domingo, 4 de janeiro de 2026

O Sol é para todos: 2ª Parte (23a)

Harper Lee

O Sol é para todos

Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto

Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB

SEGUNDA PARTE

23

— Só gostaria que Bob Ewell não mascasse tabaco — foi o único comentário de Atticus. 

     Segundo a srta. Stephanie Crawford, Atticus estava saindo do correio quando o sr. Ewell se aproximou, xingou-o, cuspiu nele e ameaçou matá-lo. A srta. Stephanie (que na segunda vez que me contou isso estava lá e havia presenciado tudo, pois estava voltando da Jitney Jungle) disse que Atticus nem piscou, apenas pegou o lenço, limpou o rosto e ficou parado ouvindo o sr. Ewell xingá-lo de nomes que ela não ia repetir por nada neste mundo. O sr. Ewell era veterano de uma guerra obscura; isso, somado ao fato de Atticus não reagir à agressão, fez com que perguntasse: “Orgulhoso demais para brigar, seu defensor de pretos maldito?” A srta. Stephanie disse que Atticus respondeu: “Não, apenas velho demais” — enfiou as mãos nos bolsos e saiu andando. Ela disse também que era preciso admitir que às vezes Atticus Finch podia ser bem seco.
     Jem e eu não achamos graça nenhuma. 

— Afinal de contas, ele já foi o tiro mais certeiro do condado. Ele podia… — lembrei. — Você sabe que ele não anda armado, Scout. Nem tem uma arma… — disse Jem. 
— Você sabe que ele não estava armado nem naquela noite na cadeia. Ele me disse que ter uma arma é um convite para levar um tiro. 
— Mas agora é diferente. Podemos pedir para ele pegar uma arma emprestada — sugeri.

     Pedimos e ele disse: 

— Isso é bobagem.

     Dill achava que um apelo ao bom senso de Atticus podia funcionar: afinal de contas, se o sr. Ewell o matasse, nós morreríamos de fome, além de sermos criados apenas por tia Alexandra, e sabíamos muito bem que a primeira coisa que ela ia fazer, antes mesmo de Atticus ser enterrado, seria demitir Calpúrnia. Jem disse que podia funcionar se eu chorasse e tivesse um ataque, já que eu era criança e menina. Mas isso também não funcionou.
     Mas, quando percebeu que estávamos andando cabisbaixos pela vizinhança, não comíamos nem demonstrávamos muito interesse pelas nossas atividades habituais, Atticus descobriu que estávamos apavorados. Uma noite, tentou agradar Jem levando para ele uma revista nova de futebol, e quando o viu folhear a revista e deixá-la de lado, perguntou: 

— Qual é o problema, filho?

     Jem foi direto ao ponto: 

— É o sr. Ewell. 
— O que houve? 
— Nada. Estamos com medo do que pode acontecer com você e achamos que você precisa fazer alguma coisa.

     Atticus deu um sorriso estranho. 

— Fazer o quê? Pedir ao juiz uma medida cautelar contra ele? 
— Quando alguém diz que vai acabar com você, está falando sério. 
— E ele estava mesmo falando sério quando disse isso — concordou Atticus. — Jem, procure se colocar no lugar de Bob Ewell um instante. No julgamento, eu acabei com o pouco de credibilidade que ele ainda tinha, se é que tinha alguma. O sujeito tinha de revidar de alguma maneira, esse tipo de gente é assim. Então, se o fato de ter cuspido no meu rosto e me ameaçado salvou Mayella Ewell de levar mais uma surra, fico contente. Ele tinha de descontar em alguém, e é melhor que tenha sido em mim do que naquelas crianças na casa dele. Entendeu?

     Jem concordou com a cabeça.
     Tia Alexandra entrou na sala no momento em que Atticus dizia: 

— Não precisamos ter medo de Bob Ewell, ele pôs tudo que queria para fora naquela manhã. 
— Eu não teria tanta certeza disso, Atticus — disse ela. — Aquela gente faz qualquer coisa para se vingar. Você sabe como eles são. 
— O que Ewell poderia fazer comigo, irmã? 
— Alguma coisa furtiva. Pode ter certeza — disse a tia. 
— Ninguém consegue fazer nada furtivo em Maycomb — observou Atticus.

     Depois disso, perdemos o medo. O verão estava acabando e aproveitamos ao máximo. Atticus nos garantiu que nada ia acontecer a Tom Robinson até o Tribunal Superior rever o processo e que ele tinha chance de ser libertado ou, pelo menos, ir a novo julgamento. Ele estava no presídio agrícola de Enfield, a uns cem quilômetros de Maycomb, no condado de Chester. Perguntei se a mulher e os filhos dele podiam visitá-lo, e Atticus disse que não. 

— Se o recurso for negado — perguntei, certa noite —, o que vai acontecer com ele? 
— Ele vai para a cadeira elétrica, a menos que o governador comute a pena. Mas ainda não é hora de se preocupar, Scout. Temos muita chance.

     Jem estava esparramado no sofá lendo Popular Mechanics e tirou os olhos da revista. 

— Não está certo. Mesmo que fosse culpado, ele não matou ninguém. Não tirou a vida de ninguém. 
— Você sabe que o estupro é considerado crime capital no Alabama — lembrou Atticus. 
— Eu sei, mas os jurados não precisavam condená-lo a morte… podiam dar uma sentença de vinte anos. 
— É verdade — concordou Atticus. — Mas Tom é negro, Jem. Aqui nesta parte do mundo, nenhum júri vai dizer “consideramos você culpado, mas não muito”, diante de uma acusação como essa. Ou era absolvição direta, ou nada.

     Jem balançava a cabeça, incrédulo. 

— Eu sei que não é justo, mas não consigo descobrir o que está errado… Talvez o estupro não devesse ser crime capital…

     Atticus deixou o jornal cair no chão ao lado da cadeira. Disse que nunca tinha discordado da lei do estupro, mas tinha grandes reservas quando o Estado pedia e o júri concedia uma pena capital com base em provas meramente circunstanciais. Olhou para mim, viu que eu estava ouvindo e explicou: 

— Ou seja, antes de um homem ser condenado à morte por assassinato, deveria haver uma ou duas testemunhas oculares. Alguém que pudesse afirmar: “Sim, eu estava lá e vi quando ele puxou o gatilho.” 
— Mas muita gente foi enforcada com base em provas circunstanciais — lembrou Jem. 
— Eu sei, e muitos decerto mereceram, mas, se não há testemunhas oculares, fica sempre uma dúvida, às vezes apenas a sombra de uma dúvida. A lei fala em “dúvida razoável”, mas eu acho que o condenado tem direito à sombra de uma dúvida. Há sempre a possibilidade, por mais improvável que seja, de ele ser inocente. 
— Então fica tudo nas mãos do júri. Devíamos acabar com os júris — Jem estava irredutível.

     Atticus fez um esforço para ficar sério, não conseguiu. 

— Você está sendo muito duro conosco, filho. Acho que talvez haja uma solução melhor. Mudar a lei. Mudá-la de maneira que só o juiz possa fixar a pena no caso de crimes com pena capital. 
— Então, vá a Montgomery e mude a lei. 
— Você não faz ideia de como é difícil fazer isso. Não vou viver para ver essa lei ser mudada, e se você viver o bastante para isso, já estará velho.

     Jem não se satisfez. 

— Não, senhor, eles têm que acabar com os júris. Para começar, Tom era inocente e o júri decidiu que não era. — Se você fizesse parte daquele júri, filho, e mais onze rapazes como você, Tom seria um homem livre — disse Atticus. — Até agora, nada na sua vida interferiu no seu processo de raciocínio. O júri de Tom era composto de doze homens que são sensatos no dia a dia, mas você viu algo se interpondo entre eles e a razão. Você viu a mesma coisa naquela noite na frente da cadeia. Quando os homens foram embora, não foram por serem sensatos, mas porque nós estávamos lá. Existem coisas no nosso mundo que fazem os homens perderem a cabeça; não conseguiriam ser justos nem se quisessem. Nos nossos tribunais, quando se trata da palavra de um branco contra a de um negro, o branco sempre vence. É horrível, mas é a vida. 
— Continua não sendo justo — disse Jem, irredutível, batendo o punho no joelho. — Não se pode condenar um homem com provas como aquelas… não mesmo. 
Você não poderia, mas eles puderam e condenaram. Quanto mais viver, mais coisas assim você vai ver. O tribunal é o único lugar onde todas as pessoas deveriam ser tratadas como iguais, não importa de qual cor do arco-íris elas sejam, mas as pessoas sempre acabam levando seus ressentimentos para o banco do júri. À medida que for crescendo, vai ver brancos enganando negros todos os dias, mas vou lhe dizer uma coisa e quero que nunca esqueça: sempre que um branco faz esse tipo de coisa com um negro, não importa quem ele seja, quanto dinheiro tenha ou quão distinta seja a família da qual ele vem, esse homem branco não vale nada.

     Atticus falava tão calmamente que a última palavra doeu no nosso ouvido. Olhei para cima e a expressão no rosto dele era de veemência. 

— Para mim não há nada mais repugnante do que um branco de quinta categoria tirar vantagem da ignorância de um negro. Podem ter certeza: essa dívida está aumentando e um dia vamos pagar essa conta. Espero que até lá vocês já tenham morrido.

     Jem coçava a cabeça. De repente, ficou intrigado e arregalou os olhos. 

— Atticus, por que gente como nós e a srta. Maudie nunca participa de júris? Nunca tem um morador de Maycomb, os jurados são sempre do interior — disse Jem.

     Atticus recostou-se na cadeira de balanço. Por alguma razão, ele parecia satisfeito com Jem. 

— Eu estava pensando quando você ia perguntar isso. Por várias razões: primeiro, a srta. Maudie não pode participar de um júri por ser mulher. 
— Quer dizer que as mulheres no Alabama não podem...? — Fiquei indignada. 
— Isso mesmo. Deve ser para proteger nossas delicadas senhoras de ouvir casos sórdidos como o de Tom. Além disso, duvido que conseguíssemos levar um julgamento até o fim. As senhoras não iam parar de fazer perguntas — disse Atticus, rindo.

     Jem e eu rimos. A srta. Maudie num júri seria incrível. Pensei na velha sra. Dubose na cadeira de rodas dizendo ao juiz: “Pare de bater esse martelo, John Taylor, quero perguntar uma coisa a esse homem.” Vai ver que nossos antepassados tinham razão.
     Atticus estava dizendo: 

— Com pessoas como nós… esse é o preço que pagamos. Em geral, temos o júri que merecemos. Em primeiro lugar, os respeitáveis cidadãos de Maycomb não estão interessados. Em segundo, eles têm medo. Além disso, eles… 
— Medo do quê? — perguntou Jem. 
— Bem… e se, por exemplo, o sr. Link Deas tivesse que estipular qual seria a indenização que a srta. Rachel teria de pagar à srta. Maudie por atropelá-la? Link não ia querer perder nenhuma das duas freguesas na loja dele, não é? Por isso, diz ao juiz Taylor que não pode participar do júri porque não tem quem fique na loja enquanto está no tribunal. O juiz Taylor o dispensa. Às vezes, a contragosto. 
— O que faria o sr. Link pensar que perderia as freguesas? — perguntei.

     Jem disse: 

— A srta. Rachel deixaria de ser cliente, a srta. Maudie, não. Mas o voto dos jurados é secreto, Atticus.

     Papai riu. 

— Você ainda tem muito caminho pela frente, filho. O voto dos jurados deveria ser secreto. Mas fazer parte de um júri obriga um homem a decidir e se pronunciar sobre algo. E os homens não gostam de fazer isso. Às vezes, é desagradável. 
— Os júri de Tom decidiu bem rápido — resmungou Jem.

     Atticus pôs a mão no bolso do relógio. 

— Não, não decidiu — ele disse, mais para si mesmo do que para nós. — Foi isso que me fez pensar que, bem, esse poderia ser o começo de alguma coisa. O júri demorou algumas horas. Talvez o veredicto fosse inevitável, mas, em geral, eles levam apenas alguns minutos. Dessa vez… — ele se interrompeu e olhou para nós — vocês vão gostar de saber que um dos jurados custou para ser convencido… a princípio, ele queria a absolvição total. 
— Quem? — Jem estava pasmo.

     Os olhos de Atticus brilharam. 

— Não posso dizer, mas vou dar uma pista. É um dos velhos conhecidos de vocês de Old Sarum… 
— É um Cunningham? — gritou Jem. — Um dos… Não reconheci nenhum deles… Você está brincando. — E olhou de soslaio para Atticus. 
— Um parente deles. Não o recusei porque tive um palpite. Só um palpite. Eu poderia tê-lo recusado, mas não fiz isso. 
— Puxa vida! — exclamou Jem, admirado. — Uma hora eles querem matá-lo, na outra querem soltá-lo… Nunca vou entender aquela gente.

     Atticus disse que bastava conhecê-los. E que os Cunningham nunca tinham tirado nem aceitado nada de ninguém desde que vieram para o Novo Mundo. E disse também que quem conquistava o respeito deles podia contar com eles para qualquer coisa. Atticus contou que teve a impressão, não mais que uma suspeita, que, depois daquela noite em que foram à cadeia, os Cunningham passaram a ter um respeito considerável pelos Finch. Além disso, acrescentou, seria preciso um raio e mais um Cunningham para fazer um deles mudar de ideia. 

— Se tivéssemos mais um Cunningham entre os jurados, o júri chegaria a um impasse.

continua página 159...
___________________

Leia também:

__________________

Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988 
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês 
TO KILL A MOCKINGBIRD 
__________________

Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.

Nenhum comentário:

Postar um comentário