quinta-feira, 26 de março de 2026

Espumas Flutuantes - No álbum do artista Luís C. Amoêdo

Castro Alves

À memória de Meu Pai, 
de Minha Mãe 
e de Meu Irmão 
O. D. C. 

NO ÁLBUM DO ARTISTA LUÍS C. AMOÊDO

Nos tempos idos... O alabastro, o mármore 
 Reveste as formas desnuadas, mádidas 
 De Vênus ou Friné. 
 Nem um véu p’ra ocultar o seio trêmulo,
Nem um tirso a velar a coxa pálida... 
 O olhar não sonha... vê! 

Um dia o artista, num momento lúcido, 
 Entre gazas de pedra a loura Aspásia 
 Amoroso envolveu. 
 Depois, surpreso!... viu-a inda mais lânguida... 
 Sonhou mais doudo aquelas formas lúbricas... 
 Mais nuas sob um véu. 

É o mistério do espírito... A modéstia 
 É dos talentos reis a santa púrpura... 
 Artista, és belo assim... 
 Este santo pudor é só dos gênios! — 
 Também o espaço esconde-se entre névoas... 
 E no entanto é... sem fim! 

 São Paulo, abril de 1868


VERSOS DE UM VIAJANTE
Ai! nenhum mago da Caldéia sábia 
 A dor abrandará que me devora. 
Fagundes Varela

Tenho saudade das cidades vastas, 
 Dos ínvios cerros, do ambiente azul... 
 Tenho saudade dos cerúleos mares, 
 Das belas filhas do país do sul! 

Tenho saudade de meus dias idos 
 — Pét’las perdidas em fatal paul — 
 Pet’las, que outrora desfolhamos juntos, 
 Morenas filhas do país do sul! 

Lá onde as vagas nas areias rolam, 
 Bem como aos pés da oriental ‘Stambul... 
 E da Tijuca na nitente espuma 
 Banham-se as filhas do país do sul.

Onde ao sereno a magnólia esconde 
 Os pirilampos “de lanterna azul”, 
 Os pirilampos, que trazeis nas coifas, 
 Morenas filhas do país do sul. 

Tenho saudades... ai de ti, São Paulo, 
 — Rosa de Espanha no hibernal Friul — 
 Quando o estudante e a serenata acordam 
As belas filhas do país do sul.

Das várzeas longas, das manhãs brumosas, 
 Noites de névoa, ao rugitar do sul 
 Quando eu sonhava nos morenos seios, 
 Das belas filhas do país do sul. 

 Em caminho, fevereiro de 1870 


continua pag 44...
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No álbum do artista Luís C. Amoêdo /      
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Antônio Frederico de Castro Alves - foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de "poeta dos escravos".
Nascimento: 14 de março de 1847, Castro Alves, Bahia - Falecimento: 6 de julho de 1871 (24 anos), Salvador, Bahia. 
Influenciado por: Gonçalves Dias, Lord Byron, Victor Hugo, 
Formação: Faculdade de Direito do Recife | FDR, Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) 
Pais: Clélia Brasília da Silva Castro, Antônio José Alves
Irmãos: Adelaide Alves, Cassiano José Alves
O “poeta dos escravos” foi um poeta sensível aos graves problemas sociais do seu tempo. Expressou sua indignação contra as tiranias e denunciou a opressão do povo.
A poesia abolicionista é sua melhor realização nessa linha, denunciando energicamente a crueldade da escravidão e clamando pela liberdade. Seu poema abolicionista mais famoso é “O Navio Negreiro”.

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