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domingo, 13 de setembro de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Dalila)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

DALILA  
 
Fair delect oi nature 
                                              MILTON (Parodia* loat).

Foi desgraça, meu Deus!... Não!... Foi loucura 
Pedir seiva de vida — á sepultura, 
          Em gelo — me abrasar, 
 Pedir amores — a Marco sem brio, 
 E a. rebolcar-me em leito immundo e frio 
           — A ventura buscar. 

Errado viajor — sentei-me á alfombra 
E adormeci da mancenilha á sombra 
          Em berço de setim... 
Embalava-me a brisa no meu leito... 
  Tinha o veneno a lacerar-me o peito 
          — A morte dentro em mim... 

Foi loucura!... No occaso — tomba o astro; 
A estatua branca e pura de alabastro 
          — Se mancha em lodo vil... 
Quem rouba a estrella — á tumba do occidente ? 
Que Jordão lava na lustrai corrente 
          O marmóreo perfil?...  

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta 
Ella passou sósinha, macilenta 
          Tremendo a soluçar... 
Chorava — nenhum echo respondia... 
Sorria — a tempestade além bramia... 
          E ella sempre a marchar. 

E eu disse-lhe: Tens frio? — arde minha alma. 
Tens os pés a sangrar? — podes em calma 
          Dormir no peito meu. 
Pomba errante — é meu peito um ninho vago! 
Estrella — tens minha alma — immenso lago — 
          Reflecte o rosto teu!...

E amamos... Este amor foi um delírio... 
Foi ella minha crença, foi meu lirio, 
          Minha estrella sem véu... 
Seu nome era o meu canto de poesia, 
Que com o sol — penna de ouro — eu escrevia 
          Nas lâminas do céu. 

Em seu seio escondi-me... como á noite 
Incauto colibri, temendo o açoite 
          Das iras do tufão, 
A cabecinha esconde sob as asas, 
Faz seu leito gentil por entre as gazas 
          Da rosa do Japão. 

E depois... embalei-a com meus cantos 
Seu passado esqueci... lavei com prantos 
          Seu lodo e maldição... 
... Mas um dia acordei... E mal desperto 
Olhei em torno a mim... — Tudo deserto... 
          Deserto o coração... 

Ao vento, que gemia pelas franças 
Por ella perguntei... de suas trancas 
          A' flor que ella deixou... 
Debalde... Seu lugar era vazio... 
E meu lábio queimado e o peito frio, 
          Foi ella que o queimou... 

Minha alma nodoou no osculo immundo, 
Bem como Satanaz — beijando o mundo — 
          Manchou a creação, 
Simoun — crestou-me da esperança as flores... 
Tormenta — ella afogou nos seus negrores 
          A luz da inspiração... 

Vai, DalilaL. E' bem longa tua estrada... 
E' suave a descida — terminada 
          Em barathro cruel. 
Tua vida — é um banho de ambrosia... 
Mais tarde a morte e a lâmpada sombria 
          Pendente do bordel. 

Hoje flores... A musica soando... 
As perlas do Champagne gottejando 
          Em taças de crystal. 
A volúpia a escaldar na louca insomnia... 
Mas suffoca os festins de Babylonia 
          A legenda fatal.

Tens o seio de fogo e a alma fria. 
O sceptro empunhas lubrico da orgia 
          Em que reinas tu só!... 
Mas que finda o ranger de uma mortalha, 
A enxada do coveiro que trabalha 
          A revolver o pó.  

Não te maldigo, não!... Em vasto campo 
Julguei-te — estrella, — e eras — pyrilampo 
          Em meio á cerração... 
Prometheu — quis dar luz á fria argilla... 
Não pude... Pede a Deus, louca Dalila, 
          A luz da redempção !...           

Recife, 1864. 
__________________

     Espumas Fluctuantes, Edição original: XXXIX.
     Pbl. na "Imprensa Acadêmica", de S. Paulo, n". 7, de 5 de Julho de 1868, quasi sem alteração: apenas, na 9.* estância, ultimo verso: "Foi ella que gelou". A importância desta versão é, porem, a data: "Recife — Setembro de 1864".
     1) Dalila (titulo). Não é a personagem biblica, como se poderia immediatamente pensar, mas a da ficção de Octavio Feuillet, heroina symbolica que dá o nome a um drama, em 3 actos e 6 quadros, representa do em Paris em 1857 pela primeira vez e, depois, por toda a parte. No Brasil foi levado á scena muitas vezes e Castro Alves o àpplaudiu, representado por Furtado Coelho e Eugenia Câmara, a qual encarnava Leonora, princeza Falconieri, a Dalila que rende os Sansões, cortezã de excelsa formosura e coração insensível, que immola perversamente as affeiçôes que desperta e provoca, até as vidas que lhe consagram. O nosso Poeta vingou no seu canto os artistas, como o desgraçado André Roswein, o "cysne dalmata", que se degrada e morre por ella, traiçoeira Dalila.
     2) Marco (estância i\, v. 4). Na versão da "Imprensa Acadêmica" vem accentuada assim a palavra, que é como se lê o original francês: "Marco". Personagem principal do drama Les Filies de Marbre, de Theodore Barrière et Lambert Thiboust, em 5 actos, representando em 1853 em Paris e depois também por toda a parte. No Brasil constava do repertório de Furtado Coelho e Eugenia Câmara. As Mulheres de Mármore têm uma dupla celebridade: foram a refutação da these de Alexandre Dumas Filho na Dama das Ca melias, tentativa de rehabilitação das cortezãs, pelo amor, e imitação quasi plagiaria, pela Dalila, de Octavio Feuillet. Marco é uma Dalila, como foi depois a. Leonora, a hetaira que devora os patrimônios e degrada os talentos, insensivel a tudo, excepto ao oiro, como as "mulheres de mármore", do prefacio, que é o começo symbolico do drama. Em Athenas, rico amador encomenda a Phidias três estatuas de mulher, Phryné, Lais, Aspasia, as quaes tão bellas saem do cinzel que ao próprio criador apaixonam. Por isso, não quer o artista entregá-las ao dono, mas apenas restituir-lhe o dinheiro recebido antecipadamente, ao que não convém este. Diogenes intervém: as próprias estatuas o decidirão: "Qual preferem dos dois — um, pobre artista, de gênio e de coração, ou o outro, velho idiota, rico de oiro?" As mulheres de mármore sorriem a este. O philosopho exclama: "Eu bem vos reconheço, ó mulheres de mármore, cortezãs do presente, cortezãs do futuro!" Marco, uma destas, em Paris e na época contemporânea, é como as outras, e o drama doloroso e commovido anda em torno delia.
     Na poesia de Castro Alves ha allusões claras a situações do drama: Raphael, o moço escultor, de gênio e sensibilidade, quando se desenlaça da traçoeira que o empobreceu e degradou, não tem mais gênio nem entusiasmo. O "lábio queimado", o "peito frio", crestadas "as flores da esperança", afogada "a luz da inspiração", nada mais lhe resta, senão morrer. Não creio que em 1864, quando a escreveu Castro Alves, houvesse allusão pessoal: a poesia traduz apenas, em verso, uma impressão de teatro.

_______________
continua página 73...
_________________

Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila /     
_________________

Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
_______________

LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Mocidade e Morte)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

MOCIDADE E MORTE 
 
                   E perto avisto o porto
Immenso, nebuloso e sempre noite
            Chamado — Eternidade. — 
                                          LAURINDO. 
 
Laeciate ogni speranza, vol ch'entrate.
                                              DANTE.

           _________________

Oh! eu quero viver, beber perfumes 
 Na flor silvestre, que embalsama os ares; 
 Ver minh'alma adejar pelo infinito, 
 Qual branca vela n'amplidão dos mares. 
 No seio da mulher ha tanto aroma... 
 Nos seus beijos de fogo ha tanta vida... 
 — Árabe errante, vou dormir á tarde 
 A' sombra fresca da palmeira erguida. 

Mas uma voz responde-me sombria: 
 Terás o somno sob a lagea fria. 

Morrer... quando este mundo é um paraiso, 
 E a alma um cysne de douradas plumas: 
 Não! o seio da amante é um lago virgem... 
 Quero boiar á tona das espumas.
 Vem! formosa mulher — camelia pallida, 
 Que banharam de pranto as alvoradas, 
 Minh'alma é a borboleta, que espaneja 
 O pó das asas lúcidas, douradas...

E a mesma voz repete-me terrível, 
 Com gargalhar sarcástico: — impossível!

Eu sinto em mim o borbulhar do gênio. 
 Vejo além um futuro radiante: 
 Avante! — brada-me o talento n'alma 
 E o echo ao longe me repete — avante! — 
 O futuro... o futuro... no seu seio... 
 Entre louros e bênçãos dorme a gloria! 
 Após — um nome do universo n'alma, 
 Um nome escripto no Pantheon da historia. 

E a mesma voz repete funerária: 
 Teu Pantheon — a pedra mortuaria! 

Morrer — é ver extincto dentre as nevoas 
 O phanal, que nos guia na tormenta: 
 Condemnado,— escutar dobres de sino, — 
Voz da morte, que a morte lhe lamenta — 
 Ai! morrer — é trocar astros por cirios, 
 Leito macio por esquife immundo, 
 Trocar os beijos da mulher — no visco 
 Da larva errante no sepulcro fundo. 

Ver tudo findo... só na lousa um nome, 
 Que o viandante a perpassar consome. 

E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito 
 Um mal terrível me devora a vida: 
 Triste Ahasverus, que no fim da estrada, 
 Só tem por braços uma cruz erguida. 
 Sou o cypreste, qu'inda mesmo flórido, 
 Sombra de morte no ramal encerra! 
 Vivo — que vaga sobre o chão da morte, 
 Morto — entre os vivos a vagar na terra. 

Do sepulcro escutando triste grito 
 Sempre, sempre bradando-me: maldito! — 

E eu morro, ó Deus! na aurora da existência, 
 Quando a sede e o desejo em nós palpita... 
 Levei aos lábios o dourado pomo, 
 Mordi no fruto podre do Asphaltita. 
 No triclinio da vida — novo Tantalo — 
 O vinho do viver ante mim passa... 
 Sou dos convivas da legenda Hebraica, 
 O stylete de Deus quebra-me a taça. 

E' que até minha sombra é inexorável, 
 Morrer ! morrer! soluça-me implacável. 

Adeus, pallida amante dos meus sonhos! 
 Adeus, vida! Adeus, gloria! amor! anhelos! 
 Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga 
 Os prantos de meu pae nos teus cabellos. 
 Fora louco esperar! fria rajada 
 Sinto que do viver me extingue a lampa... 
 Resta-me agora por futuro — a terra, 
 Por gloria — nada, por amor — a campa.

Adeus!... arrasta-me uma voz sombria 
 Já me foge a razão na noite fria!... 

1864

_________________

     Espumas Fluctuantes, Edição original: VII. 
     Pbl. em S. Paulo, por volta de 1868-69, s°b o titulo "O Phtysico" (titulo que encontrei no índice das poesias que deviam formar os Dramas d'alma — Poesias de Castro Alves — Bahia — e que depois se chamaram Espumas Fluctuantes, manuscripto do Poeta cm. por D. Adelaide de Castro Alves Guimarães) apenas com uma alteração no texto, na 7* estância, v. 6, que diz: 
"Já da tremula vida extingue a lampa..." 
     Isto consta de um livro manuscripto de poesias de Castro Alves, que colleccionou Joaquim Polycarpo Aranha Júnior, contemporâneo e admirador do Poeta, e que as transcrevia á medida que eram publicadas nos jornaes do tempo, segundo me informa Alberto Faria. Alem desta, ahi se encontram "As três irmãs do Poeta"; "Ode ao 2 de julho"; "Quem dá aos pobres empresta a Deus"; "Gonzaga" (Epílogo de um drama); "A Maciel Pinheiro"; "Um dia Pygmalião o estatuario..." (Ao actor Joaquim Augusto); "Vozes d'Africa"; "Hebréa (a uma judia)"; "Perseverando"; "Pedro Ivo"; "Dalila"; "O laço de fita"; "E tarde"; "Adeus"; "As duas ilhas"; "Bôa-noite"; "Basta de covardia! A hora sôa" (Adeus meu canto); "A Bôa Vista"; "A Bailada do Desesperado"; "Fatalidade", o "Phantasma e a Canção", "O derradeiro amor de Byron"; "Rezas"; "Anceios" (Devaneios, ou ****, ou, definitivamente, "Pensamento de Amor") ; "O Século"; "O Navio Negreiro". A propósito de cada uma indicarei as raras variantes. Esse titulo "O Phtysico", depois felizmente substituído, denuncia, já em 1864, se não a certeza, as apprehensões de Castro Alves, sobre a doença que o ameaçava.
     1) Mordi no fruto podre do Asphaltita (estância 6* v. 4). Nas margens do Lago Asphaltita ou Mar Morto ha duas espécies vegetaes, cujos frutos receberam o nome de pomos de Sodoma: uma asclepiadacea, Calotropis procera, dá frutos amarellos, do tamanho de uma pequena laranja, cheios de uma paina sedosa, que se pode tecer; a outra, solanacea, Solaneum sodomeum, o limão de Lot, dos Árabes, fruto enganador, de conteúdo escuro e granuloso, como areia, acre, como cinza. Talvez seja este o da tradição, que chamou Castro Alves — o fruto podre do Asphaltita.

continua página 68...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte / Dalila /     
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921


3º Ciclo de Conferências - "O adeus de Castro Alves"





A ORGIA DOS DUENDES 
 Bernardo Guimarães 

...

IV 
 Do batuque infernal, que não finda, 
 Turbilhona o fatal rodopio; 
 Mais veloz, mais veloz, mais ainda 
 Ferve a dança como um corrupio.  

Mas eis que no mais quente da festa 
Um rebenque estalando se ouviu, 
Galopando através da floresta 
Magro espectro sinistro surgiu  

Hediondo esqueleto aos arrancos 
Chocalhava nas abas da sela; 
Era a Morte, que vinha de tranco 
Amontada numa égua amarela.  

O terrível rebenque zunindo 
A nojenta canalha enxotava; 
E à esquerda e à direita zurzindo 
Com voz rouca desta arte bradava:  

"Fora, fora! esqueletos poentos, 
Lobisomes, e bruxas mirradas! 
Para a cova esses ossos nojentos! 
Para o inferno essas almas danadas!” 

Um estouro rebenta nas selvas, 
Que recendem com cheiro de enxofre; 
E na terra por baixo das relvas 
Toda a súcia sumiu-se de chofre.  

V 
 E aos primeiros albores do dia 
 Nem ao menos se viam vestígios 
 Da nefanda, asquerosa folia, 
 Dessa noite de horrendos prodígios.  

E nos ramos saltavam as aves 
Gorjeando canoros queixumes, 
E brincavam as auras suaves 
Entre as flores colhendo perfumes.  

E na sombra daquele arvoredo, 
Que inda há pouco viu tantos horrores, 
Passeando sozinha e sem medo 
Linda virgem cismava de amores.



A POLCA 
(A Uma Virgem)
Vitoriano Palhares





O ADEUS DE TERESA
Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
Adeus eu disse-lhe a tremer coa fala...

E ela, corando, murmurou-me: adeus.

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
Adeus lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me: adeus!

Passaram tempos... séclos de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
. . . Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse -- Voltarei!... descansa!...
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: adeus!

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz dEla e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! . . . Ela me olhou branca . . . surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: adeus!

São Paulo, 1868

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Poesias Lyricas (Meu segredo)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Poesias Lyricas

MEU SEGREDO 
 Á SENHORA D. *** 

I

Eu tenho dentro d'alma o meu segredo 
 Guardado como a pérola do mar, 
 Occulto ao mundo como a flor silvestre 
 Escondida no valle a vicejar.

Eu guardo-o no meu peito... E' meu thesouro, 
 Meu único thesouro desta vida, 
 — Sonho de phantasia — flor ephemera, 
 Uma nuvem, talvez, no céo perdida... 

Mas que importa ? E' uma crença de minh'alma 
 — Gotta do orvalho d'alva da existência, 
 Ultima flor, que vive aos raios mornos 
 Do sol de amor na quadra da innocencia. 

Só,, quando a terra dorme solitária 
 E ergue-se á meia noite, branca, a lua, 
 E a brisa geme cantos de tristeza 
 Na rama do pinheiro que fluctúa;  

E quando o orvalho pende do arvoredo, 
 Que se debruça p'ra beijar o rio, 
 E as estrellas no céo scintillam languidas 
 — Pérolas soltas de um collar sem fio;

Então eu vou sentar-me sobre a relva, 
 Eu vou sonhar meus sonhos ao relento, 
 E só conto o segredo de minh'alma 
 Das horas mortas ao tristonho vento.

II

Eu sei como este mundo ri de escarneo, 
 Deste aéreo sonhar da phantasia. 
 Eu sei... P'ra cada crença de noss'alma, 
 Elle tem uma phrase de ironia... 
 Ah! deixai-me guardar o meu segredo! 
 Deste riso cruel eu tenho medo... 

Meu segredo? E' o canto de poesia 
 Que suspirou saudoso o gondoleiro, 
 Que vae morrer gemente sobre as praias; 
 — Da despedida pranto derradeiro, 
 Mais aéreo que as vozes da sereia, 
 Alta noite sentada sobre a areia. 

Meu segredo? E' o soluço d'alma triste 
 Que conta sua dor á brisa errante; 
 E' o pulsar tresloucado de meu peito 
 A repetir um nome delirante; 
 Indeciso anhelar de edeneo gozo, 
 Castello que eu creei vertiginoso.  

Creei-o numa noite não dormida, 
 Após vel-a entre todas — a rainha; 
 Creei-o nestas horas de delírio, 
 Em que sentira em fogo a fronte minha 
 E o sangue galopava-me nas veias, 
 E o cérebro doia-me de idéas... 

E quem na vida não amara um dia? 
 E nunca despertara ao som de um beijo? 
 Quem nunca na vigília empallecera, 
 Ao seguir com o pensar louco desejo? 
 Quem não sonhara ao collo voluptuoso 
 Da sultana louça morrer de gozo ?

Uma noite tentei fechar as palpebras, 
 Debalde revolvi-me sobre o leito... 
 A alma adejava em phantasias d'ouro, 
 Arfava ardente o coração no peito. 
 A imagem que eu seguia? E' meu segredo! 
 Seu nome? Não o digo... tenho medo. 

Ai! dóe muito calar dentro em noss'alma 
 Este anhelar fremente de desejos! 
 Ai! dóe muito calar o roseo sonho 
 Que sonhamos: — dormir entre mil beijos 
 Num seio que de amor todo estremece, 
 Quando o olhar de volupias esmorece... 

Dóe muito., mas dóe mais uma ironia, 
 Quando adeja o pensar no firmamento. 
 Dóe muito... mas dóe mais um desengano, 
 Quando se vive só de um sentimento, 
 Quando o peito cifrou sua esperança 
 Em beijar da mulher a negra trança. 

Que loucura! Aos teus languidos olhares, 
 Beber, louco de amor, seiva de vida... 
 Sorver perfume em teus cabellos negros, 
 Sentir a alma de si mesma esquecida... 
 E, de gozo de amar louco, sedento, 
 Viver a eternidade num momento! 

Que ventura! Sorver co'os lábios trêmulos 
 Em teus lábios — de amor o nome santo... 
 Que ventura! Fitar-te os negros olhos 
 Desmaiados de amor e de quebranto... 
 E, reclinada a fronte no teu seio, 
 Sentir languido arfar em doce enleio... 

Mas que louco sonhar... O' minha amante, 
 Que nunca nos meus braços desmaiaste, 
 Que nem sequer de amor uma palavra 
 Dos meus lábios em fogo inda escutaste, 
 Perdoa este sonhar vertiginoso! 
 Foi um sonho do peito deliroso! 

E, se um dia, entre as scismas de tu'alma, 
 Minha imagem passar um só momento, 
 Fita meus olhos, vê como elles falam 
 Do amor que eu te votei no esquecimento: 
 Recorda-te do moço que em segredo 
 Fez-te a fada gentil de um sonho ledo... 

Recorda-te do pobre que em silencio 
 De ti fez o seu anjo de poesia, 
 Que tresnoita scismando em tuas graças, 
 Que por ti, só por ti, é que vivia, 
 Que tremia aó roçar de teu vestido, 
 E que por ti de amor era perdido...

Sagra ao menos uma hora em tua vida 
 Ao pobre que sagrou-te a vida inteira, 
 Que em teus olhos, febril e delirante, 
 Bebeu de amor a inspiração primeira, 
 Mas que de um desengano teve medo, 
 E guardou dentro d'alma o seu segredo! 

Recife, Junho de 1863. 

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     Cf. com a primeira publicação em livro, na "5* 
 (VI) Edição das Espumas Fluctuantes, de Seraphim 
 José Alves, Rio de Janeiro (1881), "appendice": I. 
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continua página 64...
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Posias Lyricas
Meu segredo / Mocidade e Morte /    
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro: Prologo e Dedicatoria

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


ESPUMAS FLUCTUANTES
Bahia - 1870

A' MEMÓRIA 
 DE 
 MEU PAE, 
 DE 
 MINHA MÃE 
 E DE 
 MEU IRMÃO 
 O. D. C


Prologo

     Era por uma d'essas tardes em que o azul do céu oriental — é pallido e saudoso, em que o rumor do vento nas vergas — é monótono e cadente, e o quebro da vaga na amurada do navio — é queixoso e tetrico.
     Das bandas do occidente o sol se atufava nos mares "como um brigue em chammas"... e d'aquelle vasto incêndio do crepúsculo alastrava-se a cabeça loura das ondas.
      Além... os cerros de granito d'essa formosa terra de Guanabara, vacillantes, á luctarem com a onda invasora de azul, que descia das alturas... recortavam-se indecisos na penumbra do horisonte.
     Longe, inda mais longe... os cimos phantasticos da serra dos Órgãos embebiam-se na distancia, su miam-se, abysmavam-se n'uma espécie de naufrágio celeste. 
     Só e triste, encostado á borda do navio, eu seguia com os olhos aquelle esvaecimento indefinido e mi nha alma apegava-se á forma vacillante das montanhas — derradeiras atalaias dos meus arraiaes da mocidade.  
     E' que lá d'essas terras do sul, para onde eu levara o fogo de todos os enthusiasmos,. o viço de todas as illusões, os meus vinte annos de seiva e de mocidade, as minhas esperanças de gloria e de futuro;... é que d'essas terras do sul, onde eu penetrara "como o moço Raphael subindo as escadas do Vaticano;"... volvia agora silencioso e alque brado... trazendo por única ambição — a esperança de repouso em minha pátria.
     Foi então que, em face d'estas duas tristezas — a noite que descia dos céus, — a solidão que subia do oceano —, recordei-me de vós, ó meus amigos!
     E tive pena de lembrar que em breve nada restaria do peregrino na terra hospitaleira, onde vagara; nem se quer a lembrança d'esta alma, que comvosco e por vós vivera e sentira, gemera e cantara...
     O' espíritos errantes sobre a terra! O' velas enfunadas sobre os mares!... Vós bem sabeis quanto sois ephemeros... — passageiros que vos absorveis no espaço escuro, ou no escuro esquecimento.
     E quando — comediantes do infinito — vos obumbraes nos bastidores do abysmo, o que resta de vós?

— Uma esteira de espumas... — flores perdidas na vasta indifferença do oceano. — Um punhado de versos... — espumas fluctuantes no dorso fero da vida!... 

     E o que são na verdade estes meus cantos?...
     Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e do vento, elles são filhos da musa — este sopro do alto; do coração — este pelago da alma.
     E como as espumas são, ás vezes, a flora sombria da tempestade, elles por vezes rebentaram ao estalar fatídico do latego da desgraça.
     E como também o aljofre dourado das espumais reflecte as opalas, rutilantes do arco-iris, elles por acaso reflectiram o prisma phantastico da ventura ou do enthusiasmo — estes signos brilhantes da alliança de Deus com a juventude!
     Mas, como as espumas fluctuantes levam, boiando nas solidões marinhas, a lagrima saudosa do marujo... possam elles, ó meus amigos! — ephemeros filhos de minh'alma — levar uma lembrança de mim ás vossas plagas!...

S. Salvador — Fevereiro de 1870. 
 CASTRO ALVES. 


DEDICATÓRIA

 A pomba d'alliança o vôo espraia 
 Na superfície azul do mar immenso, 
 Rente... rente da espuma já desmaia 
 Medindo a curva do horizonte extenso... 
 Mas um disco se avista ao longe... 
A praia Rasga nitente o nevoeiro denso!... 
O' po.uso! ó monte! ó ramo de oliveira!
Ninho amigo da pomba forasteira!...

Assim, meu pobre livro as asas larga 
 N'este oceano sem fim, sombrio, eterno... 
 O mar atira-lhe a saliva amarga, 
 O céu lhe atira o temporal de inverno... 
 O triste verga á tão pesada carga! 
 Quem abre ao triste um coração paterno?... 
 E' tão bom ter por arvore — uns carinhos! 
 E' tão bom de uns affectos — fazer ninhos!

Pobre orphão! Vagando nos espaços 
 Embalde ás solidões mandas um grito! 
 Que importa? De uma cruz ao longe os braços 
 Vejo abrirem-se ao misero precito... 
 Os túmulos dos teus dão-te regaços! 
 Ama-te a sombra do salgueiro afflicto... 
 Vai, pois, meu livro! e como louro agreste 
 Traz'-me no bico um ramo de... cypreste! 

 Bahia., Janeiro de 1870. 
Espumas Fluctuantes, Edição original, I.

continua página 59...
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Posias Lyricas
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

sábado, 1 de agosto de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro (b)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


O MAIOR POETA BRASILEIRO

continuando...

     Mas os trovões que prenunciavam os cataclysmos cósmicos e sociaes, do outro lado do> oceano, com Hugo, esmoreceram, e se pôde com o tempo ouvir os accordes lyricos e apaixonados da voz desse mesmo immenso e outro poeta, e, com ella, outras vozes tão sentidas e delicadas desse tempo, as de Lamartine e de Musset.
     Aqui a campanha da Abolição teria o seu pri meiro êxito em 71, para conseguir todo e definitivo em 88; no anno immediato o Brasil alcançava a Republica. O "Poeta dos Escravos", como o Brasil lhe chamava, o "poeta republicano" como lhe chamaria Nabuco¹), o poeta nacional que fora Castro Alves, preenchera o seu destino, attingido esse ideal livre e democrático, exactamente quando a forma literária desses seus poemas tornara á simplicidade lyrica, ou á perfeição parnasiana.

[1] JOAQUIM NABUCO — Minha Formação, Rio, Paris, 1900, p. 7.

     Foi então, que se começou também a ouvir o outro Castro Alves, o definitivo Castro Alves, ly rico e commovido, poeta ás vezes perfeito, sempre original, que cantou o amor e a natureza, com uma sinceridade e uma espontaneidade ainda não conseguidas no Brasil, e que abafara, na sua gloria ruidosa, o poeta social. Ao poeta épico, de cujos alguns poemas pôde Alberto de Oliveira dizer que "exceptas algumas estâncias camoneanas não conheço em nossa lingua outros versos tão vibrantes"¹) substituiu-se o lyrico²) delicioso e in timo, e este não passará, porque é eterno o senti mento humano e só os grandes poetas o sabem exprimir, para os outros que o sentem e soffrem sem expressão. Mudara Castro Alves de feição, sem deixar de ser o mesmo, e entretanto com aquella originalidade, já proclamada, mas que primeiro lhe viu o difficil juizo de Machado de Assis, quando, em 68, exclamava pelo "Correio Mercantil": "Achei um poeta original", "a musa do Sr. Castro Alves tem feição própria"³). Com elle viria a concordar um moderno, José Oiticica, dizendo que criara essas três coisas que não existiam na poética nacional antes delle: a paisagem brasileira, o estylo brasileiro, o thema social brasileiro"4). Para o louvar, ou fazer-lhe apenas justiça, não preciso palavras minhas.

[1] ALBERTO DE OLIVEIRA — Prefacio ás "Espumas Fluctuantes" ed. Garnier, 1913. P- 6"7.
[2] JOSÉ VERÍSSIMO — Castro Alves, "Jornal do Commercio, Rio, 14 de Agosto 1899: "Não sei se não haverá quem prefira hoje a parte puramente lyrica dos seus cantos."
[3] MACHADO DE ASSIS — Resposta ao Cons. José de Alencar, "Correio Mercantil", Rio, 1 Março, 1868.
[4] JOSÉ OITICICA — Um ponto de literatura brasileira, "Jornal do Commercio", Rio, 25 de Dezembro, 1913, p. 21-23.

     Fez-lhe alguém, inconsideradamente, uma censura, que é o maior elogio que se pode attribuir a um artista: conseguir revelar-se. Seriam as confidencias intimas dos seus versos: "é certo que encobriu pouco ou antes nada, de sua alma, aos leitores mais extranhos e indifferentes"¹). A arte é o triumpho esthetico do individualismo; numa fórmula concisa, e persuasiva, alludindo ao que ha nella de pessoal e na sciencia de collectivo, Hugo definiu: — "L'art, c'est moi; Ia science, c'est vous..." Poesia, então, é essencialmente sentimento e o que podemos exprimir, com sinceridade, será apenas, e quando muito, o próprio. E foi com essa sinceridade de Castro Alves, que "ninguém desferiu ainda mais maviosamente as cordas mais santas do amor humano", e só por isso é que "a natureza sorri, irradia e magôa-se nos seus versos", como affirmou Ruy Barbosa²). Aos provectos como este, contraponho os mais recentes, para provar a concordância: um jovem critico, Ronald de Carvalho³) diz de um dos seus poemas: "As admiráveis e perfeitas estrophes da poesia Sub tegmine fagi, que é uma das mais bellas de nossa lingua e onde ha qualquer coisa do melhor Hugo e do mais profundo Lamartine, na sua exaltação religiosa, da arte e da natureza..."

[1] JOAQUIM NABUCO — Castro Alves, II, "A Reforma", Rio, 24 Abril, 1873.
[2] RUY BARBOSA — Op. cit., p. 12.
[3] RONALD DE CARVALHO — Pequena Historia da Literatura Brasileira, ed. Briguiet, Rio. 1919. p. 242.

     Essa perfeição de forma, aliás menos prezada no tempo, de românticos sem disciplina, o que até forçaria á reacção parnasiana, não era rara nos poemas de Castro Alves, cheios de idéas, de imagens e de apuro no estylo. Escreveu José Veríssimo das "Vozes d'África": ha ahi "eloqüência da melhor espécie, sentimento, emoção, e sobre tudo uma elevada idealização artística da situação do Continente maldito e das reivindicações que o nosso ideal humano lhe attribue. E, com todas essas qualidades, uma perfeição rara de forma"¹). Continua ainda assim, exaltado no louvor, que muitos annos depois será também o de Luís Murat²) :"Vozes dAfrica" são um primor de forma; não se pôde exigir mais, do gosto e da mestria de um artista". Na sua obra, muitos poemas, e numerosas estrophes, de outros muitos, merecem destes gabos. A prova é que a affirmativa de José Veríssimo, que nas Miniaturas, de Gonçalves Crespo, vira "a primeira manifestação da poesia parnasiana no Brasil", oppõe-se Alberto de Oliveira, o maior dos nossos parnasianos, lembrando que as Espumas Fluctuantes, em 1870, antecedem de um anno áquelle livro e ahi, nos sonetos d'"Os anjos da meia noite" ia Castro Alves em evolução "para as novas formas de cunho artistico mais leve e delicado da poesia parnasiana". O critico compara dois sonetos, do Castro e do Crespo, e não lhes acha differença no accento da emoção e no lavor da fôrma. O grande romântico attingia, pois, a perfeição parnasiana, pela primeira vez conseguida no Brasil³). Que lhe faltou pois? Apenas tempo, mais edade para polir e aperfeiçoar, o que não sahiu perfeito de seu gênio apenas mal transposta a adolescência, nessa mocidade tonta em que a infinita maioria nem tem a consciência da vida, quanto mais de uma obra a realizar. Emen daria erros, evitaria excessos, talvez repudiasse "as palavras a cavallo", "os palavrões de pennacho" como os que o ridiculo de Aristophanes denunciava no divino E'schylo; talvez, quando lhe fosse escasseando o gênio, com a velhice, fizesse pacto com a grammatica, de não a offender nunca mais4), commodidade que, ainda sem talento, confere no Brasil, nessa idade rhetorica que vamos vivendo, foros de escriptor a quem escreva mal e sem idéas, mas segundo as taes regrinhas; seria tudo o que o gênio desabrochado, fecundado, de vez, sazonado, pode dar de maturidade perfeita e feliz. O que foi, porém, esses poucos annos bastaram para mostrá-lo, como se a sua compleição extraordinária não carecesse de mais. Guilherme de Castro Alves, seu irmão, teria inteira razão de o definir:
     Elle era grande e bom : massa p'ra deuses!

[1] JósÉ VERÍSSIMO — "Jornal do Commercio", Rio, 14 Agosto, 1899.
[2] LUIZ MURAT — "Jornal do Commercio", Rio, 3 Outubro, 1920.
[3] ALBERTO DE OLIVEIRA — O soneto brasileiro — "Revista de Lingua Portuguesa — Rio. 1920. n " 8.
[4] Aliás se alguma vez, inadvertidamente, a aggravou, poderia reclamar illustres precedentes Accusa Horacio a Homero de haver alguma vez dormitado. Faguet apontou desses defeitos no mesmo Flaubert. Entre os nossos, não poupam os incontentaveis aos maiores, de Camões a Ruy Barbosa. Em compensação os grammaticos, que escrevem certo, escrevem mal. Um delles, que por acaso escrevia bem, Paulo Stapfer, pôde dizer: "La correction sans tache ne brille que chez quelques écrivains secondaires..." (Recréations grammaticales, Paris, 1900, p. 205.) Castro Alves não o era: bem ao contrario, foi de primeira ordem.


*

     Intencionalmente, deixei que dissessem delle outros, e os maiores, os mais doutos e mais justos: poeta humano e humanitário, faz-se arauto e defensor de uma grande causa, e torna-se o poeta nacional, senão nacionalista; a natureza do Brasil retrata-se em suas imagens, como num espelho encantado, e as nossas paisagens e as nossas aspirações cantam nos seus versos incomparaveis; nunca uma fúria sonorosa foi tão sublime aqui, ou teve mais ternos accentos a lyra commovida do amor; como vate é vidente, e propheta, e annuncia a liberdade dos ingênuos em 71, a Abolição e a Republica mais tarde: — iria adiante, num appello aos "filhos do Novo-Mundo", que viriam a salvar a Civilização, nos campos de França, assolados pelos Bárbaros em 1914, para se não repetir o crime de 1870; romântico exaltado, tem o culto da idéa e da fôrma e avança literariamente, como idealmente, sobre o seu tempo, no apuro de escrever, como no de pensar...
     Isto é o que vemos daqui. De além-mar conta-se que, ouvindo Eça de Queiroz ler, a Eduardo Prado, "As aves de Arribação", aqui detivera o outro:

A's vezes quando o sol nas matas virgens 
 A fogueira das tardes accendia...

para exclamar: — "Ahi está, em dois versos, toda a poesia dos trópicos". Nos outros, em muitos dos outros de Castro Alves, é que os nacionaes e os extrangeiros podem compreender toda a poesia do Brasil; Um outro grande poeta, á altura de o julgar, Antônio Nobre, viria a dizer delle: "O maior poeta brasileiro..."¹). 

[1] ANTÔNIO NOBRE — Correspondência, publicada na revista "A Rajada", Rio, Abril, 1920, p. 51: "Já os lestes de certo, (a vários poetas franceses e lusitanos, indicados) e lerias por ventura o maior poeta brasileiro (olá, se é) Castro Alves, o autor das Espumas Fluctuantes!" (Carta a Baltar).

     A eleição, pelos sábios e doutos, pode engrandecer qualidades raras e de apreço difficil, por extravagantes, por isso nem sempre comprehensiveis; a nomeada, pelo vulgo, de ouvintes e leitores, mesmo quando não seja movida pela paixão do momento, pôde ser o indicio de uma subalternidade que ao nivel dos applausos ponha o applaudido. Se as duas concordam, porém, não ha restricção para o mérito devidamente denunciado por uns e justa mente consagrado pelos outros. Castro Alves teve em vida as duas benemerencias; não desmereceu de uma dellas nesses cincoenta annos que decorrem de sua morte: e da outra? Também. E' a razão de ser desta introducção bibliographica. Dizia Veríssimo, dos delle, que "poucos livros brasileiros e menos de versos tem sido tão lidos". E isso, porque lhe computava as das Espumas Fluctuantes em "oito ou dez edições"¹). Aqui trago um ról de quasi cincoenta, de todas as suas obras, e, só daquelle livro, "vinte e três". Nenhum poeta, nenhum escriptor brasileiro, nesse tempo, alcançou sequer de longe approximar-se delle. Castro Alves, o grande poeta nacional que Alencar, Machado de Assis, Ruy Barbosa, Nabuco, Euclydes da Cunha, José Veríssimo, tantos e tantos mais... o escol da intelligencia brasileira exaltou' á nossa admiração, foi também o eleito do Povo Brasileiro, da innumeravel multidão dos leitores que o prefere a todos os mais. O Veredicto da Posteridade está apurado: é o primeiro poeta, o maior poeta brasileiro.

A.P.

[1] JOSÉ VERÍSSIMO — Historia da Literatura Brasileira, cit. P. 334-6.  

continua página 19...
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921

sábado, 18 de julho de 2026

Castro Alves - O Maior Poeta Brasileiro (a)

Obras Completas de Castro Alves

Reproducção fiel da edição original de 1870 

PRIMEIRO VOLUME 
ESPUMAS FLUCTUANTES 

EDIÇÃO COMMEMORAT1VA DO CINCOENTENARIO DO POETA 
na fôrma definitiva, restituida á versão authentica. 
 com uma inlroducção bibliographica e annotações de 
AFRANIO PEIXOTO

ESPUMAS FLUCTUANTES 
 reproducção fiel da edição original de 1870 

HYMNOS DO EQUADOR 
publicações posthumas e poesias inéditas 

OS ESCRAVOS 
texto integral, parte inédita, com 
A CACHOEIRA DE PAULO AFFONSO
 
GONZAGA, OU A REVOLUÇÃO DE MINAS 
drama em 4 actos, segundo a edição original 

VÁRIOS INÉDITOS — CORRESPONDÊNCIA 
conforme autographos e manuscriptos authenticos


O MAIOR POETA BRASILEIRO

     Cincoenta annos volvidos depois da sua morte, como ainda em vida, continua Castro Alves com a sua causa ganhada perante a opinião publica: desta vez, porem, essa opinião é já a Posteridade. 
     No seu tempo, a sua formosa mocidade, aureolada pelo gênio, e a turba vibratil das academias, do Recife a S. Paulo, passando pela Bahia e pelo Rio de Janeiro, a quem de preferencia se dirigia, faziam-no, pelas idéas e sentimentos que elle exprimia nos seus poemas arrebatadores, o guia ou o chefe dessa geração, adornada, entretanto, dos mais fulgurantes e depois consagrados nomes de nossa historia politica e social, nesse meio século transcorrido.  
     Quando elle apparecia, nos saráus literários ou na platéa dos theatros, bello e forte como um jovem heroe, irreprehensivelmente vestido de negro, o que lhe resaltava por contraste a pallidez romântica, saudavam-no applausos calorosos, e, das mulheres, talvez commovidos; depois, o silencio profundo de uma espectativa ansiosa antecedia os accentos mágicos de sua voz harmoniosa e retumbante, "encanto" de um órgão irresistível, "um desses que transfiguram o orador e o poeta"¹, com que recitava algumas das suas mais candentes estrophes, preferidas e reclamadas pela multidão. Depõe um contemporâneo: "O grande Castro Alves ! como diziam todos, na academia, e fora delia", — "toda gente que o ouvia tinha arrepios de assombro e enxergava na esbelta e sympathica pessoa do jovem acadêmico mais um semi-deus do que um poeta, menos um poeta que um vidente"; "o auditório sorria ou chorava, permanecia mudo pela cotnmoção fortíssima ou prorompia em bravos enthusiasticos"². Vinha abaixo o theatro, na phrase consagradora desses successos, sob o clamor das ovações.

[1] "...e fazem pensar no glorioso arauto de Agammemnon, immortalizado por Homero, Thaltybios, semelhante aos deuses pela voz". RUY BARBOSA — Elogio de Castro Alves, Bahia, 1881, p. 6.
[2] CARLOS FERREIRA — Feituras e Feições, Campinas, 1905,

     Mas não só entre os rapazes predispostos das academias, ou na assembléa confinada dos espectaculos, também na praça publica, no tumulto do Povo, ou no concilio dos mais conspicuos e acatados desse tempo, tinha o nosso Poeta admiração e respeito. Recebido José Bonifácio em S. Paulo, no delírio das acclamações, diz "O Ypiranga", de 2 de Agosto de 1868, Castro Alves "soube, num rapto sublime, manifestar a commoção de quantos acompanham o representante dos foros populares". Dias depois, num grande banquete político, em que falaram José Bonifácio, Joaquim Nabuco, Salvador de Mendonça, Martim Cabral, Ruy Barbosa, Américo Brasiliense, Barros Pimentel, que saudavam as idéas e os homens de maior vulto do país, levanta-se Américo de Campos para brindar a Castro Alves, "como representante do pensamento democrático das províncias do Norte". Tinha elle então apenas os seus 21 annos...
     Nessa idade, nenhum dos nossos grandes homens, de pensamento ou de acção, teve tamanhas consagrações do reconhecimento publico. Rarissimos teriam alguma vez na vida gloriosa: Ruy Barbosa e Joaquim Nabuco esperariam mais de dez annos; Rodrigues Alves e Affonso Penna — e cito apenas dentre os seus collegas — chegariam, com a política, ás alturas do poder, após quarenta annos. Elles e outros, se tivessem passado, como Castro Alves, aos vinte e quatro annos, nem a memória dos nomes lhes teria ficado: e durante esse pouco tem po, o outro grangeou a fama, duradoira, de maior poeta do Brasil...
     Já o era no seu tempo, como o é ainda agora, não pelo consenso de algum critico parcial, ou pelos concursos literários — tão parecidos com as outras eleições políticas, falseada a sinceridade pelos corrilhos, excluindo pela inveja, ou adoptando por interesse, — mas pela admiração anonyma, e espontânea, dos leitores, que essa é a fama e a posteridade dos grandes escriptores. Os sábios distinguem e julgam, só o Povo ratifica a justiça ou o gosto dessas sentenças. Ainda não faltou a Castro Alves tal confirmação.

*

     Não foram, porém, os motivos de consagração os mesmos, hontem e hoje: mas o gênio do nosso Poeta bastou, na sua abundância e na sua riqueza, para satisfazer o espirito diverso dos tempos.
     Tivera, além dos mares, a voz possante de Victor Hugo, echos espaçados em José Bonifácio, em Pedro Luís e outros menores; nenhum, antes ou de pois de Castro Alves se pôde alçar ao diapazão daquelles cantos, que constituem a grande poesia heróica contemporânea.
     Castro Alves que se inspirou nessa fôrma épica teve, porém, uma humanidade mais intima e mais ampla, dedicando-a ao serviço da liberdade, com o que, superior ao seu grande mestre, batalhou pela emancipação de uma raça e aspirou á republica para os seus concidadãos. Havia no seu tempo a guerra, no Paraguay, ou entre França e Prússia, mas o assumpto bárbaro não o tocou, senão na com movida piedade ás victimas, lembrando "Quem dá aos pobres empresta a Deus", em favor dos orphãos brasileiros, ou, pelos franceses, "No Meeting do Comitê du Pain".
     Depois da cessação do trafico de africanos, sonharia certamente o Brasil com a abolição da es cravatura, na mente generosa de algum político sem influencia ou de escriptor sem repercussão, mas também sem deixar vinco sequer na opinião publica. Não apparecera ainda o grande abolicionista que foi D. Pedro II,—a quem o Visconde de Jequitinhonha e Silveira da Motta dariam suggestões e projectos, que foram base de leis ulteriores, — que receberia, pelo mesmo tempo, em 66, o appello de Guizot, Montalembert, Broglie, Henri Martin, La boulaye, Pressensé... da Junta Franoesa de Emancipação e á qual faria responder officialmente que a liberdade dos escravos era uma decisão tomada, que apenas pedia tempo para se realizar — e já nas falas do throno de 67 e 68 se referia ao elemento servil, para em seguida, tentando com Pimenta Bueno, ou conseguindo com Rio Branco, em 71, dar-lhe o primeiro grande golpe mortal, com a lei do ventre livre¹: não havia entretanto apparecido.

[1] "A lei dos nascituros foi a expressão da generosidade da Coroa, o seu grande rasgo de philantrophia". RUY BARBOSA — Discurso na Bahia, 1874. Embora irônicas as expressões, porque achava apoucada a dádiva, não é menos incisiva a attribuição delia.

     Aliás, apesar delle, o estado de espirito da quasi totalidade dos brasileiros seria, — francamente, aquelle de Silveira Martins quando disse, mais tarde: "amo mais ao meu país, que ao negro", querendo affirmar que o trabalho escravo era indispensável á prosperidade dó Brasil, ou para alguns raros, — hypocritamente, o de Martinho de Campos, que se enternecia com os seus "negrinhos", mas era "escravocrata da gemma", porque a abolição seria o extermínio dos escravos, "uma hecatombe de innocentes victimas..." Todos estavam com estes e entre estes.
     Pois bem, desde 63, principalmente em 65, quando compôs quasi completamente o poema d'Os Escravos", nos annos seguintes em que lhe accrescentou novas poesias, e seria representado o Gonzaga, neste tempo, em que as recitou por todas as tribunas cultas ou populares, no Recife, na Bahia, no Rio e em S. Paulo, os centros dirigentes do país, foi Castro Alves o apóstolo, incansável e persuasivo, da liberdade dos escravos. Não convenceria á geração endurecida pelo interesse, dos que governavam e constituíam então o Brasil representativo, mas os seus versos, que commoviam o coração e impressionavam a intelligencia, ouvidos, applaudidos, decorados e repetidos por moços que iam ser donas e varões, e que iriam ainda commover e impressionar a crianças, rapazes e donzellas, prepararam a geração que, vinte annos mais tarde, faria a Abolição. Joaquim Serra, Ferreira de Menezes, Patrocínio... na imprensa, Antônio Bento, João Clapp, José Mariano... nas ruas, Dantas, Nabuco, Ruy Barbosa... no parlamento, a Princesa Redemptora e o Minis tério Libertador... no governo, foram sequazes e collaboradores de Castro Alves, cujos versos heróicos e commovidos, das "Vozes d África", do "Navio Negreiro", d'"0 Século", do "Adeus, meu canto", da "A Cachoeira de Paulo Affonso", mudaram a alma nacional nesses vinte annos, dando lhes a sympathia para serem ouvidos, persuadirem e levarem o País até a victoria da liberdade, em 1888. Ferreira Vianna, um dos libertadores, dez annos depois da sua morte, dizia delle: "a lyra emmudeceu, mas os sons por ella vibrados ainda rebôam cheios de vigor, em nossos ouvidos."¹.

[1] FERREIRA VIANNA — Castro Alves — "Homenagem da Faculdade de S. Paulo", 20 de Julho de 1881.

     Por isso, pelos accentos possantes dessa voz, pelas idéas humanitárias e políticas que ella exprimia, a geração de seu tempo só viu nelle o poeta social. Nabuco, em 73¹, ainda sem as razões, bem humanas..., de attribuir á Câmara de 1879² (da qual foi figura primacial na campanha abolicionista) — o fiat creador da Abolição, dizia delle: "Castro Alves foi uma inspiração elevada e uma intelligencia nobre; seu maior titulo é o de ter posto seu talento ao serviço da causa da emancipação, da liberdade e da pátria. As suas mais felizes idéas, seus versos mais melodiosos foram-lhe inspirados pela sorte dos captivos". "A idéa abolicionista foi a alma de seu melhor poema..." "Esse é o titulo serio á gratidão do país... Nunca o poeta subiu tanto como nesses dias, em que... se apoderou resolutamente de uma grande idéa e se deixou dominar por um forte sentimento. E' esse o mérito que antes de qualquer outro eu queria attribuir ao poeta..." Um de hoje, Amadeu Amaral, pôde repetir: "Elle foi o querido da mocidade e do povo, o mais amado, o mais fascinador, o mais comprehendido dos nossos poetas". Porque "não foi apenas um poeta... foi um apóstolo, um propagandista,. um luctador, sciente e consciente dos frutos bons e dos frutos amargos de sua semeadura"³.

[1] JOAQUIM NABUCO — Castro Alves, I "A Reforma", Rio, ao de Abril de 1873.
[2] JOAQUIM NABUCO — Minha formação — ed. *Carnier — Rio, Paris,' 1900, p 230.
[3] AMADEU AMARAL — Letras floridas — Rio, 1920, P- M5.

     A razão dessa investidura sagrada, que o gênio de Castro Alves recebera de sua terra e de seu povo, nesse momento histórico, dera-a, desde 68, José de Alencar: "Palpita em sua obra o poderoso sentimento da nacionalidade, essa alma da pátria que faz os grandes poetas, como os grandes cidadãos "¹. Muito mais tarde, José Veríssimo diria a mesma coisa: "A sua influencia foi enorme..." "as cousas sociaes e humanas as viu e entendeu e as cantou como poeta", "poeta nacional, se não mais, nacionalista, poeta social, humano e humanitário...².

[1] JOSÉ DE ALENCAR — Um poeta, "Correio Mercantil", de 22 Fevereiro, 1868.
[2] JOSÉ VERÍSSIMO — Historia da Literatura Brasileira, ed. Alves, Rio, 1916, p. 337.

     Por isso, mereceu o nome que lhe deram, por consagração, de "Poeta dos Escravos". E' que, disse Ruy Barbosa, em 1881: "Castro Alves escreveu o poema da nossa grande questão social e da profunda aspiração nacional que a tem de resolver"¹.

[1] RUY BARBOSA — Elogio a Castro Alves, cit. p. 46.

     Aspiração nacional que previu, no movimento irresistível das ruas, da imprensa, das câmaras, do governo, que a haviam de realizar um dia, tão longe entretanto delle... "A sua grandeza está nisto, diz Euclydes da Cunha: elle os viu antes e melhor do que seus contemporâneos", chegando entretanto a tempo para o prever, como vidente: "apparecimento... certo, opportuno, como o de todo grande homem..."¹. Aspiração nacional que ajudou ou começou a realizar, podemos hoje insistir, e é ainda por isso que o nome delle "ha de ligar-se indelevelmente a uma das phases mais decisivas da historia nacional"².

[1] EUCLYDES DA CUNHA — Castro Alves e seu tempo — 1907, p. 9-10.
[2] RUY BARBO.A — Op. cit p. 46.

continua página 13...
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O Maior Poeta Brasileiro(a) / O Maior Poeta Brasileiro (b) /  
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.
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LIVRARIA FRANCISCO ALVES 
RIO DE JANEIRO 
S. PAULO - BELLO HORIZONTE 
1921