sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Espumas Flutuantes - A Maciel Pinheiro

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

A MACIEL PINHEIRO  
Dieu soit en aide au pieux pélerin. 
Bouchard  

Partes, amigo, do teu antro de águias, 
 Onde gerava um pensamento enorme,
Tingindo as asas no levante rubro, 
 Quando nos vales inda a sombra dorme... 
 Na fronte vasta, como um céu de ideias, 
 Aonde os astros surgem mais e mais... 
 Quiseste a luz das boreais auroras... 
 Deus acompanhe o peregrino audaz. 

Verás a terra da infeliz Moema, 
 Bem como a Vênus se elevar das vagas; 
 Das serenatas ao luar dormida, 
 Que o mar murmura nas douradas plagas. 
 Terra de glórias, de canções e brios, 
 Esparta, Atenas, que não tem rivais... 
 Que, à voz da pátria, deixa a lira e ruge... 
 Deus acompanhe o peregrino audaz. 

E quando o barco atravessar os mares, 
 Quais pandas asas, desfraldando a vela, 
 Há de surgir-te esse gigante imenso, 
 Que sobre os morros campeando vela... 
 Símbolo de pedra, que o cinzel dos raios 
 Talhou nos montes, que se alteiam mais... 
 Atlas com a forma do gigante povo... 
 Deus acompanhe o peregrino audaz.

Vai nas planícies dos infindos pampas 
 Erguer a tenda do soldado vate... 
 Livre... bem livre a Marselhesa aos ecos 
 Soltar bramindo no feroz combate... 
 E após do fumo das batalhas tinto 
 Canta essa terra, canta os seus gerais, 
 Onde os gaúchos sobre as éguas voam... 
 Deus acompanhe o peregrino audaz. 

E nesse lago de poesia virgem, 
 Quando boiares nas sutis espumas, 
 Sacode estrofes, qual do rio a garça 
 Pérolas solta das brilhantes plumas. 
 Pálido moço — como o bardo errante — 
 Teu barco voa na amplidão fugaz. 
 A nova Grécia quer um Byron novo... 
 Deus acompanhe o peregrino audaz. 

E eu, cujo peito como uma harpa homérica 
 Ruge estridente do que é grande ao sopro, 
 Saúdo o artista, que ao talhar a glória, 
 Pega da espada, sem deixar o escopro. 
 Da caravana guarda a areia a pegada: 
 No chão da história o passo teu verás...  
Deus, que o Masepa nos estepes guia... 
 Deus acompanhe o peregrino audaz. 

 Recife, 1865  


A UMA TAÇA FEITA DE UM CRÂNIO HUMANO 
Traduzido de Byron 

“Não recues! De mim não foi-se o espírito... 
 Em mim verás — pobre caveira fria — 
 Único crânio, que ao invés dos vivos, 
 Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte 
 Arrancaram da terra os ossos meus. 
 Não me insultes! empina-se!... que a larva 
 Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mas val guardar o sumo da parreira 
 Do que ao verme do chão ser pasto vil; 
 — Taça — levar dos deuses a bebida, 
 Que o pasto do réptil. 

Que este vaso, onde o espírito brilhava, 
 Vá nos outros o espírito acender. 
 Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro ... 
Podeis de vinho o encher! 

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça, 
 Quando tu e os teus fordes nos fossos, 
 Pode do abraço te livrar da terra, 
 E ébria folgando profanar teus ossos.

E por que não? Se no correr da vida 
 Tanto mal, tanta dor aí repousa? 
 É bom fugindo à podridão do lodo 
 Servir na morte enfim pra alguma coisa!... 

 Bahia, 15 de dezembro de 1869

continua pag 26...
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O “Adeus” de Teresa / A Maciel Pinheiro  
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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