quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Hannah Arendt - Origens do Totalitarismo: Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3. O Totalitarismo no Poder)

Origens do Totalitarismo

Hannah Arendt

Parte III 
TOTALITARISMO

Os homens normais não sabem que tudo é possível. 
David Rousset 

3. O Totalitarismo no Poder
     Quando um movimento, internacional em sua organização, universal em seu alcance ideológico e global em sua aspiração política, toma o poder num único país, coloca-se obviamente em situação contraditória. O movimento socialista escapou a essa crise, em primeiro lugar, porque a questão nacional — ou seja, o problema estratégico suscitado pela revolução — havia sido curiosamente negligenciado por Marx e Engels e, em segundo lugar, porque só teve de encarar o problema de governar depois que a Primeira Grande Guerra retirou da Segunda Internacional a autoridade sobre os membros nacionais, que em toda parte haviam aceito como fato inalterável a prioridade dos sentimentos nacionais em relação à solidariedade internacional. Em outras palavras, quando chegou o momento da tomada do poder em seus respectivos países, os movimentos socialistas já eram partidos nacionais.
     Essa transformação nunca chegou a ocorrer nos movimentos totalitários nazista e bolchevista. No momento da tomada do poder, os perigos para o movimento eram a "mumificação" que poderia ocorrer se a posse da máquina estatal o levasse ao congelamento sob forma de governo absoluto,[1] e a limitação de sua liberdade de movimento imposta pelas fronteiras do território em que havia galgado o poder. Para um movimento totalitário, ambos os perigos são igualmente mortais: a evolução na direção do absolutismo poria fim ao ímpeto interno do movimento, enquanto a evolução na direção do nacionalismo frustraria a expansão externa sem a qual o movimento não pode sobreviver. A forma de governo que os dois movimentos tomaram — ou melhor, que resultou quase que automaticamente da sua dupla pretensão de domínio total e governo mundial — é melhor definida pelo slogan de Trótski de "revolução permanente", embora a teoria de Trótski fosse apenas a previsão socialista de uma série de revoluções? desde a revolução antifeudal da burguesia até a antiburguesa do proletariado, que se alastrariam de um país para outro.[2] De "permanente", a teoria tinha apenas o nome, com todas as suas implicações semi-anárquicas; mas até Lênin impressionou-se mais com o nome do que com o seu conteúdo teórico. Seja como for, as revoluções, sob forma de expurgos gerais, viraram instituições permanentes na União Soviética sob o regime de Stálin após 1934.[3] Neste caso como em outros, Stálin concentrou os seus ataques contra o semi esquecido slogan de Trótski exatamente porque havia decidido usar a sua técnica.[4] Na Alemanha nazista, percebia-se claramente uma tendência semelhante na direção da revolução permanente, embora os nazistas não tivessem tido o tempo de realizá-la na mesma medida. De modo típico, a sua "revolução permanente" começou também com a liquidação da facção partidária que havia ousado proclamar abertamente "o próximo estágio da revolução":[5]
     "O Führer e a sua velha guarda sabiam que a verdadeira luta apenas havia começado".[6] No nazismo, em lugar do conceito bolchevista de revolução permanente, encontramos a noção de uma "seleção [racial] que não pode parar", e que exige a constante radicalização dos critérios pelos quais é feita a seleção, isto é, o extermínio dos ineptos.[7] O fato é que tanto Hitler como Stálin estenderam promessas de estabilidade para esconder a intenção de criar um estado de instabilidade permanente.
     Não poderia ter havida melhor solução para a intrínseca ambivalência resultante da coexistência entre governo e movimento, entre a pretensão totalitária e o poder limitado num território limitado, entre a participação ostensiva na comunidade de nações, na qual cada uma respeita a soberania da outra, e a pretensão de domínio mundial, do que essa fórmula esvaziada do seu primitivo conteúdo. Porque o líder totalitário enfrenta duas tarefas que a princípio parecem absurdamente contraditórias: tem de estabelecer o mundo fictício do movimento como realidade operante da vida de cada dia, e tem, por outro lado, de evitar que esse novo mundo adquira nova estabilidade; pois a estabilização de suas leis e instituições certamente liquidaria o próprio movimento e, com ele, a esperança da futura conquista do mundo. O líder totalitário tem de evitar, a qualquer preço, que a normalização atinja um ponto em que poderia surgir um novo modo de vida — um modo de vida que, após certo tempo, poderia deixar de parecer tão falso e conquistar um lugar entre os modos de vida muito diferentes e profundamente contrastantes das outras nações da terra. No momento em que as instituições revolucionárias se tornassem modo nacional de vida — no momento em que a alegação de Hitler de que o nazismo não é produto de exportação, ou a de Stálin de que o socialismo só pode estabelecer-se num único país, fosse algo mais que uma tentativa de iludir o mundo não-totalitário — o totalitarismo perderia a sua qualidade "total" e ficaria sujeito às leis das nações, segundo as quais cada uma possui um território, um povo e uma tradição histórica específicos que determinam a sua relação com as outras nações — uma pluralidade que refuta do fato qualquer alegação de que uma determinada forma de governo possa ser absolutamente válida. Do ponto de vista prático, a posse de todos os instrumentos de força e de violência por parte do totalitarismo no poder cria uma situação difícil e paradoxal para o movimento totalitário. O possuir poder significa o confronto direto com a realidade, e o totalitarismo no poder procura constantemente evitar esse confronto, mantendo o seu desprezo pelos fatos e impondo a rígida observância das normas do mundo fictício que criou. Já não basta que a propaganda e a organização afirmem que o impossível é possível, que o incrível é verdadeiro e que uma coerente loucura governa o mundo; o principal esteio psicológico da ficção totalitária — o ativo ressentimento contra o status quo, que as massas recusaram aceitar como o único mundo possível — já não existe, e cada fragmento de informação concreta que se infiltra através da cortina de ferro, construída para deter a sempre perigosa torrente da realidade vinda do lado não-totalitário, é uma ameaça maior para o domínio totalitário do que era a contrapropaganda para o movimento totalitário.
     A luta pelo domínio total de toda a população da terra, a eliminação de toda realidade rival não totalitária, eis a tônica dos regimes totalitários; se não lutarem pelo domínio global como objetivo último, correm o sério risco de perder todo o poder que porventura tenham conquistado. Nem mesmo um homem sozinho pode ser dominado de forma absoluta e segura a não ser em condições de totalitarismo global. Portanto, a subida ao poder significa, antes de mais nada, o estabelecimento de uma sede oficial e oficialmente reconhecida para o movimento (ou sucursais, no caso de países satélites), e a aquisição de uma espécie de laboratório onde o teste possa ser feito com realismo (ou contra a realidade) — o teste de organizar um povo para objetivos finais que desprezam a individualidade e a nacionalidade. O totalitarismo no poder usa a administração do Estado para o seu objetivo a longo prazo de conquista mundial e para dirigir as subsidiárias do movimento; instala a polícia secreta na posição de executante e guardiã da experiência doméstica de transformar constantemente a ficção em realidade; e, finalmente, erige campos de concentração como laboratórios especiais para o teste do domínio total.

Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - 3. O Totalitarismo no Poder)
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[1] Os nazistas compreendiam muito bem que a tomada do poder poderia levar ao estabelecimento do absolutismo. "Mas o nacional-socialismo não encabeçou a luta contra o liberalismo para atolar-se no absolutismo e começar tudo de novo" (Werner Best, Die deutsche Polizei, p. 20). A advertência desta frase é dirigida ao absolutismo do Estado.
[2] A teoria de Trótski, enunciada pela primeira vez em 1905, naturalmente não diferia da estratégia revolucionária de todos os leninistas, para quem "a própria Rússia é apenas o primeiro domínio, o primeiro baluarte da revolução internacional: os seus interesses seriam subordinados à estratégia supranacional do socialismo militante. Por enquanto, porém, os limites da Rússia e os do socialismo vitorioso são os mesmos" (Isaac Deutscher, Stálin: apolitical biography, Nova York e Londres, 1949, p. 243).
[3] O ano de 1934 é significativo devido ao novo estatuto do Partido, anunciado no Décimo Sétimo Congresso, que estabelecia que "periódicos (...) expurgos [serão] realizados para a limpeza sistemática do Partido". (Citado de A. Avtorkhanov, "Social differentiation and contradictions in the Party", Bulletin of the Institute for the Study of the USSR, Munique, fevereiro de 1956.) Os expurgos do Partido, realizados durante os primeiros anos da Revolução Russa, nada têm em comum com a sua transformação posterior em instrumento de instabilidade permanente. Os primeiros expurgos foram levados a efeito por comissões locais de controle, perante um foro aberto, ao qual membros do Partido, ou mesmo os de fora do Partido, tinham livre acesso. Foram planejados como um órgão democrático de controle contra a corrupção burocrática do Partido e "deveriam servir como substituto das verdadeiras eleições" (Deutscher, op. cit., pp. 233-4). Um excelente apanhado da evolução dos expurgos encontra-se no artigo de Avtorkhanov, que também refuta a lenda de que o assassinato de Kirov tenha motivado a nova política. O expurgo geral já havia começado antes da morte de Kirov, que não passou de um "pretexto para lhe dar mais força". Em vista das muitas circunstâncias "inexplicáveis e misteriosas" em torno do assassinato de Kirov, suspeita-se que o "pretexto" foi cuidadosamente planejado e executado pelo próprio Stálin. Ver o "Discurso sobre Stálin", de Khrushchev, New York Times, 5 de junho de 1956.
[4Deutscher, op. cit., p. 282, descreve o primeiro ataque contra a "revolução permanente" de Trótski e a contra fórmula de Stálin de "socialismo num só país" como um "acidente" em manobras políticas. Em 1924, a "finalidade imediata [de Stálin] era desacreditar Trótski. (...) Rebuscando o passado de Trótski, os triúnviros encontraram a teoria de 'revolução permanente', que ele havia formulado em 1905. (...) Foi no decurso dessa polêmica que Stálin chegou à sua fórmula do 'socialismo num só país'".
[5] A liquidação da facção de Rõhm, em junho de 1934, foi precedida por um breve intervalo de estabilização. No começo do ano, Rudolf Diels, chefe da polícia política de Berlim, podia comunicar que não havia mais prisões ilegais ("revolucionárias") por parte da SA e que as prisões anteriores desse tipo estavam sendo investigadas. (Nazi conspiracy, U. S. Government, Washington, 1946, V, 205). Em abril de 1934, o ministro do Interior, Wilhelm Frick, antigo membro do partido nazista, assinou um decreto limitando a prática da "custódia protetora" (ibid., III, 555), em face da "estabilização da situação nacional". (Ver Das Archiv, abril de 1934, p. 31.) Esse decreto, porém, nunca foi publicado (Nazi conspiracy, VII, 1099; II, 259). A polícia política da Prússia havia preparado para Hitler um relatório especial sobre os excessos da SA cometidos em 1933, e sugeriu que se processassem os líderes da SA nele mencionados.
     Hitler resolveu a situação matando esses líderes da SA sem processo legal e demitindo todas as autoridades policiais que se haviam oposto à SA. (Ver o testemunho, sob juramento, de Rudolf Diels, ibid., V, 224.) Dessa forma, ele ficava completamente a salvo de qualquer legalização e estabilização. Entre os numerosos juristas que entusiasticamente serviram à "ideia nacional-socialista", somente uns poucos compreenderam o que realmente estava em jogo. A esse grupo pertence principalmente Theodor Maunz, cujo ensaio Gestalt und Recht der Polizei [Constituição e jurisdição da polícia] (Hamburgo, 1943) é citado e aprovado mesmo por aqueles autores que, como Paul Werner, pertenciam à camada superior (Fuehrerkorps) da SS.
[6] Robert Ley, Der Weg zur Ordensburg (sem data, cerca de 1936). "Edição especial (...) para o Führerkorps do Partido (...) Venda Proibida".
[7] Heinrich Himmler, "Dei Schutzstaffel", em Grundlagen, Aufbau und Wirtschafts-ordnung des nationalsozialitischen Staates, Nr. 7b. A radicalização do princípio da antiga seleção racial pode ser verificada em todas as fases da política nazista. Assim, os primeiros a serem exterminados eram os judeus "puro-sangue", seguidos dos que eram "meio-judeus" e "um-quarto-judeus"; em outra área, os primeiros a serem incluídos eram os loucos, seguidos dos portadores de doenças incuráveis e, depois, pelas famílias em que surgisse algum "doente incurável". A "seleção que não pode ser'detida" não o foi nem sequer diante dos membros da SS. Um decreto ao Führer, de 19 de maio de 1943, ordenava que todos os que tivessem ligações com estrangeiros através de laços familiares, casamento ou amizade deviam ser eliminados do Estado, do partido, da Wehr-macht e da economia; isso afetou 1200 líderes da SS (ver os Hoover Library Archives, arquivo Himmler, pasta 300).

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