Hannah Arendt
Parte III
TOTALITARISMO
Os homens normais não sabem que tudo é possível.
David Rousset
2 - A Organização Totalitária
continuando...
É devido à afinidade fundamental entre o funcionamento de uma sociedade secreta de
conspiradores e a polícia secreta organizada para combatê-la que os regimes totalitários,
baseados na ficção de um conspiração global e visando ao domínio global, passam a concentrar
todo o poder nas mãos da polícia. Na fase que antecede o poder, porém, as "sociedades secretas
à luz do dia proporcionam outras vantagens organizacionais. A contradição óbvia entre uma
organização de massa e uma sociedade exclusiva, que é a única à qual se pode confiar um
segredo, não tem importância quando é comparada ao fato de que a própria estrutura das
sociedades secretas e conspiradoras pode transformar em princípio organizacional a dicotomia
ideológica do totalitarismo — a cega hostilidade das massas contra o mundo existente,
independentemente de divergências e diferenças. Do ponto de vista da organização que funciona
segundo o princípio de que quem não está incluído está excluído, e quem não está comigo está
contra mim, o mundo perde todas as nuances, diferenciações e aspectos pluralísticos — coisas
que, afinal, se haviam tornado confusas e insuportáveis para as massas que perderam o seu lugar
e a sua orientação dentro dele.[101] O que as levou à inabalável lealdade de membros de
sociedades secretas não foi tanto o segredo como a dicotomia entre nós e todos os outros. Um
meio de conservar intacta essa lealdade era imitar a natureza organizacional das sociedades secretas,
esvaziando-a da finalidade racional de preservar um segredo. Tampouco importava que isso
fosse motivado por uma ideologia de ficção, como no caso dos nazistas, ou pela
hipertrofia parasitária do setor conspirativo de um partido revolucionário, como no caso dos
bolchevistas. A afirmação fundamental da organização totalitária é que tudo o que está fora do
movimento está "morrendo", afirmação que é drasticamente posta em prática no clima assassino
do regime totalitário, mas que, mesmo no estágio anterior ao poder, parece plausível a massas
que fugiram da desintegração e da desorientação para o fictício abrigo do movimento.
Os movimentos totalitários têm repetidamente demonstrado que podem inspirar a mesma
lealdade total, na vida e na morte, que caracterizava as sociedades secretas e conspiradoras.[102] Espetáculo curioso foi a completa ausência de resistência de uma tropa perfeitamente treinada e
armada como a SA diante do assassínio de um líder bem-amado (Rohm) e de centenas de
camaradas. Naquele instante era Rohm, e não Hitler, quem contava com o apoio do Reichswehr. Hoje, porém, esses incidentes do movimento nazista perdem-se de vista diante do
constante espetáculo de "criminosos" confessos nos partidos bolchevistas. Julgamentos
baseados em confissões absurdas tornaram-se parte de um ritual que é importantíssimo
internamente e incompreensível para quem está de fora. Contudo, independentemente de como
as vítimas sejam preparadas hoje em dia, o ritual deve a sua existência às confissões,
provavelmente verdadeiras, da velha guarda bolchevista de 1936. Muito antes da época dos
Julgamentos de Moscou, os condenados à morte recebiam a sentença com grande calma, atitude
"que predominava especialmente entre os membros da Cheka".[103] Enquanto o movimento
existe, a sua forma peculiar de organização faz com que pelo menos as formações de elite não
possam conceber a vida fora do grupo fechado de homens que, mesmo condenados, ainda se
sentem superiores ao resto do mundo não iniciado. E, como o fim único dessa organização
sempre foi burlar, combater e finalmente conquistar o mundo exterior, os seus membros pagam
de bom grado com a própria vida, contanto que isso ajude a burlar o mundo mais uma vez.[104] Mas o principal valor da estrutura organizacional e dos padrões morais das organizações
secretas ou conspiratórias para fins de organização da massa não está na garantia intrínseca de
participação incondicional e lealdade incondicional, nem na manifestação organizacional de hostilidade cega contra o mundo exterior, mas na sua
incomparável capacidade de estabelecer e proteger o mundo fictício por meio de constantes mentiras.
Toda a estrutura hierárquica dos movimentos totalitários, desde os ingênuos simpatizantes até os
membros do partido, as formações de elite, o círculo íntimo que rodeia o Líder e o próprio Líder, pode ser
descrita em termos da mistura curiosamente variada de credulidade e cinismo com que se espera que
cada membro, dependendo do seu grau e da posição que ocupa no movimento, reaja às diversas
declarações mentirosas do Líder e à ficção ideológica central e imutável do movimento.
Certa mistura de credulidade e cinismo havia sido importante característica da mentalidade da ralé antes
que se tornasse fenômeno diário de massa. Num mundo incompreensível e em perpétua mudança, as
massas haviam chegado a um ponto em que, ao mesmo tempo, acreditavam em tudo e em nada, julgavam
que tudo era possível e que nada era verdadeiro. A própria mistura, por si, já era bastante notável, pois
significava o fim da ilusão de que a credulidade fosse fraqueza de gente primitiva e ingênua, e que o
cinismo fosse o vício superior dos espíritos refinados. A propaganda de massa descobriu que o seu
público estava sempre disposto a acreditar no pior, por mais absurdo que fosse, sem objetar contra o fato
de ser enganado, uma vez que achava que toda afirmação, afinal de contas, não passava de mentira. Os
líderes totalitários basearam a sua propaganda no pressuposto psicológico correto de que, em tais
condições, era possível fazer com que as pessoas acreditassem nas mais fantásticas afirmações em
determinado dia, na certeza de que, se recebessem no dia seguinte a prova irrefutável da sua inverdade,
apelariam para o cinismo; em lugar de abandonarem os líderes que lhes haviam mentido, diriam que
sempre souberam que a afirmação era falsa, e admirariam os líderes pela grande esperteza tática.
Essa reação das audiências de
massa tornou-se importante principio hierárquico para as organizações de
massa. Uma mistura de credulidade e cinismo prevalece em todos os escalões dos movimentos
totalitários, e quanto mais alto o posto, mais o cinismo prevalece sobre a credulidade. A convicção
essencial compartilhada por todos os escalões, desde os simpatizantes até o Líder, é de que a política é um
jogo de trapaças, e que o "primeiro mandamento" do movimento — "o Führer sempre tem razão" — é
tão necessário aos fins da política mundial — isto é, da trapaça mundial — como as regras da disciplina
militar o são para as finalidades da guerra.[105]
A máquina que gera, organiza e dissemina as monstruosas falsidades dos movimentos totalitários também
depende da posição do Líder. À afirmação propagandística de que todo evento é cientificamente previsível segundo leis naturais ou econômicas, a
organização totalitária acrescenta a posição de um homem que monopolizou esse conhecimento e cuja
principal qualidade é o fato de que "sempre teve razão e sempre terá razão".[106] Para o membro do
movimento totalitário, esse conhecimento nada tem a ver com a verdade, da mesma forma que o fato de
se estar com a razão nada tem a ver com a veracidade objetiva das afirmações do Líder, que não podem
ser desmentidas pela realidade, mas somente pelos sucessos ou fracassos futuros. O Líder sempre tem
razão nos seus atos, e, como estes são planejados para os séculos vindouros, o exame final do que ele faz
é inacessível aos seus contemporâneos.[107] O único grupo que deve acreditar leal e textualmente nas
palavras do Líder são os simpatizantes, cuja confiança envolve o movimento numa atmosfera de
honestidade e ingenuidade, e que ajudam o Líder a cumprir a metade da sua tarefa, isto é, inspirar
confiança no movimento. Os membros do Partido jamais acreditam em declarações públicas, nem se
espera isso deles, mas a propaganda totalitária louva-lhes a inteligência superior que supostamente os
distingue do mundo externo não-totalitário, ao qual, por sua vez, só conhecem através da anormal
credulidade dos simpatizantes. Só os simpatizantes nazistas acreditaram em Hitler quando ele prestou
juramento de legalidade perante a Suprema Corte da República de Weimar; os membros do movimento
sabiam muito bem que ele estava mentindo e confiaram nele mais do que nunca exatamente porque ele
era capaz de iludir a opinião pública e as autoridades. Quando, anos depois, Hitler repetiu a manobra
diante do mundo inteiro, quando protestou boas intenções ao mesmo tempo em que preparava
abertamente os seus crimes, a admiração dos membros do partido foi, naturalmente, enorme. Da mesma
forma, somente os simpatizantes bolchevistas acreditaram na dissolução do Comintern, e somente as
massas não organizadas do povo russo e os simpatizantes no exterior aceitaram como honestas as
declarações pró-democracias de Stálin durante a guerra. Os membros do partido bolchevista foram
expressamente advertidos a não se deixarem enganar por manobras táticas; deviam admirar a esperteza
com que o seu Líder atraiçoava os aliados.[108]
Seriam inoperantes as mentiras do Líder sem a divisão organizacional do movimento em formações de
elite, membros e simpatizantes. A graduação do cinismo traduzida na hierarquia do desdém é, pelo
menos, tão necessária ante a constante refutação quanto a simples credulidade. O fato é que os
simpatizantes das organizações de vanguarda desdenhavam a completa laicidade dos seus concidadãos, os membros dos
partidos desdenhavam a credulidade e a falta de radicalismo dos simpatizantes, as formações de elite
desdenhavam os membros dos partidos pelas mesmas razões e, dentro das formações de elite, uma
idêntica hierarquia de desdém acompanhava cada nova criação ou invenção do partido.109 O resultado
desse sistema é que a credulidade dos simpatizantes torna as mentiras aceitáveis para o mundo exterior,
enquanto, ao mesmo tempo, o gradual cinismo dos membros e das formações de elite afasta o perigo de
que o Líder venha a ser forçado, pelo peso da sua própria propaganda, a legitimar as próprias declarações
e o próprio simulacro de respeitabilidade. Uma das principais desvantagens do mundo exterior no trato
com sistemas totalitários é que ele ignorava esse sistema e, portanto, confiava em que, por um lado, a
própria enormidade das mentiras do totalitarismo o levaria à ruína e, por outro lado, seria possível aceitar
a palavra do Líder e fazer com que ele a cumprisse, a despeito das suas intenções originais. Infelizmente,
o sistema totalitário é imune a essas consequências normais; sua engenhosidade reside precisamente em
eliminar a realidade que desmascara o mentiroso ou o força a legitimar as suas mentiras.
Embora os membros não creiam em declarações proferidas para o consumo público, acreditam
fervorosamente nos chavões comuns da justificação ideológica e nas explicações da história passada e
futura que os movimentos totalitários tomaram emprestado às ideologias do século XIX e transformaram,
através da organização, em realidade operante. Esses elementos ideológicos, nos quais, de um modo ou de
outro, as massas haviam terminado por acreditar, se bem que vaga e abstratamente, foram convertidos em
mentiras concretas de natureza universal (o domínio do mundo pelos judeus em lugar da teoria racial
geral e a conspiração de Wall Street em lugar da teoria geral das classes) e foram integrados num plano
geral de ação no qual somente os "agonizantes" — as classes agonizantes dos países capitalistas ou as
nações decadentes — obstariam o caminho do movimento. Em contraste com as mentiras táticas do
movimento, que mudam a cada dia, essas mentiras ideológicas exigem crença absoluta como verdades
intocáveis e sagradas. Cerca-as um sistema cuidadosamente elaborado de provas "científicas" que não
precisam ser convincentes para os "leigos", mas que satisfazem certa sede popular de conhecimentos
através da "demonstração" da inferioridade dos judeus ou da miséria dos que vivem sob o regime
capitalista.
As formações de elite distinguem-se dos membros comuns do partido por não necessitarem dessas
demonstrações e nem mesmo serem obrigadas a acreditar literalmente na verdade dos chavões
ideológicos. Estes são fabricados para atender a uma busca da verdade por parte das massas que, no seu
vezo de explicar e demonstrar, ainda têm muito em comum com o mundo normal. A elite não se compõe de ideólogos; toda a educação dos seus membros objetiva abolir a capacidade de
distinguir entre a verdade e a mentira, entre a realidade e ficção. Sua superioridade consiste na
capacidade de transformar imediatamente qualquer declaração de fato em declaração de finalidade. Em
contraposição às massas que, por exemplo, necessitam de alguma demonstração da inferioridade da raça
judaica antes que se lhes possa exigir, sem riscos, que matem os judeus, as formações de elite
compreendem que a afirmação de que todos os judeus são inferiores significa que todos os judeus devem
ser mortos; quando se lhes diz que somente Moscou tem um metrô, sabem que o verdadeiro significado
da declaração é que todos os outros metrôs devem ser destruídos e não se sentem muito surpresos quando
descobrem o metrô de Paris. O tremendo choque da desilusão sofrida pelo Exército Vermelho na sua
conquista da Europa só pôde ser curado nos campos de concentração e no exílio forçado de grande parte
das tropas vitoriosas; mas as formações policiais que acompanharam o Exército estavam preparadas para
o choque, não por meio de informação diferente ou mais correta — não existe na Rússia nenhuma escola
de treinamento secreto que forneça dados autênticos sobre a vida no exterior —, mas simplesmente por
meio de um treino de supremo desprezo por todo fato e toda realidade.
Essa mentalidade da elite não constitui simples fenômeno de massa, nem simples consequência de
desarraigamento social, desastre econômico ou anarquia política; exige cuidadosa preparação e cultivo e
foi uma parte mais importante, embora menos facilmente reconhecível, do currículo das escolas de
liderança totalitária — as Ordensburgen nazistas para os membros da SS e os centros de treinamento
bolchevistas para os agentes do Comintern — do que a doutrinação racial ou as técnicas da guerra civil.
Sem a elite e sem a sua incapacidade artificialmente adquirida, de compreender os fatos como fatos, de
distinguir entre a verdade e a mentira, o movimento nunca poderia partir para a realização prática da
ficção. A mais importante qualidade negativa da elite totalitária é que nunca se detém a pensar no mundo
como realmente ele é e jamais compara as mentiras com a realidade. Paralelamente, a sua virtude mais
cultivada é a lealdade ao Líder, que, como um talismã, assegura a vitória final da mentira e da ficção
sobre a verdade e a realidade.
A camada superior da organização dos movimentos totalitários é constituída pelo círculo íntimo em torno
do Líder, que pode ser uma instituição formal, como o Politburo bolchevista, ou um círculo mutável de
homens que não exercem necessariamente uma função pública, como o séquito de Hitler. Para eles, os
chavões ideológicos são meros expedientes destinados a congregar as massas, e não sentem qualquer
constrangimento quando têm de alterá-los segundo as necessidades do momento, contanto que o princípio
organizador permaneça intacto. Nesse ponto, o principal mérito da reorganização da SS por Himmler foi
que ele descobriu um método muito simples de "resolver o problema do sangue pela ação", isto é, de
selecionar os membros da elite segundo o "bom sangue" e prepará-los para "realizar uma impiedosa luta
racial" contra todos os que não pudessem remontar a sua origem "ariana" até 1750, ou tivessem menos de um metro e setenta de altura ("sei que as pessoas que cresceram até determinada altura
devem possuir, em certo grau, o sangue desejado"), ou não tinham olhos azuis e cabelos louros.[110] Esse
racismo em ação tornava a organização independente de quase todo ensinamento concreto de qualquer
"ciência" racial, e também independente do antissemitismo, que era uma doutrina específica e temporária,
referente à natureza e ao papel dos judeus, e cuja utilidade terminaria quando os judeus fossem
exterminados.[111] O racismo não oferecia riscos e independia do cientificismo da propaganda, uma vez que
a elite houvesse sido selecionada por uma "comissão racial" e posta sob a autoridade das "leis especiais de
casamento",[112] enquanto, no extremo oposto, e sob a jurisdição dessa "elite racial", existiam campos de
concentração para uma "melhor demonstração das leis da hereditariedade e da raça".[113] À base dessa
"organização viva", os nazistas podiam dispensar o dogmatismo e estender a sua amizade a povos
semitas, como os árabes, ou fazer alianças com os próprios representantes do "perigo amarelo", os
japoneses. A realidade de uma sociedade racial, a formação de uma elite selecionada de um ponto de vista
supostamente racial, constituiria melhor garantia da doutrina do racismo do que as provas científicas ou
pseudocientíficas.
Os homens que ditam a política do bolchevismo mostram idêntica superioridade em relação aos dogmas
que eles mesmos professam. São perfeitamente capazes de interromper qualquer luta de classes com uma
súbita aliança com o capitalismo, sem abalar a confiança dos seus escalões e sem trair a crença na luta de
classes. Uma vez que o princípio dicótomo da luta de classes se torna expediente organizacional, e, por
assim dizer, se petrifica na inflexível hostilidade contra o mundo inteiro, através dos altos escalões policiais secretos na Rússia e dos agentes do
Comintern no exterior, a política bolchevista fica surpreendentemente isenta de "preconceitos".
E essa liberdade em relação ao conteúdo de sua própria ideologia que caracteriza os mais
altos escalões da hierarquia totalitária. São homens que veem a tudo e a todos em termos de organização, inclusive ao Líder que, para eles, não é nem talismã inspirado nem aquele que sempre tem razão, mas a simples
consequência desse tipo de organização; é necessário não como pessoa, mas
como função, e como tal é indispensável ao movimento. Contudo, diferentemente de outras formas
despóticas de governo, nas quais frequentemente quem governa é um círculo restrito e o déspota tem
apenas o papel representativo de governante fantoche, os líderes totalitários podem realmente fazer o que
bem entendem e contar com a lealdade dos membros de seu séquito, mesmo que um dia se decidam a
matá-los. Uma razão mais técnica dessa lealdade suicida é que não há leis de herança ou de outra natureza que regulem a sucessão ao posto supremo. Uma
revolta palaciana bem-sucedida teria resultados tão desastrosos para o movimento como sistema quanto uma derrota militar. É da própria natureza do movimento que, uma vez que o
Líder assume o posto, toda a organização se identifica com ele de modo tão absoluto que qualquer
confissão de erro ou remoção do cargo quebraria a magia de infalibilidade que envolve a posição de Líder
e arruinaria a todos os que estivessem ligados ao movimento. A base da estrutura não está na veracidade
das palavras do Líder, mas na infalibilidade dos seus atos. Sem ela, e no calor de uma discussão que
presume falibilidade, todo o reino da carochinha do totalitarismo se esboroa, esmagado imediatamente
pela verdade do mundo real que somente o movimento, guiado pelo Líder c
infalivelmente certa, é capaz de evitar.
Contudo, a lealdade dos que não acreditam numa direção nem na infalibilidade nem em chavões ideológicos do Líder tem também razões mais profundas e menos técnicas. O que une esses homens é uma firme crença na onipotência humana. O seu cinismo moral e a sua crença de que tudo é permitido repousam na sólida convicção, de que tudo é possível. É verdade que esses homens, pouco numerosos, não são facilmente apanhados em suas próprias mentiras específicas e não creem necessariamente em racismo ou em economia, em conspirações de judeus ou de Wall Street. Contudo, são também iludidos pela ideia impudente e presunçosa de que se pode fazer tudo, e pela insolente convicção de que tudo o que existe é apenas um obstáculo temporário a ser certamente vencido pela organização superior. Confiantes de que a força da organização pode destruir a força da substância, como a violência de uma gangue bem organizada pode roubar a riqueza mal guardada de um homem, subestimam constantemente a força das comunidades estáveis e superestimam a força motora do movimento. Além disso, como não creem realmente que exista contra eles uma conspiração mundial, mas usam-na apenas como expediente organizacional, não percebem que a sua própria conspiração pode eventualmente levar o mundo inteiro a unir-se para combatê-los.
Mas, como quer que venha a ser finalmente derrotada a ilusão da onipotência humana através da
organização, a sua consequência prática dentro do movimento é que o séquito do Líder, em caso
de desacordo com ele nunca estará muito seguro de suas próprias opiniões, pois acredita
sinceramente que o desacordo não tem importância, e que mesmo o mais louco expediente tem
boas possibilidades de sucesso se receber a devida organização. O que caracteriza a sua lealdade
não é a crença na infalibilidade do Líder, más a convicção de que pode tornar-se infalível
qualquer pessoa que comande os instrumentos de violência com os métodos superiores da
organização totalitária. Essa ilusão é fortalecida quando os regimes totalitários estão no poder,
demonstrando como até uma perda de substância pode tornar-se uma vitória da organização. (A
administração das empresas industriais na Rússia soviética, fantasticamente deficiente, levou à
atomização da classe operária, enquanto o terrivelmente cruel tratamento dos prisioneiros civis
pelos nazistas nos territórios ocupados da Europa oriental, embora causasse uma "deplorável
perda de mão-de-obra", "não podia ser lastimado em termos de gerações".)[114] Além disso,
decidir o que é sucesso ou fracasso em circunstâncias totalitárias é, em grande parte, uma
questão de opinião pública organizada e aterrorizada. Num mundo totalmente fictício não é
preciso registrar, confessar e relembrar os fracassos. Para que a factualidade continue a existir, é
preciso que exista o mundo não-totalitário.
continua página 438...
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Parte III Totalitarismo (O Movimento Totalitário - {2c} A Organização Totalitária)
_________________[101] Provavelmente, um dos erros ideológicos decisivos de Rosenberg, que caiu na desgraça do Führer e perdeu a sua
influência no movimento a favor de homens como Himmler, Bormann e até mesmo Streicher, foi que o seu Mito do século
XX admite um pluralismo racial do qual somente os judeus eram excluídos. Violou, assim, o princípio conforme o qual quem
nâo estivesse incluído ("o povo germânico") estava excluído("a massa da humanidade"). Cf. nota 87.
[102] Simmel, op. cit., p. 492, menciona sociedades secretas criminosas nas quais os membros voluntariamente escolhem um
comandante ao qual passam a obedecer sem crítica e sem limite.
[103] Ciliga, op. cit., pp. 96-7. O autor descreve como os prisioneiros comuns da prisão da GPU em Leningrado condenados
à morte deixavam-se levar à execução "sem uma palavra, sem um grito de revolta contra o governo que os executava" (p.
183).
[104] Ciliga nos diz que os membros do partido que haviam sido condenados "achavam que, se essas execuções serviam
para salvar a ditadura burocrática como um todo, se levavam à calma os camponeses rebelados (ou, antes, ao erro), o
sacrifício de suas vidas não teria sido em vão" (op. cit., pp. 96-7).
[105] A imagem do papel da diplomacia na política, expressa por Goebbels, é típica: "Não há dúvida que o melhor a
fazer é manter os diplomatas desinformados quanto ao que ocorre na política. (...) O argumento mais convincente de
sua fidedignidade política é a sinceridade com que representam o papel de apaziguadores" (op. cit., p. 87).
[106] Rudolf Hess numa transmissão radiofônica em 1934. Nazi conspiracy, 1,193.
[107] Werner Best, op. cit., explica: "O fato de a vontade do governo estabelecer as normas certas (...) já não é uma
questão de lei, mas de destino. Pois os abusos que ocorrerem (...) serão punidos perante a história de modo mais
seguro pelo próprio destino — com o infortúnio, a destituição e a ruína, devido à violação das 'leis da vida' — do que
por uma Corte de Justiça". Tradução citada de Nazi conspiracy, IV, 490.
[108] Ver Kravchencko, op. cit., p. 422. "Nenhum comunista devidamente doutrinado achava que o Partido estivesse
'mentindo' por pregar em público um tipo de política, enquanto na intimidade professava o oposto".
[109] "O nacional-socialista despreza o seu vizinho alemão, o homem da SA despreza os outros nacional-socialistas,
e o homem da SS despreza o homem da SA" (Heiden, op. cit., p. 308).
[110] Himmler selecionava os candidatos à SS, em primeiro lugar, por fotografias. Mais tarde, um Comitê Racial, perante o qual o
candidato tinha de comparecer pessoalmente, aprovava ou desaprovava a sua aparência racial. Ver Himmler no tocante à
"Organização e obrigação da SS e da polícia", Nazi conspiracy, IV, 616 ss.
[111] Himmler estava bem consciente do fato de que uma de suas "mais importantes realizações" era haver transformado a questão
racial, de "conceito negativo baseado no antissemitismo natural", em "uma tarefa organizacional para a constituição da SS" (Der
Reichsführer SS und Chef der deutschen Polizei, "exclusivamente para uso da polícia"; sem data). Assim, "pela primeira vez, a
questão racial havia sido colocada em foco, ou melhor, se tornara o próprio foco, indo muito além do conceito negativo que havia
por trás do ódio natural aos judeus. A ideia revolucionária do Führer recebia uma infusão de sangue novo" (Der Weg der SS. Der
Reichsführer SS. SS-Hauptamt-Schulungsamt. Na jaqueta: "difusão proibida", sem data, p. 25).
[112] Logo que foi nomeado chefe da SS, em 1929, Himmler introduziu o princípio de seleção racial e leis de casamento, e
acrescentou: "A SS sabe muito bem que esta ordem é da maior importância. A zombaria, o escárnio e a incompreensão não nos
afetam; o futuro é nosso". Citado por D'Alquen, op. cit. E novamente, catorze anos mais tarde, num discurso em Kharkov (Nazi
conspiracy, IV, 572 ss), Himmler lembra aos seus líderes da SS que "fomos os primeiros a realmente resolver o problema do
sangue pela ação (...) e por problema de sangue não entendemos, naturalmente, o antissemitismo. O antissemitismo é exatamente a
mesma coisa que catar piolhos. Catar piolhos não é uma questão de ideologia: é uma questão de limpeza. (...) Mas para nós a
questão do sangue era um lembrete do nosso próprio valor, um lembrete do que realmente mantém unido este povo alemão".
[113] Himmler, op. cit., Nazi conspiracy, IV, 616 ss.
[114] Himmler em seu discurso em Posen, Nazi conspiracy, IV, 558.
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