quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Émile Zola - Germinal: Quarta Parte - (II.b)

Germinal


Émile Zola

Tradução de Francisco Bittencourt

Quarta Parte

II
 continuando...

     Outros membros da delegação elevaram suas vozes. 

— É isso mesmo... Ele disse o que nós pensamos... Só queremos o direito.

     Alguns, em silêncio, aprovavam com a cabeça. O salão luxuoso tinha desaparecido com seus ouros e bordados, seu amontoado misterioso de quinquilharias. Eles já nem mais sentiam o tapete que calcavam com seus sapatos grosseiros. 

— Mas deixem-me responder! — acabou gritando o Sr. Hennebeau, que começava a ficar zangado. — Em primeiro lugar, não é verdade que a companhia esteja ganhando dois cêntimos por vagonete... Vejamos os dados.

     Seguiu-se uma discussão confusa. O diretor, tentando dividi-los, interpelou Pierron, que se esquivou, balbuciando. Levaque, ao contrário, estava à frente dos mais agressivos, embaralhando as coisas, afirmando fatos que ignorava.
     O murmúrio crescia, indo morrer contra as tapeçarias, em meio àquele calor que abafava. 

— Se todos falam de uma só vez — continuou o Sr. Hennebeau —, não poderemos entender-nos.

     Havia recuperado sua calma, sua polidez rude e controlada, de gerente que recebeu uma missão e quer vê-la respeitada. Desde as primeiras palavras não tirou os olhos de Etienne, manobrando para arrancá-lo do silêncio em que este se fechava. Assim é que, abandonando a discussão dos dois cêntimos, repentinamente ampliou o tema de debates. 

— Vamos, confessem a verdade, vocês estão obedecendo a motivos detestáveis. É uma peste que atualmente sopra sobre todo o operariado e corrompe mesmo os melhores. Mas não preciso da confissão de ninguém, sei bem que vocês, antes tão tranquilos, foram catequizados. Não estou certo? Prometeram-lhes uma grande vida, disseram-lhes que tinha chegado a vez de serem os patrões... Enfim, estão sendo arregimentados para essa malfadada Internacional, para esse exército de malfeitores, cujo sonho é a destruição da sociedade...

     Nesse momento Etienne interrompeu-o. 

— Está enganado, senhor diretor. Nenhum mineiro de Montsou ainda aderiu. Mas, se os empurrarem, todas as minas se alistarão. Isso depende da companhia.

     Daí por diante a luta continuou entre ele e o diretor, como se os outros não estivessem mais ali. 

— A companhia é uma mãe para os seus empregados, não deve ameaçá-la. Só este ano ela gastou trezentos mil francos na construção de conjuntos habitacionais operários, que não lhe rendem nem dois por cento, isso sem falar nas aposentadorias que dá, no carvão, nos medicamentos. Você, que parece ser inteligente e se tornou em poucos meses um dos operários mais competentes, não faria melhor espalhando essas verdades, em vez de tresmalhar-se na companhia de pessoas de péssima reputação? Sim, refiro-me a Rasseneur, que tivemos de alijar para salvar nossas minas da podridão do socialismo... Você é visto constantemente na casa dele, e foi ele, com certeza, que o levou a criar essa caixa de previdência, que toleraríamos de boa vontade se fosse apenas um motivo de economia para os operários, mas que não passa de uma arma contra nós, um fundo de reserva para pagar os gastos de guerra. E, já que estamos no assunto, devo acrescentar que a companhia pretende exercer um controle sobre essa caixa.

     Etienne deixou-o falar, com os olhos fitos nos dele, os lábios agitados por uma leve contração nervosa. Quando a última frase foi pronunciada, ele sorriu e respondeu simplesmente: 

— Esta é uma nova exigência, senhor diretor. Até agora o senhor não reclamara esse controle... Infelizmente, nosso desejo é que a companhia se ocupe menos de nós, e, em vez de representar o papel de mãe, mostre-se apenas justa, dando-nos aquilo que é nosso, isto é, nosso ganho, que ela reparte consigo própria. Então é honesto, a cada crise, deixar morrer de fome os trabalhadores para salvar os dividendos dos acionistas? Sem levar em conta tudo o que o senhor disse, o novo sistema é uma baixa disfarçada de salário, e é isso que nos revolta, porque, se a companhia tem que fazer economia, está agindo muito mal em aplicar seu processo unicamente sobre o operário. 
— Ah, chegamos onde eu queria! — bradou o Sr. Hennebeau. 
— Estava esperando por esta acusação de deixar o povo faminto e viver do seu suor! Como pode dizer semelhantes bobagens, você, que devia saber dos riscos enormes que correm os capitais na indústria, nas minas, por exemplo? Uma galeria completamente equipada custa hoje de um milhão e meio a dois milhões de francos... E quanto tempo leva para que se tire um juro mínimo de tamanha soma empatada! Quase metade das sociedades carboníferas da França estão quebrando... O que vem a ser uma estupidez acusar de crueldade as que continuam abertas. Quando seus operários sofrem, elas também sofrem. Ou acredita que a companhia não tem tanto a perder quanto vocês com a crise atual? Não é ela que determina o salário; está apenas obedecendo à concorrência, sob pena de ruína. Culpem os fatos, não a companhia. Mas vocês não querem ouvir, não querem compreender, essa é a verdade! 
— Mas sim — retrucou o rapaz. — Nós compreendemos muito bem que não há melhora possível para o operariado enquanto as coisas continuarem assim, e é por isso mesmo que os trabalhadores acabarão, cedo ou tarde, por fazer que elas mudem de rumo.

     Esta frase tão moderada na forma, foi pronunciada a meia voz, mas com uma convicção tão cheia de ameaça, que se fez um grande silêncio. Um mal-estar, um sopro de medo perpassou pelo confortável salão. Os outros delegados, que compreendiam mal, sentiam, no entanto, que seu companheiro acabava de reclamar por todos no centro daquele luxo. E eles começaram a lançar olhares oblíquos às tapeçarias extravagantes, às poltronas refinadas, a todo aquele luxo cuja menor bagatela daria para comprar a sopa de um mês inteiro.
     O diretor, que ficara pensativo, finalmente ergueu-se em sinal de despedida e todos o imitaram. Etienne tocou ligeiramente no braço de Maheu; este voltou a falar, mas já com a língua pastosa e emperrada: 

— Então o senhor não tem mais nada a dizer? Iremos dizer aos outros que não aceita nossas condições... 
— Eu, meu bom homem — exclamou o diretor —, não posso aceitar nada! Não passo de um assalariado, como vocês; mando tanto como o último dos empregados. Recebo ordens, e meu único papel é cuidar para que elas sejam levadas a bom termo. Disse-lhes o que julguei ser do meu dever dizer-lhes, mas não posso decidir nada. Vocês me trouxeram suas exigências, eu as comunicarei à administração e depois lhes transmitirei a resposta.

     Falava com a sua maneira correta de alto funcionário, evitando inflamar-se, com uma secura cortês de simples instrumento da autoridade. Os mineiros, agora, olhavam-no com desconfiança, perguntando a si mesmos de onde vinha aquele homem, que interesse podia ter ele em mentir, quanto deveria roubar nessa posição de intermediário entre eles e os verdadeiros patrões. Talvez um intrigante, pois, sendo pago como um operário, como é que podia viver com tanto luxo?
     Etienne ousou intervir outra vez. 

— Veja, senhor diretor, como é lamentável que não possamos advogar nossa causa pessoalmente. Explicaríamos muitas coisas, encontraríamos razões que seguramente o senhor não vê. Se soubéssemos pelo menos a quem nos dirigir...

     O Sr. Hennebeau não se irritou com o rapaz, chegou mesmo a sorrir. 

— Ora! assim tudo se complica, vocês não têm confiança em mim... Terão que ir até lá, então...

     Os delegados seguiram seu gesto vago, sua mão estendida para uma das janelas. Onde era esse lugar? Paris, sem dúvida. Mas não sabiam ao certo, devia ser uma paragem longínqua e aterradora, numa região inacessível e misteriosa onde reinava um deus desconhecido, acocorado no fundo do seu tabernáculo. Jamais o veriam, sentiam-no apenas como uma força que, de longe, pesava sobre os dez mil mineiros de Montsou. E, quando o diretor falava, era essa força que tinha por detrás, oculta e pronunciando seus oráculos.
     Um enorme desânimo se abateu sobre eles. O próprio Etienne teve um encolher de ombros como dizendo-lhes que o melhor era irem embora. Enquanto isso o Sr. Hennebeau batia amistosamente no braço de Maheu, pedindo-lhe notícias de Jeanlin. 

— Essa foi uma lição bem triste, e você ainda defende os revestimentos feitos às pressas! Reflitam, meus amigos, compreenderão em seguida que uma greve seria maléfica para todos nós. Antes de uma semana estarão morrendo de fome. Que farão nesse momento? Conto com o proverbial bom senso de vocês; estou convencido de que até segunda-feira, o mais tardar, estarão de volta ao trabalho.

     Partiram. Abandonaram o salão acotovelando-se e tropeçando como um rebanho, curvados, sem responder àquela esperança de submissão. O diretor acompanhou-os e, num último gesto, resumiu o encontro: a companhia de um lado, com sua nova tarifa, os operários do outro, com seu pedido de um aumento de cinco cêntimos por vagonete. Para matar neles qualquer laivo de ilusão, julgou dever preveni-los de que suas condições seriam certamente rechaçadas pela administração. 

— Reflitam antes de fazer tolices — repetiu ele, inquieto com seu silêncio.

     No vestíbulo, Pierron cumprimentou-o disfarçadamente, enquanto Levaque fazia um gesto de pôr o boné. Maheu procurava alguma coisa para dizer quando novamente Etienne tocou no seu braço. E todos se retiraram em meio a um silêncio ameaçador. Só a porta bateu com grande estardalhaço.
     Ao voltar para a sala de jantar, o Sr. Hennebeau encontrou seus convivas imóveis e mudos diante dos cálices Wicor. Em poucas palavras expôs a reunião a Deneulin, cujo semblante acabou de se anuviar. Depois, enquanto ele tomava seu café frio, tentaram falar de outra coisa, mas os próprios Grégoire voltaram ao tema, admirados de não haver leis que proibissem os operários de abandonar o trabalho. Paul tranquilizou Cécile, afirmando que os policiais estavam por chegar.
     Finalmente a Sra. Hennebeau chamou o empregado. 

— Hippolyte, antes de irmos para o salão, abra as janelas para arejar.

continua na página 193...
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O pai de Zola tinha 44 anos quando conheceu Émilie-Aurélie Aubert, numa de suas viagens a Paris. Apesar da grande diferença de idade — a moça não chegara aos vinte anos —, acabaram casando — se. O resultado dessa união foi Émile Zola, nascido em 12 de abril de 1840, durante uma estada do casal em Paris. O menino mal conheceu o pai: em 1847, François faleceu. 
As coisas ficaram difíceis. Sozinha e com grandes esforços, a mãe procurou equilibrar o orçamento doméstico e fazer que o filho estudasse. De certa forma, ela teve sucesso: Zola foi aluno do Colégio Notre-Dame e do Colégio de Aix. Quando o rapaz atingiu a maioridade, partiu com Émilie para Paris e, graças a um amigo da família, conseguiu um emprego na Alfândega.
Em dezembro de 1859, concluía sua primeira obra em prosa, Les Grisettes de Provence (As Costureirinhas de Provença). Continuava, porém, desconhecido e insatisfeito. Ele mesmo costumava dizer: "Ser sempre desconhecido é chegar a duvidar de si; nada engrandece os pensamentos de um autor como o sucesso".
Assim, no início de 1866, deixou o emprego para dedicar-se à literatura. 
Abandonou o romantismo de seus anos de adolescência e passou a admirar outros autores: Balzac (1799-1850), Stendhal (1783-1842), Flaubert (1821-1880). Essa guinada para o realismo devia-se principalmente às suas últimas leituras: das teorias evolucionistas de Darwin (1809-1882) até o Tratado da Hereditariedade Natural do Dr. Lucas, passando pela Filosofia da Arte de Taine (1328-1893). No entanto, o que parece tê-lo feito decidir-se pelo realismo foi a Introdução ao Estudo da Medicina Experimental (1865), de Claude Bernard (1813-1878). Essa obra foi importante para o rumo que Zola imprimiria a toda a sua obra: o rigor científico no romance, cujo objetivo, diria ele, é o mesmo das experiências de laboratório, isto é, o conhecimento da realidade. O que Claude Bernard havia feito com o corpo humano Zola faria com as paixões e os meios sociais.
Para fazer Germinal, Zola não se satisfez com a simples busca de documentos. Foi passar alguns meses numa região mineira. Morou em cortiços, bebeu cerveja e genebra nos botequins e desceu ao fundo dos poços para observar de perto o trabalho dos operários. Aos poucos foi se familiarizando com o meio onde viviam aqueles homens. Descobriu quais as principais doenças causadas pela mineração. Sentiu o problema dos baixos salários, os sacrifícios dos mineiros, a gota que cai com uma regularidade incrível sobre seus rostos, a dificuldade de empurrar um vagonete por um corredor estreito, o drama do salto na escuridão que eles têm de dar para poderem sobreviver. Numa passagem admirável, descreve a emoção de uma greve de operários. Mostra seu ódio animal. Um ódio que destrói tudo à sua passagem. Uma violência viva nos corpos que querem libertar-se, mesmo à custa da total destruição. Mostra também o amor feito sobre o carvão, os pequenos dramas das dívidas, as brigas no cortiço, a promiscuidade de pais e filhos em casas muito pequenas. A obra obteve enorme repercussão.
Em 29 de setembro de 1901, em Paris, Émile Zola morre asfixiado pelo gás do aquecedor.

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