quarta-feira, 6 de maio de 2026

Marcel Proust - Sodoma e Gomorra (Cap III - Como na véspera)

em busca do tempo perdido

volume IV
Sodoma e Gomorra

Capítulo Terceiro

Tristezas do Sr. de Charlus. - Seu duelo fictício. - As estações do "Transatlântico". - Cansado de Albertine, desejo romper com ela.  
 

     Como na véspera eu dei de cara Saint-Loup na estação de Doncieres, antes de ir buscar Albertine, julguei que o ascensorista falava de Saint-Loup, mas tratava-se do chofer. E, designando-o com estas palavras: "O cavalheiro com quem o senhor saiu ontem", ele ao mesmo tempo ensinava-me que um operário é tão exatamente um cavalheiro como um homem da alta sociedade. Lição de palavras, simplesmente. Pois, quanto à coisa, eu nunca fizera distinção entre as classes. E, se tivera, ao ouvir chamar um chofer de cavalheiro, o mesmo espanto do conde X... (que não o era senão há oito dias e a quem, tendo dito: "a condessa parece cansada", fiz virar a cabeça para trás para ver de quem eu falava), era apenas por falta de hábito do vocabulário; jamais fizera diferença entre os operários, os burgueses e os fidalgos, e teria tomado indiferentemente uns e outros por amigos, com uma certa preferência pelos operários, e depois pelos fidalgos, não por gosto, mas sabendo que se pode exigir deles mais polidez para com os operários do que da parte dos burgueses, seja porque os fidalgos não desdenham os operários como o fazem os burgueses, ou então porque são de boa vontade atenciosos para com qualquer pessoa, como as mulheres bonitas se sentem felizes em dar um sorriso que sabem ser acolhido com tanta alegria. Aliás, não posso dizer que esse modo que eu tinha de colocar a gente do povo em pé de igualdade com as pessoas da sociedade, se foi muito bem admitida por esta, sempre satisfizesse plenamente a minha mãe. Não que, humanamente, ela fizesse qualquer diferença entre as criaturas e, sempre que Françoise tinha algum desgosto ou se achava enferma, era consolada e cuidada por mamãe com a mesma amizade, o mesmo devotamento que sua melhor amiga. Mas minha mãe era muito filha de meu avô para que socialmente não levasse em conta as castas. Por mais que as pessoas de Combray tivessem coração, sensibilidade e assimilassem as mais belas teorias sobre a igualdade humana, quando um lacaio se emancipava, dizia uma vez "você" e insensivelmente passava a não me tratar mais na terceira pessoa, minha mãe mostrava, diante dessas usurpações, o mesmo descontentamento que explode, nas Memórias de Saint Simon, cada vez que um senhor que não tem direito utiliza um pretexto para assumir a qualidade de "Alteza", numa ata autêntica, ou para não render aos duques o que lhes devia e de que pouco a pouco se dispensa. Existia um "espírito de Combray" tão refratário que serão necessários séculos de bondade (a de minha mãe era infinita), de teorias igualitárias, para chegar a dissolvê lo. Não posso dizer que em minha mãe não tivessem permanecido indissolúveis certas parcelas desse espírito. Tão dificilmente daria ela a mão a um lacaio como facilmente lhe entregava dez francos (o que a este, aliás, causava muito mais prazer). Para ela, quer o confessasse ou não, os patrões eram os patrões, e os criados eram aqueles que comiam na cozinha. Quando ela via um chofer de automóvel jantar comigo no refeitório, não ficava nada contente e me dizia: 

- Acho que poderias ter coisa melhor que um motorista para amigo - como teria dito, se se tratasse de um casamento: poderias encontrar melhor partido. -

     O chofer (felizmente nunca pensei em convidá-lo) viera me dizer que a Companhia de autos, que o enviara a Balbec para a estação, dera-lhe ordem para voltar a Paris no dia seguinte. Esse motivo, tanto mais que o chofer era encantador e se exprimia de maneira tão simples que a gente pensava sempre estar ouvindo palavras do Evangelho, pareceu-nos de acordo com a verdade. Era só meia verdade, no entanto. De fato, ele nada mais tinha a fazer em Balbec. E, em todo caso, não tendo a Companhia senão meia confiança na veracidade do jovem evangelista, apoiado em sua roda consagradora, queria que ele voltasse o mais depressa possível a Paris. E, com efeito, se o jovem apóstolo realizava miraculosamente a multiplicação dos quilômetros quando os computava para o Sr. de Charlus, em compensação, desde que se tratava de prestar contas à Companhia, ele dividia por seis o que havia ganho. O resultado é que a Companhia, pensando ou que ninguém mais dava passeios em Balbec, o que a estação tornava inverossímil, ou que era lesada, achava, num ou noutro caso, que o melhor era chamá-lo de volta a Paris, onde aliás não se fazia grande coisa. O desejo do chofer era evitar a estação morta. Já disse o que ignorava então e cujo conhecimento teria me poupado muitos desgostos que ele era muito ligado a Morel (sem que jamais parecessem conhecer-se diante dos outros). A partir do dia em que ele foi chamado, sem saber ainda que dispunha de um meio para ficar em Balbec, fomos obrigados a nos contentar com o aluguel de um carro para nossos passeios, ou às vezes, para distrair Albertine, e como ela gostasse de equitação, de cavalos de sela. Os carros eram ruins. 

- Que calhambeque! - dizia Albertine.

     Aliás, muitas vezes eu bem gostaria de ficar a sós. Sem querer fixar uma data, aspirava a que tivesse fim aquela vida, pela qual me censurava de renunciar, não tanto ao trabalho, mas aos prazeres. No entanto, ocorria também que os hábitos que me retinham fossem de súbito abolidos, principalmente quando algum antigo eu, cheio do desejo de viver alegremente, substituía por um instante o eu atual. Experimentei especialmente esse desejo de evasão num dia em que, tendo deixado Albertine na casa da tia, fui a cavalo visitar os Verdurin e tomara pelos bosques um atalho agreste de que eles me haviam elogiado a beleza. Esposando as formas da falésia, ora o caminho subia, ora, estreitado entre espessas moitas de árvores, aprofundava-se em gargantas selvagens. Por um momento, os rochedos despidos que me cercavam e o mar que se avistava entre as suas chanfraduras flutuaram diante de meus olhos como fragmentos de outro universo: eu havia reconhecido a paisagem montanhosa e marinha que Elstir atribuíra por moldura a essas duas admiráveis aquarelas: "Poeta encontrando uma Musa" e "Rapaz encontrando um Centauro", que eu tinha visto na casa da duquesa de Guermantes. De tal maneira a sua lembrança recolocava fora do mundo atual os lugares em que me encontrava, que não me espantaria se, como o jovem de idade pré-histórica que Elstir havia pintado, tivesse cruzado no meu passeio com um personagem mitológico.
     De repente, meu cavalo se cabritou; tinha ouvido um barulho singular, e eu senti dificuldades para dominá-lo e não ser jogado ao chão; depois ergui os olhos cheios de lágrimas para o ponto de onde parecia vir esse barulho, e vi, a uns cinquenta metros acima da cabeça, ao sol, entre duas grandes asas de aço fulgurante que o carregavam, uma criatura cujo rosto indistinto me pareceu assemelhar-se ao de um homem. Fiquei tão emocionado como o poderia ter ficado um grego que visse pela primeira vez um semideus. E também chorava, pois estava prestes a chorar no momento em que reconhecera que o barulho se fazia acima da minha cabeça os aeroplanos ainda eram escassos naquele tempo, à idéia de que aquilo que ia ver pela primeira vez era um aeroplano. Então, como quando se sente que vem no jornal uma frase emocionante, só esperava avistar o aeroplano para me debulhar em lágrimas. Entretanto, o aviador pareceu hesitar quanto à direção a tomar; eu sentia abertas à sua frente diante de mim, se o hábito não me aprisionasse todas as rotas do espaço, da vida; ele avançou, pairou por um instante sobre o mar e, depois, tomando bruscamente uma decisão, parecendo ceder a alguma atração contrária à da gravidade, como que regressando à sua terra, ele se afastou direto para o céu com um leve movimento de suas asas douradas. Para voltar agora ao mecânico, ele não só pediu a Morel que os Verdurin substituíssem o seu break por um auto (o que, dada a generosidade dos Verdurin quanto aos fiéis, era relativamente fácil), porém, o que era mais complicado, que o seu principal cocheiro, aquele rapaz sensível e de pensamentos melancólicos, fosse trocado por ele, motorista. Isto foi realizado em poucos dias pela seguinte forma. Morel começara por mandar roubar tudo o que era necessário para que o cocheiro atrelasse. Um dia, este não achava o freio, noutro dia a barbela. De outras vezes, era a almofada da sela que desaparecia, e até o seu chicote, sua manta, o martinete, a ponta da ferradura, a pele de camurça. Mas ele sempre se arrumava com os vizinhos; contudo, chegava atrasado, o que excitava contra ele a irritação do Sr. Verdurin, mergulhando-o num estado de tristeza e ideias negras. O chofer, intimado a regressar, declarou a Morel que ia voltar a Paris. Era preciso dar um grande golpe. Morel convenceu os criados do Sr. Verdurin de que o jovem cocheiro havia afirmado que os faria cair a todos numa cilada e se gabava de poder enfrentar todos os seis, e lhes disse que eles não poderiam deixar passar aquilo. De sua parte, não podia meter-se no negócio, mas prevenia-os a fim de que tomassem a dianteira. Combinou-se que, enquanto o Sr. e a Sra. Verdurin e seus amigos estivessem dando um passeio, cairiam todos sobre o rapaz na cavalariça. Direi, conquanto não passasse de uma ocasião para o que haveria de acontecer, mas porque as personagens me interessaram depois, que naquele dia um amigo dos Verdurin estava de férias na casa destes, e insistiram para que desse um passeio antes de sua partida, fixada para aquela mesma noite. O que muito me surpreendeu, quando todos saíram a passeio, foi que, nesse dia, Morel, que vinha conosco a pé, pois deveria tocar violino sob as árvores, me disse: 

- Escute, estou com o braço machucado; não quero dizê-lo à Sra. Verdurin, mas peça-lhe que traga um de seus criados, Howsler, por exemplo, para carregar meus instrumentos. 
- Creio que outro seria mais bem escolhido - respondi -, pois precisam dele para o jantar. -

     Uma expressão de cólera passou pelo rosto de Morel. 

- De modo nenhum; não desejo confiar meu violino a qualquer pessoa. -

     Compreendi tarde demais a razão daquela preferência. Howsler era o irmão bem-amado do jovem cocheiro e, se ficasse em casa, poderia ir em seu socorro. Durante o passeio, bem baixinho para que o Howsler mais velho não nos ouvisse: 

- Eis um bom rapaz - disse Morel. - De resto, seu irmão o é igualmente. Se não tivesse o funesto hábito de beber... 
- Como? Beber? - perguntou a Sra. Verdurin, empalidecendo à ideia de ter um cocheiro que bebesse. 
- A senhora não percebe nada. Sempre digo para mim mesmo que é um milagre que não lhe aconteça um acidente enquanto a está conduzindo. 
- Mas então ele leva outras pessoas? 
- Basta ver quantas vezes já caiu, tem o rosto sempre cheio de equimoses. Não sei como já não se matou; até quebrou os varais. 
- Eu não o vi hoje - disse a Sra. Verdurin, trêmula ante a ideia do que poderia ter ocorrido com ela própria. - O senhor me deixa consternada. -

     Quis abreviar o passeio a fim de voltar para casa, e Morel escolheu uma ária de Bach com variações infinitas para fazê-la durar. Logo ao chegar, ela dirigiu-se à cocheira, viu os varais novos e Howsler ensanguentado. Ia dizer-lhe, sem fazer qualquer observação, que já não precisava de cocheiro e entregar-lhe o salário, mas ele próprio, não querendo acusar os camaradas, a cuja animosidade atribuía retrospectivamente o roubo diário de todas as selas, etc., e vendo que sua paciência só o levava a deixar-se cair como morto no chão, pediu para ir embora, o que simplificou tudo. O chofer entrou no dia seguinte e, mais tarde, a Sra. Verdurin (que fora obrigada a contratar outro) ficou tão satisfeita com ele que o recomendou calorosamente a mim como pessoa de absoluta confiança. Eu, que ignorava tudo, contratei-o por dia em Paris; mas isso já é antecipar demais, pois tudo será relatado na história de Albertine.
     Neste momento, estamos na Raspeliere, onde acabo de jantar pela primeira vez com minha amiga, e o Sr. de Charlus com Morel, filho suposto de um "intendente" que ganhava trinta mil francos fixos por ano, possuía um carro e numerosos mordomos subalternos, jardineiros, administradores e granjeiros sob suas ordens. Porém, visto que me antecipei desse modo, não quero todavia deixar o leitor sob a impressão de que Morel tivesse cometido uma perversidade absoluta. Ele era principalmente cheio de contradições, capaz em certos dias de uma verdadeira gentileza. Naturalmente, fiquei muito espantado ao saber que o cocheiro fora despedido, e bem mais ao reconhecer em seu substituto o chofer que nos levava a passeio, a mim e a Albertine. Mas ele me contou uma história complicada, segundo a qual regressara a Paris, de onde fora chamado pelos Verdurin, e não duvidei sequer por um segundo. A despedida do cocheiro deu motivo a que Morel conversasse um tanto comigo, a fim de manifestar-me sua tristeza pela partida daquele excelente rapaz. De resto, mesmo afora os momentos em que eu estava sozinho e em que ele saltava literalmente sobre mim com uma expansão de alegria, Morel, vendo que todos me festejavam na Raspeliere e sentindo que ele se excluía voluntariamente da familiaridade de alguém que não lhe oferecia perigo, pois me fizera destruir as pontes e me tirara qualquer possibilidade de assumir ares protetores para consigo (ares que eu absolutamente não pensara em assumir), deixou de se manter afastado de mim. Atribuí sua mudança de atitude à influência do Sr. de Charlus, a qual, de fato, o tornava em certos casos menos limitado, mais artista; mas em outros, em que aplicava ao pé da letra as fórmulas eloquentes, mentirosas e aliás momentâneas do mestre, o fazia ainda mais bobo. O que o Sr. de Charlus poderia lhe ter dito, foi com efeito a única coisa que supus. Como poderia então adivinhar o que depois me disseram (e de que nunca tive certeza, pois as afirmações de Andrée sobretudo que dissesse respeito a Albertine, especialmente mais tarde, sempre me pareceram sujeitas a aval, porquanto, como já vimos anteriormente, ela não gostava com sinceridade da minha amiga, e tinha-lhe inveja), o que, em todo caso, se era verdade, foi-me notavelmente oculto por ambos: que Albertine conhecia muito a Morel? A nova atitude que este adotou para comigo por ocasião da despedida do cocheiro permitiu-me mudar de opinião a seu respeito. Conservei de seu caráter a triste ideia que formara devido ao servilismo que ele havia mostrado quando precisara de mim, seguido, tão logo fora prestado o serviço, de um desdém que chegara ao ponto de fingir que não me via. Era necessário acrescentar, a isso, a evidência de suas relações de venalidade com o Sr. de Charlus, e também seus instintos de bestialidade inconsequente, cuja não-satisfação (quando isso ocorria), ou as complicações que acarretavam, era a causa de suas tristezas; mas esse caráter não era tão uniformemente mau e cheio de contradições. Parecia-se a um velho livro da Idade Média, cheio de erros, de tradição absurda, de obscenidades; era extraordinariamente composto. A princípio, eu julgara que sua arte, em que de fato era verdadeiramente um mestre, lhe proporcionara superioridades que ultrapassassem o virtuosismo do executante. Certa vez em que manifestara meu desejo de me pôr a trabalhar, ele me disse: 

- Trabalhe, torne-se ilustre. 
- De quem é isso? - perguntei-lhe. 
- De Fontanes, para Chateaubriand. -

     Conhecia também uma correspondência amorosa de Napoleão. Bem, pensei, ele é letrado. Mas essa frase, que ele havia lido não sei onde, era sem dúvida a única que conhecia de toda a literatura antiga e moderna, pois repetia-a para mim todas as noites. Uma outra, que repetia mais vezes para impedir-me que dissesse alguma coisa a seu respeito para quem quer que fosse, era esta, que ela igualmente acreditava ser literária, mas é apenas francesa ou pelo menos não oferece nenhum tipo de sentido, salvo talvez para um criado que faz mistério de tudo: "Desconfiemos dos desconfiados." No fundo, indo dessa máxima estúpida até a frase de Fontanes para Chateaubrind, ter-se-ia percorrido toda uma parte, variada mas menos contraditória do que parece, do caráter de Morel. Esse rapaz que, por qualquer dinheiro, teria feito fosse o que fosse, e sem remorsos talvez não sem uma estranha contrariedade, que chegasse à sobreexcitação nervosa, mas à qual não ficaria nada bem o nome de remorso; que teria, se fosse de seu interesse, mergulhado na dor e até mesmo no luto famílias inteiras, esse rapaz que colocava o dinheiro acima de tudo, e, para não falar em bondade, acima dos mais naturais sentimentos de pura humanidade, esse mesmo rapaz, no entanto, punha acima do dinheiro o seu diploma de primeiro prêmio do Conservatório e a preocupação de que não pudessem falar nada de desabonador a seu respeito na classe de flauta ou de contraponto. Assim, suas maiores cóleras, seus mais sombrios e injustificados acessos de mau humor provinham do que ele denominava (sem dúvida generalizando alguns casos particulares em que encontrara pessoas malévolas) a patifaria universal. Gabava-se de escapar-lhe, não falando jamais de ninguém escondendo o seu jogo e desconfiando de todo mundo. (Para minha desgraça, pelo que devia resultar disso após o meu regresso a Paris, sua desconfiança não "funcionara" em relação ao chofer de Balbec, no qual é certo que reconhecera um semelhante, ou seja, contrariamente à sua máxima, um desconfiado na boa acepção do termo, um desconfiado que se cala obstinadamente diante das pessoas honestas e logo depois se associa a um crápula.) Parecia-lhe e isso não era absolutamente falso que semelhante desconfiança lhe permitiria sempre livrar-se de qualquer situação, de escapulir, imperceptível, através das mais perigosas aventuras, e sem que nada pudessem contra ele, não só provar mas nem sequer dizer nada a seu respeito no estabelecimento da rua Bergere. Estudaria, tornar-se-ia ilustre, talvez fosse um dia, com respeitabilidade intacta, presidente do júri de violino em concurso daquele prestigioso Conservatório. Mas seria talvez inserir lógica demais no cérebro de Morel fazer saírem suas contradições umas das outras. Na realidade, sua natureza era de fato como um papel no qual se fizeram tantas dobras, em todos os sentidos, que é impossível desemaranhar qualquer coisa. Ele parecia ter princípios bastante elevados e, numa escrita magnífica, enfeiada pelos mais grosseiros erros de ortografia, passava horas escrevendo ao irmão, que este havia agido mal com as irmãs, que ele era o seu irmão mais velho, o seu arrimo; às irmãs, que estas haviam cometido uma inconveniência a seu respeito.
     Dentro em pouco, no fim do verão, quando se descia do trem em Douville, o sol, amortecido pela bruma, já não era, no céu uniformemente cor-de-malva, senão um bloco vermelho. À grande paz que desce à noite sobre aqueles prados densos e salinos e que estimulara muitos parisienses, na maioria pintores, a fazerem uma temporada em Douville, acrescentava-se uma umidade que os fazia voltar cedo para seus pequenos chalés. Em muitos destes, a lâmpada já se achava acesa. Apenas algumas vacas ficavam de fora contemplando o mar, a mugir, ao passo que outras, interessando-se mais pela humanidade, voltavam sua atenção para os nossos carros. Somente um pintor, que havia armado o cavalete numa delgada eminência, cuidava de tentar reproduzir aquela grande calma, aquela luz tranqüila. Talvez as vacas fossem lhe servir, inconsciente e benevolamente, de modelos, pois seu ar contemplativo e sua presença solitária, quando os humanos já tinham se recolhido, contribuíam a seu modo para a poderosa impressão de repouso que se desprende da noite. E, algumas semanas depois, a transposição não foi menos agradável, quando, com o avanço do outono, os dias tornaram-se bem curtos e foi necessário fazer essa viagem com a noite fechada. Se eu fosse dar uma volta de tarde, precisaria regressar para vestir-me às cinco horas o mais tardar, quando o sol redondo e rubro já descera para o meio do espelho oblíquo, outrora detestado, e, como um fogo grego, incendiava o mar em todos os vidros da minha biblioteca. Tendo algum gesto encantador suscitado, enquanto eu passava o meu smoking, o eu alerta e frívolo que era o meu quando ia jantar em Rivebelle com Saint-Loup, e a noite em que eu pensara levar a Srta. de Stermaria para jantar na ilha do Bois, pus-me a cantarolar inconscientemente a mesma canção daquele tempo; e foi somente ao percebê-lo que reconheci pela canção o cantor intermitente, o qual, de fato, só sabia aquela. Da primeira vez que a cantara, começava a amar Albertine, mas achava que jamais a conheceria. Mais tarde, em Paris, fora quando a deixara de amar e poucos dias depois de a ter possuído pela primeira vez. Agora, era amando-a de novo e no momento de ir jantar com ela, para grande mágoa do gerente, que julgava que eu acabaria por ir morar na Raspeliere e deixaria seu hotel, e que afirmava ter ouvido dizer que ali grassavam febres devidas aos pântanos do Bec, bem como a suas águas "acocoradas". Eu me sentia feliz com essa multiplicidade que via assim na minha vida que se desenrolava em três planos; e depois, quando nos tornamos por um momento um homem antigo, isto é, diferente do que somos desde muito, a sensibilidade, não estando mais amortecida pelo hábito, recebe, dos menores choques, impressões tão vivas que fazem empalidecer tudo o que as precedeu e às quais, devido à sua intensidade, nos prendemos com a exaltação de um bêbado.
     Já era noite fechada quando subíamos para o ônibus ou o carro que nos levaria à gare a fim de tomarmos o trenzinho. No hall, o presidente do Conselho nos dizia: 

- Ah, vão à Raspeliere! Com os diabos, essa Sra. Verdurin tem topete para obrigá-los a fazer uma hora de trem à noite, só para jantar. E depois, refazer o trajeto às dez horas, com um vento danado! Bem se vê que os senhores não têm nada para fazer - acrescentava, esfregando as mãos.

     Sem dúvida, falava desse jeito pela contrariedade de não ser convidado, e também pela satisfação que ostentam os homens "ocupados" mesmo que pelo trabalho mais idiota de "não terem tempo" de fazer o que fazemos. Decerto é legítimo que o homem que redige relatórios, enumera cifras, responde a cartas de negócios, segue o movimento da Bolsa experimente, quando nos diz com uma risadinha: 

- É bom para os senhores, que não têm o que fazer -, um agradável sentimento de superioridade. Porém esta se afirmaria igualmente desdenhosa, e mais ainda (pois o homem ocupado também janta fora), se a nossa distração consistisse em escrever o Hamlet ou apenas em lê-lo. Nisso os homens ocupados são faltosos de reflexão, pois a cultura desinteressada, que lhes parece cômico passatempo de gente ociosa quando a surpreendem no momento em que é praticada, deveriam eles pensar que é a mesma que, no seu próprio ofício, coloca acima do nível geral homens que talvez não sejam melhores magistrados ou administradores que eles, mas diante de cujo rápido progresso inclinam-se, dizendo: 
- Parece que é um grande letrado, um indivíduo muito distinto. -

     Mas, sobretudo, o presidente do Conselho não se dava conta de que o que me agradava naqueles jantares na Raspeliere era que, como dizia ele com razão, embora em tom de crítica, eles "representavam uma verdadeira viagem", uma viagem cujo encanto me parecia tanto mais vivo por não ser ela o seu próprio fim, e nem procurávamos nela nenhum prazer, estando este adstrito à reunião para a qual nos dirigíamos e que não deixava de ser muito modificada por toda a atmosfera que a cercava.

continua na página 201...
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