A Divina Comédia
Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes
INFERNO
Canto II (Prosa)
Cai a noite, e Dante expõe a Virgílio suas dúvidas e hesita em começar a
jornada com a qual havia se comprometido. Não se sente à altura
dessa viagem, feita antes por Enéas e pelo apóstolo Paulo. Virgílio, então,
lhe revela o segredo que o fez vir até Dante. Tal jornada foi desejada pelo
Altíssimo. Três mulheres com assento no Paraíso intervieram para ajudar o
poeta florentino: Nossa Senhora, Santa Lúcia e Beatriz. Dante, sentindo-se
mais seguro e moralmente confortado, retoma o caminho.
[1] O dia terminava e a noite escura liberava os animais de seu cansaço e eu me preparava para enfrentar a guerra tanto do caminho quanto do sofrimento, contada pela mente, que não erra. Ó musas, ó supremo engenho, ajudai-me agora; ó mente que escreves isso que vi, mostra aqui tua nobreza.
[1] O dia terminava e a noite escura liberava os animais de seu cansaço e eu me preparava para enfrentar a guerra tanto do caminho quanto do sofrimento, contada pela mente, que não erra. Ó musas, ó supremo engenho, ajudai-me agora; ó mente que escreves isso que vi, mostra aqui tua nobreza.
[10] Então comecei:
– Poeta, meu guia, observa minha virtude, se ela é suficiente, antes que
esse grande passo me confies. Disseste que Enéas, pai de Sílvio, mortal
ainda, andou de corpo e alma no reino imortal. Porém, se o adversário de
todo mal foi benevolente com ele, pensando no valoroso feito que ele
cumpriria ao sair dali, isso me parece digno, ainda mais por ter sido ele a
alma de Roma e do império por escolha dos céus. Roma e império que, para
não desdizer a verdade, foram destinados para ser, uma e outro, a sede do
papado. [28] Ali também andou o Vaso de Eleição¹, para reforçar a fé, que é
princípio de toda salvação. Mas por que eu? Quem me concede essa graça?
Não sou Enéas, tampouco sou Paulo. Ser digno disso, ninguém há de crer.
Então, se a esta viagem me largo, temo que a uma louca ventura me atire.
Sábio que és, decerto entendes melhor isso que não compreendo.
[37] E como aquele que desquer aquilo que quer e diante de novas ideias muda a forma de pensar, a ponto de desfazer tudo que começou, tal eu fiz, naquela praia escura, porque, pensando mais um tanto, renunciei à empresa que antes havia imediatamente iniciado.
– Se entendi bem tuas palavras – respondeu a sombra magnânima –, tua
alma acovardou-se, coisa que muitas vezes imobiliza o homem, o faz recuar
de uma empresa nobre, assim como um animal recua ou refuga diante de
uma mera sombra. Para que desse temor eu te libere, direi por que vim até
aqui e o que ouvi desde a primeira vez que teus lamentos escutei. Eu estava
no Limbo quando uma senhora tão beata quanto bela me chamou, a quem
roguei logo que me desse ordens, tão rápido desejava obedecê-la. Seu olhos
brilhavam mais que as estrelas e começou a dizer-me suave e calmamente,
com voz angélica, estas palavras: “Ó gentil alma mantuana, cuja fama no
mundo ainda dura, e durará enquanto o mundo for mundo, um amigo meu,
mais meu do que da fortuna, em cujas faces o medo se estampa, encontra-se
na inóspita praia impedido de caminhar. Temo que esteja tão perdido que o
socorro agora não lhe sirva mais, segundo o que escutei no céu. Agora anda
e, com tua palavra ornada e com todos os meios de que dispuser, ajuda-o e
assim me sentirei consolada. Sou Beatriz, venho do lugar para onde se
deseja voltar, amor me move e me faz falar. Quando eu estiver à frente do
senhor meu, louvar-te-ei sempre”. Calou-se então, e em seguida comecei:
“Ó senhora, de cuja virtude toda humanidade excede de alegria aqui abaixo
da lua, tua ordem me agrada tanto que te obedecer já, já seria obedecer-te
atrasado; e mais não preciso para que eu cumpra tua vontade. Mas diz-me o
motivo de não te resguardares de vir aqui, ao Inferno, vindo do alto, de onde
ardes por voltar”. Respondeu ela: “Do que queres saber, por que não temo
vir aqui embaixo, lhe direi tudo brevemente. Só se devem temer as coisas
que podem fazer mal aos outros; as outras, não. Pela graça de Deus fui feita,
por isso tua desgraça não me toca, tampouco a chama deste incêndio me
corrompe. Gentilíssima, Nossa Senhora no céu se compadeceu do
impedimento para onde te mando, rompendo a dura lei que lá vigora. Ela
chamou Santa Lúcia
6 e disse: ‘Teu devoto precisa de ti agora, e a ti o
recomendo’. Lúcia, inimiga de todo mal, moveu-se e veio até o lugar onde
eu estava, em que me sento com Raquel, e me disse: ‘Beatriz, beata de
Deus, por que não socorres aquele que tanto te ama, que por isso do vulgo
se destacou? Não ouviste a dor do seu pranto? Não vês a morte perto dele,
torrente contra a qual nem o mar vence?’. Jamais houve pessoa no mundo
que tão rápido se pôs a ir atrás do bem e a fugir do mal como eu depois de
ter ouvido aquelas palavras. Do meu abençoado assento, desci até aqui
fiando-me do teu falar honesto, que te honra e honra também aqueles que te
ouvem”. Depois de ela ter dito isso, seus olhos encheram-se de luz e
lacrimejaram, razão pela qual me fez vir aqui o mais rápido possível. E vim,
como ela me pediu, e tirei a loba da tua frente, loba que te tolhia a subida ao
belo monte. Então, o que se passa? Por que paras? Por que acolhes tanta
vileza no coração? Por que deixas para trás a coragem e a lealdade depois
que essas três senhoras abençoadas cuidaram de ti no reino do céu, e mesmo
diante da minha palavra, que tanto bem te promete?
[127] Tal como as flores de cristal de gelo que, iluminadas pelo sol,
erguem-se e abrem-se todas em torno do seu caule, fiz eu com meu cansaço.
E coragem tão alentadora senti no coração que comecei a falar, muito
francamente:
– Ó piedosa que me socorreu! E tu, gentil poeta, que a ela obedeceste
prontamente mal suas verdadeiras palavras ouviu! Tu recompuseste o desejo
em meu coração ao dirigir-me tuas palavras e por isso retorno ao meu
primeiro propósito. Agora, então, um só desejo é o desejo de ambos: tu és o
guia, senhor e mestre.
[142] Assim lhe disse e, depois que se moveu, adentrei o caminho difícil
e agreste.
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Fora-se o dia; e o ar, se enevoando,
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Canto II (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro
Depois da invocação às Musas, Dante, considerando a sua fraqueza, duvida
de aventurar-se na viagem. Dizendo-lhe, porém, Virgílio, que era Beatriz
quem o mandava, e que havia quem se interessava pela sua salvação,
determina-se segui-lo e entra com o seu guia no difícil caminho.
Aos animais, que vivem sobre a terra,
3. As fadigas tolhia; eu só, velando,
Me aparelhava a sustentar a guerra
Da jornada, assim como da piedade,
6. Que vai pintar memória, que não erra.
Ó Musas! Ó do gênio protestade!
Valei-me! Aqui, ó mente, que guardaste
9. Quanto vi, mostra a egrégia qualidade.
“Poeta”, — assim falei, — “que começaste
A guiar-me, vê bem se em mim persiste
12. Calor que, à empresa que me fias, baste.
“Que o pai do Sílvio fora, referiste,
Corrutível ainda, até o inferno
15. Sem perder o que em corpo humano existe.
“Se do mal assim quis o imigo eterno,
Origem vendo nele do alto efeito,
18. O que e o qual, segundo o que discerno,
“Pela razão bem pode ser aceito;
Que para Roma e o império se fundarem
21. Fora no céu por genitor eleito;
“A qual e ao qual cabia aparelharem,
Dizendo-se a verdade, o lugar santo
24. Aos que do maior Pedro o sólio herdaram.
“Nessa empresa, em que o hás louvado tanto,
“Nessa empresa, em que o hás louvado tanto,
Cousas ouviu, de que surgiu motivo
27. Ao seu triunfo e ao pontifício manto.
“Lá foi o Vaso Eleito ainda vivo:
Conforto ia buscar, à fé, que à estrada
30. Da salvação princípio é decisivo.
“Por que irei? Quem permite esta jornada?
Eneias, Paulo sou? Essa ventura
33. Nem eu, nem outrem crê ser-me adatada.
“Receio, pois, seja ato de loucura,
Se eu me resigno a cometer a empresa.
36. Supre, és sábio, o que digo em frase escura”.
Como quem ora quer, ora despreza,
Sua alma a ideias novas tem disposta,
39. Mostrando aos seus desígnios estranheza,
Assim fiz eu na tenebrosa encosta,
Porque, pensando, abandonava o intento,
42. Formando à pressa, que ora me desgosta,
“Do teu dizer se atinjo o entendimento”
— Do magnânimo a sombra me tornava, —
45. “Eivado estás de ignóbil sentimento,
“Que do homem muita vez faz alma ignava,
Das honrosas ações o desviando,
48. Qual sombra, que o corcel ao medo trava.
“Desse temor livrar-te desejando,
Por que vim te direi e quanto ouvido
51. Hei logo ao ver-te mísero lutando.
“No Limbo era suspenso: eis requerido
Por Dama fui tão bela, tão donosa,
54. Que as ordens suas presto lhe hei pedido.
“Brilhavam mais que a estrela radiosa
Os seus olhos; suave assim dizia
57. De anjo com voz, falando-me piedosa:
— “De Mântua alma cortês, que inda hoje em dia
No mundo gozas fama tão sonora,
60. Que, enquanto existir mundo, mais se amplia,
“Amigo meu, que a sorte desadora,
Pela deserta falda indo, impedido
63. De medo, atrás os passos volta agora.
“Temo que esteja tanto já perdido,
Que tarde eu tenha vindo a socorrê-lo,
66. Pelo que lá no céu dele hei sabido.
“Parte, pois, e com teu discurso belo
E quanto o salvar possa do perigo
69. Lhe acode; e me console o teu desvelo.
“Sou Beatriz, que envia-te ao que digo,
De lugar venho a que voltar desejo:
72. Amor conduz-me e faz-me instar contigo.
“Voltando ao meu Senhor, em todo o ensejo
Repetirei louvor, que hás merecido”. —
75. “Tornei-lhe, quando já calar-se a vejo:
— “Senhora da virtude, a quem tem sido
Dado só que proceda a espécie humana
78. Quanto é no mundo sublunar contido,
“Tanto praz-me a ordem que de ti dimana,
Que, já cumprida, houvera inda demora:
81. Em me abrir teu querer não mais te afana.
“Diz-me, porém, por que razão, Senhora,
Baixar a este centro hás resolvido
84. Do céu, a que ardes por voltar agora”.
— “Se queres tanto ser esclarecido
Eu te direi” — tornou-me — “frase breve
87. Por que sem medo às trevas hei descido.
“Somente as cousas recear se deve
Que a outrem podem ser causa de dano
90. Não das mais: a temor a causa é leve.
“De Deus favor criou-me soberano
Tal, que a vossa miséria não me empece
93. Nem deste incêndio assalta o fogo insano.
“Nobre Dama há no céu, que compadece
O mal, a que te envio; e tanto implora,
96. Que lá decreto austero se enternece.
— Volvendo-se a Luzia, assim a exora:
— Volvendo-se a Luzia, assim a exora:
“O teu servo fiel tanto periga,
99. Que teu amparo o recomendo agora”. —
“Luzia, sempre do que é mau imiga
Ergue-se e ao lugar foi, em que eu sentada
102. Ao lado estava de Raquel antiga.
“De Deus vero louvor!” — diz-me apressada—
“Por que não socorrer quem te amou tanto,
105. Que só por ti deixou do vulgo a estrada?
“Não lhe ouves, Beatriz, o amargo pranto?
Não vês que junto ao rio é combatido,
108. Que ao mar não corre, por mortal espanto?” —
“Os danos, tão veloz, não tem fugido
Ninguém, nem procurado o que deseja,
111. Como eu, em tendo vozes tais ouvido;
“O trono meu deixei, por que te veja,
Fiada em teus discursos eloquentes,
114. Honra tua e de quem te ouvindo esteja”. —
“Assim falava e os olhos refulgentes
Com lágrimas a mim ela volvia,
117. Para apressar-me a vir assaz potentes.
“A ti vim, pois, como ela requeria;
Da fera te livrei, que da colina
120. Tão perto já, teus passos impedia.
“Que fazes, pois? Por que, por que domina
Tanta fraqueza o peito espavorido?
123. Por que ao valor tua alma não se inclina,
“Quando és pelas três santas protegido,
Que na corte do céu por ti se esmeram,
126. E gozar tanto bem lhe é prometido?”
Quais flores, que, fechadas, se abateram
Da noite ao frio, e, quando o sol aquece,
129. Erguem-se abertas na hástea, tais como eram,
Tal meu valor renova e fortalece.
Tanto ardimento o coração me aviva,
132. Que exclamei, como quem jamais temesse:
“Ó Dama em socorrer-me compassiva!
E tu, que a voz lhe ouvindo, obedeceste,
135. Cortês ao rogo e com vontade ativa,
“Por teu dizer no peito me acendeste
Desejo tal de vir, que sou tornado
138. Ao propósito, a que antes me trouxeste.
“Vai, pois nosso querer ‘stá combinado.
Serás meu guia, meu senhor, meu mestre!”
Disse-lhe assim. Moveu-se ele; ao seu lado
142. Pelo caminho entrei alto e silvestre.
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— 13. O pai de Sílvio, Eneias.
— 28. O Vaso, São Paulo que nos Atos dos
Apóstolos é chamado o Vaso de eleição.
— 76. Senhora da virtude, Beatriz
simboliza a teologia.
— 94. Nobre Dama, Maria, mãe de Jesus, símbolo da
misericórdia divina.
— 97. Luzia, mártir e santa, símbolo da graça
iluminante.
— 102. Raquel, filha de Labão e mulher do patriarca Jacó,
simboliza a vida contemplativa.
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