terça-feira, 29 de setembro de 2026

Dante: A Divina Comédia - Canto III

Dante Alighieri

A Divina Comédia

Tradução do italiano, apresentação e notas de Eugênio Vinci de Moraes

INFERNO

Canto III (Prosa)

Os poetas atravessam a porta do Inferno, no alto da qual lê-se a sentença que revela aos ingressantes a realidade da pena eterna e da justiça divina. No vestíbulo do Inferno, veem-se os pusilânimes ou indolentes. Virgílio diz a Dante que os condenados desse lugar não merecem nem a honra nem a infâmia. Dante os vê perseguirem uma bandeira que nunca para e serem atacados por vespas e moscas. Ele reconhece um entre eles, aquele que cometeu a “grande renúncia”. Virgílio e Dante chegam, então, à margem de um dos rios do Inferno, o Aqueronte. Ali fica o barqueiro Caronte, que transporta as almas para a outra margem. Dante vê as almas embarcarem na barca do Inferno e ouve Virgílio explicar a Caronte a presença dele ali, uma alma viva. De repente um terremoto sacode a terra, seguido de um poderoso relâmpago. Dante perde os sentidos e, misteriosamente, atravessa o rio infernal.

     [1] Por mim se vai pela cidade dolente 
          Por mim se vai à eterna dor 
          Por mim se vai entre as perdidas gentes 
          A Justiça move-me maiormente 
          A divina potestade me fez, e 
          O sumo saber e o primeiro amor também 
          Diante de mim as coisas não foram criadas 
          Pois são eternas, e eterna, duro 
          Deixai toda esperança vós que entrais.
     [10] Estas palavras eu as vi escritas em tinta escuríssima no alto de uma porta, o que me levou a dizer:

– Mestre, o sentido dessas palavras me angustia.

     E ele me respondeu, lucidamente:

– Aqui convém perder todo o medo, toda covardia deve morrer aqui. Estamos no sítio de que lhe falei, onde tu verás as almas punidas que perderam a noção da verdade.

     E depois que, com expressão tranquila, tocou sua mão na minha, senti me confortado e adentrei o mundo carregado de mistérios.
     [22] Ali suspiros, prantos e outros gemidos ressoavam pelo ar onde o brilho das estrelas não chega, o que me fez chorar. Línguas diferentes, falas grotescas, palavras de dor, rasgos de ira, gritos e vozes roucas, além do som de palmas percutindo o próprio corpo, produziam um tumulto incessante naquela atmosfera fosca como a de uma tempestade de areia. Minha cabeça enchia-se de dúvidas, por isso perguntei:

– Mestre, o que é isso que estou ouvindo? E que gentes são estas cuja dor parece abatê-las?

     Ele respondeu:

– Esta triste condição é daqueles cujas tristes almas vivem sem infâmia ou honra. No meio delas está o coro de anjos que nem se rebelaram nem foram fiéis a Deus, que só foram fiéis a si mesmos. Os céus os expulsaram para não se diminuírem com sua presença, nem o profundo Inferno os recebe, como recebe os anjos rebeldes que alguma glória ao menos tiveram.

     E eu:

– Mestre, e o que é tão penoso a ponto de fazê-los lamentar de modo tão forte?

     Respondeu:

– Dir-te-ei rapidamente. Eles nem têm esperança de morrer. Tão obscura e mesquinha foi sua vida que invejam qualquer outro destino diferente do deles. O mundo os ignora e são desdenhados pela misericórdia e pela justiça divinas. Não falemos deles, mas olha e passa.

     [52] E eu, olhando, vi uma bandeira que dava voltas tão rapidamente que mal se firmava, atrás da qual ia uma longa fila de almas, tão longa como jamais acreditaria ver um dia. Tanta gente como jamais suporia ser a morte capaz de levar. Depois disso reconheci uma sombra entre a multidão, sombra daquele que, por covardia, perpetrou a grande renúncia.¹ 

[1] Possível referência ao papa Celestino V, que abdicou ao cetro papal em 1294, cinco meses depois de eleito.

     [61] Subitamente compreendi e tive certeza de que aquele era o bando dos condenados que desagradaram a Deus e aos inimigos dele. Esses desgraçados, que vivos de fato jamais foram, andavam nus e eram picados por moscas e vespas que havia ali. Do rosto deles irrigava sangue, que, misturado às lágrimas, escorria até seus pés, onde era recolhido por vermes nojentos. Depois, olhei mais além e vi uma multidão à margem de um grande rio. Por essa razão, pedi:

– Mestre, permita-me que eu saiba quem são aqueles e por que motivo parecem tão ansiosos para atravessar o rio, como enxergo daqui sob um fiozinho de luz.

     E ele a mim:

– Sobre isso tu entenderás melhor quando tocarmos os pés na triste margem do Aqueronte.

     Então, com os olhos envergonhados e voltados para baixo, temendo que minha pergunta o aborrecesse, parei de falar até chegar ao rio.
     [82] Lá, vem em nossa direção, num barco, um velho de barba e cabelos brancos gritando:

– Miseráveis de vós, almas depravadas! Perdei a esperança de voltar a ver o céu, eu venho para vos levar até a outra margem, ao sítio das trevas eternas, ao calor e ao gelo. E tu, alma viva, sai do meio dos mortos. – Mas depois de perceber que eu não me movia, disse: – Por outro caminho, por outros portos verás a praia, não por aqui, para isso outro barco mais leve te levará.

     E o guia disse a ele:

– Calma, Caronte, pois quem isso quis é aquele que está lá onde se pode tudo o que se quer, e cessa de indagar.

     Aquietaram-se então as faces peludas do barqueiro do pântano turvo, que tinha círculos de fogo em volta dos olhos.
     [100] Mas aquelas almas que estavam cansadas e nuas mudaram a cor e passaram a tiritar os dentes logo que entenderam as cruas palavras que trocávamos. Blasfemavam contra Deus e seus pais, contra a espécie humana, o lugar, o tempo e o sêmen dos seus antepassados e o seu nascimento. Depois recuaram e juntaram-se chorando muito próximas à malvada margem que espera todo aquele que não é temente a Deus. O demônio Caronte, de olhos de brasa, acena a eles e recolhe a todos, batendo com os remos naqueles que se demoram. Como no outono, quando as folhas são levadas umas após as outras até os galhos verem a terra tomada de suas vestes, igualmente os pobres descendentes de Adão precipitam-se um a um daquela margem igual aos pássaros que atendem ao aceno de seu adestrador. Assim eles vão sobre a onda negra, e, depois de deixarem a margem, uma nova fileira de almas nessa mesma praia se ajunta.
     [121] – Meu filho – disse o mestre amavelmente –, aqueles que morrem sob a ira de Deus aqui vêm de todos os lugares e prontos estão para atravessar o rio, e tanto a justiça divina os estimula que o temor deles se transforma em desejo. Aqui, então, não passam almas vivas, por isso Caronte se irrita, e é isso que o fez dizer o que ouviste da boca dele.
     Terminada a travessia, a negra região tremeu tão forte que o susto ainda me faz a testa empapar-se de suor. Deu-se então na terra lacrimosa uma forte ventania, com relâmpagos avermelhados, o que me fez perder os sentidos.
     [136] E caí como cai alguém morto de sono.

continua na página....35


Canto III (Poesia)
Tradução Xavier Pinheiro

Chegam os Poetas à porta do Inferno, na qual estão escritas terríveis palavras. Entram e no vestíbulo encontram as almas dos ignavos, que não foram fiéis a Deus nem rebeldes. Seguindo o caminho, chegam ao Aqueronte, onde está o barqueiro infernal, Caron, que passa as almas dos danados à outra margem, para o suplício. Treme a terra, lampeja uma luz e Dante cai sem sentidos.

     “Por mim se vai das dores à morada,
“Por mim se vai ao padecer eterno,
3        “Por mim se vai à gente condenada. 
     “Moveu Justiça o Autor meu sempiterno, 
“Formado fui por divinal possança,
6        “Sabedoria suma e amor supremo. 
     “No existir, ser nenhum a mim se avança, 
“Não sendo eterno, e eu eternal perduro: 
9        Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!” 
     Estas palavras, em letreiro escuro, 
Eu vi, por cima de uma porta escrito. 
12      “Seu sentido” — disse eu — “Mestre me é duro”. 
     Tornou Virgílio, no lugar perito: 
— “Aqui deixar convém toda suspeita; 
15      Todo ignóbil sentir seja proscrito. 
     “Eis a estância, que eu disse, às dores feita, 
Onde hás de ver atormentada gente, 
18      Que da razão à perda está sujeita”. 
     Pela mão me travando diligente, 
Com ledo gesto e coração me erguia, 
21      E aos mistérios guiou-me incontinenti. 
     Por esse ar sem estrelas irrompia 
Soar de pranto, de ais, de altos gemidos:
24      Também meu pranto, de os ouvir, corria. 
     Línguas várias, discursos insofridos, 
Lamentos, vozes roucas, de ira os brados, 
27      Rumor de mãos, de punhos estorcidos, 
     Nesses ares, pra sempre enevoados, 
Retumbavam girando e semelhando 
30      Areais por tufão atormentados. 
     A mente aquele horror me perturbando, 
Disse a Virgílio: — “Ó Mestre, que ouço agora? 
33      “Quem são esses, que a dor está prostrando?” — 
     “Deste mísero modo” — tornou — “chora 
Quem viveu sem jamais ter merecido 
36      Nem louvor, nem censura infamadora. 
     “De anjos mesquinhos coro é-lhes unido, 
Que rebeldes a Deus não se mostraram, 
39      Nem fiéis, por si sós havendo sido”, 
     “Desdouro aos céus, os céus os desterraram; 
Nem o profundo inferno os recebera, 
42      De os ter consigo os maus se gloriaram”. 
     — “Que dor tão viva deles se apodera, 
Que aos carpidos motivo dá tão forte?” — 
45      “Serei breve em dizer-to” — me assevera. — 
     “Não lhes é dado nunca esperar morte; 
É tão vil seu viver nessa desgraça, 
48      Que invejam de outros toda e qualquer sorte. 
     “No mundo o nome seu não deixou traça; 
A Clemência, a Justiça os desdenharam. 
51      Mais deles não falemos: olha e passa”. 
     Bandeira então meus olhos divisaram, 
Que, a tremular, tão rápida corria, 
54      Que avessa a toda pausa a imaginaram. 
     E após, tão basta multidão seguia, 
Que, destruído houvesse tanta gente 
57      A morte, acreditado eu não teria. 
     Alguns já distinguira: eis, de repente, 
Olhando, a sombra conheci daquele
60      Que a grã renúncia fez ignobilmente. 
     Soube logo, o que ao certo me revele, 
Que era a seita das almas aviltadas, 
63      Que os maus odeiam e que Deus repele. 
     Nunca tiveram vida as desgraçadas; 
Sempre, nuas, estando, as torturavam 
66      De vespas e tavões as ferroadas. 
     Os rostos seus as lágrimas regavam, 
Misturadas de sangue: aos pés caindo, 
69      A imundos vermes o repasto davam. 
     De um largo rio à margem dirigindo 
A vista, de almas divisei cardume. — 
72      “Mestre, declara, aos rogos me anuindo, 
     “Que turba é essa” — eu disse — “e qual costume 
Tanto a passar a torna pressurosa, 
75      Se bem discirno ao duvidoso lume?” 
     Tornou-me: — “Explicação minuciosa 
Darei, quando tivermos atingido 
78      Do Aqueronte a ribeira temerosa”. 
     Então, baixos os olhos e corrido 
Fui, de importuno a culpa receando, 
81      Té o rio, em silêncio recolhido. 
     Eis vejo a nós em barca se acercando, 
De cãs coberto um velho — “Ó condenados, 
84      Ai de vós! — alta grita levantando. 
     “O céu nunca vereis, desesperados: 
Por mim à treva eterna, na outra riva, 
87      Sereis ao fogo, ao gelo transportados. 
     “E tu que estás aqui, ó alma viva, 
De entre estes que são mortos, já te ausenta!” 
90      Como não lhe obedeço à voz esquiva, 
     “Por outra via irás” — ele acrescenta — 
“Ao porto, onde acharás fácil transporte; 
93      Lá passarás em barca menos lenta”. 
     “Não te agastes, Caronte! Desta sorte 
Se quer lá onde” — disse-lhe o meu Guia —
96      “Quem pode ordena. E nada mais te importe”. 
     Sereno, ouvido, o gesto se fazia 
Da lívida lagoa ao nauta idoso, 
99      Que em círculos de fogo olhos volvia. 
     Às desnudadas almas doloroso 
O gesto descorou; dentes rangeram 
102    Logo em lhe ouvindo o vozear raivoso. 
     Blasfemaram de Deus e maldisseram 
A espécie humana, a pátria, o tempo, a origem 
105    Da origem sua, os pais de quem nasceram. 
     Todas no pranto acerbo, em que se afligem, 
Se acolhem juntas ao lugar tremendo, 
108    Dos maus destinos, que se não corrigem. 
     Caronte, os ígneos olhos revolvendo, 
Lhes acenava e a todos recebia: 
111    Remo em punho, as tardias vai batendo. 
     Como no outono a rama principia 
As flores a perder té ser despida, 
114    Dando à terra o que à terra pertencia, 
     Assim de Adão a prole pervertida, 
Da praia um após outro se enviavam, 
117    Qual ave dos reclamos atraída. 
     Sobre as túrbidas águas navegavam; 
E pojado não tinham no outro lado, 
120    Mais turbas já no oposto se apinhavam. 
     “Aqui meu filho” — disse o Mestre amado — 
“concorrem quantos há colhido a morte, 
123    De toda a terra, tendo a Deus irado. 
     “O rio prontos buscam desta sorte, 
De Deus tanto a justiça os punge e excita, 
126    Tornando-se o temor anelo forte! 
     “Alma inocente aqui jamais transita, 
E, se Caronte contra ti se assanha,
129    Patente a causa está, que tanto o irrita”. 
     Assim falava; a lúrida campanha 
Tremeu e foi tão forte o movimento, 
132    Que do medo o suor ainda me banha. 
     Da terra lacrimosa rompeu vento, 
Que um clarão respirou avermelhado; 
Tolhido então de todo o sentimento, 
136    Caí, qual homem que é do sono entrado.

continua na página... 41
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— 37. De anjos etc., que não tomaram posição na luta entre os fiéis e os rebeldes a Deus. 
— 59-60. Daquele etc., Celestino V que renunciou ao papado, tendo por sucessor Bonifácio VIII, inimigo de Dante e do seu partido. 
— 136. Caí etc. Dante perdendo os sentidos, atravessa o Aqueronte, sem saber de que modo.  
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