sábado, 18 de abril de 2026

Espumas Flutuantes - A uma estrangeira

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

A UMA ESTRANGEIRA
Lembrança de uma noite no mar
Sens-tu mon coeur, comme il palpite? 
 Le tien comme il battait gaiement! 
 Je m’en vais pourtant, ma petite, 
 Bien loin, bien vite, 
Toujours t’aimant. 
 Chanson  

Inês! nas terras distantes, 
 Aonde vives talvez, 
 Inda lembram-te os instantes 
 Daquela noite divina?... 
 Estrangeira, peregrina, 
 Quem sabe? — Lembras-te, Inês? 

 Branda noite! A noite imensa 
 Não era um ninho? — Talvez!... 
 Do Atlântico a vaga extensa 
 Não era um berço? — Oh! se o era...
Berço e ninho... ai, primavera! 
 O ninho, o berço de Inês. 

Às vezes estremecias... 
 Era de febre? Talvez!... 
 Eu pegava-te as mãos frias 
 Pra aquentá-las em meus beijos... 
 Oh! palidez! Oh! desejos! 
 Oh! longos cílios de Inês 

Na proa os nautas cantavam; 
 Eram saudades?... Talvez! 
 Nossos beijos estalavam 
 Como estala a castanhola... 
 Lembras-te acaso, espanhola? 
 Acaso lembras-te, Inês? 

Meus olhos nos teus morriam... 
 Seria vida? — Talvez! 
 E meus prantos te diziam: 
 “Tu levas minh’alma, ó filha, 
 Nas rendas desta mantilha... 
 Na tua mantilha, Inês!” 

De Cádiz o aroma ainda 
 Tinhas no seio... — Talvez! 
 De Buenos Aires a linda, 
 Volvendo aos lares, trazia 
 As rosas de Andaluzia 
 Nas lisas faces de Inês! 

E volvia a Americana 
 Do Plata às vagas... Talvez? 
 E a brisa amorosa, insana 
 Misturava os meus cabelos 
 Aos cachos escuros, belos, 
 Aos negros cachos de Inês!

As estrelas acordavam 
 Do fundo do mar... Talvez! 
 Na proa as ondas cantavam. 
 E a serenata divina 
 Tu, com a ponta da botina, 
 Marcavas no chão... Inês! 

Não era cumplicidade 
 Do céu, dos mares? Talvez! 
 Dir-se-ia que a imensidade 
 — Conspiradora mimosa —  
Dizia à vaga amorosa: 
 “Segreda amores à Inês!” 

E como um véu transparente, 
 Um véu de noiva... talvez, 
 Da lua o raio tremente 
 Te enchia de casto brilho... 
 E a rastos no tombadilho 
 Caía a teus pés... Inês!... 

E essa noite delirante 
 Pudeste esquecer? — Talvez... 
 Ou talvez que neste instante, 
 Lembrando-te inda saudosa, 
 Suspires, moça formosa!... 
 Talvez te lembres... Inês! 

 Curralinho, 2 de julho de 1870 


PERSEVERANDO 
A Regueira Costa 

Tradução de Victor Hugo

A águia é o gênio... Da tormenta o pássaro, 
 Que do monte arremete o altivo píncaro, 
 Qu’ergue um grito aos fulgores do arrebol, 
 Cuja garra jamais se peia em lodo, 
 E cujo olhar de fogo troca raios 
 — Contra os raios do sol.

Não tem ninho de palhas... tem um antro 
 — Rocha talhada ao martelar do raio, 
 — Brecha em serra, ant’a qual o olhar tremeu... 
 No flanco da montanha — asilo trêmulo, 
 Que sacode o tufão entre os abismos 
 — O precipício e o céu.  

Nem pobre verme, nem dourada abelha 
 Nem azul borboleta... sua prole 
 Faminta, boquiaberta espera ter... 
 Não! São aves da noite, são serpentes, 
 São lagartos imundos, que ela arroja 
 Aos filhos pra viver. 

Ninho de rei!... palácio tenebroso, 
 Que a avalanche a saltar cerca tombando!...
O gênio aí enseiva a geração... 
 E ao céu lhe erguendo os olhos flamejantes 
 Sob as asas de fogo aquenta as almas 
 Que um dia voarão. 

Por que espantas-te, amigo, se tua fronte 
 Já de raios pejada, choca a nuvem?... 
 Se o réptil em teu ninho se debate?... 
 É teu folgar primeiro... é tua festa!... 
 Águias! Pra vós cad’hora é uma tormenta, 
 Cada festa um combate!... 

Radia!... É tempo!... E se a lufada erguer-se 
 Muda a noite feral em prisma fúlgido! 
 De teu alto pensar completa a lei!... 
 Irmão! — Prende esta mão de irmão na minha! 
 Toma a lira — Poeta! Águia! — esvoaça! 
 Sobe, sobe, astro-rei!... 

De tua aurora a bruma vai fundir-se 
 Águia! faz-te mirar do sol, do raio; 
 Arranca um nome no febril cantar. 
 Vem! A glória, que é o alvo de vis setas, 
 É bandeira arrogante, que o combate 
 Embeleza ao rasgar. 

O meteoro real — de coma fúlgida — 
 Rola e se engrossa ao devorar dos mundos... 
 Gigante! Cresces todo dia assim!... 
 Tal teu gênio, arrastando em novos trilhos 
 No curso audaz constelações de ideias, 
 Marcha e recresce no marchar sem fim!... 

 Santo Amaro, Pernambuco, 1867

continua pag 50...
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No álbum do artista Luís C. Amoêdo / Onde estás? / A uma estrangeira /           
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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