domingo, 4 de janeiro de 2026

Espumas Flutuantes - O LAÇO DE FITA

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

O LAÇO DE FITA 
 

     Não sabes, criança? ‘Stou louco de amores... 
 Prendi meus afetos, formosa Pepita. 
 Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?! 
 Não rias, prendi-me 
 Num laço de fita.

Na selva sombria de tuas madeixas, 
 Nos negros cabelos da moça bonita, 
 Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem, 
 Formoso enroscava-se 
 O laço de fita. 

Meu ser, que voava nas luzes da festa, 
 Qual pássaro bravo, que os ares agita, 
 Eu vi de repente cativo, submisso 
 Rolar prisioneiro 
 Num laço de fita.

E agora enleada na tênue cadeia 
 Debalde minh’alma se embate, se irrita... 
 O braço que rompe cadeias de ferro, 
 Não quebra teus elos, 
 Ó laço de fita!

Meu Deus! As falenas têm asas de opala, 
 Os astros se libram na plaga infinita. 
 Os anjos repousam nas penas brilhantes... 
 Mas tu... tens por asas 
 Um laço de fita. 

Há pouco voavas na célere valsa 
 Na valsa que anseia, que estua e palpita. 
 Por que é que tremeste? Não eram meus lábios... 
 Beijava-te apenas... 
 Teu laço de fita. 

Mas ai! findo o baile, despindo os adornos 
 N’alcova onde a vela ciosa... crepita, 
 Talvez da cadeia libertes as tranças 
 Mas eu... fico preso 
No laço de fita.

Pois bem! Quando um dia na sombra do vale 
 Abrirem-me a cova... formosa Pepita! 
 Ao menos arranca meus louros da fronte, 
 E dá-me por c’roa... 
 Teu laço de fita. 

São Paulo, julho de 1868 


AHASVERUS E O GÊNIO
Ao poeta e amigo J. Felizardo Júnior 

Sabes quem foi Ahasverus?... — o precito, 
 O mísero judeu, que tinha escrito 
 Na fronte o selo atroz! 
 Eterno viajor de eterna senda... 
 Espantado a fugir de tenda em tenda 
 Fugindo embalde à vingadora voz! 

Misérrimo! Correu o mundo inteiro, 
 E no mundo tão grande... o forasteiro 
 Não teve onde... pousar. 
 Co'a mão vazia — viu a terra cheia. 
 O deserto negou-lhe — o grão de areia, 
 A gota d’água — rejeitou-lhe o mar. 

D’Ásia as florestas — lhe negaram sombra 
 A savana sem fim — negou-lhe alfombra 
 O chão negou-lhe o pó!... 
 Tabas, serralhos, tendas e solares... 
 Ninguém lhe abriu a porta de seus lares 
 E o triste seguiu só.

Viu povos de mil climas, viu mil raças, 
 E não pôde entre tantas populaças 
 Beijar uma só mão... 
 Desde a virgem do norte à de Sevilhas 
 Desde a inglesa à crioula das Antilhas 
 Não teve um coração!... 

E caminhou!... E as tribos se afastavam 
 E as mulheres tremendo murmuravam 
 Com respeito e pavor. 
 Ai! Fazia tremer do vale à serra... 
 Ele que só pedia sobre a terra 
 — Silêncio, paz e amor! —  

No entanto à noite, se o Hebreu passava, 
 Um murmúrio de inveja se elevava, 
 Desde a flor da campina ao colibri. 
 “Ele não morre” a multidão dizia... 
 E o precito consigo respondia: 
 — “Ai! mas nunca vivi!” — 

O gênio é como Ahasverus... solitário 
 A marchar, a marchar no itinerário 
 Sem termo de existir. 
 Invejado! A invejar os invejosos. 
 Vendo a sombra dos álamos frondosos... 
 E sempre a caminhar... sempre a seguir... 

Pede u’a mão de amigo — dão-lhe palmas: 
 Pede um beijo de amor — e as outras almas 
 Fogem pasmas de si. 
 E o mísero de glória em glória corre... 
 Mas quando a terra diz: — “Ele não morre” 
 Responde o desgraçado: “Eu não vivi!...” 
 São Paulo, outubro de 1868

continua pag 8...
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Prólogo / Hebreia / Laço de fita / 
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871, Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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