domingo, 4 de janeiro de 2026

Thomas Mann - A Montanha Mágica: Abundância de harmonia - [b]

Thomas Mann

A Montanha Mágica
 
Capítulo VII
Abundância de harmonia

continuando...

     Em primeiro lugar havia uma discussão entre Radamés e Amnéris. A filha do rei mandara conduzir à sua presença o homem acorrentado, a quem amava e desejava ardentemente salvar, se bem que ele tivesse renegado a pátria e a honra por amor à escrava bárbara. (Verdade é que o próprio Radamés afirmava que “puro se conservara o seu pensamento e intata a sua honra”.) Mas essa integridade íntima, sem embargo da gravidade da sua culpa, pouco lhe adiantava. Em virtude do seu crime evidente, ele estava sujeito à jurisdição dos sacerdotes, que eram inexoráveis quanto às fraquezas humanas. Parecia certo que não fariam cerimônias, se no último instante não alterasse a sua atitude e renunciasse à escrava, para lançar-se nos braços do majestoso contralto com a mudança de timbre, que, do ponto de vista acústico, merecia isso plenamente. Amnéris fazia os mais fervorosos esforços em prol do tenor harmonioso, o qual, porém, tragicamente obcecado e avesso à vida, se limitava a cantar “Não posso” ou “Em vão”, cada vez que lhe implorava, com súplicas desesperadas, que abandonasse a escrava, porque a sua vida estava em jogo. “Não posso.” “Rogo-te mais uma vez: renuncia a ela!” “Em vão!” A cegueira desejosa de morrer e o mais ardente pesar de amor reuniam-se num diálogo, que era extraordinariamente belo, mas não deixava nenhuma esperança. A seguir, Amnéris acompanhava com seus gritos de dor as medonhas fórmulas das réplicas do tribunal religioso, cujos sons surdos subiam das profundezas, e às quais o infausto Radamés absolutamente não reagia. 

“Radamés, Radamés!”, cantava com insistência o Sumo Sacerdote, e de uma forma muito sutil lhe fazia ver o crime de traição. 
“Desculpa-te!”, exigia o coro dos sacerdotes.

     E como o Sumo Sacerdote verificava que Radamés permanecia mudo, todos, com cavernosa unanimidade, declaravam-no culpado de traição. 

“Radamés, Radamés!”, recomeçava o presidente, “desertaste do acampamento na véspera da batalha.” 
“Desculpa-te!”, cantava novamente o coro. “Ele se cala”, constatava pela segunda vez o presidente muito mal impressionado, e em consequência disso, todos os votos dos juízes tornavam a reunir-se na sentença: “Traição!” 
“Radamés, Radamés!”, ouvia-se pela terceira vez a voz do implacável acusador. “Violaste o juramento à pátria, à honra e ao rei.” “Desculpa-te!”, ressoava novamente o coro. E “Traição!” era o veredicto definitivo que o grêmio dos sacerdotes pronunciava com horror, depois de sua atenção ter sido chamada para o fato de Radamés calar-se teimosamente. Destarte era impossível evitar o inevitável. O coro, cujas vozes nem sequer se haviam retirado para deliberar, promulgava a sentença, segundo a qual a sorte do criminoso estava decidida. Teria ele de morrer a morte dos malditos; entraria vivo na tumba, sob o templo da divindade irada. A indignação que Amnéris manifestava diante dessa crueldade clerical era coisa que o ouvinte devia imaginar o melhor que pudesse; pois a reprodução interrompia-se nesse ponto. Hans Castorp teve que mudar o disco, o que fez com movimentos silenciosos, precisos, e, por assim dizer, com os olhos baixos. Quando voltou a instalar-se na poltrona para escutar, já se desenrolava a última cena do melodrama, o dueto final entre Aída e Radamés, cantado na profundeza da sua sepultura subterrânea, enquanto por cima das suas cabeças os sacerdotes fanáticos, desapiedados, celebravam o seu culto no templo e, com as mãos espalmadas, proferiam surdas ladainhas... “Tu, in questa tomba?”, clamava entre espanto e delícia a voz de Radamés, essa voz incrivelmente insinuante, meiga e ao mesmo tempo heroica. Sim, ela se juntara a ele, a bem-amada, pela qual sacrificara a vida e a honra; esperara-o nesse lugar; deixara-se enterrar com ele, para morrer a seu lado. Os cantos em que os amantes comentavam esse fato, ora dialogando, ora unindo as suas vozes, esses cantos interrompidos de quando em quando pelo ruído surdo do cerimonial, que vinha do pavimento superior – eram eles em última análise o que enfeitiçara até o fundo da alma o ouvinte solitário e noturno, devido tanto às circunstâncias como à expressão musical. Falava-se do céu nesse dueto, mas ele mesmo era celeste, e cantavam-no divinamente. A linha melódica que as vozes de Radamés e Aída, isoladas ou reunidas, não cessavam de traçar, essa curva singela e feliz em torno da tônica e da dominante, que subia desde a nota fundamental até a prolongação em marcato, a um semitom da oitava, e depois de um contato fugidio com esta se voltava para a quinta –, essa linha afigurava-se ao ouvinte mais pura, mais maravilhosa do que tudo o que já lhe ocorrera. No entanto, Hans Castorp teria demonstrado muito menos entusiasmo pelos meros sons, não existisse a situação que os inspirava, e que tornava o seu espírito sensível para a doçura que dela se desprendia. Era tão belo o fato de Aída se ter juntado ao condenado Radamés, a fim de partilhar com ele, para toda a eternidade, o destino sepulcral! Com razão protestava o sentenciado contra a imolação de uma vida tão graciosa. Mas, através do seu grito terno e desesperado “No, no! troppo sei bella!” transparecia o encanto que experimentava ante a definitiva união com Aída, que pensara nunca mais ver. Hans Castorp não precisava forçar a sua imaginação para participar desse encanto e dessa gratidão. Mas, o que sentia, compreendia e gozava antes de mais nada, enquanto, com as mãos postas, olhava a portinhola negra de cujas fasquias partia toda essa beleza, era o alto e idealístico voo da música, da arte, da alma humana, o sublime e irrefutável embelezamento que esse idealismo outorgava aos horrores vulgares das coisas reais. Bastava visionar com os olhos da razão o que se passava nessa cena. Duas pessoas enterradas vivas, com os pulmões cheios de gases mefíticos, pereceriam juntas, ou, o que seria ainda pior, uma depois da outra, torcendo-se de fome; a seguir, a putrefação exerceria sobre os corpos os seus indescritíveis efeitos, até que no fundo da tumba repousassem dois esqueletos, cada um dos quais ficaria completamente indiferente e insensível à questão de saber se jazia ali sozinho ou acompanhado. Este era o aspecto realista e objetivo das coisas – um aspecto e uma coisa à parte, que o idealismo do coração nem sequer levava em conta, e que o espírito da beleza e da música ofuscava triunfalmente. Para as almas operísticas de Radamés e Aída não existia a realidade que os ameaçava. Suas vozes elevavam-se em uníssono até aquela jubilosa appoggiatura à oitava, afirmando que nesse momento se abria o céu, e que suas almas errantes voavam ao encontro dos raios do dia eterno. O poder consolador desse paliativo fazia bem ao ouvinte e contribuía muito para que esse número do seu programa predileto se lhe tornasse especialmente caro.

     Costumava ele descansar desses sustos e êxtases, escutando uma outra peça breve, mas cheia de concentrada magia, peça de conteúdo muito mais plácido do que o da primeira, um idílio, porém um idílio refinadíssimo, ideado e colorido com o aproveitamento dos meios parcos e ao mesmo tempo complexos da arte contemporânea. Era uma peça puramente orquestral, sem canto, um prelúdio sinfônico de origem francesa, composta com uma instrumentação relativamente reduzida para a nossa época, mas com o mais perfeito conhecimento da polifonia moderna, e habilmente elaborada para envolver a alma numa teia de sonhos.
     O sonho a que Hans Castorp se entregava ao tocar esse disco era o seguinte: achava-se ele deitado de costas num prado banhado pelo sol e semeado das estrelas variegadas de um sem número de flores. Tinha por baixo da cabeça um montículo de terra. Estava com as pernas encolhidas, uma cruzada por cima da outra. Mas deve-se observar que essas pernas eram pernas de bode. Só para o seu próprio prazer – pois a solidão do prado era completa – suas mãos dedilhavam um pequeno instrumento de sopro, que mantinha diante da boca, clarineta ou charamela, da qual extraía sons pacatos e fanhosos, um após outro, assim como lhe ocorriam, e todavia numa sequência agradável. E esses balidos despreocupados subiam ao céu intensamente azul, sob o qual fremia ao sol a delicada folhagem de isolados freixos e bétulas, que uma leve aragem agitava. Mas esta musiqueta contemplativa, inconsciente, semimelodiosa, estava longe de ser a única voz que ressoava pela solidão. Os zumbidos dos insetos no ar quente do verão, por cima do capim; a própria luz do sol, a suave brisa, a agitação das copas das árvores, a cintilação das folhas – todo o movimento brando da paz estival que reinava em redor transformava-se numa mescla de sons que dava ao singelo toque da charamela um sentido harmônico, sempre renovado e sempre cheio de surpresas. De vez em quando recuava ou emudecia o acompanhamento sinfônico; mas Hans, com suas pernas de bode, continuava a soprar no seu instrumento, e a monotonia ingênua da sua música despertava novamente a magia sonora, de requintado colorido, da natureza; essa magia que, depois de uma nova interrupção, voltava finalmente, superando-se a si mesma. Juntavam-se-lhe instrumentos novos, mais agudos, atacando em rápida sucessão. Por um momento fugaz, cuja plenitude deliciosa, perfeita, encerrava, todavia, a eternidade, era-lhe dada a exuberância de que a orquestra dispunha e que lhe negara até então. O jovem fauno sentia-se muito feliz no seu prado, nesse dia de verão. Ali não havia ninguém que exigisse: “Desculpa-te!”, não havia responsabilidades, não havia sacerdotes reunidos num tribunal de guerra, julgando um homem que se esquecera da honra e estava perdido para o mundo. Nesse lugar reinava o próprio esquecimento, a bem-aventurada imobilidade, o estado inocente da ausência de tempo. Era o relaxamento praticado com a melhor das consciências, a miragem apoteótica de todo tipo de negação do imperativo ocidental da ação, e a sensação de calma que esse disco inspirava conferia-lhe valor especial aos olhos do nosso músico noturno.
     Existia uma terceira peça... Na realidade eram outra vez diversas peças, três ou quatro, formando um grupo e revezando-se entre si. A ária do tenor, que fazia parte do conjunto, enchia sozinha uma face do disco. Novamente se tratava de música francesa, trechos de uma ópera que Hans Castorp conhecia bem, que ouvira e vira diversas vezes no teatro, e a cujo enredo até aludira de passagem num colóquio, e num colóquio de importância decisiva... A cena passava-se no meio do segundo ato, numa taverna espanhola, baiuca espaçosa, enfeitada de panos. O edifício de estilo mourisco já estava um tanto danificado. A voz de Carmem, cálida, levemente rouca mas atraente pelo timbre peculiar à sua raça, declarava que queria dançar em homenagem ao sargento, e já se ouvia o tatalar das suas castanholas. No mesmo instante, porém, ressoavam a alguma distância trombetas, clairons, um sinal militar que se repetia e fazia o rapaz sobressaltar-se violentamente. “Espera um pouco. Só um momento!”, gritava ele, aguçando os ouvidos qual um cavalo. E quando Carmem perguntava: “Por quê? Que é que há?”, exclamava o sargento: “Não ouves?”, todo surpreendido porque a clarinada não a impressionava tanto como a ele. E explicava que esse sinal era dado pelas trombetas do quartel. “Do regresso se aproxima a hora”, dizia em estilo operístico. Mas a cigana era incapaz de compreender aquilo, e também não queria fazê-lo. Tanto melhor, argumentava ela, entre tola e insolente, nesse caso não havia necessidade de castanholas; o próprio céu lhes mandava música para dançar: “tá-rá-tá-rá...” O rapaz estava fora de si. A mágoa que lhe causava a decepção eclipsava-se diante do esforço de explicar a ela de que se tratava e que nenhuma paixão do mundo podia resistir a esse sinal. Como era possível que ela não compreendesse uma coisa tão fundamental e tão absoluta? “É preciso que eu volte já ao quartel, para a revista”, clamava ele, desesperado diante da ignorância da mulher, que lhe tornava o coração ainda mais triste do que normalmente. E imaginem o que Carmem lhe respondia a isso! Estava furiosa, indignada até o fundo da alma. Era em cada nota a personificação do amor enganado e ofendido; ou, ao menos, fingia sê-lo. “Ao quartel? Para a revista?” e o seu coração? Seu coração meigo e carinhoso que, na sua fraqueza – sim, ela não o negava: na sua fraqueza! – se dispusera a diverti-lo com danças e cantos? “Tá-rá-tá-rá!” Com um gesto de escárnio selvagem conduzia à boca a mão em funil, para arremedar o clarim. “Tá-rá-tá-rá!” Mais não era necessário para que o imbecil se levantasse de um pulo e fizesse menção de sair correndo. Pois então, que se fosse! E lhe estendia o capacete, o sabre, o cinturão. Que não perdesse tempo, que se apressasse para voltar ao quartel!... E ele pedindo misericórdia. Mas a mulher prosseguia com o seu sarcasmo cáustico, representando o papel dele, que perdera a pouca razão que tinha ao ouvir as clarinadas. “Tá-rá-tá-rá, para a revista!” Deus do Céu! chegaria tarde. Depressa, chamavam-no para a revista, e por isso era natural sobressaltar-se feito um louco, no momento em que Carmem queria dançar para ele. Ora, se aquilo era o amor que sentia por ela!...
     Que situação angustiosa! Ela não o compreendia. Essa mulher, essa cigana não podia nem queria compreender. Não queria, pois isso era indubitável: na sua fúria e no seu sarcasmo havia algo que ia além dos fatos atuais e particulares, um ódio, uma inimizade primitiva contra o princípio que se servia desses clairons franceses – ou dessas trompas espanholas – para chamar o soldadinho apaixonado. Triunfar sobre esse princípio era a sua ambição suprema, inata, ultra pessoal. Para esse fim fazia uso de um recurso muito simples: afirmava que, se ele ia embora, era porque não a amava. Era precisamente isso o que José, lá no interior da arca, não podia suportar. Conjurava-a a que o deixasse falar. Ela não queria. Então obrigava-a a escutá-lo. Era um momento infernalmente sério. Sons trágicos desprendiam-se da orquestra, um motivo sombrio, cheio de ameaça, que, como Hans Castorp sabia, se alastrava através de toda a ópera, até a catástrofe final, e também constituía a introdução da ária do soldadinho, num outro disco que se seguia a este.

“A flor que me atiraste...”, José cantava às mil maravilhas. Hans Castorp tocava o disco também isoladamente, fora do conjunto familiar, e sempre o ouvia com a mais atenta simpatia. Quanto ao conteúdo, a ária não valia grande coisa, mas o sentimento expressado nessas súplicas era comovente. O soldado falava da flor que Carmem lhe atirara no começo das suas relações, e que significara tudo para ele no cárcere onde fora metido por causa dela. Profundamente emocionado, confessava que em certos momentos amaldiçoara o destino por ter admitido que Carmem cruzasse os seus caminhos. Mas em seguida se arrependera dessa blasfêmia e ajoelhara se para rogar a Deus lhe permitisse revê-la. Pois – e este “pois” era a mesma nota aguda com que imediatamente antes iniciara a frase “Rever-te, Carmem...” – pois... (e agora se desencadeava no acompanhamento toda a magia instrumental apropriada para descrever o pesar, a saudade, a ternura frustrada e o doce desespero do soldadinho) pois bastara que Carmem lhe surgisse ante os olhos, na sua beleza simplesmente fatal, e lançasse um olhar sobre ele (“sobre mim”, com uma appoggiatura breve, soluçante, de tom inteiro, na primeira palavra) para que José sentisse com a mais absoluta clareza que ela se apoderara de todo o seu ser – “para possuíres todo o meu ser”, cantava ele, desolado, numa sequência melódica reiterada, que a orquestra, lamentando-se por sua própria conta, repetia, subindo da tônica dois tons e voltando-se ardorosamente para a quinta inferior. “Meu coração te pertence”, afirmava desnecessariamente o rapaz, com palavras triviais, mas muitíssimo carinhosas, servindo-se mais uma vez dessa figura musical. A seguir galgava a escala até o sexto grau, para acrescentar: “E eu era teu!” Com isso a voz deixava cair dez tons e confessava com a mais profunda emoção: “Carmem, eu te amo!”, retardando dolorosamente o fim dessa frase por um prolongamento com harmonia modulada, antes que a última sílaba da palavra “amo” se fundisse com a primeira no acorde fundamental. 

– Está bem – dizia então Hans Castorp, entre melancólico e agradecido, e punha ainda no aparelho o disco do final, em que todos felicitavam o jovem José por ter-lhe o encontro com o oficial impossibilitado o regresso, de maneira que não podia senão desertar, como Carmem, para o seu maior espanto, já lhe sugerira antes.

“Segue-nos através dos campos, 
Vai conosco às montanhas –”

cantavam em coro. Era fácil entender a letra.

“Como é bela a vida errante; 
O universo por país; tua vontade por lei, 
E sobretudo aquela coisa inebriante 
Que é a liberdade, a liberdade!”  

– Está bem – dizia Hans Castorp novamente e passava para uma quarta peça, que o comovia pela bondade e pelo sentimento. 

continua pág 428...
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Leia também:

Capítulo I / A Chegada
Capítulo III / Ensombramento pudico
Capítulo IV / Compra necessária (a)
Capítulo VI / Transformações (a)  
Capítulo VII
Abundância de harmonia - [b]
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A Montanha Mágica (Der Zauberberg, no original alemão) é um romance de Thomas Mann que foi publicado em 1924. É considerado o romance mais importante de seu autor e um clássico da literatura de língua alemã do século XX que foi traduzido para inúmeros idiomas, sendo de domínio público em países como Estados Unidos, Espanha, Brasil, entre outros.
Thomas Mann começou a escrever o romance em 1912, após uma visita à sua esposa no Wald Sanatorium em Davos, onde ela foi hospitalizada. Ele inicialmente o concebeu como um romance curto, mas o projeto cresceu ao longo do tempo para se tornar um trabalho muito maior. A obra narra a permanência de seu personagem principal, o jovem Hans Castorp, em um sanatório nos Alpes suíços, onde inicialmente vinha apenas como visitante. A obra tem sido descrita como um romance filosófico, pois, embora se enquadre no molde genérico do Bildungsroman ou romance de aprendizagem, introduz reflexões sobre os mais variados temas, tanto pelo narrador quanto pelos personagens (especialmente Nafta e Settembrini, aqueles encarregados da educação do protagonista). Entre esses temas, o do "tempo" ocupa um lugar preponderante, a ponto de o próprio autor o descrever como um "romance do tempo" (Zeitroman), mas muitas páginas também são dedicadas a discutir a doença, a morte, a estética ou a política.
O romance tem sido visto como um vasto afresco do modo de vida decadente da burguesia europeia nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial.

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