quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Abundância de harmonia - [c]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
Abundância de harmonia

continuando...

     Nós não somos responsáveis de que fosse outra vez uma composição francesa, como tampouco nos pode ser imputado o espírito militar que também nela se manifestava. Era uma melodia intercalada, um solo de canto, uma “Oração” da ópera Fausto de Gounod. Aparecia um indivíduo ultra simpático, de nome Valentim; mas Hans Castorp, no seu íntimo, chamava-o de outra forma, por um nome mais familiar, cheio de recordações aflitivas, cujo portador identificava completamente com a personagem que ali se manifestava no interior da arca, se bem que este tivesse voz muito mais bela. Era um vigoroso e cálido barítono, e sua ária se dividia em três partes. Havia duas estrofes muito semelhantes uma à outra, de caráter piedoso, compostas quase no estilo de um hino sacro protestante, e que emolduravam uma terceira de espírito destemido, cavalheiresco, um canto guerreiro, frívolo, e não obstante também piedoso. Era precisamente isso o que havia nessa ária de francês e militar. A personagem invisível cantava:

“Antes de deixar estes sítios, 
A terra natal dos meus antepassados...”

e nessas circunstâncias dirigia a sua prece ao Senhor dos Céus, confiando-Lhe a irmã para que a protegesse durante a sua ausência. Iria ele para a guerra – e com isso mudava o ritmo, tornando se enérgico. Que as preocupações e as tristezas fossem para o diabo! Ele, o invisível, queria procurar o lugar onde houvesse a mais encarniçada batalha e o maior perigo, e arrojar-se intrépida, piedosa, francesmente, contra o inimigo. “Mas, se Deus me chamar para o Céu”, cantava, “velarei fielmente sobre ti.” Embora esse “ti” se referisse à irmã, comovia profundamente Hans Castorp, e essa sua emoção não o abandonava até o fim da ária, quando o homem valente no interior do aparelho repetia, acompanhado por poderosos acordes corais:

“A ti, Senhor e Rei dos Céus, 
Margarida eu confio”.

     Esse disco não apresentava nenhum outro interesse. Achamos indicado dedicar-lhe umas poucas palavras, porque Hans Castorp o apreciava especialmente, mas também porque ele desempenhou mais tarde um certo papel em circunstâncias bastante estranhas. E agora falaremos da quinta e última das peças que pertenciam ao grupo dos discos prediletos. Dessa vez não nos referimos a uma obra francesa, mas a uma música específica e inteiramente alemã. Não era um trecho de ópera, senão um Lied, uma daquelas canções que são simultaneamente patrimônio popular e obra-prima, e devem a essa simultaneidade o seu caráter peculiar e espiritual... mas, para que todos esses circunlóquios? Era A tília de Schubert; era simplesmente aquela canção que todos conhecem e que começa com as palavras: “Recordo a velha tília bem junto do portão...”
     Cantava-a um tenor, com acompanhamento de piano, rapaz cheio de tato e de bom gosto, que sabia tratar com grande inteligência, com muita delicadeza musical e com esmerada técnica de recitação, o seu assunto singelo e ao mesmo tempo sublime. Ninguém ignora que essa maravilhosa canção, quando cantada por uma criança ou pela boca do povo, soa diferente da composição artística. Na sua forma popular, simplificada, as estrofes de oito versos seguem a melodia principal, ao passo que, no Lied de Schubert, já a segunda estrofe é variada; o tom passa para menor, mas no quinto verso volta a maior, de um modo lindíssimo. Na frase que se segue – a dos “ventos frios” e do chapéu arrancado da cabeça – a melodia é dramaticamente resolvida, não sendo reencontrada senão nos últimos quatro versos da terceira estrofe, que são repetidos, para dar um remate à canção. A inflexão realmente arrebatadora da melodia ocorre três vezes, na sua segunda metade modulada; a terceira vez, por conseguinte, na repetição da última semi estrofe, a partir do verso “E agora vou tão longe...” Essa inflexão mágica que não ousamos analisar por meio de palavras realiza-se nos fragmentos de frases “Mil coisas que senti...”, “Falando para mim...” e “Daquele lugar ali...” A clara e cálida voz de tenor, soluçante sem exagero, e de magnífica técnica respiratória, cantava-a sempre com uma compreensão tão inteligente da sua beleza que o ouvinte sentia o coração indizivelmente comovido. E o artista sabia intensificar esse efeito por um falsete extremamente suave que usava ao cantar os versos: “E sempre estava lá” e “A paz está aqui”. Na repetição da última frase, porém, naquele “Encontrarás a paz”, cantou o primeiro “encontrarás” com a plenitude da sua voz cheia de nostalgia, e o segundo, num delicadíssimo flageolet.
     Isso quanto ao Lied e à sua interpretação. Nos casos anteriores podíamos jactar-nos de ter comunicado aos nossos leitores uma vaga compreensão da simpatia íntima que Hans Castorp experimentava pelas peças favoritas dos seus concertos noturnos. Mas tornar compreensível o que significava para ele essa última, essa canção, a velha Tília, é realmente empresa das mais complexas, que requer da nossa parte um tratamento de extraordinária delicadeza, porque o contrário nos levaria antes a comprometer do que a esclarecer a questão.
     É assim que queremos colocá-la: um assunto espiritual, isto é, um assunto significativo torna-se “significativo” precisamente porque designa algo fora dos seus próprios limites, porque é expressão e expoente de uma esfera espiritual mais vasta, de um mundo inteiro de sentimentos e pensamentos, que encontrou nele um símbolo mais ou menos perfeito – o que dá então a medida da sua importância. Além disso é “significativo” em si o amor que se sente por tal assunto. Esse amor nos informa sobre a pessoa que ama, caracteriza as relações que ela mantém com aquela esfera mais vasta, com o referido mundo que o assunto representa, e que é, consciente ou inconscientemente, amado junto com ele.
     Poderá o leitor nos dar crédito se afirmarmos que o nosso singelo herói, depois de tantos anos de desenvolvimento hermético pedagógico, penetrara bastante fundo na vida espiritual para ter consciência do “significado” do seu amor e do objeto amado? Afirmamo-lo e asseguramos que ele teve essa consciência. Aquela canção significava muito para Hans Castorp, um mundo inteiro e justamente um mundo que ele amava, não há dúvida; pois, não fosse assim, não se enamoraria a tal ponto do símbolo que o substituía. Sabemos o que estamos dizendo quando acrescentamos – talvez sob forma um tanto obscura – que o seu destino teria tomado um rumo diferente, se a sua alma não houvesse sido particularmente receptível às tentações da esfera sentimental, da atitude espiritual que esse Lied resumia de um modo mágico e insinuante. Esse mesmo destino, porém, trouxera consigo progressos, aventuras, descobertas, e colocara-o diante de problemas “governamentais” que o haviam tornado capaz de criticar intuitivamente esse mundo, bem como o símbolo que o representava, por mais admirável que fosse, e também o amor que sentia por ele; e tudo isso fazia com que o jovem tivesse escrúpulos de consciência com respeito a todos os três, o mundo, o símbolo e o amor.
     Ora, nada entenderia do amor quem supusesse que tais escrúpulos poderiam prejudicá-lo. Pelo contrário, dão-lhe o verdadeiro sabor. Eles é que conferem ao amor o incentivo da paixão, de maneira que se poderia definir a paixão, de um modo absoluto, como o amor que duvida. E em que consistiam os escrúpulos que acossavam a consciência e o “reino” de Hans Castorp e o levavam a duvidar da legitimidade superior da afeição que nele despertavam aquela encantadora canção e o mundo de que ela tratava? Qual era o mundo que se abria atrás dela e que, segundo os pressentimentos íntimos de Hans Castorp, devia ser o mundo do amor proibido?
     Era a morte.
     Mas isso é rematada loucura! Uma canção tão maravilhosa! Uma obra-prima das mais puras, nascida nas derradeiras e mais sagradas profundezas do gênio popular! Um patrimônio sublime, a mais alta expressão do sentimento genuíno, a graça personificada! Que calúnia!
     Está bem! Está tudo muito bem! É assim que pessoas bem-intencionadas devem falar. Entretanto, por trás dessa formosa obra de arte levantava-se a morte. O Lied mantinha relações com esta, relações que era possível amar, não, porém, sem se dar conta – de um modo intuitivo e na função de um “rei” – do caráter ilícito de tal amor. Pela sua natureza primitiva, a canção talvez não expressasse simpatias pela morte, senão algo muitíssimo popular e vital. Mas a simpatia espiritual por isso era, apesar de tudo, uma simpatia pela morte. No início, sim, havia a mais pura piedade, o decoro em pessoa – absolutamente não o negamos. O que se seguia, porém, eram os produtos das trevas.
     Afinal, que coisas são essas de que Hans Castorp procurava persuadir-se? Ninguém teria sido capaz de dissuadi-lo delas. Produtos das trevas! Produtos sinistros! O espírito de algozes e a inimizade aos homens, trajando roupas pretas, à espanhola, e uma golilha engomada! A volúpia em lugar do amor – como resultado da piedade de olhos leais?
     Embora a confiança que Hans Castorp dedicava ao literato Settembrini nunca tivesse sido irrestrita, o jovem lembrava-se de algumas lições que outrora lhe ministrara o lúcido mentor, em tempos remotos, logo no começo da sua carreira hermética, quando lhe falara do “retrocesso” espiritual em direção a certos mundos. O discípulo achava oportuno aplicar cautelosamente aqueles ensinamentos ao assunto em apreço. O Sr. Settembrini qualificara de “doença” o fenômeno desse retrocesso. O próprio conceito do mundo e a época espiritual buscados pelo retrocesso talvez se afigurassem “mórbidos” ao seu intelecto pedagógico. Mas como? A nostálgica e meiga canção de Hans Castorp, a esfera sentimental de que ela fazia parte, e a afeição a essa esfera seriam então – sintomas de “doença”? Nada disso! Eram o que havia de mais sadio no mundo da psique. E todavia tratava-se de um fruto que, se bem que no momento aparecesse fresco e viçoso, tendia fortemente à decomposição e à putrefação. Para quem o saboreava no momento oportuno representava um regalo puríssimo da alma; mas, num instante inoportuno, que já podia ser o próximo, difundia podridão e ruína no seio da humanidade que o ingeria. Era um fruto da vida, gerado pela morte e prenhe de morte. Era um milagre da alma – o mais sublime talvez sob o ponto de vista da beleza irresponsável e abençoado por esta; mas havia motivos ponderáveis para que fosse considerado com desconfiança pelos olhos de quem amasse a vida, de quem “reinasse” com senso de responsabilidade e tivesse afeição à esfera orgânica; segundo o veredicto definitivo da consciência, requeria um triunfo sobre o próprio eu.
     Sim, um triunfo sobre o próprio eu – talvez fosse esta a essência do triunfo sobre esse amor, sobre o sortilégio que enleava a alma, com sinistras consequências! Os pensamentos, ou melhor, os semipensamentos intuitivos de Hans Castorp alçavam um alto voo, enquanto, em meio à noite e à solidão, se achava sentado à frente do truncado ataúde de música. Voavam para além do alcance da sua razão; eram pensamentos alquimisticamente desenvolvidos. Ah, como era poderoso aquele sortilégio! Nós todos éramos seus filhos e, obedecendo-lhe, podíamos realizar grandes coisas neste mundo. Não era preciso mais gênio, senão apenas muito mais talento do que tivera o autor da canção da Tília, para conferir, como artista da magia da alma, proporções gigantescas ao Lied e para conquistar o mundo por meio dele. Provavelmente seria até possível fundar impérios sobre essa base, impérios terrestres, por demais terrestres, impérios rudes, progressistas, e que no fundo não sofriam da menor nostalgia, impérios em cujo seio o Lied degenerava para uma música de vitrola elétrica. Mas o melhor dentre os filhos do sortilégio talvez fosse aquele que consumisse a sua vida no esforço de triunfar sobre ele e falecesse esboçando com os lábios a nova palavra do amor, que ainda não sabia pronunciar. Valia a pena morrer por essa canção mágica! Mas, quem morria por ela, em realidade já não o fazia e era um herói somente porque, em última análise, já morria por uma coisa nova, fomentando no seu coração a nova palestra do amor e do futuro...
     Eram, pois, aqueles os discos preferidos de Hans Castorp.

continua pág 431...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [c] / Coisas muito problemáticas - [a]
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

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