Cruz e Sousa
Obra Completa
Volume 1
POESIA
O Livro Derradeiro
Primeiros Escritos
Cambiantes
Outros Sonetos Campesinas
Dispersas
Julieta dos Santos
DISPERSAS
SAPO HUMANO
(A Emiliano Perneta)
Oh sapo! eu vou cantar tuas misérias, sapo,
Vou tirar, nesse lodo onde habitas de rastros,
Umas vivas canções do teu nojento papo,
Da crosta esverdeada umas centelhas de astros.
E canções de tal forma e tais e tais centelhas,
Que todas possam ir, miraculosamente,
Transformadas, pelo ar, em rútilas abelhas
Com o íris voador de cada asa fulgente.
Que tu, tredo animal, tu, triste sapo hediondo,
Não és o vil, o torpe, o irracional, que a lama
Em camadas envolve o atro ventre redondo,
Dos tempos imortais nessa fecunda chama.
Não és o sapo histrião de imundas esterqueiras,
O sombrio Caim nos lamaçais errantes,
O clown gargalhador das charnecas rasteiras,
Que ri-se para o sol com riso ironizante.
Não és o sapo atroz, coaxador, visguento,
Que rouco ruge e raiva à noite os seus horrores,
E para o constelado e mudo firmamento
Faz ecoar os mais surdos e ásperos tambores.
Mas és o sapo humano, esse asqueroso e feio,
Nascido de roldão na lúgubre miséria
E que do mundo vão no pavoroso seio
Lembra o negro sarcasmo enorme da Matéria.
Mas és o sapo humano, o sapo mais abjeto
Do crime aterrador, do tenebroso vício,
Mas que ainda possuis o brilho de um afeto
Que te livra, talvez, do eterno precipício.
Por ora na tua alma a noite cruel, cerrada,
Por ora na tua alma a noite cruel, cerrada,
Não caiu de uma vez, como terrível fora;
Nela ainda há clarões de límpida alvorada,
Um prenúncio feliz de aurora redentora.
Ainda tens coração que pulsa no teu peito
Por uns filhos gentis, ingênuos, pequeninos,
Que são o grande amor, o sentimento eleito
Vencendo esses fatais instintos assassinos.
Tu semelhas de um charco a superfície nua
E vítrea, que no campo, aos ares, adormece,
Que se em cheio lhe bate a luz do sol, da lua,
Para a vasta amplidão cintila e resplandece.
Pois no teu organismo, assim sinistro e torvo,
Repleto de vibriões do vício – essas crianças,
Sorriem virginais, oh! solitário corvo,
Com sorrisos de luzes e barcarolas mansas.
O amor que regenera os ínfimos bandidos,
Não reduziu, enfim, tu’alma a ignóbil trapo.
E eis por que, num viver de pântano e gemidos,
Cantam dentro de ti aves e estrelas, sapo!
DIANTE DO MAR
DIANTE DO MAR
Para matar o letargo
Da vida, e o profundo tédio,
Fui, em busca de remédio,
Ao cais arejado e largo.
E vi o mar formidando,
Cheio de mastros e velas,
Ocultos clarins vibrando
Pela boca das procelas.
Vi tropéis e tropéis bruscos
De ondas revoltas e crespas
Com rijos ferrões de vespas
Ferreteando os ares fuscos.
Vi os límpidos navios
Jogados do mar incerto
Como seres erradios
Por inóspito deserto.
Vi tudo nublado, tudo,
Céus e mares e horizontes;
E sobre a linha dos montes
Cair o silêncio mudo.
E eu lembrei-me quando a aurora
Sobre aquelas esverdeadas
Águas jorrava sonora
A luz em puras golfadas.
Lembrei-me desses supremos
Dias acres de alegria
Na vaga loura e macia
As leves palmas dos remos.
Do resplendor das viagens
Do resplendor das viagens
Num encanto matutino,
À doçura das aragens,
Por sobre o mar cristalino.
A bicar às doces ilhas
De pedra, musgos e flores,
Cheias de ervas e frescores
E naturais maravilhas.
Que ela a tudo perfumasse
Como um rosal que floresce
Que tudo que nela houvesse
Resplandecesse e cantasse.
Ou ver na frente das casas,
Dos vales e das colinas
Os pombos batendo as asas,
Entre festões de boninas.
Ir à pesca alegre e fresca,
Por suavíssimos luares,
Numa lua pitoresca,
Em cima dos salsos mares.
Quando flexível canoa
Vai deixando um vivo rastro,
Fundo, aberto, feito de astro,
Na vaga que brilha e soa.
Quando na margem campestre
De rios indefinidos
Sente-se o aroma silvestre
Dos aloendros floridos.
Lembrei-me até das regatas
Numa hora deliciosa
De manhã cheirando a rosa,
Toda de fúlgidas pratas.
D’embarcar, como um fidalgo,
D’embarcar, como um fidalgo,
Para aventuras de caça,
Em companhia do galgo
Que é das caçadas a graça.
Ir d’espingarda e d’estilo,
Por madrugadas serenas,
Sem males, sem dor, sem penas,
Peito bizarro e tranquilo.
Bater as aves no mato
Por entre arvoredos graves,
Ou da beira de um regato
Ver saltar em bando as aves.
E da ventura nos jorros
Voltar da caça repleto
Vendo ao longe o rubro teto
Da casa e o verde dos morros.
Ou então ir como um duque
Nas praias de mais beleza
Gozar na choça de estuque
Uns olhos de camponesa.
Sentir do equóreo elemento,
Sobre as serras verdejantes,
Ruflantes e sussurrantes
As ventarolas do vento.
Deixar o espírito, avaro
De vida, saúde e força,
Disparar – alada corça –
Pelo azul radioso, claro.
Assim, talvez que o Nirvana
Do tédio e letargo imenso
Não fosse uma dor humana,
Dentre um nevoeiro tão denso.
BRUMOSA
Inglesa! Por toda a parte
BRUMOSA
Inglesa! Por toda a parte
Onde vás, chamam-te inglesa
E cobrem de pompas de arte
A pompa dessa beleza.
Mas tu, num soberbo encanto
De nevada e fria rosa,
Ó meu pálido amaranto!
Não és inglesa, és brumosa.
A tua carne alvorece
Em lactescências de opala,
Brilha, fulge e resplandece
E um fino aroma trescala.
És a límpida camélia
Nos jardins reais plantada
Ou essa lânguida Ofélia
Melancólica e nevada.
O teu corpo imaculado,
Flor de místicas origens,
Parece um luar velado
E lembra florestas virgens.
Com o teu amor ilumina
A minh’alma envolta em crepe,
Ó vaporosa neblina,
Ó branca e gelada estepe!
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Leia também:
Cruz e Sousa - Poesias Completas: Dispersas LXXXIV - Sapo humano
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De fato, a inteligência, criatividade e ousadia de Cruz e Sousa eram tão vigorosos que, mesmo vítima do preconceito racial e da sempiterna dificuldade em aceitar o novo, ainda assim o desterrense, filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa, “Cisne Negro” para uns, “Dante Negro” para outros, soube superar todos os obstáculos que o destino lhe reservou, tornando-se o maior poeta simbolista brasileiro, um dos três grandes do mundo, no mesmo pódio onde figuram Stephan Mallarmé e Stefan George. A sociedade recém-liberta da escravidão não conseguia assimilar um negro erudito, multilíngue e, se não bastasse, com manias de dândi. Nem mesmo a chamada intelligentzia estava preparada para sua modernidade e desapego aos cânones da época. Sua postura independente e corajosa era vista como orgulhosa e arrogante. Por ser negro e por ser poeta foi um maldito entre malditos, um Baudelaire ao quadrado. Depois de morrer como indigente, num lugarejo chamado Estação do Sítio, em Barbacena (para onde fora, às pressas, tentar curar-se de tuberculose), seu corpo foi levado para o Rio de Janeiro graças à intervenção do abolicionista José do Patrocínio, que cuidou para que tivesse um enterro cristão, no cemitério São João Batista.
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Organização e Estudo
Lauro Junkes
Presidente da Academia Catarinense de Letras
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Projeto Gráfico, Editoração e Capa
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Revisão Linguístico-Ortográfica
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PROF. Dr. LAURO JUNKES
Impressão e Acabamento
Avenida Gráfica e Editora Ltda.
Formato
14 x 21cm
FICHA CATALOGRÁFICA
Catalogação na fonte por M. Margarete Elbert - CRB14/167
S725o Sousa, Cruz e, 1861-1898
Obra completa : poesia / João da Cruz e Sousa ; organização
e estudo por Lauro Junkes. – Jaraguá do Sul : Avenida ; 2008.
v. 1 (612 p.)
Edição comemorativa dos 110 anos de falecimento e do
traslado dos restos mortais de Cruz e Sousa para Santa Catarina.
1. Sousa, Cruz e, 1861-1898. 2. Poesia catarinense. I.
Junkes, Lauro. II. Titulo.
CDU: 869.0(816.4)-1
"A gente só tem saída na poesia."
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