sábado, 27 de dezembro de 2025

Espumas Flutuantes - HEBREIA

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

HEBREIA 
 Flos campi et lilium convalium
 Cântico dos Cânticos

     Pomba d’esp’rança sobre um mar d’escolhos! 
 Lírio do vale oriental, brilhante! 
 Estrela vésper do pastor errante! 
 Ramo de murta a rescender cheirosa!...

Tu és, ó filha de Israel formosa... 
 Tu és, ó linda, sedutora Hebréia... 
 Pálida rosa da infeliz Judéia 
 Sem ter o orvalho, que do céu deriva! 

Por que descoras, quando a tarde esquiva 
 Mira-se triste sobre o azul das vagas? 
 Serão saudades das infindas plagas, 
 Onde a oliveira no Jordão se inclina? 

Sonhas acaso, quando o sol declina, 
 A terra santa do oriente imenso? 
 E as caravanas no deserto extenso? 
 E os pegureiros da palmeira à sombra?!...

Sim, fora belo na relvosa alfombra, 
 Junto da fonte, onde Raquel gemera, 
 Viver contigo qual Jacó vivera 
 Guiando escravo teu feliz rebanho...  

Depois nas águas de cheiroso banho 
 — Como Susana a estremecer de frio — 
 Fitar-te, ó flor do Babilônio rio, 
 Fitar-te a medo no salgueiro oculto... 

Vem pois!... Contigo no deserto inculto 
 Fugindo às iras de Saul embora, 
 Davi eu fora, — se Micol tu foras, 
 Vibrando na harpa do profeta o canto... 

Não vês?... Do seio me goteja o pranto 
 Qual da torrente do Cedrón deserto!... 
 Como lutara o patriarca incerto 
 Lutei, meu anjo, mas caí vencido. 

Eu sou o Lótus para o chão pendido. 
 Vem ser o orvalho oriental, brilhante!... 
 Ai! guia o passo ao viajor perdido, 
 Estrela vésper do pastor errante!...
Bahia, 1866


QUEM DÁ AOS POBRES, EMPRESTA A DEUS
Ao Gabinete Português de Leitura, por ocasião de oferecer o produto de um
benefício às famílias dos soldados mortos na guerra

Eu, que a pobreza de meus pobres cantos 
 Dei aos heróis — aos miseráveis grandes —, 
 Eu, que sou cego, — mas só peço luzes... 
 Que sou pequeno, — mas só fito os Andes... 
 Canto nest’hora, como o bardo antigo 
 Das priscas eras, que bem longe vão, 
 O grande NADA dos heróis, que dormem 
 Do vasto pampa no funéreo chão...

Duas grandezas neste instante cruzam-se! 
 Duas realezas hoje aqui se abraçam!... 
 Uma — é um livro laureado em luzes... 
 Outra — uma espada, onde os lauréis se enlaçam. 
 Nem cora o livro de ombrear co'o sabre... 
 Nem cora o sabre de chamá-lo irmão... 
 Quando em loureiros se biparte o gládio 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

E foram grandes teus heróis, ó pátria, 
 — Mulher fecunda, que não cria escravos —,  
Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos: 
 “Parti — soldados, mas voltai-me — bravos!” 
 E qual Moema desgrenhada, altiva, 
 Eis tua prole, que se arroja então, 
 De um mar de glórias apartando as vagas 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

E esses Leandros do Helesponto novo 
 Se resvalaram — foi no chão da história... 
 Se tropeçaram — foi na eternidade... 
 Se naufragaram — foi no mar da glória... 
 E hoje o que resta dos heróis gigantes?... 
 Aqui — os filhos que vos pedem pão... 
 Além — a ossada, que branqueia a lua, 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

Ai! quantas vezes a criança loura 
 Seu pai procura pequenina e nua, 
 E vai, brincando co'o vetusto sabre, 
 Sentar-se à espera no portal da rua... 
 Mísera mãe, sobre teu peito aquece 
 Esta avezinha, que não tem mais pão!...
Seu pai descansa — fulminado cedro — 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

Mas, já que as águias lá no Sul tombaram 
 E os filhos d’águias o Poder esquece... 
 É grande, é nobre, é gigantesco, é santo!... 
 Lançai — a esmola, e colhereis — a prece!... 
 Oh! dai a esmola... que, do infante lindo 
 Por entre os dedos da pequena mão, 
 Ela transborda... e vai cair nas tumbas 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

Há duas coisas neste mundo santas: 
 — O rir do infante, — o descansar do morto... 
 O berço — é a barca, que encalhou na vida, 
 A cova — é a barca do sidéreo porto... 
 E vós dissestes para o berço — Avante! — 
 Enquanto os nautas, que ao Eterno vão, 
 Os ossos deixam, qual na praia as âncoras, 
 Do vasto pampa no funéreo chão. 

É santo o laço, em qu’hoje aqui se estreitam 
 De heroicos troncos — os rebentos novos —! 
 É que são gêmeos dos heróis os filhos 
 Inda que filhos de diversos povos! 
 Sim! me parece que n’est'hora augusta 
 Os mortos saltam da feral mansão...  
E um “bravo!” altivo de além-mar partindo 
 Rola do pampa no funéreo chão!...

São Salvador, 31 de outubro de 1867 
continua pag 8...
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Prólogo / Hebreia / Laço de fita
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871, Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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