quinta-feira, 7 de maio de 2026

Espumas Flutuantes - A Duas Flores

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

A DUAS FLORES
  
São duas flores unidas, 
 São duas rosas nascidas 
 Talvez no mesmo arrebol, 
 Vivendo no mesmo galho, 
 Da mesma gota de orvalho, 
 Do mesmo raio de sol.  

Unidas, bem como as penas 
 Das duas asas pequenas 
 De um passarinho do céu... 
 Como um casal de rolinhas, 
 Como a tribo de andorinhas 
 Da tarde no frouxo véu 

Unidas, bem como os prantos,
 Que em parelha descem tantos 
 Das profundezas do olhar... 
 Como o suspiro e o desgosto, 
 Como as covinhas do rosto, 
 Como as estrelas do mar. 

Unidas... Ai quem pudera 
 Numa eterna primavera 
 Viver, qual vive esta flor. 
 Juntar as rosas da vida 
 Na rama verde e florida, 
 Na verde rama do amor! 
 Curralinho, março de 1870


O TONEL DAS DANAIDES
Diálogo

Na torrente caudal de seus cabelos negros 
 Alegre eu embarquei da vida a rubra flor. 

 — Poeta! Eras o Doge o anel lançando às ondas... 
 Ao fundo de um abismo... arremessaste o amor. 

 Depois minh’alma ao som da Lira de cem vozes 
 Sublimes fantasias em notas desfolhou. 

 — Cleópatra também pra erguer no Tibre a espuma 
 As pérolas do colar nas vagas desfiou! 

 Depois fiz de meu verso a púrpura escarlate 
 Por onde ela pisasse em marcha triunfal! 

 — Como Hércules, volveste aos pés da insana Onfália 
 O fuso feminil de uma paixão fatal. 

 Um dia ela me disse: “Eu sou uma exilada!” 
 Ergui-me... e abandonei meu lar e meu país... 

 — Assim o filho pródigo atira as vestes quentes 
 E treme no caminho aos pés da meretriz. 

 E quando debrucei-me à beira daquela alma 
 Pra ver toda riqueza e afetos que lhe dei!... 

 — Ai! nada mais achaste! o abismo os devorara... 
 O pego se esqueceu da dádiva do Rei! 

 Na gruta do chacal ao menos restam ossos... 
 Mas tudo sepultou-me aquele amor cruel! 

 — Poeta! O coração da fria Messalina 
 É das fatais Danaides o pérfido Tonel
 14 de outubro de 1869

continua pag 56...
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No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração / Pelas sombras / A Duas Flores /                   
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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