Para o sr. Lee e Alice, em retribuição ao amor e afeto
Os advogados, suponho, um dia foram crianças.
CHARLES LAMB
SEGUNDA PARTE
23
continuando...
Jem perguntou, devagar:
— Quer dizer que você aceitou no júri um homem que um dia antes queria matá-lo? Por que se arriscou tanto, Atticus? Por
quê?
— Se você analisar bem, verá que havia pouco risco. Não há muita diferença entre dois homens que vão condenar um réu.
Mas há uma pequena diferença entre um homem que vai condenar e outro que está meio confuso, não? Ele era a única incerteza
na lista de jurados.
— Qual é o parentesco dele com o sr. Walter Cunningham? — perguntei.
Atticus levantou-se, esticou os braços e bocejou. Ainda não estava na nossa hora de dormir, mas sabíamos que ele queria
ler o jornal. Pegou-o, dobrou-o e deu uma batidinha com ele na minha cabeça.
— Vejamos — disse ele, pensativo. — Já sei, os dois são duas vezes primos de primeiro grau.
— Como pode?
— Duas irmãs se casaram com dois irmãos. É só o que vou dizer… vocês tirem suas conclusões.
Pensei muito e achei que, se eu me casasse com Jem e Dill tivesse uma irmã com quem se casasse, nossos filhos seriam
duas vezes primos de primeiro grau.
— Caramba, Jem — comentei depois que Atticus se retirou —, eles são pessoas engraçadas. Ouviu isso, tia?
Tia Alexandra estava bordando um tapete sem olhar para nós, mas estava ouvindo a conversa. Ela estava sentada na
cadeira com o cesto de costura ao lado, o tapete aberto no colo. Nunca entendi por que as mulheres bordavam tapetes de lã em
noites tórridas.
— Ouvi — respondeu ela.
Lembrei do dia distante e desastroso em que defendi o jovem Walter Cunningham. Agora estava contente por ter feito isso.
— Assim que as aulas começarem vou convidar Walter para almoçar aqui — planejei, esquecendo que tinha prometido a
mim mesma dar uma surra nele na próxima vez que o encontrasse. — Ele também pode ficar aqui depois da escola de vez em
quando. Atticus pode levá-lo de carro para Old Sarum depois. Talvez até pudesse dormir aqui um dia, não acha, Jem?
— Vamos ver — respondeu a tia Alexandra, uma frase que, vindo dela, era sempre uma ameaça, nunca uma promessa.
Surpresa, eu me virei para ela:
— Por que não, tia? Eles são boa gente.
Ela me olhou por cima dos óculos de costura.
— Jean Louise, tenho certeza de que eles são boa gente, mas não são como nós.
Jem apartou:
— Ela quer dizer que são broncos, Scout.
— O que é um bronco?
— Ah, são uns toscos. Gostam de tocar rabeca e coisas assim.
— Ah, eu também gosto…
— Não seja boba, Jean Louise — disse tia Alexandra. — A questão é que poderíamos esfregar Walter Cunningham até ele
brilhar, fazer com que ele vestisse sapatos e uma roupa nova, mas ele nunca será como Jem. Além disso, eles têm uma longa
história com a bebida. As moças Finch não se interessam por esse tipo de gente.
— Tia, Scout não tem nem nove anos — disse Jem.
— Mas é melhor que já fique sabendo.
Tia Alexandra tinha dado sua sentença. Lembrei bem da última vez em que ela tinha batido pé e eu nunca entendi o motivo.
Foi quando eu estava cheia de planos de ir à casa de Calpúrnia — eu estava curiosa, interessada; queria ser “visita”, ver
como ela morava, saber quem eram os amigos dela. Foi como se eu quisesse ver o outro lado da lua. Dessa vez, a tática era
outra, mas o alvo de tia Alexandra era o mesmo. Talvez tivesse sido por isso que tinha ido morar conosco: para nos ajudar a
escolher nossos amigos. Mas eu ia impedi-la enquanto pudesse:
— Se eles são boas pessoas, por que não posso ser simpática com Walter?
— Eu não disse para não ser simpática com ele. Você deve ser agradável e educada com ele. Deve ser amável com todos,
querida. Mas não precisa convidá-lo para vir à sua casa.
— E se ele fosse nosso parente, tia?
— Mas não é e, se fosse, a minha resposta seria a mesma.
— Tia — disse Jem —, Atticus disse que a gente pode escolher os amigos, mas não a família, que nossos parentes
continuam sendo parentes, quer a gente queira reconhecê-los quer não. E que não aceitar isso nos faz parecer tolos.
— Lá vem o seu pai outra vez — disse tia Alexandra. — Mas insisto que Jean Louise não vai convidar Walter Cunningham
para vir a esta casa. Se ele fosse duas vezes primo em primeiro grau, continuaria não sendo recebido nesta casa, a menos que
viesse tratar de negócios com Atticus. E chega desse assunto.
Ela tinha dito um não enfático, mas dessa vez teria de apresentar os motivos.
— Mas eu quero brincar com Walter, tia, por que não posso?
Ela tirou os óculos e me encarou.
— Vou dizer por quê: porque... ele... é… lixo, por isso. Não vou deixar você ficar perto dele para pegar hábitos dele e
aprender sabe Deus o que mais. Você já dá problema demais para o seu pai do jeito que está.
Não sei o que eu teria feito naquele momento, mas Jem me impediu. Segurou meus ombros, passou o braço em torno de
mim e me levou para o quarto dele, chorando de raiva. Atticus ouviu e enfiou a cabeça pela porta:
— Não foi nada, pai — disse Jem, ríspido.
Atticus foi embora.
— Toma um caramelo de chocolate, Scout — disse Jem, enfiando a mão no bolso e tirando uma bala Tootsie Roll. Levei
alguns minutos para transformar a bala em uma massa macia na minha boca.
Jem estava arrumando as coisas em cima da cômoda. O cabelo dele era espetado atrás e caído na frente, e fiquei pensando
se algum dia ia parecer com o cabelo de um homem. Se ele raspasse tudo e deixasse crescer de novo, talvez ficasse direito.
As sobrancelhas dele estavam engrossando e o corpo parecia mais esbelto. Ele também estava mais alto.
Quando se virou ele deve ter pensado que eu ia começar a chorar de novo, então disse:
— Se não contar a ninguém, eu mostro uma coisa.
Perguntei o que era. Ele desabotoou a camisa e sorriu, tímido.
— O que é?
— Não está vendo?
— Bem, não.
— Pelos.
— Onde?
— Aqui, bem aqui.
Ele tinha me ajudado tanto, então eu disse “que lindo”, mas não vi nada.
— Que legal, Jem.
— Embaixo dos braços também tem. No ano que vem, vou entrar para o time de futebol. Scout, não fique chateada com a
tia Alexandra.
Parecia que tinha sido ontem que ele tinha dito para eu não chatear a tia.
— Você sabe que ela não está acostumada com meninas — disse Jem. — Pelo menos não com meninas como você. Está
tentando transformar você em uma dama. Não pode aprender a costurar ou algo assim?
— Não, pelo amor de Deus. Ela não gosta de mim, é só isso, e eu não me importo. Fiquei irritada porque ela chamou
Walter Cunningham de lixo, Jem, e não porque disse que sou um problema para Atticus. Nós dois já conversamos sobre isso,
perguntei se eu era um problema e ele disse que não muito, pelo menos era um problema que ele conseguia resolver, e não era
para eu me preocupar achando que o incomodava. Não foi por isso que chorei, foi por causa de Walter… ele não é lixo, Jem.
Não é como os Ewell.
Jem tirou os sapatos e colocou os pés em cima da cama. Recostou-se num travesseiro e acendeu a luz do abajur.
— Sabe de uma coisa, Scout? Agora entendi tudo. Tenho pensado bastante nisso ultimamente e entendi. Há quatro tipos de
gente no mundo: as pessoas comuns como nós e nossos vizinhos; as que vivem no mato como os Cunningham; as que vivem no
lixão como os Ewell, e os negros.
— E os chineses? E os cajun que vivem no condado de Baldwin?
— Estou falando de Maycomb. O problema aqui é que nós não gostamos dos Cunningham, que não gostam dos Ewell, que,
por sua vez, odeiam e desprezam os negros.
Retruquei que, se era assim, por que o júri, formado por gente como os Cunningham, não absolveu Tom para irritar os
Ewell?
Jem ignorou minha pergunta por considerá-la pueril.
— Sabe, já vi Atticus acompanhar o ritmo de uma rabeca com os pés quando toca uma música no rádio. E ninguém gosta
mais de um caldo de legumes do que ele.
— Então somos parecidos com os Cunningham. Não sei por que a tia…
— Espera, deixa eu terminar. Somos parecidos sim, mas ao mesmo tempo diferentes. Atticus uma vez disse que a tia dá
tanta importância a essa história de berço porque é só o que temos, não temos um centavo.
— Bom, Jem, não sei… Atticus uma vez também me disse que essa história de “família antiga” é bobagem, porque todas as
famílias são antigas. Perguntei se isso incluía os negros e os ingleses e ele respondeu que sim.
— Berço não é a mesma coisa que família antiga, acho que quer dizer há quanto tempo as pessoas daquela família sabem
ler e escrever. Scout, estudei muito o assunto e essa é a única razão que encontrei. Um dia, quando os Finch ainda estavam no
Egito, um deles deve ter aprendido um ou dois hieróglifos e ensinou ao filho — Jem riu. — Imagino a tia toda orgulhosa
porque o tataravô dela sabia ler e escrever… As mulheres se orgulham de cada coisa.
— Bom, ainda bem que o tataravô aprendeu, senão quem ia ensinar Atticus? E se ele não soubesse ler, você e eu
ficaríamos num mato sem cachorro. Não acho que berço seja isso, Jem.
— Então como explicar o fato de os Cunningham serem diferentes? O sr. Walter mal sabe assinar o nome, eu já vi. Nós
sabemos ler e escrever há mais tempo do que eles.
— Mas todo mundo tem que aprender, ninguém nasce sabendo. Walter é muito inteligente, ele só se atrasa na escola porque
tem que ajudar o pai. Não tem nada de errado com ele. Olha, Jem, eu acho que só existe um tipo de gente: gente.
Jem virou-se e deu um soco no travesseiro. Quando se recostou de novo, parecia confuso. Ia dar uma de suas descidas ao
fundo dele mesmo e fiquei preocupada. Suas sobrancelhas se juntaram, a boca virou uma linha fina. Ele ficou em silêncio por
um tempo.
— Eu também achava isso — ele disse, por fim —, quando tinha a sua idade. Se só existe um tipo de gente, por que as
pessoas não se entendem? Se são todos iguais, por que se esforçam para desprezar uns aos outros? Scout, acho que estou
começando a entender uma coisa. Acho que estou começando a entender por que Boo Radley ficou trancado em casa todo esse
tempo… é porque ele quer ficar lá dentro.
continua página 159...
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Leia também:
O Sol é para todos: 1ª Parte (1a) /O Sol é para todos: 1ª Parte (2) / O Sol é para todos: 1ª Parte (3)
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O Sol é para todos: 2ª Parte (23b) / O Sol é para todos: 2ª Parte (24) /
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Copyright © 1960 by Harper Lee, renovado em 1988
Copyright da tradução © José Olympio
Título do original em inglês
TO KILL A MOCKINGBIRD
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Um dos romances mais adorados de todos os tempos, O sol é para todos conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte-americano da Grande Depressão no início dos anos 1930.
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