À memória de Meu Pai,
de Minha Mãe
e de Meu Irmão
O. D. C.
O CORAÇÃO
O coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um — tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.
O outro — voa em mais virentes balsas,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel — a que se chama — crenças —,
Vive do aroma — que se diz — amor. —
Recife, 1865
MURMÚRIOS DA TARDE
Écoute! tout se tait; songe à ta bien aimée,
Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée,
Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux;
Ce soir, tout va fleurir: l’immortelle nature
Se remplit de parfums, d’amour et de murmure,
Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.¹
Alfred de Musset
Rosa!
Rosa de amor purpúrea e bela.
Garrett
Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo.
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.
Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicírc’lo d’ouro,
Do céu azul na profundeza escura.
Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho — suspirava o lago...
E a verde pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.
Era dos seres a harmonia imensa
Vago concerto de saudade infinda!
“Sol — não me deixes” diz a vaga extensa.
“Aura — não fujas” diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!
“Leva-me! leva-me em teu seio amigo”
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
“Rola que foges” diz o ninho antigo,
“Leva-me ainda para um novo galho...
“Leva-me! leva-me em teu seio amigo.”
“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!”
“Inda um calor, antes que chegue o frio...
”
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio...
“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!”
E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.
Eras a estrela transformada em virgem!
Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da lua a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto.
Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!...
E eu, que escutava o conversar das flores,
Ouvi, que a rosa murmurava ardente:
“Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores,
“Guarda-me, ó bela, no teu seio quente...”
E eu escutava o conversar das flores.
“Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!”
Também então eu murmurei cismando...
“Minh’alma é rosa, que a geada esfria...
“Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
“Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!...”
Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1869
[1] Escuta! Tudo está em silêncio; pensa em teu amado,
Esta noite, sob as tílias, no dossel sombrio,
O raio do sol poente deixa uma despedida mais doce;
Esta noite, tudo florescerá: a natureza imortal
Enche-se de perfumes, amor e murmúrios,
Como o leito alegre de dois jovens esposos.
continua pag 52...
Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
Esta noite, sob as tílias, no dossel sombrio,
O raio do sol poente deixa uma despedida mais doce;
Esta noite, tudo florescerá: a natureza imortal
Enche-se de perfumes, amor e murmúrios,
Como o leito alegre de dois jovens esposos.
continua pag 52...
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Prólogo / Hebreia / Laço de fita / Mocidade e Morte / Os três amores / O Gondoleiro do Amor / As Três Irmãs do Poeta /
O “Adeus” de Teresa / A Maciel Pinheiro / Pedro Ivo / Oitavas de Napoleão / Adormecida / Poesia e Mendicidade /
No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração /
________________Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia.
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo,
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP)
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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