David Hume
Seção X
DOS MILAGRES[1*]
PARTE DOIS
Certamente, não houve jamais maior número de milagres atribuídos a uma só pessoa do que aqueles, diz-se, que foram realizados recentemente na França sobre o túmulo do abade Paris, o célebre jansenista, cuja santidade serviu para ludibriar por muito tempo o povo. A cura das doenças, a restituição da audição aos surdos e da visão aos cegos, eram, no consenso geral, os efeitos habituais deste santo sepulcro. Mas, o que é mais extraordinário, numerosos milagres foram verificados imediatamente no mesmo lugar, ante juízes de integridade indiscutível, certificados por testemunhas de boa reputação e distinção, numa época instruída e no local de maior destaque atualmente no mundo. Além disso, um relatório dos milagres foi publicado e difundido por toda parte; e os jesuítas, embora formassem uma elite instruída, apoiados pelo magistrado cível e inimigos inveterados das opiniões em favor das quais, diz se, os milagres tinham sido realizados, jamais foram capazes de refutá-los ou desmascará-los claramente. [8] Onde encontraremos tal número de circunstâncias concordantes na corroboração de um fato? O que podemos opor a semelhante nuvem de testemunhas senão a absoluta impossibilidade da natureza miraculosa dos eventos que relatam? E isto, certamente, aos olhos de todas as pessoas razoáveis, por si só será considerado como uma refutação suficiente.
Será correto concluir, verificando-se que o testemunho humano em certos casos é
dotado de força e autoridade extremas, ao relatar, por exemplo, a batalha de Filipos ou de
Farsália, que toda classe de testemunho, portanto, deve estar dotada em todos os casos de
igual força e autoridade? Suponde que uma das facções, a de César e a de Pompeu, houvesse
reivindicado a vitória destas batalhas e que os historiadores de cada partido houvessem
atribuído uniformemente as vantagens para o seu próprio lado; como poderiam os homens, a
esta distância, decidir entre eles? O contraste é igualmente grande entre os milagres narrados
por Heródoto ou Plutarco, e os transmitidos por Mariana, Beda ou qualquer outro historiador
monástico.
O sábio concede fé bastante académica a toda narrativa favorável à paixão de quem a
relata, quer exaltando seu país, sua família ou a si mesmo, quer, de outro modo,
conformando-a com suas inclinações e tendências naturais. Há maior tentação do que
assemelhar-se a um missionário, a um profeta, ou a um embaixador do céu? Quem não
afrontaria múltiplos perigos e dificuldades para alcançar um caráter tão sublime? Ou se,
auxiliada pela vaidade ou por uma ardente imaginação, uma pessoa começa a converter-se a
si mesma e penetra seriamente no mundo ilusório, quem terá escrúpulo de utilizar-se de
piedosas fraudes, a fim de sustentar causa tão sagrada e meritória?
A menor centelha aqui pode transformar-se na maior chama, já que os materiais estão
sempre preparados para se inflamar. Avidum genus auricularum[9] a população alucinada
recebe sofregamente, sem exame, tudo o que adula a superstição e promove o maravilhoso.
Quantas histórias desta natureza têm sido, em todas as épocas, descobertas e
desmascaradas em seu nascedouro? Quantas mais têm sido famosas por algum tempo e
depois tombado no esquecimento e na indiferença? Portanto, quando tais relatos se divulgam,
a solução do fenômeno é óbvia: julgamos em conformidade com a observação e a experiência
e os explicamos mediante os princípios conhecidos e naturais da credulidade e da ilusão.
Contudo, antes de recorrermos a uma solução tão natural, suporemos uma miraculosa
violação das mais bem fundamentadas leis naturais?
Não tenho necessidade de mencionar os obstáculos para desmascarar a falsidade de
uma história privada ou mesmo pública, na localidade em que, diz-se, ocorreu; e os
obstáculos são ainda maiores quando o teatro do evento se acha distanciado de nós, mesmo
em se tratando de uma pequena distância. Mesmo no tribunal de justiça, com toda a
autoridade, a exatidão e o julgamento que se podem empregar, os juízes encontram-se
frequentemente embaraçados para distinguir entre a verdade e a falsidade nas questões mais
recentes. Mas se, para resolver o impasse, se confia nos métodos comuns da altercação,
debates e boatos, jamais se chega a qualquer conclusão, especialmente se paixões humanas
interferem numa ou noutra parte.
Nos primeiros momentos das novas religiões, os sábios e os doutos geralmente estimam
que o assunto não é muito importante para merecer sua atenção ou sua consideração. E
quando posteriormente querem de boa vontade revelar a farsa, a fim de esclarecer a multidão
iludida, o momento oportuno já passou, e os documentos e as testemunhas que poderiam
esclarecer o assunto perderam-se para sempre.
Não resta nenhum outro meio para desmascarar a fraude, senão aqueles que podem ser
tirados do próprio testemunho dos narradores; e estes, embora sejam sempre suficientes às
pessoas judiciosas e instruídas, são geralmente muito sutis para que o homem comum os
compreenda.
Em resumo, portanto, parece que jamais qualquer espécie de testemunho a favor de um
milagre tem chegado a ser provável, e muitos menos uma prova; e que, mesmo supondo que
chegasse a ser uma prova, seria oposta, por outra prova, derivada da própria natureza do fato
que tentaria estabelecer. Porquanto apenas a experiência confere autoridade ao testemunho
humano, e é ainda a experiência que nos assegura a respeito das leis da natureza. Portanto,
quando estas duas espécies de experiência s são contrárias, resta-nos o recurso de subtrair uma
da outra e aceitar uma opinião, tendendo para um dos dois lados, com a segurança originada
do resto. Mas, de acordo com o princípio aqui explicado, este resto, concernente a todas as
religiões populares, equivale a uma completa anulação; e, portanto, podemos estabelecer
como princípio que nenhum testemunho humano é dotado de suficiente força para provar um
milagre e tomá-lo a base justa de um determinado sistema religioso.
Peço que se considerem as ressalvas que faço aqui, quando afirmo que nenhum milagre
jamais pode ser provado, de modo que seja o fundamento de um sistema religioso. Assevero,
por outro lado, que seria possível haver milagres ou violações do curso ordinário da natureza,
levando-nos a admitir uma prova derivada do testemunho humano; embora, talvez, seja
impossível deparar com semelhante milagre em todos os anais da história. Isto posto,
suponde que a totalidade dos autores, abrangendo todos os idiomas, concordassem que a
partir de primeiro de janeiro de 1600 houve total obscuridade sobre toda a Terra durante oito
dias; que a transmissão deste evento extraordinário seja ainda forte e viva entre os homens;
que todos os viajantes regressando de países estrangeiros nos tragam relatos da mesma
tradição sem a menor variação ou contradição; desta maneira, é evidente que os filósofos
contemporâneos deveriam, em vez de duvidar, considerar o fato como evidente e buscar as
causas que poderiam engendrá-lo. Em verdade, a decadência, a corrupção e a dissolução da
natureza são eventos supostos prováveis por tantas analogias que qualquer fenômeno
tendendo para esta última catástrofe se incorpora ao testemunho humano, especialmente
quando este testemunho se acha difundido com bastante uniformidade.
Supondo agora que todos os historiadores que estudam a Inglaterra concordassem com
que em primeiro de janeiro de 1600 a rainha Elizabeth morreu; que ela foi vista antes e
depois de sua morte pelos médicos e por toda a Corte, aliás, como é de praxe entre as pessoas
de sua estirpe; que o Parlamento reconheceu e proclamou seu sucessor; e que, depois de ter
estado sepultada durante um mês, apareceu de novo, voltou a ocupar o trono e governou a
Inglaterra por mais três anos. Devo confessar: ficaria surpreso pela confluência de tantas
circunstâncias bizarras, mas não teria a menor inclinação para crer num acontecimento tão
miraculoso. Não duvidaria de sua pretensa morte e de outras circunstâncias públicas que a
seguiram; afirmaria apenas que esta morte foi simulada, que não foi e nem possivelmente
poderia ser real. Em vão vós me alegareis a dificuldade e quase impossibilidade de ludibriar a
opinião mundial em assunto de tal importância; a sabedoria e o sólido julgamento desta
célebre rainha; a escassa ou nenhuma vantagem que se poderia obter de um artifício tão
pobre; todos estes fatores poderiam surpreender-me; todavia, replicarei: a velhacaria e a
leviandade humanas são fenômenos tão normais, que prefiro acreditar que os eventos mais
extraordinários tenham aí sua origem, a admitir uma violação tão marcante das leis da
natureza.
Mas, se este milagre fosse atribuído a um novo sistema religioso, é preciso considerar
que os homens, em todas as épocas, têm sido ludibriados por ridículas histórias deste gênero,
que precisamente esta circunstância seria uma prova completa da impostura, e suficiente para
levar todos os homens de bom senso, não apenas a rejeitar o fato, mas mesmo a rejeitá-lo sem
mais exame. Embora o Ser ao qual o milagre é atribuído seja, neste caso, Onipotente, o fato
não se torna, por esta razão, nem um pouco mais provável, visto que nos é impossível
apreender os atributos e os atos de um tal Ser, senão através da experiência que temos de suas
produções no curso ordinário da natureza. Isto nos subjuga às observações passadas e nos
obriga a comparar os exemplos de violação da verdade graças aos testemunhos humanos com
os da violação das leis da natureza devido aos milagres, a fim de julgarmos qual das duas é
mais plausível e mais provável. Como as violações da verdade são mais comuns nos
testemunhos concernentes a qualquer outra espécie de fatos, isto deve diminuir bastante a
autoridade do primeiro tipo de testemunho e deve nos levar a formular a resolução geral de
não lhes prestar nenhuma atenção, mesmo quando protegidos pelos mais plausíveis pretextos.
Lord Bacon parece ter admitido os mesmos princípios de raciocínio. “Devemos”, diz
ele, “fazer urna coleção ou história particular de todos os monstros, de todos os nascimentos e
produções prodigiosas; e, numa palavra, de todas as coisas novas, raras e extraordinárias da
natureza. Mas isto deve ser feito com o mais severo exame, para não nos afastarmos da
verdade. Sobretudo, deve ser considerado suspeito todo relato que depende em algum grau da
religião, como os prodígios de Tito Lívio; e, do mesmo modo, toda coisa que se encontra nos
escritores de magia natural, de alquimia, ou em outros autores, que parecem ter tido um
apetite insaciável para a falsidade e a fábula”. [10]
O método de raciocínio apresentado aqui me agrada bastante, pois, penso eu, poderá
servir para confundir os amigos perigosos ou os inimigos disfarçados da religião cristã, que
se têm proposto defendê-la mediante os princípios da razão humana. Nossa santíssima
religião funda-se na fé, e não na razão; e um método seguro para fazê-la perigar consiste em
submetê-la a uma prova para a qual não está de maneira nenhuma preparada para resistir.
Visando a esclarecer esta atitude, examinaremos os milagres descritos nas Escrituras,
restringindo-nos — devido à extensão do assunto — aos contidos no Pentateuco; e os
examinaremos, de acordo com os princípios destes pretensos cristãos, não como a palavra ou
o testemunho de Deus mesmo, porém como realizações humanas de um simples escritor ou
historia dor. Frisemos de início que o livro nos foi legado por um povo bárbaro e ignorante,
escrito numa época em que era ainda mais bárbaro e, segundo toda probabilidade, redigido
posteriormente aos fatos relatados, desprovidos assim de qualquer testemunho concordante;
assemelhando, ademais, aos relatos fabulosos que cada nação faz de sua origem. As páginas
deste livro estão repletas de prodígios e milagres. Descreve-nos o mundo e a natureza
humana completamente diferentes do atual; nossa queda deste mundo; a extensão da vida
humana atingindo quase mil anos; a destruição do mundo pelo dilúvio; a escolha arbitrária de
um povo eleito pelo céu que é, aliás, o mesmo povo descrito pelos seus compatriotas; sua
libertação da escravidão mediante os mais surpreendentes e imagináveis prodígios. Desejaria
que alguém colocasse sua mão sobre o coração e, depois de séria consideração, declarasse se
julga que a falsidade de tal livro, apoiada por semelhante testemunho, seria mais
extraordinária e mais miraculosa que todos os milagres que relata; porque isto é, sem dúvida,
necessário para que seja aceito, de acordo com as regras da probabilidade estabelecidas
anteriormente.
O que temos tido sobre milagres pode ser aplicado, sem qualquer modificação, às
profecias; e, na verdade, todas as profecias são verdadeiros milagres e é apenas como tais que
se pode admiti-las como provas de uma revelação. Se não estivesse acima da capacidade da
natureza humana predizer eventos futuros, seria absurdo usar qualquer profecia como
argumento em favor de uma missão ou autoridade divina procedentes do céu. De modo que,
finalmente, podemos concluir que a religião cristã não apenas foi acompanhada de milagres
em seus primeiros momentos, mas mesmo em nossos dias nenhum homem racional pode nela
acreditar sem um milagre. A mera razão é suficiente para convencer-nos da sua veracidade;
quem quer que, movido pela fé, lhe dá o seu assentimento, está consciente de um milagre
contínuo em sua própria pessoa, que subverte todos os princípios de seu entendimento e o
determina a crer nas coisas mais opostas ao costume e à experiência. [11]
continua página 91...
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Ensaio sobre o entendimento humano: Seção X(2b)
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Notas:
[8] Este livro foi escrito por M. Montgeron, conselheiro ou juiz no Parlamento de
Paris, homem de importância e reputação, que também foi um mártir de sua causa e que está
— diz-se — em alguma prisão devido ao seu livro. Há outra obra em três volumes,
denominada Recueil des miracles de l’abbé Pâris, que revela vários destes milagres e é
precedida por um prefácio muito bem escrito. Sem dúvida, em todo o livro se faz uma
ridícula comparação entre os milagres de nosso Salvador e os do abade, na qual se afirma que
a evidência dos últimos é igual à dos primeiros: como se o testemunho dos homens pudesse
ser comparado com o do próprio Deus, que guiou a pena destes inspirados escritores. Em
verdade, se estes escritores fossem apenas considerados como testemunhos humanos, o autor
francês é bastante moderado em sua comparação, visto que poderia pretender, com alguma
aparente razão, que os milagres jansenistas superam os outros em evidência e autoridade. Os
relatos que seguem foram tirados de documentos autênticos, que aparecem no livro já
mencionado.
Muitos dos milagres do abade Paris foram comprovados imediatamente por testemunho
ante a oficialidade ou corte episcopal de Paris, sob o controle do cardeal Noailles, cuja
reputação de integridade e talento jamais foi posta em dúvida. Inclusive por seus inimigos.
Seu sucessor no arcebispado era inimigo dos jansenistas e por esta razão foi promovido
para a diocese pela Corte. Apesar de vinte e dois reitores ou curés de Paris, com grande
seriedade, terem-no pressionado para examinar estes milagres que, afirmavam, são
conhecidos de todos e indiscutivelmente certos, o cardeal sabiamente se absteve de examiná-los.
O partido molinista havia tentado desacreditar estes milagres num caso: o de
Mademoiselie Le Franc. Mas, além de que seus procedimentos foram, em vários pontos, os
mais irregulares, especialmente por citar apenas alguns dos testemunhos jansenistas, aos
quais subornaram — além disso, digo, imediatamente se viram pressionados por uma nuvem
de novos testemunhos (mais ou menos cento e vinte), em sua maioria pessoas de crédito e
destaque de Paris que juraram pela procedência do milagre. E isto foi acompanhado por uma
solenidade e séria apelação ao Parlamento. Mas o Parlamento foi proibido de imiscuir-se
neste assunto. Finalmente se observou que, quando os homens estão inflamados pelo ardor e
entusiasmo, não há grau de testemunho humano tão poderoso que não possa ser obtido a
favor do maior absurdo. E aqueles que fossem tão ingênuos que examinassem o assunto por
este meio e buscassem defeitos particulares no testemunho, podem estar quase certos que
serão enganados. Devia ser uma pobre impostura, certamente, que não podia prevalecer nesta
disputa.
Todos os que estiveram na França naquela época ouviram falar na reputação de M.
Heraut, o Lieutenant de Police, cujo zelo, perspicácia, atividade e elevada inteligência
ocasionaram grande admiração. Este magistrado, que pela natureza de seu posto é quase
absoluto, estava investido de plenos poderes a fim de suprimir ou desacreditar esses milagres
e frequentemente detinha e examinava os testemunhos e as pessoas que tinham relação com
os milagres, mas jamais pôde chegar a uma conclusão satisfatória contra eles.
No episódio de Mademoiseile Thibaut, enviou o célebre De Sylva para que a
examinasse. Sua informação é multo curiosa. O médico declara que é impossível que ela
tenha estado tão enferma como afirmam os testemunhos, porque, se tivesse estado, não teria
podido melhorar tão depressa e gozar de tão perfeita saúde. Como homem de bom senso,
raciocinou segundo as causas naturais, mas o partido que lhe opunha afirmou que tudo era
miraculoso e que o informe do médico era a melhor prova disso.
Os molinistas se encontravam num triste dilema. Não se atreviam a afirmar a completa
insuficiência do testemunho humano como prova dos milagres. E, de outro lado, eram
obrigados a reconhecer que esses milagres tinham sido realizados pelo Diabo e por feiticeiras,
embora lhes dissessem que os judeus da Antiguidade já haviam recorrido a este recurso..
Nenhum jansenista teve dificuldade para explicar a cessação dos milagres quando o
cemitério foi fechado por decreto real, O que produzia este s efeitos extraordinários era o
mero contato com o túmulo [do abade] e, como ninguém podia aproximar-se do túmulo, não
se podiam esperar mais tais efeitos. É verdade que Deus poderia derrubar os muros a
qualquer momento, mas Ele é dono de suas próprias graças e obras e não nos cabe explicá-las. Ele não derrubou os muros de todas as cidades, como os de Jericó, ao som das trombetas,
nem abriu a prisão dos apóstolos, como fez com a de São Paulo?
Nada mais nem menos que o duque de Chatillon, duque e par da França, da mais ilustre
família e estirpe, dá o testemunho de uma milagrosa cura realizada num de seus servos, que
havia vivido vários anos em sua casa com uma palpável e visível enfermidade.
Concluirei observando que nenhum clero é mais célebre pelo rigor da vida e dos
costumes que o clero secular da França, particularmente os reitores ou curés de Paris que
testemunham estas imposturas.
A instrução, o engenho e probidade destes cavalheiros e a autoridade das freiras de
Port-Royal os fizeram famosos em toda a Europa. Sem dúvida, todos testemunham o milagre
que se produziu na sobrinha do célebre Pascal, cujo talento e vida devota são bem
conhecidos. O famoso Racine relata este milagre em sua celebrada História de Port-Royal e o
defende com todas as provas fornecidas por uma multidão de freiras, sacerdotes, médicos e
homens do mundo, todos de indubitável reputação. Alguns homens de letras, especialmente o
bispo de Tournay, creram que este milagre era tão seguro que o usaram para refutar os ateus e
os livre-pensadores. A rainha da França, que tinha grandes prevenções contra Port-Royal,
enviou seu próprio médico para examinar o milagre, e o médico voltou completamente
convertido. Em uma palavra, a cura sobrenatural era tão incontestável que, durante algum
tempo, salvou o mosteiro da ruína a que estava ameaçado pelos jesuítas. Se houvesse sido um
logro, seguramente teria sido descoberto por tão sagazes e poderosos adversários, e deveriam
apressar a ruína de quem o forjou. Nossos teólogos, que podem construir um castelo
maravilhoso com materiais tão desprezíveis, que prodigioso edifício poderiam levantar com
estas e muitas outras circunstâncias que não mencionei! Quantas vezes teriam ressoado em
nossos ouvidos os nomes de Pascal, de Racine, de Arnaud e de Nicole? Mas, se são sábios,
seria melhor que adotassem o milagre como mil vezes mais valioso que todo o resto da
coleção. Além disso, pode servir-lhes muito mais para sua finalidade. Porque esse milagre se
realizou realmente pelo contato de um autêntico espinho sagrado dos sagrados espinhos que
compunham a sagrada coroa, a qual etc. (Hume).
[9] Lucrécio (Hume).
[10] Novum Organum, Iib. II, aph. 29 (Hume).
[11] A ironia que perpassa nesta passagem tem levantado as mais violentas críticas contra
Hume. Em grande parte é citada para exemplificar a maneira zombeteira e irresponsável com
que ele discute os mais sagrados tópicos. Smith procura, no entanto, justificar a atitude de
Hume, interpretando o texto citado em sua perspectiva histórica. Mostra que, na época da
Ilustração, as igrejas Reformadas entendiam que a fé, ou mesmo um estudo compreensivo das
Escrituras, era impossível sem o auxilio da graça, conferida pela Divindade, e que a fé
operava nos homens de modo puramente miraculoso. Foi deste modelo que Hume decalcou,
segundo Smith, a sua conclusão. (N. K. Smith, em sua definitiva edição dos Dialogues
Concerning Natural Religion, de Hume, Liberal Arts, 1947, p. 47.) [N. do T.]
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