quinta-feira, 23 de abril de 2026

Espumas Flutuantes - O coração

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

O CORAÇÃO
  
O coração é o colibri dourado 
 Das veigas puras do jardim do céu. 
 Um — tem o mel da granadilha agreste, 
 Bebe os perfumes, que a bonina deu. 

O outro — voa em mais virentes balsas, 
 Pousa de um riso na rubente flor. 
 Vive do mel — a que se chama — crenças —, 
 Vive do aroma — que se diz — amor. — 

 Recife, 1865 


MURMÚRIOS DA TARDE 
Écoute! tout se tait; songe à ta bien aimée, 
 Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée, 
 Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux; 
 Ce soir, tout va fleurir: l’immortelle nature 
 Se remplit de parfums, d’amour et de murmure, 
 Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.¹ 
 Alfred de Musset Rosa! 

Rosa de amor purpúrea e bela. 
 Garrett 

Ontem à tarde, quando o sol morria, 
 A natureza era um poema santo. 
 De cada moita a escuridão saía, 
 De cada gruta rebentava um canto, 
 Ontem à tarde, quando o sol morria. 

Do céu azul na profundeza escura 
 Brilhava a estrela, como um fruto louro, 
 E qual a foice, que no chão fulgura, 
 Mostrava a lua o semicírc’lo d’ouro, 
 Do céu azul na profundeza escura. 

Larga harmonia embalsamava os ares! 
 Cantava o ninho — suspirava o lago... 
 E a verde pluma dos sutis palmares 
 Tinha das ondas o murmúrio vago... 
 Larga harmonia embalsamava os ares. 

Era dos seres a harmonia imensa 
 Vago concerto de saudade infinda! 
 “Sol — não me deixes” diz a vaga extensa. 
 “Aura — não fujas” diz a flor mais linda; 
 Era dos seres a harmonia imensa! 

“Leva-me! leva-me em teu seio amigo” 
 Dizia às nuvens o choroso orvalho, 
 “Rola que foges” diz o ninho antigo, 
 “Leva-me ainda para um novo galho... 
 “Leva-me! leva-me em teu seio amigo.” 

“Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!” 
 “Inda um calor, antes que chegue o frio...
” E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio... 
 “Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!” 

E tu no entanto no jardim vagavas, 
 Rosa de amor, celestial Maria... 
 Ai! como esquiva sobre o chão pisavas, 
 Ai! como alegre a tua boca ria... 
 E tu no entanto no jardim vagavas. 

Eras a estrela transformada em virgem! 
 Eras um anjo, que se fez menina! 
 Tinhas das aves a celeste origem. 
 Tinhas da lua a palidez divina, 
 Eras a estrela transformada em virgem! 

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto. 
 Que bela rosa! que fragrância meiga! 
 Dir-se-ia um riso no jardim aberto, 
 Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga... 
 Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!... 

E eu, que escutava o conversar das flores, 
 Ouvi, que a rosa murmurava ardente: 
 “Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores, 
 “Guarda-me, ó bela, no teu seio quente...” 
 E eu escutava o conversar das flores. 

“Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!” 
 Também então eu murmurei cismando... 
 “Minh’alma é rosa, que a geada esfria... 
 “Dá-lhe em teus seios um asilo brando... 
 “Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!...” 

 Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1869 


[1] Escuta! Tudo está em silêncio; pensa em teu amado,
     Esta noite, sob as tílias, no dossel sombrio,
     O raio do sol poente deixa uma despedida mais doce;
     Esta noite, tudo florescerá: a natureza imortal
     Enche-se de perfumes, amor e murmúrios,
     Como o leito alegre de dois jovens esposos.


continua pag 52...
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No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração /               
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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