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domingo, 14 de março de 2021

Contos Africanos : Luandino Vieira - Luaanda e os casos...

Luaanda... Vavó Xíxi e Seu Neto Zeca Santos
Luaanda... Estória do Ladrão e do Papagaio
Luaanda... Estória da Galinha e do Ovo




Luandino Vieira



BIBLIOGRAFIA DE 
José Luandino Vieira




Para Amorim e sua ngoma:
sonoros corações da nossa terra.



.

Minha estória.

Se é bonita, se é feia, vocês é que sabem. Eu só juro não falei mentira e estes casos passaram nesta nossa terra de Luanda.

Luanda, 1963/Lisboa, 1972




BIBLIOGRAFIA DE José Luandino Vieira


A Cidade e a Infância

Contos

l.a ed. — Lisboa, Casa dos Estudantes do Império, 1960.
2.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977.

— Tradução russa por Helena Riausova: Gorod i Dietsvo. Moscou, Ed. Naúka, 1970.


A Vida Verdadeira de Domingos Xavier

Romance

Escrito em 1961.

l.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974.
2.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1975.
3.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977.
4.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1977.
5.a ed. (edição especial em comemoração ao 1.° Congresso do MPLA) — Luanda, U.E.A., 1977.
6.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1977.

— Anteriormente à l.a edição circularam algumas edições copiografadas não revistas pelo Autor.

— Edição brasileira: São Paulo, Editora Ática, 1979.

— Tradução francesa por Mário Pinto de Andrade e Chan-tel Tiberghien: La Vraie Vie de Domingos Xavier. Paris, Présence Africaine, 1971.

— Tradução russa por L. V. Nekrassov: Istinnaia Jisni Dominguxa Xaviera. Moscou, Ed. Naúka, 1973.

— Tradução alemã por Kristina Hering: Das wahre Leben des Domingos Xavier. Berlim (R.D.A.), Volk und We!t, 1974.

— Tradução sueca por Elisabeth Hedborgr Domingos Xavier. Staffanstorp, Bo Cavefors, 1976.

— Tradução norueguesa por Leif Sletsjoe: Domingos Xaviera egentlige Liv. Oslo, Tiden Norsk Forlag, 1976.

— Tradução inglesa por Michael Wolfers: The Real Life of Domingos Xavier. Londres, Heinemann, 1978.

— Tradução espanhola por A. Benítez Rojo: La verdadera vida de Domingos Xavier. Cuba, Editorial Arte e Literatura, s. d.

— Em preparação: tradução alemã para Peter Hammer Verlag, Wuppertal (R.F.A.)

— Com base neste livro, foi realizado o filme Sambizanga, dirigido por Sarah Maldoror.


Luuanda

Estórias

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da

P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 3963.

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964.
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares).
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974.
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974.
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976.
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977.
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil,

— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964.

— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965.

— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou, 1968.


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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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a mesma lei, a mesma língua (obviamente do colonizador, um drama linguístico, né? escrever na língua do colonizador)




Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 3963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


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 Luaanda... Estória do Ladrão e do Papagaio





Luandino Vieira



acabando...


A sorte foi quando o Garrido chegou na esquadra, o Lomelino não estava lá na prisão, tinha saído na visita, senão ia passar luta. Mas assim, quem lhe recebeu foi mesmo o Xico Futa, o amigo de Dosreis conheceu-lhe logo que ele entrou, envergonhado, arrastando a perna devagar para disfarçar dos olhos de todos.

Porque polícia é assim: chegaram na casa da madrinha dele, nem que pediram licença nem nada, entraram e perguntaram um rapaz mulato, coxo, Garrido Fernandes, e quando ele adiantou sair no quarto, a cara cheia de sono, os olhos azuis a piscar com medo da luz da tarde, falaram logo sabiam ele tinha ido com Dosreis, um verdiano∗, assaltar o quintal de Ramalho da Silva e roubado um saco de patos, o Lomelino é que tinha falado tudo, não adiantava negar, melhor veste a camisa e vamos embora.

Mas Garrido lutou: com a ajuda da madrinha falou, pediu, adiantou mostrar todos os sítios da cubata para verem nada ali que era roubado; e ela jurava, nessa noite o menino tinha dormido cedo, chegara até parecia doente com febre, ela mesmo viu-lhe ir no quarto, deitar, sentiu até a tosse e tudo, como é que tinha ido num roubo de patos?
— Juro, sô chefe! Eu mesmo ainda lhe perguntei: Gagá, você precisa qualquer coisa, e ele me respondeu: não ‘brigado, só que estava chateado com a vida. Verdade mesmo! É que emprego bom não está encontrar, não lhe aceitam, com a perna...

Mas nada, polícia não se convence com as palavras: agarraram já o Garrido nas calças para não tentar se esquivar no quintal e disseram tá-andar. Que tinham uma queixa, o outro é que falou e agora era preciso mesmo lhe levarem para saber a verdade. Nessa hora Garrido ainda estragou mais. Com a mania de se salvar, contou tudo dos casos do roubo do papagaio, saiu embora no quarto, trouxe o cesto onde estava o bicho fechado esperando a hora o mulato ia lhe torcer o pescoço, deitar na lixeira.

— Ah, sim!? Seu rosqueiro! Vamos embora!

E adiantaram, ali mesmo na cara da madrinha, por-lhe uma chapada no pescoço para lhe empurrar no jipe, nem que ligaram mais nas palavras de defesa do Garrido:

— Juro, sô chefe! Por acaso a dona viu, ela mesmo disse para eu levar. É minha brincadeira só!...

Qual: coração de polícia é de pedra e lhe trouxeram mesmo, até contentes porque se a queixa era um falso, já tinham um caso para justificar.

Foi assim que o Garrido contou no Xico Futa, o homem tinha-lhe dado encontro logo-logo na hora que o mulato sentou no chão, desanimado, com a vontade de chorar, de pelejar com o Dosreis, uma coisa assim ele não queria aceitar o outro ia poder fazer, pôr um falso. Ainda se era verdade, aceitava; mas assim doía. E desatou lhe insultar logo. Xico Futa quis falar era amigo do Lome-lino e que sabia os casos; o Garrido não queria lhe responder, mandou-lhe embora, deixassem-lhe sozinho com a raiva dele e esse cap’verde quando ia voltar ia ver só se podia-se fazer pouco a pessoas assim. Mas Xico Futa não desistia nunca quando queria ajudar uma pessoa e esse miúdo do Garrido fazia-lhe pena.

— Oiça então! Com a raiva não resolve. Se você lhe ataca quando ele vem, não adianta. Primeiro: o Lomelino aguenta, pode pelejar. Depois: o cipaio põe-te uma carga de porrada de chicotes. E a razão, qual é?

— Me deixa ‘mbora! Eu é que sei a minha vida! Luto, juro que luto! Um fidamãe daqueles falar eu roubei os patos?

— Oiça então! Um engano pode ser, sucede. Só você é que sabia o assunto ia se passar. Pensa isso, Garrido. O Dosreis ficou com a raiva, julgou você é que tinha lhe queixado porque te deixaram...

Kam’tuta queria se levantar, os olhos azuis a brilhar, maus.

— É isso mesmo! É isso eu não admito. Não é mais o falso, não senhor. Agora, uma pessoa me conhece de monandengue, pode pensar isso de mim? Pode? Diz então? Pode?

Bem, Xico Futa tinha de concordar era verdade, o Garrido estava com a razão dele: mas também quando prenderam no Lomelino era de noite, chegou passou logo maca com o Zuzé, era preciso ver bem os casos, não pensar só assim o interesse dele. E até que não ia suceder nada porque Dosreis já tinha lhe falado ia dizer na justiça que as queixas que estava a pôr no Garrido eram um falso, tudo ficava bem outra vez, passa dois-três dias aqui, mandam-lhe embora.

— Anh!... Cadavez pode ter razão, por acaso, nesses casos. Mas não esquece o papagaio! E isso mesmo é o pior, sô Futa. O pior de tudo! Não é porque roubei o bicho, não. Por acaso não me interessa se fico semana, se fico mês, na cadeia. Mas não lhe matei! E eu roubei-lhe para torcer no pescoço daquele sacana!

Calou, ficou pensar sozinho. Xico Futa acendeu um cigarro, deu para ele, mas Garrido não quis aceitar, só pensava era isso, se calhar, nessa hora, a Inácia já tinha ido na madrinha para receber o papagaio, ia vir na polícia para adiantar pôr queixa, lhe darem embora o bicho. Quando ia sair tudo estava na mesma: o Jacó no pau para lhe xingar, fazer pouco; a Inácia a pôr beijo, a dar confiança num bicho maleducado; e, pior mesmo, o Lo-melino e o João Miguel não iam lhe aceitar mais no grupo. Mas a culpa era mais do Loló, quem mandou-lhe pôr falso que ele tinha ido no capiango dos patos?

— Juro! Luto com ele! Deixa só, quando ele vai voltar!

A tarde estava na janela só com um bocado de luz de sol de cacimbo. Nas tarimbas e no chão, preso era muito; uns dormiam de olho fechado, para descansar; outros de olho aberto, a pensar à toa. Nos cantos, alguns reunidos falavam em voz baixa, trocando casos, a vida de todos os dias. Xico Futa estendeu as compridas pernas pelo chão, acendeu outro cigarro, insistiu para Garrido. Desta vez o mulato aceitou, começou fumar. No lado dele, Futa desatou a rir, primeiro devagar, sacudido, a querer não deixar sair; depois, uma grande e branca gargalhada até as lágrimas chegarem nos olhos dele, o fumo do cigarro ajudava.

— ‘tá rir de quê, então?

— Nada... nada...

Mentira dele. Ria porque estava ver a figura assim do Garrido Kam’tuta perdido no meio do cacimbo e da noite escura, avançando corajoso só para roubar um papagaio. Mirou-lhe bem na cara dele magra e sem barba, sentiu uma grande pena. Falou:

— Possa, mano Garrido! Você não teve mais medo de ir assim sozinho, para tirar o papagaio? Se é uma coisa que vale, a gente arrisca. Agora um bicho que não presta para nada...

A voz de Chico Futa era boa como de Lomelino quando queria ser seu pai, ou João Miguel lhe falava de igual os casos da vida e punha perguntas para o Garrido dizer as ideias certas dele. Riu no Xico e ficou um bocado vaidoso daquele gabanço posto assim por um homem forte. Verdade que nem tinha pensado naquela hora que decidiu, era só a raiva do papagaio que lhe fazia andar.

— Deixa! Eu penso eu fui só porque conhecia-lhe bem, na casa e no quintal...

Diminuía de propósito, para ouvir o outro continuar gabar-lhe a coragem. O melhor era ainda se Dosreis e João ouvissem-lhe para não continuarem a mania de não lhe levar nos serviços, deitar-lhe fora, parecia era lixo. Mas Xico Futa estava já voltar noutros casos:

— Oiça então. Já passou a raiva no Lomelino?

Garrido queria mesmo dizer não, esperava-lhe para lutar, mas a boca não aceitava, se falasse era pôr mentira. Xico Futa tinha estragado tudo dentro dele com as palavras, o cigarro e a amizade, e só resmungar é que conseguiu:

— Oh! Me deixa ‘mbora!

— Não é, Garrido. Oiça! É que o Lomelino vai vir já, está só ali na visita... e eu não quero vocês vão-se insultar. Prometes?

— Não, possa! Não posso...

Era mentira dele e viu-se logo. Na hora que o Zuzé abriu a porta para meter o Dosreis, o Garrido nem que levantou nem nada. Quem pôs um salto e ficou de pé foi o Xico, preparado para agarrar cada qual se quisessem lutar. Mas o Lomelino ficou banzado, o pacote das coisas de comer encostado no peito, a roupa na outra mão, só piscava os olhos gastos, espiava a cabeça caída do rapaz, os cabelos curtos, quase louros, os ombros abaixados com falta de vontade e não podia se mexer dali. Procurou os olhos de Xico, mas Futa fingiu estava espreitar o sol que adiantava entrar na janela grande. Sozinho, sem uns olhos nos olhos dele, sem uma palavra para ele, Dosreis sentiu a verdade da queixa, mesmo que lhe negara depois, não fazia nada: o Garrido estava ali preso também e ele é que era o bufo. Soletrou:

— Garrido?!...

Kam’tuta mostrou os olhos azuis, nessa hora estavam pequenos e frios, pareciam gelados.

— Você... estás zangado comigo?

Nem uma palavra; nada. Só os olhos bem colocados na cara dele, admirados, até parecia o rapaz nunca tinha-lhe visto, ele era um de fora, um qualquer. Sentiu doer na barriga com esse olhar espetado assim nele, não perdoava; lembrou truque, experimentou:

— Ouve, Gagá! Mília mandou um feijão para ti, ela sabe você gosta...

Emília era a mulher do Lomelino. Sempre tratava o Kam’tuta parecia ele tinha só dez anos, gostava muito o ar triste do menino, gostava pôr as palavras em crioulo de cap’verde, falar as coisas da ilha dela, ele tudo queria ouvir, admirado, parecia ela estava mas é a inventar uma estória bonita, e não a falar as coisas da miséria daquela vida nas ilhas.

— Ouviste, Gagá? Emília...

Mas não valia a pena acabar. Garrido já tinha-se levantado, nos olhos essas palavras de Loló tinham posto uma vontade de alegria e para o cap’verde não lhe ver, estava zangado não ia pôr cara de satisfeito, avançou no portão de grades, muito devagar, chupando o resto do cigarro. Lomelino fez gesto de ir atrás, mas Xico Futa agarrou-lhe no braço, puxando-lhe:

— Deixa, compadre! Deixa a zanga dele sair sozinha...

Sentaram na tarimba do fundo, lugar de Xico e começaram desamarrar o embrulho das coisas: panela de feijão d’azeite-palma, farinha, peixe frito, banana, pão. Comida de gente de musseque. A panela estava quente ainda, mas muito tempo que tinha se passado desde a saída de nga Mília na casa dela, longe, longe. Xico Futa começou logo comer, pôs o peixe no pão, roía-lhe com os dentes fortes. Mas Dosreis não-podia: olhava na comida, a cabeça abaixada, a vergonha que estava sentir quando entrou e viu os olhos do Garrido, era mais grande nessa hora com a comida de Mília na frente. Agarrou na mão de Xico, pediu:

— Chama-lhe, mano Xico!...

Futa sorriu:

— Ó Garrido! Vem ‘mbora comer, estamos à espera!

Encostado nas grades, mirando o corredor com os olhos vazios, Kam’tuta tremeu. O cuspo nasceu na boca, pensou o feijão amarelo a brilhar na panela, a farinha a misturar e a fome fez fugir a cabeça dos pensamentos antigos. Mas não se virou. No coração estava ainda ferver um bocado da raiva da queixa, mesmo que tinha visto bem aquela cara de arrependido e triste do Lomelino quando entrou, não ia comer com um bufo.

Cuspiu no corredor, resmungou palavras ele mesmo não sabia mais o que eram e quis meter-se outra vez dentro dos pensamentos dele. Custava, só o feijão estava agora a encher a cabeça, os casos que adiantara pensar naquela hora fugiram, essas manias que o nome dele ia sair no jornal, notícia de roubo de papagaio Jacó e, cadavez mesmo, ele ia guardar só para arreganhar na Inácia, perguntar saber se já tinha nome dela no jornal, muitas vezes, quem sabe, até vinham lhe tirar fotografia para pôr lá...

Mas outra chapada de palavras apanhou-lhe. Do fundo, o verdiano Lomelino, zangado, berrava:

— Kam’tuta, hom’ê! Veja lá se vamos te pedir de joelhos. Vem comer ainda, porra!...

Garrido sorriu e com a asneira de amizade foi mesmo.


*


Minha estória. Se é bonita, se é feia, os que sabem ler é que dizem. Mas juro me contaram assim e não admito ninguém que duvida de Dosreis, que tem mulher e dois filhos e rouba patos, não lhe autorizam trabalho honrado; de Garrido Kam’tuta, aleijado de paralisia, feito pouco até por papagaio; de Inácia Domingas, pequena saliente, que está pensar criado de branco é branco — “m’bika a mundele, mundele uê”∗, de Zuzé, auxiliar, que não tem ordem de ser bom; de João Via-Rápida, fumador de diamba para esquecer o que sempre está lembrar; de Jacó, coitado papagaio de musseque, só lhe ensinam as asneiras, e nem tem poleiro nem nada... E isto é a verdade, mesmo que os casos nunca tenham passado.



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∗ verdiano — caboverdiano.
∗ “m’bika a mundele, mundele uê” — “escravo de branco, branco é”

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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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a mesma lei, a mesma língua (obviamente do colonizador, um drama linguístico, né? escrever na língua do colonizador)




Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 1963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


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terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória do Ladrão e do Papagaio... Mas antes sofreu muito ... (08)

Luaanda... Estória do Ladrão e do Papagaio




Luandino Vieira



continuando...


Mas antes sofreu muito, mais do que todos os dias quando deitava no quarto e ficava pensar toda a noite coisas a vida não queria lhe dar por causa ainda desse seu azar da perna aleijada, da paralisia de miúdo. Mais; nas outras vezes não tinha grande confusão, tudo passava-se era só uma linha direita, ele sentia bem o que fazia-lhe sofrer, o que estava-lhe alegrar, e era fácil descobrir assim, de olhos abertos na escuridão, se arranjasse um trabalho de verdade não custava resolver o outro caso de mulher para viver com ela. Mesmo que ele pensava umas coisas boas de mais para o casamento, como lhe duvidava seu amigo João Miguel, dizendo: sim, as mulheres eram boas, um homem não pode viver sem a mulher para lhe acarinhar, para lhe ajudar, para crescer os monas∗, para alegrar na tristeza, para dividir com ela na alegria, trabalhar embora; mas também — e isso é que Kam’tuta não aceitava acreditar e Via-Rápida falava ele era monandengue, não não sabia a vida — as mulheres são a raiz do nosso sofrimento; mulher fala de mais; o casamento não é só o riso e o quente de deitar de noite para descansar o trabalho dos dias, não é só a felicidade de você ter uma pessoa que lhe olha bem nos olhos e você confia. A vida é muito complicada, sonhar só atrasa ou só adianta mesmo quando você põe no sonho essas mesmas complicações e as coisas boas também, e isso um rapaz como Garrido Fernandes não podia ainda saber, não era burro não, mas exatamente porque viveu pouco só, a cabeça dele só pode pensar as coisas boas que inventa.

Mesmo com todas as conversas, não doía nessas noites pensar assim; se doía era só as partidas da Inácia, a vergonha da perna, o querer amigar com a pequena, um trabalho bom para mudar a vida. Mas nessa noite era mais diferente de todas: dantes não pensava com raiva, não pensava a vingança, tudo ele julgava podia se resolver só por acaso, deixava. Agora, dez horas já passavam, e o choro ainda não queria lhe largar, o coração estava apertado, muitas coisas que tinham acontecido. A partida da Inácia, gozando-lhe com o papagaio Jacó, era uma ferida larga dentro dele, chegou mesmo uma hora pensou até o melhor que era se matar, para quê valia viver assim feito pouco de todos? Depois, essa raiva de si passou na Inácia, imaginou as mãos dele a agarrarem no pescoço negro e macio, apertarem, apertarem, ia olhar-lhe bem na cara dela para lhe ver ficar branca, morrer pouco-pouco, o fogo nos olhos a apagar, a apagar devagar até ficar o escuro. Mas pensando assim, quase que tinham saído as lágrimas, ele sabia depois ia-lhe chorar na campa, as flores que ia-lhe pôr todos os domingos, a polícia não podia mesmo descobrir era ele, todos sabiam Kam’tuta era um fraco, insultavam-lhe e ele nem refilava, só ouvia. E então, no escuro, via mesmo Inácia toda vestida de branco, deitada no caixão e a pele era até mais bonita, só que ninguém tinha-lhe conseguido fechar os olhos, ficaram abertos e grandes como eram viva, mas apagados, vazios do fogo, com cacimbo no lugar. O pior é quando se pensa muito com a raiva, a raiva gasta e acaba. Devagarinho, a dor passou, uma pena grande veio no lugar e quis adiantar dormir com esse perdão na Inácia, mas João Miguel, o grosso punho levantado em cima da cabeça dele, não deixava. Doía também porque Garrido sabia ele era um amigo, o único a quem costumava falar os assuntos sentia dentro dele, mesmo ideia de se matar e tudo. Por isso custava, picavam na cabeça as palavras dele outra vez, que lhe ouvira no escuro, chamar-lhe meio-homem. Até esse, João Miguel, seu amigo, que sempre lhe consolava dizendo o que valia era a cabeça e a cabeça de Garrido era boa, até esse chamara-lhe de aleijado e sem-pernas. E mais: não quis aceitar-lhe no roubo dos patos. Ele, Garrido Fernandes, não foi num roubo de patos! Ele, que tinha aguentado já seis meses na conta de todos por causa um capiango numa estação de serviço! Porem-lhe assim de lado, trapo velho que só presta para ir no lixo. Isso doía, doía muito, como também doíam as palavras que ele mesmo nem sabe como falou no João Miguel, o rapaz não merecia assim, mas naquela hora tudo saiu na boca sem poder parar, não era ele ainda que estava falar, parecia tinha um cazumbi∗, só xinguilava∗, só dizia o que ele mandava. E se Via-Rápida se ia zangar de vez com ele? Agora que não podia falar mesmo mais com a Inácia? E também Dosreis, seu amigo de mais muito tempo, respeito para ele era ainda como um pai, nem lhe ligara, nem lhe defendera, só pôs umas palavras fracas e ele mesmo, só ele que podia convencer o João Miguel a lhe levarem também, sem velho Loló o negócio não andava. Por que não fez força? Não arreganhou, não ficou do lado dele, contra Via- Rápida?

Todos esses pensamentos soltos na cabeça pediam-lhe para levantar, não se deixar ficar assim ali deitado à toa, esperando por acaso passasse qualquer coisa. As palavras que ele mesmo tinha falado no João Miguel, para lutar, não deixar-se vencer recordou-lhes uma a uma e um frio mais quente é que veio. Sim, senhor, lutar. Mas lutar como, então? Ele, um aleijado, posto de lado num simples roubo de patos, profissão sapateiro mas sem serviço, os outros lhe conheciam, os sô mestres falavam ele era do capiango, não aceitavam dar trabalho nem ao dia, como ia lutar? E se lutasse, lutar com quem então? João Miguel, o Via-Rápida? Não; tinha-lhe deixado naquela hora, não quis-lhe baixar a mão fechada, mas não podia mais falar bem com ele, passava confusão com certeza. E depois também, com o amigo, a luta era outra. Só ia ser lhe acompanhar sempre, falar, ajudar, para ser ainda ajudado, não deixar a diamba tomar conta de vez na cabeça do agulheiro.

Lomelino? Dosreis era seu mais velho, seu pai quase — que pai não lhe conhecia, um branco qualquer, à-toa — e também não tinha a culpa toda, ele é que comandava o trabalho, mas o cabeça era mesmo o João. E mais: Lomelino era um mais velho, nem de palavras se pode lutar com mais velho, senão os outros mais novos não vão-lhe respeitar mesmo depois.

Inácia? Sim, ela mesmo, vadia, cachorra, lhe fazia pouco sempre, gozava. Mas debaixo desses insultos, as palavras boas que às vezes dava-lhe ou ainda os olhos que lhe punha quando ele começava falar a vida boa que sonhava, eram também um peso muito grande e derrotavam os insultos, não deixavam-lhe sentir verdade, ele mesmo era o que a rapariga falava: um fraco.

Então, quem? Cada qual era bom e mau; cada qual sozinho não podia lutar com eles, não estava certo. Loló e Via-Rápida tinham-lhe deixado de lado, mas amanhã, sem perigo nenhum, ia receber uma metade da metade do lucro para ele e nunca que João Miguel fazia batota∗ nas contas, esse dinheiro era santo como ele dizia. Quem era o inimigo? O Jacó? Num de repente viu bem o culpado, o bandido era esse bicho velho e mal-educado, mas depois até desatou a rir. Um homem corno ele e o inimigo dele era um bicho, não podia! Mas a verdade é que essa ideia crescia como capim por todos os lados da cabeça e do coração. Não, não podia ser, não era. Verdade que os monas lhe xingavam “kam’tuta, sung’ó pé” de ouvir o pagagaio, mas quem ensinou foi a lnácia, ela é que inventou. Papagaio não pensa, só fala o que ouve, o que estão lhe dizer. E se os monandengues chamavam não era mais maldade, ouviam os mais velhos, ouviam o papagaio gritar assim dessa maneira. O melhor era perdoar o bicho.

Mas aquela confiança de andar embaixo do vestido da lnácia, aí onde Garrido nem olhava, também não é inimigo um bicho assim? Um pássaro saliente que recebe mais carinhos que pessoa? Então o inimigo era o Jacó? Não pode. Um pobre bicho, só é mau porque lhe ensinaram, sô Ruas é que fez ele assim malcriado com as asneiras de quimbundo, um coitado nem que lhe limpavam no rabo, as penas sempre sujas, cheio de piolhos de galinhas, não tinha poleiro, dormia na mandioqueira, ninguém que lhe ensinava coisas bonitas, verdade mesmo, ele sozinho assobiava bem, não podia ser ele o inimigo duma pessoa.

Mas no escuro do quarto o papagaio Jacó, velho e sujo, apareceu-lhe como a salvação, ele é que ia lhe livrar de muitas coisas, ia-lhe servir ainda para lutar com todos. Era isso, Jacó era a sua arma. Ia acabar com ele, custava torcer o pescoço, mas também já estava velho, coitado, não servia para mais nada. A melhor vingança era essa mesmo.

Primeiro: Loló e João Miguel iam ver ele era um bom, não servia só para ficar vigiar nas esquinas. Sozinho, ia roubar um papagaio, bicho que é como pessoa, quase que fala; ia lhes mostrar o que ele era, depois haviam de pedir favor para fazer sempre o serviço nas capoeiras e não aceitava.

Segundo: também acabava com esses gritos “Kam’ tuta, sung’ó pé”. Se não lhes ouvissem mais, os monandengues iam esquecer; se era preciso até fechava-se no quarto durante umas semanas, desculpava doença, para dar tempo a se esquecerem da alcunha.

Terceiro e muito importante mesmo: o fidamãe não ia mais cheirar na Inácia, roubar assim o carinho de pessoa.

Ria satisfeito com a ideia dele, a raiva já tinha fugido, uma grande alegria bocado má mordia-lhe na boca toda. Procurou os quedes∗ no escuro, vestiu-lhes; pôs a camisa, saiu na noite, assobiava até; via já a cara da Inácia acordando de manhã sem o papagaio, era bem feito, não ia bicar mais a jinguba na boca bonita dela, não ia mais fazer cócegas nas mamas com as penas do pescoço, procurando os bagos escondidos, não ia mais fugir da chuva, meter embaixo das saias no escuro quente das coxas de Inácia. Nunca mais, o fidamãe.

— Sukua’! Eu mesmo, depois, é que sou o papagaio!

A voz dele, batida nas paredes, um bocado rouca de todo o tempo calado, assustou-lhe; mas logo-logo riu uma grande gargalhada no escuro; iam ver ainda quem era ele mesmo, o tal Kam’tuta como lhe chamavam, ele, ele mesmo, Garrido Fernandes, mulato por acaso, por acaso a paralisia é que tinha-lhe estragado a perna, mas na cabeça a esperteza era mais que eles todos, de duas pernas!

A noite estava feia. Escura, nem uma estrela que espreitava e a lua dormia escondida no meio do fundo dum cacimbo grosso parecia era mesmo chuva. O silêncio tapava ainda mais as cubatas e só as pessoas que viviam ali podiam andar nos estreitos caminhos entre os quintais sem dar encontro nas paredes e nas aduelas∗, como ia Garrido, avançando devagar, para gozar bem a felicidade tinha chegado na hora em que descobriu o caso era só agarrar o Jacó, torcer o pescoço, fazer-lhe desaparecer.

Furando o escuro assobiava e até parecia de propósito mesmo: estava imitar todos os assobios do Jacó, eles tinham ficado na cabeça, A areia chiava debaixo dos quedes, a perna aleijada deixava o risco dela, de arrastar o pé, parecia caminho de caracol. Baixinho, no meio dos lábios finos da sua boca estreita, ia inventando;

                               Papagaio louro
                               Seu mal-educado...


Andava, continuava a cantiga, ritmo de samba, como ia pensando:

                              Você é bicho burro
                              Vais ser enforcado.


No meio do cacimbo, lá no fundo do caminho, começou aparecer a mancha negra da grande mandioqueira do quintal da Viúva. Só então o coração do Garrido bateu com mais força; agora que estava chegar, a alegria fugia, espreitava, mirava em todos os cantos do escuro, avançava mais devagar, cauteloso.

Abrir a cancela pequena do fundo do quintal perto das capoeiras foi canja para ele. Conhecia-lhe bem, costumava sair embora ali quando a senhora da Inácia chegava, ela não gostava o rapaz atravessava dentro de casa, tinha falado na pequena todo o musseque sabia o Garrido era do capiango e até parecia mal assim, uma assimilada como ela, com madrinha branca e tudo, estar ligar para um vagabundo como esse coxo. Nem um barulho que fez quando entrou mas um galo pôs um cócócó pequeno, calando-se depois no silêncio do Garrido. Continuou andar mais calado ainda, punha um pé, levantava o outro devagar, pousava-lhe no chão, colocava aí todo o peso do corpo e começava levantar o outro, assim como tinha-lhe ensinado o Via-Rápida explicando na tropa queriam assim, era o passo de fantasma, inimigo nunca ouvia.

O caminho conhecia-lhe bem, não precisava lua, mas nessa hora ela ajudou, rasgou um bocado mais o pano do cacimbo e iluminou o quintal. A mandioqueira estava ali, perto, três passos só mais, mas não queria se apressar, ele gostava a técnica até ao fim, nem um barulho podia fazer, Inácia costumava dormir perto, no quarto pequeno do lado do armazém do carvão. No escuro das folhas não se via nada e a sombra do pau era uma grande nódoa negra no chão vermelho com pouca luz. Dois passos que faltavam só e Kam’tuta adiantou, falou baixinho:

— Jacó... Jacó...

Para o lado esquerdo, no mais escuro, sentiu um mexer de esteira. Parou, assustado; não voltou ouvir-lhe, era só o medo que punha esses barulhos, tinha era o xaxualhar do vento nas folhas da mandioqueira.

— Jacó... Jacó... Olá! Jacozinho... Tocava-lhe já mesmo, o pássaro estava na frente dos dedos, passou com cuidado a mão a fazer festas nas penas poucas do pescoço do papagaio. Sentiu-lhe estremecer, retirar a cabeça de embaixo da asa. Agarrou-lhe com jeito falando mansinho, parecia era mesmo a Inácia:

— Jacó! Dá o pé... querido... dá...

O burro nem que mexia, satisfeito com as cócegas e o quente das palavras. Kam’tuta guardou-lhe dentro do casaco velho, entre o forro e a camisa, abafou-lhe, sorrindo contente, uma alegria a encher-lhe o corpo. Estava agarrado esse bicho ordinário; amanhã era só torcer o pescoço, pronto: o azar acabava de vez na hora em que ele não falava mais. Marcha-atrás começou recuar no mais escuro para seguir encostado nas aduelas até na porta, tinha-lhe deixado aberta. Pôs atrás a perna aleijada, fez força, depois recuou sem olhar, a outra perna já no ar, procurando, com medo de tocar alguma lata, as massuícas eram ali perto.

Mas não deu encontro com as pedras, não. Sentiu foi embaixo do quede um redondo mole, gordo, parecia era bicho e essa forma mexeu logo num grande barulho de esteira. Naquele silêncio o Kam’tuta berrou medroso, todas as galinhas desataram a cacarejar, o galo, acordado, a cantar, os gansos, esses, até pareciam malucos e o Garrido, arrastando a perna, coxeou na porta o mais depressa que podia mesmo, segurando com as mãos no casaco para agarrar sempre o Jacó, não ia-lhe largar naquela hora.

Mas o papagaio, com o susto dele, tinha acordado bem, punha-lhe unhas e bicadas dentro do peito, atrapalhava-lhe para andar. E foi perto já da cancela da saída, o coração de Garrido gelou, ficou frio, frio mais que o cacimbo da noite, nem vontade de fugir corria no sangue, só as pernas eram sozinhas e continuaram. É que embaixo da mandioqueira ele ouviu bem a voz saliente da Inácia a rir, a falar no homem que estava lá deitado com ela, a dizer: não corre, não tem importância, eu conheço-lhe, é uma brincadeira, amanhã eu recebo o que ele veio tirar... Cheio de raiva, Kam’tuta bateu a cancela, meteu no cacimbo que estava cobrir outra vez a lua, mais grosso. No escuro, a voz de Inácia era o único sopro quente que chegava nas orelhas dele, fugindo:

— Kam’tuta, Kam’tut’é! Dorme com o Jacó... Faz-lhe um filho!

E o bicho, bem acordado e bem agarrado na mão zangada do Garrido, ainda arreganhava os insultos ele sabia só de ouvir a voz da dona:

                           Kam’tuta... Juta... sung’ó pé...pé...pé...



continua página 75...


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para crescer os monas — criar as crianças.
cazumbi ou canzumbi — alma do outro mundo; espírito.
xinguilar — invocar os espíritos.
batota — trapaça.
quedes — sapatilha de pano e borracha.
aduelas — tábuas de barril usadas para formar cercas delimitando o quintal.


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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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a mesma lei, a mesma língua (obviamente do colonizador, um drama linguístico, né? escrever na língua do colonizador)




Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 1963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


Leia também:


Contos Africanos : Luandino Vieira - Vavó Xíxi... a chuva não caía (01)

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória Ladrão e Papagaio... Um tal Lomelino (01)
Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória Ladrão e Papagaio... Mas tinha já alegria (02)
Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória Ladrão e Papagaio...  Pois é (03)
Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória Ladrão e Papagaio... Então podemos falar...  (04)
Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória do Ladrão e do Papagaio... A sorte foi...  (09)

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória da Galinha e do Ovo... A estória da galinha (01)


terça-feira, 3 de novembro de 2020

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória do Ladrão e do Papagaio... João Miguel ... (07)

Luaanda... Estória do Ladrão e do Papagaio




Luandino Vieira



continuando...


João Miguel, que lhe chamavam o Via-Rápida, era o cabeça. Ninguém que discutia, verdade de todos, nem pensavam podia ser diferente. Mas o homem de confiança era o cap’verde Lomelino dos Reis por causa só ele é que falava no Kabulu, sem esse branco o negócio não andava mais. E com Garrido Fernandes, o Kam’tuta, eram a quadrilha. Quadrilha à-toa, nunca ninguém que lhe organizara nem nada, e só nasceu assim da precisão de estarem juntos por causa beber juntos e as casas eram perto. Sem mesmo adiantarem combinar, um dia fizeram um assalto numa montra de barbeiro e deram conta Lomelino executou, Via-Rápida ajudou e Kam’tuta atrasou fingindo mijar na parede, a vigiar por causa as patrulhas. Pronto, ficou assim: o cabeça era o João Miguel, ele é que dividiu o dinheiro; quem lhe arranjou foi o Dosreis vendendo o perfume e outras coisas no Kabulu e todos ficaram confiar nele senão não podiam mais trabalhar; Kam’tuta, aleijado, só serviu para avisar. Ficava de vigia e quando os outros queriam nem lhe avisavam nem nada para não atrapalhar se era o caso de agarrar uma berrida. No fim, davam-lhe a parte dele: metade de uma metade, se não ia; uma parte igual dos outros, se lhes acompanhava. Assim, nunca podia pôr queixa deles.

A reunião era sempre aí na quitanda do Amaral, oito horas — oito e meia, hora que começavam sair nas cubatas, jantar já na barriga, depois de passar o dia à toa na Baixa, procurando emprego de verdade ou dormindo no quintal quando era dia seguinte dum trabalho. João Miguel é que estava sempre o primeiro a chegar e quando Dosreis entrava já o rapaz tinha bebido mais de meio-litro∗ com gasosa como ele gostava. Mas nessa noite dos patos tudo que começou, começou passar ao contrário, parecia já estava se adivinhar era diferente, alguma coisa que ia suceder.

Quando o Lomelino chegou, cansado do caminho no Rangel e mais para lá, o João Miguel ainda não tinha aparecido. Perguntou para menino Luís, o empregado, mas ele falou não, o Via-Rápida não tinha estado lá. Nove horas eram quase, cadavez o rapaz tinha ido no cinema com alguma pequena, mas sempre assim ele avisava primeiro. Só que hoje não podia faltar, tinha-lhe deixado um aviso na vizinha Mariquinha, para lhe dar encontro oito e meia no Amaral. Bem, esperar.

Sentado no canto deles, Lomelino acendeu o cigarro, mas a cabeça não queria ficar mais quieta, aguentar o jeito de esperar no amigo, também não era tarde ainda. Não, Os pensamentos não aceitavam e a preocupação enchia-lhe pouco-pouco com o virar do tempo. Porque ia ser pena se perdiam essa noite assim escura para fazer o trabalho dos patos do Ramalho da Silva, lá no Marçal. Já andava lhe estudar muito tempo, desde o dia João Miguel descobriu era um pouco fácil de fazer e o lucro certo. Mas lucro certo também só se o Lomelino ajudasse com os conhecimentos dele. Custou a convencer o Kabulu, o homem não gostava esse assunto de criação, só queria as coisas de guardar numa cubata sozinha sem ninguém para lhe tomar conta, bicho que mexe e fala é preciso tratar e sempre chama polícia. Dosreis falou agora as coisas quietas estavam bem guardadas e as patrulhas eram de mais e, depois ainda, nestes tempos, entrar em casa leia é perigoso, as pessoas põem logo tiro e a desculpa é que é terrorista e pronto, os casos ficam arrumados. Voltou então para receber resposta nesse dia, sete horas lá estava, encostado no balcão, bebendo seu meio-litro, fingindo. Sô Kabulu, gordo e encarnado, veio para ele, mas só lhe disse estas palavras:

— Carreguem-lhes na casa do Zeca Burro!

Melhor. No Zeca Burro conhecia-lhe bem: matador de cabritos roubados para vender a carne, uma vez fizeram-lhe até um negócio dumas cabrinhas que já estavam mesmo velhas e doentes e rendeu. Com ele era canja; o pior era o assunto quem tinha-lhe tratado era o Kabulu e esse gosmeiro é que ia tirar o lucro, apostava só ia lhes pagar os bicos preço do Kinaxixi∗ menos que metade e depois recebia mais que o dobro no Zeca Burro. E eram mesmo uns patos gordos, não andavam no lixo, vadiar nos musseques, não. Tinha um até, branco quase, que ele tinha-lhe visto bem, esse bicho cadavez ia rebentar se lhe engordavam mais, quatro quilos apostava.

Saiu embora na loja do Kabulu, no escuro veio vindo devagar para ganhar tempo e não cansar de mais, a respiração já estava lhe fazer partidas, nesses dias de trabalho o coração acelerava e o sangue, habituado à mangonha do trabalho quieto, corria logo com a ideia do escuro, do serviço, e também pensava cadavez o João Miguel ia refilar por ele não ter-se lembrado mais do Zeca Burro, assim iam perder um lucro de patos gordos. Mas com João Miguel ele aceitava, o menino era mesmo monandengue ainda, vinte e quatro anos só, obedecia-lhe como pai, respeito de mais velho. A não ser o rapaz tinha sonhado outra vez os casos antigos e estava na diamba. Talvez era isso para não estar lá na hora combinada, só porque adiantou fumar. E nem mesmo ao menos o Kam’tuta para lhe acompanhar, ali no sozinho. Mas esse, ele sabia o rapaz agora esses dias só rondava a quitanda da Viúva para ver a Inácia, parecia era um galo com aquela cabeça grande em cima do pescoço fino a arrastar a perna, Deus Nosso Senhor lhe perdoasse, não deve se fazer pouco um aleijado, mas era mesmo parecido um galo o Kam’tuta.

— Boas-noites, compadre Dosreis!

Era o Via-Rápida e sentou logo parecia nem podia mais com o corpo dele. Ficou olhar, banzado, na cara do Lomelino, parecia nunca tinha-lhe visto mais na vida, os olhos quase fechados, quietos, cheios de encarnado de sangue, respirando devagar, mas com força, sopro de vapor de comboio. Sempre que lhe via assim, Dosreis pensava o rapaz era uma máquina. Não era mais porque o serviço dele era agulheiro, no tempo que estava trabalhar no Cê-Efe-Bê∗, no Luso, nem das estórias que ele punha falando os casos da sua vida de ferroviário. Mas aqueles olhos assim quietos, vermelhos, pareciam eram mesmo as luzes da locomotiva. A força do vento da respiração, na boca, saía com o fumo do cigarro, e o nariz dele, largo e achatado como a frente da máquina, assobiava nessas horas. Forte e todo encolhido na cadeira, só a cabeça esticada por cima da mesa, parecia estava fazer uma força grande de rebocar muitos vagões de minério. Mas a verdade era só que o João Miguel estava chegar mas era de fumar a diamba. E não queria falar.

— Estás bom, João?

— Bem ‘brigado, mano Dosreis!

Silêncio outra vez. Custava engatar a conversa assim com ele, era preciso ainda deixar-lhe sozinho, o veneno da planta derreter no sangue com a velocidade que ele andava e sair embora na respiração. Perigoso até falar, mesmo que quase sempre João Miguel ficava mas é triste porque ele não queria mais fumar, só fumava mesmo quando os casos antigos começavam-lhe arreganhar, não deixavam dormir.

— Vai um copo, João?

— ‘brigado, vai.

O quente era bom dentro dele, a paz, uma vontade de não fazer mesmo nada, só sorrir, sorrir, pôr as coisas boas, cantar. Mas os casos não deixavam, estavam fundos, bem fundos, porque Félix era o grande amigo e lá não chegava o feitiço da diamba. Mesmo que lhe tirava a raiz deles, não conseguia apagar mais o sangue espalhado na linha, nas rodas da máquina, nem aquela figura do Félix, todo estragado, a cabeça do outro lado, dentro das linhas, em cima da brita, e o corpo, o corpo de miúdo ainda, torcido, as pernas, com o peso da roda no pescoço, tinham-se levantado, parecia até ele estava com elas no ar na hora da ginástica do clube, até dava vontade de rir. Não, esse sangue nada que lhe tirava no fundo dos olhos, esse cadáver do Félix falecido assim, matado por ele, ele mesmo, João Miguel. Lembra bem: a 205 vinha devagar, comboio da lenha; o Chaveco, maquinista, pôs um adeus de amigo e o Félix fazia-lhe caretas, abraçado no outro, gozando e avisando-lhe a rir:

— Logo nas cinco! Sai treino!

E parece mesmo pode ainda ver os risos dos homens no escuro da máquina, o fumo branco que lhes rodeava parecia grande cacimbo, sentir sempre nas orelhas esses risos. E depois?...

— Mano Dosreis, este vinho é uma merda!

— É igual dos outros, João.

— Mas é uma merda!

— Já sei o que vais falar...

— Pois é! Estou pensar isso mesmo: uma boa via-rápida, um copo bem cheio, a gente bebe essa aguardente, senta no chão, fica com os companheiros, conversa da vida, conversa do serviço, conversa de pequenas, a mutopa∗ aí bem carregada... Aiuê! Saudade, mano! A mu-topa cheinha, tabaco bom, a água a cantar na cabaça, chupa, chupa... Não é essa porcaria da diamba, não é essa merda desse vinho de brancos...

E o grande silêncio outra vez, só o arder dos cigarros e o sangue e a voz dos capatazes a correr, o chefe, o guarda-fios∗, fator∗, fiel∗, todos a porem-lhe socos, sacana de negro e mais coisas, bêbado, bandido... Mas quem gostava o Félix mais do que ele, quem? Pois é, mas foi a sua mão, João Miguel, que mandou a 205 contra o comboio do ferro; foi a sua mão que pôs a roda da 205 em cima do pescoço do Félix, menino fraquinho, nem que aguentou a pancada do choque, caiu logo cá embaixo e a máquina, no pequeno arranque na frente, parou-lhe em cima do pescoço.

— Não! Não quero mais isto! Não posso, mano Dosreis, não posso...

— Calma, então! Olha: vamos ainda lá fora, preciso te falar, assunto sério, temos um serviço...

O vento frio do cacimbo corria às gargalhadas com os papéis pelo musseque fora. As luzes da rua, lá mais longe, pareciam estavam derretidas, descia a espuma no chão ou subia no ar como fumo de fogueira que arde bem, sem lenha verde.

— Então, arranjaste?

— Arranjei. O mesmo. Falou sim, podemos entregar. Só que fica mais longe, não quer lá em casa. Qu’até meia-noite o homem espera. É o Zeca, não sei se lhe conheces...

— Zeca Burro?

— É ele, ele mesmo;

— Não é teu amigo, esse gajo?

— Não, nada mesmo, nem que lhe cumprimento... — mentiu Dosreis. — E que o resto é com a gente.

— Está bem. Vamos combinar.

Sentia-se o ar fresco e a conversa estava fazer melhor no Via-Rápida. Falava mais direito, guardava aqueles olhos grandes mais abertos, mas na cabeça começava trabalhar bem, todos os porquês e como ele resolvia logo-logo, também conhecia o quintal como a cara dele e o plano era fácil, a casa ficava nuns fundos de cubatas, só beco estreitinho é que tinha para lá, caminho das patrulhas um bocado longe.

— E a hora?

— Onze e meia é bom. Acabamos-lhe rápido e depois você pode mesmo andar no meio das pessoas que vão sair no cinema...

Dosreis estava guardar, com receio, a pergunta mais especial para fazer só no fim. Nesses dias de diamba ninguém que sabia por quê, o João não gostava mais o Garrido; eles, que todos dias eram braço embaixo, braço em cima, falando conversas diferentes das pessoas e das maneiras de viver a vida, até admirava. Mas era mesmo a verdade: sempre que Via-Rápida lembrava Félix não gostava a amizade do Garrido e quase escapava passar luta.

— João!... E o Kam’tuta, levamos-lhe?

Mal que tinha posto a pergunta o não do rapaz foi alto, com força, via-se não admitia resposta ao contrário.

— Mas vê ainda... Ele podia ficar no fim do beco para assobiar as patrulhas...

— Não! Não precisa! Eu vou lá; você vigia. Depois você carrega-lhes no saco e pronto. Não quero aleijado agarrado nas minhas pernas!

— Deixa então, não se zanga. Cada vez também não lhe levamos noutros casos e o rapaz sempre aceita...

— Não, não quero esse coxo da merda, já disse! Até ando a desconfiar ele vai ser é bufo, com aquelas conversas de mudar a vida, para amigar...

— Elá, Via! Qu’é isso, então? Pôr falsos assim? Conheço-lhe de miúdo, João, e você é amigo dele também...

— Amigo, eu!? Eu só gosto as pessoas inteiras, meio-homem eu não acompanho...

— Não pensei falavam as pessoas nas costas, amigos!

João não acabou falar, essa voz saiu no escuro, já lá estava à espera, gelou o coração bom do Lomelino, parecia o sangue tinha fugido todo com a vergonha, naquela hora. No peito de João Miguel é que não: cresceu a raiva, aqueceu a vontade de bater à toa, rasgar-se, arranhar-se em todo o corpo...

Puxando a perna, sempre parecia ia ficar atrás, Garrido saiu do escuro da esquina da quitanda e veio, com devagar, a cabeça levantada e os olhos. Dosreis avançou para ele; João Miguel recuou, encostou na parede.

— Escuta ainda, Garrido! Eu explico...

— Não adianta, amigo Dosreis. Eu ouvi tudo. Na hora que eu cheguei; vocês falavam a hora de atacar e fiquei ali a espiar...

João Miguel saltou, raivoso.

— Não dizia? Não te dizia? Bufo é que você vai ser!

Dosreis aguentou-lhe, meteu no meio, separando com o seu corpo velho.

— Não m’insulta só, João! Por acaso sou teu amigo, mas não vou deixar mais que me façam pouco à toa... Jurei!

E tinha uma vontade diferente nos olhos azuis do rapaz, Lomelino nunca tinha-lhes visto assim. Parecia até a perna era já boa, a sair direita do calção. Garrido estava todo em pé, o corpo magro levantado, mas o que admirava mais era ainda a calma daquela cara de monandengue, os olhos bem de frente no João Miguel, ele nem lhes aguentou, teve de baixar a grande cabeça de máquina de comboio e o Kam’tuta repetia devagar, cada palavra sua vez:

— Todos me fazem pouco, mas acabou, compadre Dosreis! E você ainda, João Miguel, meu amigo! É a você eu quero avisar primeiro; você ganhaste raiva de mim, não te fiz mal. Sempre que vou nos serviços, faço como vocês. Não têm culpas para mim. Quando vieste, já m’encontraste com meu compadre Dosreis. Por que agora eu é que saio? É porque sou aleijado, coxo, meio-homem, como você falou? Não admito mais ninguém me faz pouco. Luto, juro que luto! Nem que você me mata com a porrada, não faz mal... Ouviste? Ouviste, João Miguel?

Parecia o rapaz estava maluco mesmo. Sacudiu o Dosreis do caminho, ele deixou-lhe passar, admirado com este Garrido novo, levantado. Mas não tinha mais medo, nada que ia suceder, o João nunca que aceitava pelejar com o Kam’tuta.

— Ouve bem! Por acaso você é meu amigo, é por isso eu te aviso, sabes? Não tenho medo, fica sabendo. Nem de você nem de nenhum sacana neste musseque... Sukua’! Aleijado, meio-homem! Olha: você é grande, mas não presta; o seu corpo está crescido, mas o coração é pequeno, está raivoso, cheio de porcarias.

— Cala-te a boca! Cala-te a boca, mano Garrido, senão...

— Bate, se você é capaz. Arreia! É isso que eu quero com você, não percebeste ainda? Quero pelejar! Ao menos um dia luta com um homem, um que não tem medo. Arreia, bate, se você tem coragem!

Direito, no meio da noite, o Garrido Kam’tuta crescia, não estava mais o rapaz torto, sempre a cabeça no peito, escondendo em todos os cantos, fugindo as berridas dos monas que lhe insultavam:


                                            Kam’tuta, sung’ó pé!... Sung’ó pé...


E João Miguel via nascer na frente dele, outra vez, o Félix. Era ainda o seu amigo que estava lhe falar ali, nascia dentro do Kam’tuta com aquelas frases corajosas que sempre soubera, aquela maneira de ficar ganhar mesmo quando lhe davam uma boa surra de pancada. Fechou as mãos grossas escondendo-lhes nos bolsos, elas queriam sair sozinhas para atacar o Garrido, se ele não ia se calar, não podia mais ouvir, não podia deixar mais entrar aquelas palavras que ele falava e estavam estragar todo o trabalho bom, paciente, da diamba. Não podia sentir assim a verdade a queimar-lhe as orelhas, por dentro, por fora da cabeça, era mesmo melhor fugir senão ia esborrachar o mulato, ele era um fraco no corpo...

— Cala o Garrido, Dosreis cala-lhe a boca, senão mato-lhe!

— És um cobarde, João! Você tem medo da verdade! Você, no seu coração, tens é um ninho de ratos medrosos. Aceita o que sucedeu, vence essa culpa que você tem. Não fica medroso, não foge da diamba, luta com a dor, luta com a vida, não foge, seu cagunfas∗, só sabe pôr chapadas e socos nos outros, nos mais fracos, mas contigo mesmo não podes lutar, tens medo... És um merda! Tenho vergonha de ser mais seu amigo!

Lomelino correu para lhe agarrar, mas falhou. O mulato mexia parecia tinha feitiço, correu mesmo com a perna parecia já nem era aleijado nem nada, vuzou∗ uma cabeçada no João Miguel.

— Deixa-lhe, João! O rapaz está bêbado!

Mas João Miguel não aceitava, nem mesmo as palavras sempre boas do amigo Dosreis serviam, nessa hora em que a raiva estava nas mãos a torcer dentro dos bolsos, a pensar apertar mesmo o pescoço do mulato, aquele pescoço magro de osso saliente parecia até com o feitio das mãos. Mas, no coração, uma chuva de cacimbo subia, ele sentia-lhe chegar nas janelas dos olhos; nas orelhas dele aquelas palavras que nunca ninguém tinha-se atrevido a falar-lhe, roíam, punham eco em todos os cantos do corpo; e a cabeça pesada, estalava, parecia os ossos eram pequenos para guardar tudo o que estava pensar, tudo o que as falas do Kam’tuta tinha-lhe soltado lá dentro, já ninguém que lhe amarrava mais.

Avançou para o Garrido; enxotou com uma só mão o Dosreis, foi bater na parede; depois parou mesmo na frente do mulato, só ficou ouvir-se a respiração assustada. A cabeçada na barriga era nada mesmo, mas aqueles olhos azuis, fundos, numa cara de miúdo, esses é que ele não admitia, não podia-lhes consentir assim arreganha-dores na cara dele, não podiam continuar a dizer tudo assim calados. Levantou a mão fechada, grande, pesada biela de locomotiva, em cima da cabeça do Kam’tuta para lhe esborrachar.

— Bate! — falou, cheio de calma, o Garrido.

Nada. Silêncio de vento a correr cafucambolando∗ pelo meio das cubatas.

— Bate, cobarde! — repetiu-lhe Kam’tuta.

O braço grande, pau de imbondeiro∗ levantado no ar e Lomelino rezava para dentro, nada que podia fazer mais nessa hora, para João não lhe deixar cair, era a morte de Garrido.

— Bate, se tens coragem!

Já tremia a voz de Garrido, mas os olhos eram ainda os mesmos, colados na cara de João Miguel, ele não podia fugir naquela luz, estava preso, amarrado naquela coragem nova dum homem fraco, não precisava mais ter o corpo grande para lhe desafiar assim, mostrar uma pessoa aguenta de frente os casos da vida, quando é preciso.

— Deixa o rapaz, Via! Favor...

Foi um soco no João, a voz assim a pedir, de Dosreis, doeu mais que tudo, um mais velho como ele não pedia, mandava. A vergonha veio mais depressa, o sangue fugiu todo, a voz rouca um pouco, do Lomelino, é que abaixou o braço, os olhos, todo o grande corpo do João. Com raiva de bater mas era no Lomelino, sem saber ainda o que podia fazer nessa hora, João Miguel desatou fugir no areal, pelo frio adiante, na direção das luzes derretidas no meio do cacimbo, com o Lomelino dos Reis atrás dele.

Garrido Kam’tuta virou então no escuro, com devagar, arrastando outra vez a perna aleijada. Toda coragem tinha fugido embora com os amigos e, assim, só foi encostar-se na parede da quitanda sem força para nada. Sentou no chão e desatou chorar com choro silencioso.

Na mesma hora que a patrulha dava encontro com o cap’verde Lomelino dos Reis e lhe agarrava com um saco cheio de patos gordos, o Garrido Fernandes Kam’tuta estava roubar o papagaio Jacó.




continua página 68...


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∗ meio-litro — vinho.
∗ Kinaxixi — bairro, musseque de Luanda.
∗ Cê-Efe-Bê — C. F. B. ou Caminho de Ferro de Benguela.
∗ mutopa — cachimbo indígena.
∗ guarda-fios — que toma conta dos fios do telégrafo ao longo da linha férrea.
∗ fator — o controlador de bilhetes, das passagens.
∗ fiel — almoxarife.
∗ cagunfas — medroso; covarde.
∗ vuzar — bater com força; arrancar.
∗ cafucambolar — dar cambalhotas.
∗ imbondeiro — baobá.

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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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a mesma lei, a mesma língua (obviamente do colonizador, um drama linguístico, né? escrever na língua do colonizador)




Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 1963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


Leia também:


Contos Africanos : Luandino Vieira - Vavó Xíxi... a chuva não caía (01)

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória Ladrão e Papagaio... Um tal Lomelino (01)
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Contos Africanos : Luandino Vieira - Vavó Xíxi... No silêncio da cubata ... (07)

  Luaanda... Vavó Xíxi e Seu Neto Zeca Santos




Luandino Vieira





terminando...


No silêncio da cubata, com a luz da tarde a misturar no escuro da noite, vavó Xíxi sente os passos do neto chegar, empurrar a porta com jeito, devagar, como o neto nunca fazia. A figura dele, alta e magra, ficou desenhada na entrada com a luz da rua nas costas. Zeca teve de abrir bem os olhos para habituar no escuro e andou muito cauteloso.

— Vavó?! Vavó, onde está?

Deitada na esteira, vavó continuou gemer e o neto correu no canto onde ela estava tapada a tremer.

— O que é então, vavó? Diz ainda! Está doente? É o quê?

— Aiuê, minha vida! Aiuê, minha barriga! Morro!...

Zeca foi na porta outra vez e abriu-lhe bem. A luz da rua, luz do dia morrendo misturada na outra claridade dos refletores, olhos grandes acesos em cima das sombras de todos os musseques, entrava com medo naquele escuro tão feio. Vavó já tinha se encostado na parede, o cobertor a tapar as pernas e a barriga.

— Então, menino, conta só! Não tenho nada, fala!...

O neto percebeu nessas palavras o mesmo desses dias todos, a razão que sempre fazia vavó perguntar, adiantar saber se tinha encontrado serviço, se já tinha ganhado qualquer coisa para comer. E ficou com vergonha ali, na frente dela, de falar aquele trabalho, serviço de monan-gamba do porto e mesmo assim o vencimento de dividir com o homem da praça. O melhor era calar a boca, não falar esses casos; ir ao trabalho; receber dinheiro e adiantar comprar coisas de comer; depois, pôr uma mentira de outro serviço.

— Nada que arranjei ainda vavó. Procurei, procurei, nada! Mano Maneco ainda m’ajudou... Meu azar, vavó!

— Comeste, menino?

— Ih!? Comi o quê então? Nada, vavó!

— Aiuê, minha barriga! Menino tinha razão mesmo. Mas a lombriga estava me roer, não pude mais parar...

Contou então, com as lamentações dela, sempre a falar também ele não tinha mais juízo, senão nada disso que ia suceder, é assim, uma pessoa fica velha e pronto! os mais novos pensam é trapo de deitar fora, pessoa tem fome, come mesmo o que aparece e depois, no sono, lhe atacam essas dores na barriga, parecia estava mesmo arder lá dentro, pior que jindungo∗, mais pior que fogo...

Zeca Santos ouvia sem atenção, na cabeça não saía mas é Delfina, aquele quissende dela, essa confusão sem querer, assim à toa mesmo, como ia lhe desfazer mesmo? Agora, apostava, a rapariga não aceitava mais conversa dele, quando desculpasse que estava doente não ia lhe aceitar, ia lhe chamar de mentiroso e vadio. Uma tristeza pesada agarrava-se, teimosa dentro dele. E o olho vermelho e inchado da chapada, estava doer, piscar, tudo na frente dele eram duas coisas. Vavó continuava:

— Pois é! Eu não lhe avisei, menino? Não lhe avisei para ir na missa, no domingo? Padre Domingos perguntou o menino, eu é que desculpei a doença.

— Sukuama! Mas padre Domingos ia me dar de comer? Ia me dar o serviço, vavó?

A dor do olho a inchar zangou Zeca, começou tirar a camisa amarela, depressa, quase lhe descosia, e vavó aproveitou logo:

— Isso, menino! Agora rasga, não é? Comeste o dinheiro aí na camisa de suingue∗, agora rasga?!... Aiuê, minha vida, estes meninos não têm juízo, não têm mais respeito nos mais velhos...

Zeca Santos quis acalmar, a cabeça começava também a doer muito:

— Mas vavó, ouve então! Não começa assim me disparatar só à toa. Verdade eu fiquei dormir, não fui na missa, e depois?...

Vavó Xíxi quase saltou, encostou bem na parede, para levantar faltava pouco:

— E depois? E depois? O menino ainda pergunta não lembra já todos os dias está me chatear: “Vavó, comida então?”, “vavó, matete onde está?”, “vavó, vamos comer é o quê?” Não lembras? Anh!... E padre Domingos, ele mesmo podia te arranjar emprego.

— Ora, possa! Serviço de varrer a igreja, não é? Não preciso!

— Cala-te a boca, menino! Coisas da igreja não falas assim!

Zeca Santos aceitou, já sabia nessas horas não adiantava falar em vavó. Se continuava ainda iam se zangar. Sentia o coração pesado desse dia de confusão e o olho magoado picava, doía, inchado, mas o que fazia mais sofrer era o medo que Delfina não ia lhe perdoar, mesmo que não tinha culpa, ia lhe trocar por João Rosa e isso punha-lhe triste. Na barriga, o bicho antigo já não roía mais. Era só uma dor quieta, funda, parecia estavam-lhe queimar ali. Com a camisa na mão procurou prego de lhe pendurar e, num instante, a cara dele, magra e comprida, ficou na claridade da porta.

— Ená, Zeca! — vavó tinha agora outra voz, admirada, mais amiga. — Chega aqui então...

Sorria; na sua cabeça velha as ideias começaram a se juntar devagar, a arranjar sua significação, a lembrar essa conversa, nem deu importância, até já tinha-se esquecido, é verdade Delfina, aquela menina de nga Joana, esteve passar ali na cubata, seis horas quase, adiantou perguntar o neto Zeca e quando vavó gemeu que não tinha voltado ainda do serviço, a menina saiu nas corridas, nem obrigada nem nada, não pôs mais explicações...

— Sente ainda, Zeca?!... O olho assim encarnado, é o quê? Pelejaste?

Zeca levou logo-logo a mão na cara para esconder, mas já era tarde: vavó tinha visto bem e, na cabeça dela, as ideias começaram brincar.

— In! Então não disse na vavó, o branco sô Souto...

— Sukuama! O branco sô Souto você falaste foi o chicote nas costas, Zeca!...

— Pois é, vavó. É nas costas. Vavó viu bem. Mas o rabo do chicote passou aqui em cima, de manhã não estava doer, agora parece mesmo a falta de luz está-lhe fazer inchar...


Mas vavó Xíxi já estava levantada. A cara dela, amachucada e magra, toda cheia de riscos, ria, enrugando ainda mais a pele, quase as pessoas não podiam saber o que é nariz, o que é beiços. Só os olhos, uns olhos outra vez novos, brilhavam.

— Ai, menino! Menino anda mesmo com seu azar, Zeca! Até mesmo no olho, chicote te apanhou-te! Azar quando chega...

Zeca Santos percebeu, dentro destas palavras, a troça de vavó Xíxi. Não podia jurar mesmo, mas aquela cara assim, a pressa de levantar na esteira, as palavras que não falavam direito, mostravam vavó já sabia Delfina tinha-lhe posto aquela chapada na cara. Mas como, então? Quem podia lhe contar? Ninguém que assistiu. Só se foi mesmo Fina que passou ali na cubata. Com esse pensamento, uma mentira grande que ele sabia afinal, Fina não tinha mesmo confiança com vavó para lhe pôr essas conversas, o coração de Zeca ficou mais leve, bateu mais com depressa e os olhos procuraram para ver bem na cara a confirmação da sua sorte. Mas nga Xíxi já estava outra vez abaixada, remexendo as panelas vazias de muitos dias e Zeca deixou-se ficar distraído, gozando a felicidade de pensar Delfina tinha passado ali.

Diferente, outra vez macia e amiga, a voz de vavó perguntou do meio das panelas e quindas∗ vazias:

— Olha só, Zeca!? O menino gosta peixe d’ontem? Espantado, nem pensou mais nada, respondeu só, guloso:

— Ai, vavó! Está onde, então?... Diz já, vavó, vavó sabe eu gosto. Peixe d’ontem...

A língua molhada fez festas nos beiços secos, lembrou as postas de peixe assado, gordo como ele gostava, garoupa ou galo tanto faz, no fundo da panela com molho dele, cebola e tomate e jindungo e tudo quanto, como vavó sabia cozinhar bem, para lhe deixar dormir tapado, só no outro dia, peixe d’ontem, é que se comia. Os olhos de Zeca correram toda a cubata escura, mas não descobriu; só vavó estava acocorada entre panelas, latas, quindas vazias.

— Ai, vavó, diz já então! A lombriga na barriga está me chatear outra vez! Diz, vavó. Está onde então, peixe d!ontem?

De pé na frente do neto, as mãos na cintura magra, vavó não podia guardar o riso, a piada. De dedo esticado, as palavras que estavam guardadas aí na cabeça dela saíram:

— Sente, menino! Se gosta peixe d’ontem, deixa dinheiro hoje, para lhe encontrar amanhã!

Zeca, banzado, boca aberta, olhava vavó mas não lhe via mais. Só a boca secava com o cuspo que queria fugir na barriga, o sangue começava bater perto das orelhas e a tristeza que chegava dessa mentira de nga Xíxi apagou toda a alegria que tinha-lhe posto o pensamento de Delfina passando ali na cubata. O olho da chapada doía. No estômago, a fome calou, deixou de mexer, só mesmo a língua queria crescer na boca seca. Envergonhado, se arrastou devagar até na porta, segurando as calças que tinha tirado para dobrar.

Por cima dos zincos baixos do musseque, derrotando a luz dos projetores nas suas torres de ferro, uma lua grande e azul estava subir no céu. Os monandengues brincavam ainda nas areias molhadas e os mais velhos, nas portas, gozavam o fresco, descansavam um pouco dos trabalhos desse dia. Nos capins, os ralos e os grilos faziam acompanhamento nas rãs das cacimbas e todo o ar estava tremer com essa música. Num pau perto, um matias∗ ainda cantou, algumas vezes, a cantiga dele de pão-de-cinco-tostões.

Com um peso grande a agarrar-lhe no coração, uma tristeza que enchia todo o corpo e esses barulhos da vida lá fora faziam mais grande, Zeca voltou dentro e dobrou as calças muito bem, para aguentar os vincos. Depois, nada mais que ele podia fazer já, encostou a cabeça no ombro baixo de vavó Xíxi Hengele e dasatou a chorar um choro de grandes soluços parecia era monandengue, a chorar lágrimas compridas e quentes que começaram a correr nos riscos teimosos as fomes já tinham posto na cara dele, de criança ainda.




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∗ jindungo — pimenta malagueta pequena.
∗ suingue — suinguista: farrista; bailarino.
∗ quinda — o mesmo que balaio; pequena cesta de carga.
∗ matias — pássaro.

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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 1963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


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quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Contos Africanos : Luandino Vieira - Estória do Ladrão e do Papagaio... Inácia tinha puxado a saia... (06)

 Luaanda... Estória do Ladrão e do Papagaio




Luandino Vieira



continuando...


Inácia tinha puxado a saia bem em cima dos joelhos redondos e lisos e Garrido sentiu nos olhos a queimar-lhe, a tapar tudo o resto, aquela pele preta, engraxada, luzia no escuro lá dentro das coxas compridas e rijas e esse sentir queria lhe puxar a cabeça mais em cima para espreitar outra vez, mais, era bom aquele branco a chamar lá no fim do escuro todo do corpo dela, Garrido podia jurar não tinha cor mais bonita que aquela, um branco muito lavado lá no fundo da noite da saia, mais escura agora com a noite de verdade que chegava, quem sabe mesmo, com as corridas para tapar o encarnado da cara de Garrido Fernandes. 

— Ená, Gagá! Não treme então! Segura com a outra mão...

Agarrou-lhe no tornozelo bem feito, apertando com carinho. O calor parecia corria nos braços como água da chuva, saía do corpo dele com depressa, para entrar na perna da Inácia, ela até tinha-se abaixado mais fingido era para espiar o trabalho, mas, com a respiração, só as mamas macias faziam festas na cabeça de monandengue do Garrido. Talvez mesmo, quem sabe?, a bitacaia nessa hora estava gozar os falhanços∗ de Kam’tuta, ele, que era um mestre nos mauindos, não conseguia lhe furar. Verdade que o alfinete estava grosso, mas um como ele, devia trabalhar ainda com qualquer ferramenta à-toa.

Sentiu a bitacaia podia morar mesmo lá, pôr ovo, fazer mauindo, nada que lhe interessava já nessa hora; se ia continuar assim com os quissondes a lhe atacar no sangue cadavez mais e a malandra da Inácia a chegar, a encostar, mostrar os segredos do corpo dela, provocar dessa maneira, cadavez podia ainda pensar ela queria dele, ia lhe agarrar ali mesmo, atrás da capoeira, que a noite já prestava, escura que vinha.

Mas quem veio, num vôo torto, foi o Jacó. Pousou na dona, desatou bicar o Garrido, estragou-lhe o serviço que queria fazer, deu-lhe berrida até embaixo da mandioqueira.

Falei a raiz da estória era o Jacó e é verdade mesmo, porque se não era esse bicho ter todos os carinhos de Inácia, nada que ia suceder, nem o Kam’tuta aceitava o que a pequena pediu-lhe no fim e era uma vergonha, ele já não estava mais monandengue de andar fazer essas habilidades.

Mas como é Garrido podia, cheio de vontade pela Inácia, queria-lhe mesmo amigar para acabar a dor no coração e matar os quissondes que andavam-lhe passear no sangue, como é ele ia fazer, se um papagaio velho e sujo, mal-educado, adiantava pôr beijo na boca da pequena e esconder embaixo das pernas dela?

A noite estava chegar, mas já morava no coração de Garrido logo na hora a Inácia decidiu acabar mesmo zangar o rapaz com o Jacó. Disse baixinho, quase nem que se ouvia:

— Kam’tuta, sunga...

Nem precisou acabar. Logo o Jacó abriu a asa e pôs um barulho parecia era riso de pessoa, antes de falar. Cantou:

Kam’tuta... tuta... tuta... sung’ó pé... pé... pé... 

E depois Inácia continuou furar no coração dele. Disse:

Tunda!∗...

Jacó não esperou. Mais alto que tudo continuou cantar:

Sung’ó pé... tundé... tundé... tundé... 
sung’ó pé... pé... ∗ 

E lembrou mesmo mais, para acabar a brincadeira: pegou o bago de jinguba no bolso, pôs na boca dela, pediu:

— Jacó, Jacó... tira o baguinho!

Jacó veio e com o cantar de riso dele, bicou-lhe na boca, tirou-lhe a jinguba. Garrido, era um soco cadavez ele fazia isso. Nem que aguentou mais, pediu:

— Inácia! Você me faz pouco, se quiser. Mas não deixa esse rosqueiro te mexer na boca. Um bicho porco!

Com cara de menina que não sabe nada, pôs os olhos grandes na cara de Garrido:

— Ai? Tem mal?

— Tem, Naxa,

Nem que refilou lhe chamar como ela não gostava.

— Tenho ciúme do bicho, pronto! Já sabe!

Não tinha mesmo no mundo cara tão sonsa como de Inácia nessa hora:

— Não digas?! Você sente raiva por papagaio me pôr beijo assim?...

— Por acaso sim, Inácia, não faz mais!

— E se eu digo a ele: Jacó! Jacó! procura o bago...

Nessa hora foi só ver o papagaio meter o bico, a cabeça toda no decote largo, procurando a jinguba Inácia tinha deitado lá no meio das mamas gordas que tremiam com o sacudir das asas do pássaro. Garrido nem sabia já o que sentia: se era o quissonde no sangue, o jindungo a correr, pensando o peito dela assim bicado devagarinho como Jacó sabia; se era raiva de apertar pescoço nesse bicho ordinário, podia mexer onde ele até tinha vergonha de olhar só.

— Também tem ciúme do meu peito, Gagá?

— Juro! Por acaso tenho! E raiva no Jacó!

— E se eu deixo ele andar dentro do vestido, você zanga, Gagá?

— Por acaso! Por acaso sou capaz de lhe apertar o pescoço. Juro! Inácia, não faz isso, não faz isso, não me provoca só, Naxa!

Mas o Jacó já saía com a cabeça do peito para engolir o bago, tinha-lhe encontrado, a Inácia ria toda, mexia, torcida de cócegas que as penas lhe punham.

— Fica quieto, Jacó! Está me pôr comichões...

— É os piolhos do fidamãe!

— Não tem piolhos o Jacó! Piolho tem você... Jacó... Jacó... vai chover!

Nessas palavras então era o cúmulo, ninguém que podia mesmo continuar ali a ser gozado dessa maneira assim, sem respeito. O papagaio desceu devagar e espreitando com a cabeça nos joelhos apertados da Inácia, meteu-lhe embaixo da bainha, começou a andar lá para dentro, para o escuro, largando seus pios e assobios, cantarolando :

Vai vir chuva... vai vir chuva... 

Inácia ria, torcida com cócegas, a cara de raivado do Garrido Fernandes. E quando o rapaz levantou-se devagar para adiantar arrancar com a perna aleijada, feito pouco, triste e envergonhado, Inácia chamou-lhe manso, com todo o açúcar-preto da voz dela:

— Gagá! Não me deixa só no escuro...

É que o escuro tinha descido já. As luzes começavam piscar em todos os lados, na quitanda já tinha barulho de homens a gastar o dinheiro no vinho, voltando do serviço. Garrido parou, baralhado, não sabia se ficava, se ia embora; se calhar era só para adiantar fazer mais pouco que lhe chamava, a voz era de mentira, aquele Gagá não queria dizer. Mas, devagar, veio sentar-se mais perto dela, pediu:

— Primeiro, se você quer eu fico, enxota o fidamãe do Jacó!

Inácia aceitou, deu-lhe berrida; o bicho foi embora pelo chão, pesado e torto, parecia era pato marreco, falando os insultos sô Ruas tinha-lhe ensinado e ele nunca esquecia.

— Depois, se você quer eu fico para te tomar conta até na hora de vir a tua senhora, deixa ainda te dar um beijo!

— Elá! ‘tá saliente!...

Nem Kam’tuta mesmo que sabia como é tinha-lhe saído essas palavras na garganta, nada que tinha pensado disso naquela hora, se calhar era o quente do sangue que ensinava a coragem desses pedidos assim. Inácia riu muito, os seus dentes todos de coco ficaram a tremer no escuro, a pôr música nas orelhas de Kam’tuta.

— ‘tá bem! Aceito!

Atrapalhado, não esperava ela ia dizer sim, Garrido levantou os braços, a cabeça começou trabalhar mais depressa que as mãos e sentiu, mesmo sem lhe tocar, a pele quente das costas que ia abraçar, o macio de sumaúma dos lábios grossos, o molhado quente da boca dela, tudo assim como pensava de noite, os olhos abertos no escuro do seu canto onde dormia e fabricava aventuras que nunca se passavam mais.

— Espera ainda! Você pode me pôr um beijo, se você quer te deixo mesmo passar sua mão nas minhas pernas, mas quero troco também...

— Diz, diz! Eu faço já!

— Juras?

— Juro a alma da minha mãe!

— Olha então... Eu ouvi que você pode mesmo andar ao contrário... Põe mãos no chão, arruma tua perna aleijada na capanga e anda em volta do quintal para eu te ver ainda!

— Não!

Uma dor grande, de lhe pôr chapadas, estava nas mãos levantadas prontas para lhe abraçar.

— Não, Naxa! Não faz pouco de mim, assim!

— Ai?! Fazer pouco, como então? Pra você se mostrar...

— Não! Não sou Nuno. E mesmo se eu faço, não é habilidade nada. E só porque sou aleijado, e Deus Nosso Senhor assim é que mandou...

— Deixa, pronto!... Você é que sabe, Gagá. Se não queres me pôr um beijo, se não gostas as minhas pernas, é contigo. Mas depois não vem me chamar eu sou camuela consigo, só gosto os outros!

Uma vontade de chorar, de berrar, de rasgar aquela cara de miúda sem pecado da Inácia, a olhar-me quieta, com os grandes olhos de fogo, é que tinha. Mas as mãos não aceitavam chapadas, queriam era só abraçar-lhe, amarrar-lhe no corpo estreito dele, esfomeado, cheio de sede. Com as lágrimas quase a chover, baixou a cabeça, estendeu os braços magros e pôs as largas mãos no chão. Nem precisou dar balanço nem nada, o corpo ficou pendurado para baixo, uma perna no ar e a outra, fina e aleijada, enrolou logo no pescoço.

Assim quieto, endireitou a cabeça de monandengue. Mirou Inácia sentada, viu a tristeza mesmo, a pena, já estavam chegar, vendo-lhe nessa posição é que parecia ele era meio-homem só. Mas não quis olhar-lhe mais, começou andar. Cada passo das mãos era um espinho no coração, um peso que acrescentava, não deixava ir na zuna e ele queria acabar logo-logo, fugir dessa figura que ele mesmo via dar a volta no quintal com depressa, quase era corrida já, para matar a vergonha, ninguém lhe ver, adiantar receber o prêmio, fugir para longe.

— Pronto, já ‘cabei, Naxa...

Estava triste, triste, a voz. Azuis, os olhos quase cacimbados∗. Sem força nos braços para abraçar. Mas o quissonde veio morder outra vez no sangue vendo Inácia assim quieta, derrotada, nem que mexia, só os olhos a mirarem para lá da mandioqueira, já não a rapariga antiga, parecia era uma miúda mesmo. Uma grande ternura cobriu a vergonha toda do Kam’tuta, apagou a tristeza, desculpou as malandrices da Inácia, queria-lhe pôr festas, falar coisas bonitas, prometer, fazer, mas nessa hora só conseguiu abaixar-se sorrindo bom, para um abraço melhor ainda do que queria, sem jindungo no corpo, sem vontade de lhe apertar, de lhe encostar nele, só de pôr brincadeira no cabelo dela, passar a mão na pele redonda dos ombros, repetir mansinho nas orelhas dela as palavras ele sabia ela gostava.

E se não tivesse pensado assim, se não estivesse cheio dessa felicidade que vem sempre quando a gente pensa as coisas boas para outra pessoa, tinha pelejado, tinha arreado porrada na Inácia, não fazia mal ela era uma mulher, não havia direito fazer pouco assim um homem. Mas não, a felicidade não deixou. A chapada de Inácia, os gritos da pequena no meio das lágrimas, depois as gargalhadas de mentira, só lhe fizeram ficar mais banzado, de boca aberta, nem a chapada na cara que lhe doeu, os olhos azuis grandes e fundos ficaram mirar espantados, tudo parecia estava suceder no meio do fumo da diamba, a Inácia a gritar, xalada∗, a insultar-lhe correndo para dentro da quitanda:

— Sungaribengo de merda! Filho da mãe aleijado! Sem-pernas da tuji! Pensas podes-me comprar com brincadeira de macaco, pensas? Tunda! Tunda! Vai ‘mbora saguim mulato, seu palhaço!...

Com devagar, puxando atrás dele a perna aleijada, o coração rebentado, o sangue frio, mais frio que o cacimbo das lágrimas e da noite fechada em cima do musseque, Garrido sentiu ainda muito tempo os assobios, a voz de fazer-pouco do fidamãe do papagaio Jacó, xingando-lhe lá de dentro da mandioqueira:

Kam’tuta... sung’ó pé... o pé... pé... pé...




continua página 59...


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∗ falhanço — tentativa frustrada.
∗ tunda! — rua!; sai!
∗ Sung’ó pé tundé... tundé... tundé... sung’ó pé... — Puxa o pé... rua... rua... rua... puxa o pé...
∗ cacimbado — molhado, enevoado pelas lágrimas.
∗ xalada — maluca; doída.


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José Luandino Vieira -

Com José Luandino Vieira a literatura angolana adquire dimensão internacional. Nascido a 4 de maio de 1935 e criado à vontade nos velhos musseques da Luanda antiga, o escritor recria linguagens de origens diversas e, através de sua prosa extraordinária, fixa o fato cultural local, universalizando-o. Suas atividades literárias e políticas no quadro da luta pela libertação nacional levam-no diversas vezes à prisão, num total de onze anos.

As três narrativas aqui reunidas retratam a dura realidade dos musseques angolanos - os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. "Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era - digamos assim - o aquário onde meus personagens e eu circulávamos", afirma Luandino.

E, dura realidade à parte, Luandino cria personagens memoráveis. Como "Vavó" Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos). Ou o Garrido Kam'tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (Estória do ladrão e do papagaio). Ou nga Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (Estória da galinha e do ovo).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem e nos fazem lembrar da nossa própria trajetória literária.



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a mesma lei, a mesma língua (obviamente do colonizador, um drama linguístico, né? escrever na língua do colonizador)




Luuanda 
Estórias 

Escritas no Pavilhão Prisional da PIDE e nas masmorras da l.a Esquadra da P.S.P.A., em Luanda, durante o ano de 1963. 

1.a ed. — Luanda, “ABC”, 1964. 
2.a ed. (revista) — Lisboa, Edições 70, 1972 (com uma tiragem especial de 500 + XXV exemplares). 
3.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
4.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1974. 
5.a ed. — Lisboa, Edições 70, 1976. 
6.a ed. — Lisboa/Luanda, Edições 70 — U.E.A., 1977. 
7.a ed. (livro de bolso) — Luanda, U.E.A., 1978.

— Circulou em Lisboa, em 1965, uma edição clandestina, com a indicação (falsa) de ter sido feita           em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, 
— Prêmio literário angolano Mota Veiga em 1964. 
— Grande Prêmio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1965. 
— Tradução russa por Helena Riáusova: Luanda, na revista Innostranaya Literatura, Moscou,              1968. 


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