segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Espumas Flutuantes - O Gondoleiro do Amor

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

O GONDOLEIRO DO AMOR   
Barcarola

 DAMA NEGRA

Teus olhos são negros, negros, 
 Como as noites sem luar... 
 São ardentes, são profundos, 
 Como o negrume do mar; 

Sobre o barco dos amores, 
 Da vida boiando à flor, 
 Douram teus olhos a fronte 
 Do Gondoleiro do amor. 

Tua voz é a cavatina 
 Dos palácios de Sorrento, 
 Quando a praia beija a vaga, 
 Quando a vaga beija o vento; 

E como em noites de Itália, 
 Ama um canto o pescador, 
 Bebe a harmonia em teus cantos 
 O Gondoleiro do amor. 

Teu sorriso é uma aurora. 
 Que o horizonte enrubesceu, 
 — Rosa aberta com o biquinho 
 Das aves rubras do céu;

Nas tempestades da vida 
 Das rajadas no furor, 
 Foi-se a noite, tem auroras 
 O Gondoleiro do amor. 

Teu seio é vaga dourada 
 Ao tíbio clarão da lua, 
 Que, ao murmúrio das volúpias, 
 Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento, 
 Do teu colo no langor 
 Vogar, naufragar, perder-se 
 O Gondoleiro do amor!? 

Teu amor na treva é — um astro, 
 No silêncio uma canção, 
 É brisa — nas calmarias, 
 É abrigo — no tufão; 

Por isso eu te amo, querida, 
 Quer no prazer, quer na dor,... 
 Rosa! Canto! Sombra! Estrela! 
 Do Gondoleiro do amor!  

 Recife, janeiro de 1867



SUB TEGMINE FAGI 

Dieu parle dans le calme plus haut 
 que dans la tempête. 
 Mickiewicz   

Deus nobis haec otia fecit. 
 Virgílio 

Amigo! O campo é o ninho do poeta... 
 Deus fala, quando a turba está quieta, 
 Às campinas em flor. 
 — Noivo — Ele espera que os convivas saiam... 
 E n’alcova onde as lâmpadas desmaiam 
 Então murmura — amor — 

Vem comigo cismar risonho e grave... 
 A poesia — é uma luz... e alma — uma ave... 
 Querem — trevas e ar. 
 A andorinha, que é a alma — pede o campo 
 A poesia quer sombra — é o pirilampo... 
 Pra voar... pra brilhar. 

Meu Deus! Quanta beleza nessas trilhas... 
 Que perfume nas doces maravilhas, 
 Onde o vento gemeu!... 
 Que flores d’ouro pelas veigas belas! ... 
Foi um anjo co’a mão cheia de estrelas 
 Que na terra as perdeu. 

Aqui o éter puro se adelgaça... 
 Não sobe esta blasfêmia de fumaça 
 Das cidades para o céu. 
 E a terra é como um inseto friorento 
 Dentro da flor azul do firmamento, 
 Cujo cálice pendeu!... 

Qual no fluxo e refluxo, o mar em vagas 
 Leva a concha dourada... e traz das plagas 
 Corais em turbilhão, 
 A mente leva a prece a Deus — por pérolas 
 E traz, volvendo após das praias cérulas, 
 — Um brilhante — o perdão!

A alma fica melhor no descampado... 
 O pensamento indômito, arrojado 
 Galopa no sertão, 
 Qual nos estepes o corcel fogoso 
 Relincha e parte turbulento, estoso, 
 Solta a crina ao tufão. 

Vem! Nós iremos na floresta densa, 
 Onde na arcada gótica e suspensa 
 Reza o vento feral. 
 Enorme sombra cai da enorme rama... 
 É o Pagode fantástico de Brama 
 Ou velha catedral. 

Irei contigo pelos ermos — lento — 
 Cismando, ao pôr-do-sol, num pensamento 
 Do nosso velho Hugo. 
 — Mestre do mundo! Sol da eternidade!... 
 Para ter por planeta a humanidade, 
 Deus num cerro o fixou. 

Ao longe, na quebrada da colina, 
 Enlaça a trepadeira purpurina 
 O negro mangueiral... 
 Como no Dante a pálida Francesca, 
 Mostra o sorriso rubro e a face fresca 
 Na estrofe sepulcral. 

O povo das formosas amarílis 
 Embala-se nas balsas, como as Wilis 
 Que o Norte imaginou. 
 O antro — fala... o ninho s’estremece... 
 A dríade entre as folhas aparece... 
 Pã na flauta soprou!... 

Mundo estranho e bizarro da quimera, 
 A fantasia desvairada gera 
 Um paganismo aqui. 
 Melhor eu compreendo então Virgílio... 
 E vendo os Faunos lhe dançar no idílio, 
 Murmuro crente: — eu vi! —

Quando penetro na floresta triste, 
 Qual pela ogiva gótica o antiste, 
 Que procura o Senhor, 
 Como bebem as aves peregrinas 
 Nas ânforas de orvalho das boninas, 
 Eu bebo crença e amor!...

E à tarde, quando o sol — condor sangrento —, 
 No ocidente se aninha sonolento, 
 Como a abelha na flor... 
 E a luz da estrela trêmula se irmana 
 Co’a fogueira noturna da cabana, 
 Que acendera o pastor,

A lua — traz um raio para os mares... 
 A abelha — traz o mel... um treno aos lares 
 Traz a rola a carpir... 
 Também deixa o poeta a selva escura 
 E traz alguma estrofe, que fulgura, 
 Pra legar ao porvir!... 

Vem! Do mundo leremos o problema 
 Nas folhas da floresta, ou do poema, 
 Nas trevas ou na luz... 
 Não vês?... Do céu a cúpula azulada, 
 Como uma taça sobre nós voltada, 
 Lança a poesia a flux!... 

 Boa Vista, 1867 

continua pag 16...
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Prólogo / Hebreia Laço de fita / Mocidade e Morte / Os três amores / O Gondoleiro do Amor / 
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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