quinta-feira, 30 de abril de 2026

Espumas Flutuantes - Pelas sombras

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

PELAS SOMBRAS
Ao padre Francisco de Paula 
 C’est que je suis frappé du doute 
 C’est que l’étole de la foi 
 N’éclaire plus ma noire route: 
 Tout est abîme autour de moi!
La Morvonnais  
  
Senhor! A noite é brava... a praia é toda escolhos 
 Ladram na escuridão das Circes as cadelas... 
 As lívidas marés atiram, a meus olhos, 
 Cadáveres, que riem à face das estrelas!

Da garça do oceano as ensopadas penas 
 O mórbido suor enxugam-me da testa. 
 Na aresta do rochedo o pé se firma apenas... 
 No entanto ouço do abismo a rugidora festa!... 

Nas orlas de meu manto o vendaval s’enrola... 
 Como invisível destra açoita as faces minhas... 
 Enquanto que eu tropeço... um grito ao longe rola... 
 “Quem foi?” perguntam rindo as solidões marinhas.

Senhor! Um facho ao menos empresta ao caminhante. 
 A treva me assoberba... Ó Deus! dá-me um clarão! 
 — 
 E uma Voz respondeu nas sombras triunfante: 
 “Acende, ó Viajor! — o facho da Razão!” 

 ........................................................................ 

Senhor! Ao pé do lar, na quietação, na calma 
 Pode a flama subir brilhante, loura, eterna; 
 Mas quando os vendavais, rugindo, passam n’alma, 
 Quem pode resguardar a trêmula lanterna?

Torcida... desgrenhada aos dedos da lufada 
 Bateu-me contra o rosto... e se abismou na treva. 
 Eu vi-a vacilar... e minha mão queimada 
 A lâmpada sem luz embalde ao raio eleva. 

Quem fez a gruta — escura, o pirilampo cria! 
 Quem fez a noite — azul, inventa a estrela clara! 
 Na fronte do oceano — acende uma ardentia! 
 Com o floco do Santelmo — a tempestade aclara!

Mas ai! Que a treva interna — a dúvida constante — 
 Deixaste assoberbar-me em funda escuridão!... 
 — 
 E uma Voz respondeu nas sombras triunfante: 
 “Acende, ó Viajor! a Fé no Coração!...” 
 Curralinho, 5 de junho de 1870  


ODE AO DOUS DE JULHO
Recitada no teatro de São Paulo  
 
Era no Dous de Julho. A pugna imensa 
 Travara-se nos serros da Bahia... 
 O anjo da morte pálido cosia 
 Uma vasta mortalha em Pirajá. 
 “Neste lençol tão largo, tão extenso, 
 “Como um pedaço roto do infinito... 
 O mundo perguntava erguendo um grito: 
 “Qual dos gigantes morto rolará?!... 

Debruçados do céu... a noite e os astros 
 Seguiam da peleja o incerto fado... 
 Era a tocha — o fuzil avermelhado! 
 Era o circo de Roma — o vasto chão! 
 Por palmas — o troar da artilharia! 
 Por feras — os canhões negros rugiam! 
 Por atletas — dous povos se batiam! 
 Enorme anfiteatro — era a amplidão! 

Não! Não eram dous povos, que abalavam 
 Naquele instante o solo ensanguentado... 
 Era o porvir — em frente do passado, 
 A liberdade — em frente à escravidão. 
 Era a luta das águias — e do abutre, 
 A revolta do pulso — contra os ferros, 
 O pugilato da razão — com os erros, 
 O duelo da treva — e do clarão!... 

No entanto a luta recrescia indômita... 
 As bandeiras — como águias eriçadas — 
 Se abismavam com as asas desdobradas 
 Na selva escura da fumaça atroz... 
 Tonto de espanto, cego de metralha 
 O arcanjo do triunfo vacilava... 
 E a glória desgrenhada acalentava 
 O cadáver sangrento dos heróis!...

 .............................................................. 
 .............................................................. 

Mas quando a branca estrela matutina 
 Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras 
 No verde leque das gentis palmeiras 
 Foram cantar os hinos do arrebol, 
 Lá do campo deserto da batalha 
 Uma voz se elevou clara e divina: 
 Eras tu — liberdade peregrina! 
 Esposa do porvir — noiva do sol!... 

Eras tu que com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra, 
 Livre sagravas a Colúmbia terra, 
 Sagravas livre a nova geração! 
 Tu que erguias, subida na pirâmide, 
 Formada pelos mortos do Cabrito, 
 Um pedaço de gládio — no infinito... 
 Um trapo de bandeira — n’amplidão!... 
 São Paulo, julho de 1868

continua pag 52...
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No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira / O coração / Pelas sombras /                
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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