda se fazem eternas. Torcemos para que um dia caduquem. E que o novo Brasil sonhado por Bomfim se torne realidade."

Cecília Costa Junqueira



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O Brasil nação: vol. I / Manoel Bomfim. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013. 332 p.; 21 cm. – (Coleção biblioteca básica brasileira; 35).


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http://www.fundar.org.br/bbb/index.php/project/o-brasil-nacao-vol-i-manoel-bonfim/


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O Brasil Nação - v1: § 38 – Parlamentarismo – sobreconstitucional e representativo - Manoel Bomfim 

O Brasil nação - v1: Prefácio - Manoel Bomfim







Rayuela - Julio Cortázar: Capítulo 50

Capítulo 50

    De la parada del colectivo a la calle Trelles no había más que un paso, o sea tres cuadras y pico. Ferraguto y la Cuca ya estaban con el administrador cuando llegaron Talita y Traveler. La gran tratativa ocurría en una sala del primer piso, con dos ventanas que daban al patio jardín donde se paseaban los enfermos y se veía subir y bajar un chorrito de agua en una fuente de porlan. Para llegar hasta la sala, Talita y Traveler habían tenido que recorrer varios pasillos y habitaciones de la planta baja, donde señoras y caballeros los habían interpelado en correcto castellano para mangarles la entrega benévola de uno que otro atada de cigarrillos. El enfermo que los acompañaba parecía encontrar ese intermedio perfectamente natural, y las cirncunstancias no favorecieron un primer interrogatorio de ambientación. Casi sin tabaco llegaron a la sala de la gran tratativa donde Ferraguto les presentó al administrador con palabras vistosas. A la mitad de la lectura de un documento inteligible se apareció Oliveira la miró extrañado porque él se había metido directamente en un zaguán que daba a una puerta, ésa. En cuanto al Dire, estaba de negro riguroso.

    El calor que hacía era de los que engolaban más a fondo la voz de los locutores que cada hora pasaban primero el parte meteorológico y segundo los desmentidos oficiales sobre el levantamiento del Campo de Mayo y las adustas intenciones del coronel Flappa. El administrador había interrumpido la lectura del documento a las seis menos cinco para encender su transsistor japonés y mantenerse, según afirmó previo pedido de disculpas, en contacto con los hechos. Frase que determinó en Oliveira la inmediata aplicación del gesto clásico de los que se han olvidado algo en el zaguán (y que al fin y al cabo, pensó el administrador tendría que admitir como otra forma de contacto con los hechos) y a pesar de las miradas fulminantes de Traveler y Talita se largó sala afuera por la primera puerta a tiro y que no era la misma por la que había entrado.

    De un par de frases del documento había inferido que la clínica se componía de planta baja y cuatro pisos, más un pabellón en el fondo del jardín. Lo mejor sería darse una vuelta por el patio-jardí, si encontraba el camino, pero no hubo ocasión porque apenas había andado cinco metros un hombre joven en mangas de camisa se le acercó sonriendo, lo tomó de una mano y lo llevó , balanceando el brazo como los chicos, hasta un corredor donde había no pocas puertas y algo que debía ser la boca de un montacargas. La idea de conocer la clínica de la mano de un loco era sumamente agradable, y lo primero que hizo Oliveira fue sacar cigarrillos para su compañero, muchacho de aire inteligente que aceptó un pitillo y silbó satisfecho. Después resultó que era un enfermo y que Oliveira no era un loco, los malentendidos usuales en esos casos. El episodio era barato y poco promisorio, pero entre piso y piso Oliveira y Remorino se hicieron amigos y la topografía de la clínica se fue mostrando desde adentro, con anécdotas, feroces púas contra el resto del personal y puestas en guardia de amigo a amigo. Estaban en el cuarto donde el doctor Ovejero guardaba sus cobayos y una foto de Mónica Vitti, cuando un muchacho bizco apareció corrieno para decirle a Remorino que si ese señor que estaba con él era el señor Horacio Oliveira, etcétera. Con un suspiro, Oliveira bajó dos pisos y volvió a la sala de la gran tratativa donde el documento se arrastraba a su fin entre los rubores menopáusicos de la Cuca Ferraguto y los bostezos desconsiderados de Traveler. Oliveira se quedó pensando en la silueta vestida con un pijama rosa que había visto al doblar un codo del pasillo del tercer piso, un hombre ya viejo que andaba pegado a la pared acariciando una paloma como dormida en su mano. Exactamente en el momento en que la Cuca Ferraguto soltaba una especie de berrido.

-¿Cómo que tienen que firmar el okery?
-Cállate, queida -dijo el Dire-. El señor que quiere significar...
-Está bien claro -dijo Talita que siempre se había entendido bien con la Cuca y la quería ayudar-. El traspaso exige el consentimiento de los enfermos.
-Pero es una locura -dijo la Cuca muy ad hoc.
-Mire, señora -dijo el administrador tirándose del chaleco con la mano libre-. Aquí los enfermos son muy especiales, y la ley Méndez Delfino es de lo más clara al respecto. Salvo ocho o diez culias familias ya han dado el okey, los otros se han pasado la vida de loquero en loquero, si me permite el término, y nadie responde por ellos. En ese caso la ley faculta al administrador para que, en los periodos lúcidos de estos sujetos, los consulte sobre si están de acuerdo en que la clínica pase a un nuevo propietario. Aquí tiene los artículos marcados -agregó mostrándoleun libro encuadernado en rojo de donde salían unas tiras de la Razón Quinta-. Los lee y se acabó.
-Si he entendido bien –dijo Ferraguto-, ese trámite debería hacerse de inmediato.
-¿Y para qué se cree que los he convocado? Usted como propietario y estos señores como testigos: vamos llamando a los enfermos, y todo se resuelve esta misma tarde.
-La cuestión –dijo Traveler-, es que los puntos estén en eso que usted llamó periodo lúcido.

El administrador lo miró con lástima, y tocó un timbre. Entró Remorino de blusa, le guiñó el ojo a Oliveira y puso un enorme registro sobre una mesita. Instaló una silla delante de la mesita, y se cruzó de brazos como un verdugo persa. Ferraguto, que se había apresurado a examinar el registro con aire de entendido, preguntó si el okey quedaría registrado al pie del acta, y el administrador dijo que sí, para lo cual se llamaría a los enfermos por orden alfabético y se les pediría que estamparan la millonaria mediante una rotunda Birome azul. A pesar de tan eficientes preparativos, Traveler se emperró en insinuar que tal vez alguno de los enfermos se negara a firmar o cometiera algún acto extemporáneo. Aunque sin atreverse a apoyarlo abiertamente, la Cuca y Ferraguto estaban pendientes-de-sus-palabras.


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Leia também:



Os Meus guris e o Teu guri

Porto Alegre - Bairro Humaitá/Navegantes




quando nada dá certo, seu moço
chama o guri dos altos da cidade,
não vai resolver
ele demora 
e parece que não chega

eu não entendo essa gente
sem nome que só vai levando
quer chegar lá
e acredita nesse guri

olha aí olha aí o guri
ele não chega 
olha aí olha aí o guri
que sabe vigiar
olha aí olha aí o teu guri

quando ele vem é para punir
olha aí olha aí o teu guri
isso o danado bem sabe
olha aí olha aí o teu guri

tudo de novo
rua alagada
casa levantada
e o danado do guri
que não vem
tudo bem

o guri do alagado
é o meu guri
o guri nos altos da cidade
e da limousine
é o teu guri

olha aí olha aí
de quem é este guri?








O Meu Guri


Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar

Como fui levando não sei lhe explicar
Fui assim levando ele a me levar
E na sua meninice, ele um dia me disse
Que chegava lá

Olha aí! Olha aí!
Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega

Chega suado e veloz do batente
Traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar

Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar
Olha aí!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega no morro com carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos está um horror

Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar
Olha aí!

Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais

O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo de papo pro ar
Desde o começo eu não disse, seu moço!
Ele disse que chegava lá

Olha aí! Olha aí!
Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí
Olha aí!
É o meu guri!

Olha aí!
Ai, o meu guri, olha aí
Olha aí!
É o meu guri!



Composição: Chico Buarque

















Imagens do Prof. Mateus Ceni de Oliveira





obrigado, professora Cida e alunos e alunas da T51 e T52. ontem, nas aulas de língua estrangeira , na EJA, o começo das chuvas e durante as chuvas - mesmo prevendo os alagamentos - continuaram nas suas salas de aula. repetiram cantaram estudaram o chico e o guri, olha aí... quando nada dá certo, não chamem o guri, chamem os alunos e alunas da EJA. 
eita, GENTE forte!









quarta-feira, 7 de junho de 2017

Gente Pobre - 15. A ferida está ainda muito viva! - Dostoiévski

Fiódor Dostoiévski


15.




20 de junho



Prezado Makar Alexeievitch:


Escrevo-lhe apenas meia dúzia de palavras à pressa. Estou a acabar um trabalho que tenho de entregar num prazo fixo, não dispondo por isso de mais tempo. 

Vou dizer-lhe, sem rodeios, o assunto de que se trata: surgiu uma oportunidade de efetuar um negócio vantajoso. Diz a Fédora que um conhecido dela se quer desfazer de uma farda quase nova — calças, casaco e boné — e que a vende barato. Se quiser comprar... O senhor agora tem dinheiro e não vive com dificuldades; garantiu-me até que tinha dinheiro de mais. Por isso, seja razoável e adquira esse fato, que precisa dele. O que traz está muito velho, como poderá verificar se se mirar ao espelho. É verdadeiramente horroroso! Está cheio de nódoas e, segundo me afirmaram, o senhor não tem outro, apesar de me garantir o contrário. Pelo menos, ninguém lho vê. Peço-lhe, por isso, que me obedeça uma vez e compre o fato! Faça-o por mim, se é que realmente me tem algum amor. 

O senhor mandou-me roupa branca. Devo dizer-lhe, Makar Alexeievitch, que é de mais. Se assim continua, arruinar-se-á, pode crer; o que já gastou comigo representa quase uma fortuna! Como pode esbanjar tanto? Eu não preciso de nada, todas essas prendas são exageradas. Sei, tenho mesmo a certeza de que me quer; é, portanto, supérfluo o seu empenho em demonstrar-me. a verdade do seu carinho, oferecendo-me umas coisas atrás de outras. Creia que me custa imenso aceitar os seus obséquios, porque sei bem os sacrifícios que eles representam. Deixe-se dessas coisas de uma vez para sempre, ouviu? Peço-lhe, suplico-lhe! 

Pede-me que lhe envie a continuação das minhas memórias e diz que devo terminá-las. Meu Deus! Se eu própria não sei como consegui escrever tantas coisas naquele caderno! Não; já não sinto coragem para falar do meu passado, não quero pensar mais nele. Essas recordações horrorizam-me. Especialmente referir-me à minha pobre mãe, cuja filha única, após a sua morte, foi vítima de tantos infortúnios, é superior às minhas forças! Sinto o meu coração sangrar quando evoco essas recordações, apesar de serem tão longínquas. A ferida está ainda muito viva! Além disso, não disponho de serenidade para pensar; já passou um ano sobre esses acontecimentos, mas não consegui ainda recuperar a tranquilidade. De resto, o senhor sabe tudo. 

Já lhe falei também das tenções com que anda agora Ana Fedorovna. Acusa-me de ingratidão e afirma não ter de modo algum interferido no caso do senhor Buikov. Diz que estou a viver de esmolas e que enveredei pelo mau caminho. Por isso convida-me a voltar para sua casa, prometendo levar o senhor Buikov a reparar o mal que fez. Chegou mesmo a dizer que ele me indemnizará dando-me um dote. Para longe com eles! Estou aqui muito bem sob a sua proteção e ao lado da boa Fédora, cuja afeição me faz lembrar a minha velha ama que Deus haja. Bem sei que o senhor é apenas um parente afastado, mas isso não o impede de olhar por mim e me proteger com o seu nome honrado e a sua boa fama. A essa gente, não a conheço, votá-la-ei ao esquecimento, se tal me for possível! Que mais querem de mim? Diz a Fédora que são simples artimanhas que eles empregam e que, por fim, hão de acabar por me deixar em paz. Deus o queira!



B. D.







21 de junho




Minha querida:



Desejo escrever-lhe, mas não sei por onde principiar. É deveras estranha a vida que ambos agora levamos! Quero com isto apenas dizer que nunca passei dias tão felizes! É como se Deus me tivesse dado um lar e uma família querida: Mas para que falou nas quatro camisas que lhe enviei? Sei que precisava delas, disse-mo Fédora. E, bem sabe, para mim constitui um prazer ser-lhe útil em qualquer coisa. É a maior alegria que posso ter na vida; peço-lhe por isso que me permita gozá-la e queira fazer-me feliz. Nunca experimentei nada de semelhante, querida. A vida que hoje levo é completamente diferente, muito outra, da anterior. 

Em primeiro lugar, vivo duplamente vivendo perto de si, o que é para mim uma verdadeira consolação espiritual, ao passo que, por outro lado, o meu vizinho de quarto, Ratazaiev — esse funcionário em cujos aposentos se dão serões literários, convidou-me para tomar chá. Esta noite, portanto haverá uma dessas reuniões onde serão lidos alguns trechos literários. Está a ver a minha vida? 

Bom, por hoje adeus! Já lhe escrevi bastante sem qualquer objetivo; apenas queria participar-lhe que me encontro bem-disposto. Mandou-me dizer pela Teresa que precisava de seda de cor para os seus bordados; esteja descansada, que eu vou-lha comprar amanhã, sendo para mim um grande prazer a satisfação de um desejo seu. Já sei onde poderei encontrar a seda da melhor qualidade. 

Entretanto, creia-me seu sincero amigo



Makar Dievuchkin





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Esse é o tipo de livro que modifica algo na gente. “Pobre gente” foi o primeiro romance de Dostoievski, começou a escrever em 1844 e terminou no ano seguinte. O personagem Makar Dévushkin, um auxiliar administrativo que leva trinta anos copiando documentos, mora numa pensão humilde, seu pequeno quarto fica ao lado da cozinha, é o que pode pagar com o seu salário também minúsculo. O frio e a frieza de uma sociedade que ignora os pobres. Crítica social contundente, comendo pelas beiradas narrativas. Segundo alguns historiadores, uma das obras que mandou o autor para a cadeia siberiana. Eram os 25 anos de um gênio então já se apurando na escrita, despertando assim, para sentir seu tempo e as humilhações da época, desesperos; um olhar sobre todas as coisas da sofrida gente. Triste narrativa pungente da condição humana em torno desses dois personagens, como vítimas de fatalidades da vida numa sociedade onde poucos conseguem realmente sair do ramerão, e onde muitos se movem numa crueldade austera entre si, forçada pelas inóspitas condições em que vivem. Makar e Varenka vivem um amor idílico ensombrado pelo que os circunda (Makar é muito mais velho que Varenka), agravando as suas próprias condições a um nível desesperador e quase doentio, mas sempre com alguma perspectiva de esperança fundadas em ilusões muitas das vezes patéticas, algo falsamente ingênuas, ilustrativas, no entanto, ao alcance do coração humano que tudo pode sonhar, sem se importar com as verdadeiras condições em que se encontra, principalmente nessas condições por assim dizer desprezíveis.



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Fiódor Dostoiévski

GENTE POBRE

Título original: Bednye Lyudi (1846)

Tradução anônima 2014 © Centaur Editions

centaur.editions@gmail.com


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Leia também:

Gente Pobre - 14. Qual será a maior virtude cívica? - Dostoiévski 

Gente Pobre - 16. O pequenito tinha nove anos - Dostoiévski
Gente Pobre - 01. Ontem fui feliz, excessivamente feliz - Dostoievski


segunda-feira, 5 de junho de 2017

33. O Livro dos Abraços - A última cerveja de Caldwell - Eduardo Galeano

Eduardo Galeano


33. O Livro dos Abraços




A última cerveja de Caldwell 

Era no entardecer de um domingo de abril. Depois de uma semana de muito trabalho, eu estava bebendo cerveja numa taverna de Amsterdam. Estava com Annelies, que tinha me ajudado com santa paciência em minhas voltas e reviravoltas pela Holanda. 

Eu me sentia bem mas, sem saber por que, meio triste. 

E comecei a falar dos livros de Erskine Caldwell. 

Começou com uma piada boba. Como minhas incessantes viagens ao banheiro entre cerveja e cerveja me davam vergonha, resolvi dizer que o caminho da cerveja conduz ao banheiro da mesma forma que o caminho do tabaco leva ao cinzeiro, e me senti muito arguto. Mas Annelies, que não tinha lido O caminho do tabaco, nem sorriu. Então expliquei a piada, que é a pior coisa que se pode fazer em qualquer circunstância, e foi assim que comecei a falar de Caldwell e de seus espantalhos do sul dos Estados Unidos; e não consegui mais parar.

Fazia mais de vinte anos que eu não falava dele. Eu não falava de Caldwell desde os tempos em que me encontrava com Horacio Petit, nas cafeterias e nos botequins de Montevidéu, e com ele andava vinhos e livros. 


Agora, enquanto falava, enquanto aquela torrente incessante brotava de minha boca, eu via Caldwell, via Caldwell debaixo de seu esfiapado chapéu de palha, numa cadeira de balanço na varanda, feliz por causa dos ataques das ligas de moral e bons costumes e dos críticos literários, mascando fumo e ruminando novas porcarias e desventuras para seus personagens miseráveis. 

E a tarde se fez noite. Não sei quanto tempo passei falando de Caldwell e tomando cerveja. 

Na manhã seguinte, li a notícia nos jornais: O romancista Erskine Caldwell morreu ontem, em sua casa no sul dos Estados Unidos.




Andanças/3

Helena sonhou que telefonava para Pilar e Antonio, e eram tantas as vontades de dar um abraço nos dois que conseguia trazê-los da Espanha pelo aparelho. Pilar e Antonio deslizavam pelo telefone como se fosse um tobogã, e caíam, suavemente, em nossa casa de Montevidéu.





Dizem as paredes/4

Em pleno centro de Medellín: A letra com sangue entra. Embaixo, assinando: Carrasco alfabetizador. Na cidade uruguaia de Melo: Ajude a polícia: torture-se

Num muro de Masatepe, na Nicarágua, pouco depois da queda do ditador Somoza: 

Vão morrer de saudades, mas não voltarão.




Invejas do alto céu

Os maias creem que no começo da história, quando os deuses nos deram nascimento, nós, os humanos, éramos capazes de ver além do horizonte. Então estávamos recém-fundados, e os deuses atiraram pó em nossos olhos para que não fôssemos tão poderosos. 

Eu pensei nessa inveja dos deuses, quando soube que meu amigo René Zavaleta tinha morrido. René, que tinha uma inteligência deslumbrante, foi fulminado por um câncer no cérebro. 

De câncer na garganta tinha morrido, meio século antes, Enrico Caruso.




Notícias

Os macacos confundem Gato Félix com Tarzã, Popeye devora suas latas infalíveis, Berta Singerman geme versos no Teatro Solís, a grande tesoura de Geniol corta os resfriados, de um momento a outro Mussolini vai invadir a Etiópia, a frota britânica concentra-se no canal de Suez. 

Página após página, dia após dia, o ano de 1935 vai desfilando frente aos olhos de Pepe Barrientos, na Biblioteca Nacional. Pepe está buscando sei lá qual dado na coleção do jornal Uruguay, a estréia de um tango ou o batizado de uma rua ou coisa parecida, e o tempo inteiro sente que esta não é a primeira vez, sente que já viu o que está vendo agora, que já passou por aqui, passou antes por aqui, por estas páginas, o cine Ariel estréia um filme de Ginger Rogers, no Artigas a pequena Shirley Temple dança e canta, uma flanela molhada em Untisal cura a dor de garganta, um navio arde em chamas a cento e cinqüenta milhas destas costas de Montevidéu, uma bailarina de reputação duvidosa amanhece assassinada, Mussolini pronuncia seu ultimato. Guerra! Vem aí a guerra!, clama uma enorme manchete. Sim, Pepe já viu. Sim, sim: esta foto, o goleiro feito pomba voadora atravessando a página, o chute de Cea dobrando as mãos do goleiro, essas letras: talvez na infância, pensa. Surpreende-se de tão longa viagem da memória: em 1935, há mais de meio século, ele tinha seis anos. E então, de repente, é tocado pelo medo, as unhas geladas do medo roçam sua nuca, e ele tem certeza de que deve ir embora, e tem certeza de que vai ficar. E assim continua. Poderia mudar de jornal, ou de ano, ou simplesmente poderia caminhar até a porta de saída, mas continua. Pepe continua, chamado, não pode ir embora, não pode parar, e o Penarol ganha e sua grande figura é Gestido, e foi firmada a paz entre o Paraguai e a Bolívia mas o problema dos prisioneiros ainda não foi resolvido, e uma tormenta afunda barcos no Canal da Mancha, e foi preso o assassino da bailarina, que era o seu amante e que levava oito centavos no bolso no momento de sua detenção, e o remédio Himrod é garantido contra a asma, e de repente a mão de Pepe, que acaba de virar a página, fica paralisada, e uma foto golpeia sua cara: uma foto aberta em seis colunas, o caminhão tombado e arrebentado, a imensa foto do caminhão, e ao redor do caminhão um enxame de curiosos vendo o fotógrafo, olhando para Pepe que olha os curiosos, que não os vê: Pepe com os olhos cegos de lágrimas vendo a foto do caminhão onde seu pai morreu esmagado numa trombada espetacular que comove o bairro La Teja, em Montevidéu, ao meio-dia do dia 18 de setembro de 1935.




A morte

Nem dez pessoas iam aos últimos recitais do poeta espanhol Blas de Otero. Mas quando Blas de Otero morreu, muitos milhares de pessoas foram à homenagem fúnebre feita numa arena de touros em Madri. Ele não ficou sabendo.





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Titulo original: El libro de los abrazos Primeira edição em junho 1991. Tradução: Eric Nepomuceno Revisão: Ana Teresa Cirne Lima, Ester Mambrini e Valmir R. Cassol Produção: Jó Saldanha e Lúcia Bohrer ISBN: 85.254.0306-0 G151L Galeano, Eduardo O livro dos abraços / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno. - 9. ed. - Porto Alegre: L&PM, 2002. 270p.:il.;21cm 1. Ficção uruguaia. I.Título. CDD U863 CDU 860(895)-3 Catalogação elaborada por Izabel A. Merlo, CRB 10/329. Texto e projeto gráfico de Eduardo Galeano © Eduardo Galeano, 1989


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Leia também:

32. O Livro dos Abraços - Os adeuses - Eduardo Galeano


1.O Livro dos Abraços - O mundo - Eduardo Galeano