domingo, 4 de janeiro de 2026

Moby Dick: 47 - O Esteireiro

Moby Dick

Herman Melville

47 -  O Esteireiro
      
     Era uma tarde nublada e opressiva; os homens passeavam lentamente pelo convés, ou olhavam distraidamente para as águas plúmbeas. Queequeg e eu estávamos ocupados em tecer tranquilamente o que se chama de esteira-espada, para servir de amarra suplementar para o nosso bote. Tão calma e absorta e ainda de certo modo auspiciosa a cena se apresentava, e pairava tamanho encantamento de sonho no ar, que todo marinheiro, em silêncio, parecia dissolver-se em seu próprio eu invisível.
     Eu era o ajudante ou assistente de Queequeg, ambos ocupados no trabalho da esteira. Enquanto eu passava e repassava a trama ou fio de merlim por entre os longos fios da urdidura, usando minha própria mão como lançadeira, Queequeg, de pé ao lado, de vez em quando deslizava sua enorme espada de carvalho por entre as linhas, e, olhando distraidamente para a água, colocava de modo despreocupado e automático cada fio no seu lugar; repito, uma atmosfera estranha de sonho reinava sobre todo o navio e sobre todo o mar, apenas quebrada pelo barulho intermitente da espada, tanto que isto parecia ser o Tear do Tempo, e eu mesmo uma lançadeira mecanicamente tecendo e sempre tecendo para as Parcas. Assim estavam presos os fios da urdidura, sujeitos a apenas uma única vibração imutável e constante, e aquela vibração era calculada para permitir apenas o cruzamento dos outros fios com o seu. A urdidura parecia a Necessidade; e aqui, pensei, com as minhas próprias mãos guio a lançadeira e teço meu próprio destino nestes fios inalteráveis. Enquanto isso, a espada indiferente e impulsiva de Queequeg às vezes tocava na trama de modo enviesado, ou torto, ou muito forte, ou muito fraco, conforme o caso; e, com essa diferença, o último golpe produzia um contraste correspondente no aspecto final do tecido concluído; a espada desse selvagem, pensei, que dá forma e ajusta, por fim, tanto a urdidura quanto a trama; essa espada indiferente e descuidada deve ser o Acaso – sim, Acaso, Livre-Arbítrio e Necessidade – de modo algum incompatíveis – todos entrelaçadamente trabalhando juntos. A urdidura reta da Necessidade, que não deve ser desviada de seu curso final – todas as suas vibrações alternadas, de fato, levam a isso; o Livre-Arbítrio sempre livre para guiar sua lançadeira por entre os fios estabelecidos; e o Acaso, embora restrito pelas linhas retas da Necessidade, e além do mais tendo os movimentos modificados pelo Livre-Arbítrio, embora seja dessa forma determinado pelos dois, o Acaso a cada vez comanda ambos e dispõe do último golpe no configurar dos acontecimentos.

***
     Estávamos assim tecendo e sempre tecendo, quando fui desperto por um som tão estranho, tão prolongado e musicalmente selvagem e sobrenatural, que o novelo do Livre-Arbítrio caiu de minha mão, e fiquei a olhar para cima, para as nuvens, de onde aquela voz descia como uma asa. No alto, na plataforma da gávea, estava Tashtego, aquele louco de Gay Head. Seu corpo se jogava avidamente para a frente, a mão esticada como uma vara, e com súbitos intervalos rápidos voltava a gritar. Esteja certo de que o mesmo grito talvez tenha sido ouvido naquele momento por toda a extensão dos mares, vindo de todos os gajeiros de navios baleeiros, empoleirados lá em cima; mas de poucos daqueles pulmões o velho e pisado aviso poderia surgir com uma cadência tão maravilhosa quanto a do índio Tashtego.
     Enquanto pairasse sobre você como que suspenso no ar, tão ansiosa e avidamente olhando para o horizonte, você o teria comparado a um profeta ou vidente contemplando as sombras do Destino e anunciando com aqueles gritos selvagens sua chegada.

“Lá soprou! Ali! Ali! Ali! Ela sopra! Ela sopra!” 
“Onde?” 
“A sotavento, umas duas milhas! Um bando!”

     Imediatamente tudo se fez comoção.
     O cachalote sopra como um relógio toca, com a mesma regularidade confiável e constante. Assim os baleeiros distinguem esse peixe das outras tribos de seu gênero.

“Já foram as caudas!”, ouviu-se então Tashtego gritar, e as baleias desapareceram. 
“Depressa, camareiro!”, gritou Ahab. “As horas! As horas!”

     Dough-Boy correu para baixo, olhou no relógio e informou Ahab da hora exata.
     O navio mantinha-se afastado do vento e deslizava calmamente à sua frente. Tashtego tendo anunciado que as baleias mergulhavam a sotavento, esperávamos vê-las emergir diretamente na proa. Pois aquela astúcia singular mostrada às vezes pelo cachalote, quando, imergindo a cabeça numa direção, se move rapidamente na direção oposta, enquanto se esconde sob a superfície – este subterfúgio não podia estar sendo posto em prática naquele momento; pois não havia motivo para supor que o peixe avistado por Tashtego pudesse ter se assustado ou mesmo tomado conhecimento de nossa proximidade. Um dos homens escolhidos para guardar o navio – isto é, um dos que não desciam com os botes, já tinha tomado o lugar do Índio no topo do mastro principal. Os marinheiros dos mastros de proa e de mezena desceram; as bobinas dos cabos foram colocadas em seus lugares; os guindastes foram colocados para fora; a verga principal foi recolhida, e os três botes balançavam sobre o mar como três cestos de salicórnia sobre altos penhascos. Fora da amurada, a tripulação ansiosa, com uma das mãos firmada no balaústre, colocava o pé na amurada. Assim se colocam numa longa fila os marinheiros dos navios de guerra prontos para abordar o navio inimigo.
     Mas neste momento crítico ouviu-se um grito que afastou todos os olhares da baleia. Com um sobressalto, todos se viraram para o soturno Ahab, que estava cercado por cinco fantasmas sombrios, que pareciam recém-criados pelo ar.

Continua na página 211...
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Leia também:
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{a} Depois que isso foi escrito, a afirmação foi felizmente confirmada por uma circular oficial, emitida pelo Tenente Maury, do Observatório Nacional, de Washington, em 16 de abril de 1851. Segundo a circular, parece que justamente tal carta está em via de ser terminada; e trechos dela são apresentados na circular. “Esta carta divide o oceano em distritos de cinco graus de latitude por cinco graus de longitude; perpendicularmente, através de cada uma dessas regiões há doze colunas para cada um dos doze meses; e horizontalmente, através de cada região há três linhas; uma para mostrar o número dos dias que foram gastos por mês em cada região, e as outras duas para mostrar o número de dias durante os quais baleias, cachalotes ou francas foram vistos.” [N. A.]
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Moby Dick é um romance do escritor estadunidense Herman Melvillesobre um cachalote (grande animal marinho) de cor branca que foi perseguido, e mesmo ferido várias vezes por baleeiros, conseguiu se defender e destruí-los, nas aventuras narradas pelo marinheiro Ishmael junto com o Capitão Ahab e o primeiro imediato Starbuck a bordo do baleeiro Pequod. Originalmente foi publicado em três fascículos com o título "Moby-Dick, A Baleia" em Londres e em Nova York em 1851.
O livro foi revolucionário para a época, com descrições intrincadas e imaginativas do personagem-narrador, suas reflexões pessoais e grandes trechos de não-ficção, sobre variados assuntos, como baleias, métodos de caça a elas, arpões, a cor do animal, detalhes sobre as embarcações, funcionamentos e armazenamento de produtos extraídos das baleias.
O romance foi inspirado no naufrágio do navio Essex, comandado pelo capitão George Pollard, que perseguiu teimosamente uma baleia e ao tentar destruí-la, afundou. Outra fonte de inspiração foi o cachalote albino Mocha Dick, supostamente morta na década de 1830 ao largo da ilha chilena de Mocha, que se defendia dos navios que a perturbavam.
A obra foi inicialmente mal recebida pelos críticos, assim como pelo público por ser a visão unicamente destrutiva do ser humano contra os seres marinhos. O sabor da amarga aventura e o quanto o homem pode ser mortal por razões tolas como o instinto animal, sendo capaz de criar seus fantasmas justamente por sua pretensão e soberba, pode valer a leitura.


E você com o quê se identifica?

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